14/10/22
24/01/14
Este camarada é um demagogo*
*e aposto com estes que a Terra há-de comer que na qualidade do Crato nem entrava o António Damásio...
Crato diz que o Governo aposta na ciência de grande qualidade!
18/12/12
A book a day keeps the doctor away: "Os Superficiais"
08/09/11
A Parábola da Agulha (que para o eduquês já demos)
Longe de mim ter teorias sobre educação. Há poucas coisas, aliás, sobre as quais tenha teorias, apesar de Platão ser o meu pensador preferido pelo menos desde 1978, salvo erro, ano em que conclui que a sua Teoria das Ideias se podia resumir na boa a uma parábola contada algures por Herberto Helder.
Cito: “Levanto-me então da plateia e, por entre as metralhadoras esculpidas, conto de novo a parábola da agulha, que me obceca. Desentranhei-a de um velho manual. Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caiu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.”
Como presumo até os estudantes liceais de Filosofia saberão (supondo que ainda existam), na Caverna Platónica também fazia escuro p’ra caraças. Vai daí, o filósofo, que, como a mulher da parábola, nada tinha de parvo, foi à procura das Ideias noutro sítio.
Voltando à educação e ignorando os temas sindicais recorrentes – assunto sobre o qual “só sei que nada sei” –, o que eu gostaria mesmo era que alguém reflectisse a sério sobre isto: “Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que provavelmente levará à alteração de certos aspectos da consciência num futuro não muito distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo”, António Damásio, O Livro da Consciência.
Atendendo à dificuldade que há já em sentá-los (a que acresce a insistência na discussão estéril do “eduquês”), temo que o custo seja grande. E qualquer dia nem a agulha do Platão, perdão, do Herberto Helder, nos ajudará a encontrar o Norte.
18/10/10
António Damásio: Uma leitura de "O Livro da Consciência — A Construção do Cérebro Consciente"
Ponto prévio ao leitor. Há qualquer coisa de kantiano no último título lançado pela neurologista António Damásio. A adjectivação sugerida, além de um elogio assumido ao autor de O Livro da Consciência — A Construção do Cérebro Consciente (Kant é Kant, apesar de Hume…), representa também um aviso à navegação: à semelhança das Críticas…, a mais recente obra de Damásio não se lê como um romance.O investigador ensaia hipóteses, contraria-as, explicita-as, enquanto desbrava caminhos e opta por trajectórias que obrigam a desfazer evidências e a suspeitar do óbvio. Aconselha-se papel e lápis. Afinal, em biologia (a pedra de toque capaz de confirmar, ou não, quaisquer conjecturas neurocientíficas) o caminho mais curto entre dois pontos raramente é uma linha recta.
Um bom exemplo: Graças ao facto de o nosso cérebro ter conseguido combinar a nova orientação tornada possível pela consciência com a antiga que consistia numa regulação inconsciente e automática, os processos cerebrais não-conscientes estão à altura das tarefas que terão de executar em nome das decisões conscientes.
Do que se trata aqui é de ultrapassar a dicotomia robusta entre consciente/inconsciente e, mais do que isso, interpretar o aparente paradoxo revelado, entre outros, pelo psicólogo Ap Dijksterhuis que, num estudo por si dirigido, nos confronta com a bizarra conclusão de as decisões tomadas sem uma pré-deliberação consciente revelarem-se de longe mais acertadas.
De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente, lê-se quase a abrir. O neurologista sublinha, assim, uma concepção já patente em obras mais antigas, a saber, a da inscrição inescapável do mental no corpóreo (seja no que diz respeito aos sentimentos, à razão ou à moral).
Outro pensamento reconhecível — este a denunciar um certo optimismo antropológico – é o que suporta a interpretação do papel da consciência nos processos de homeostase sociocultural. Escreve Damásio: A marcha do processo da mente não termina com o aparecimento do eu. Ao longo da evolução dos mamíferos, e especialmente dos primatas, as mentes tornaram-se cada vez mais complexas, a memória e o raciocínio desenvolveram-se notavelmente e os processos do eu alargaram o seu âmbito. (…) Armada com estruturas de eu tão complexas e apoiada por uma capacidade ainda maior de memória, raciocínio e linguagem, a mente consciente dos seres humanos cria os instrumentos de cultura e abre caminho a novas formas de homeostase ao nível da sociedade. E, em seguida, confundindo-se o cientista com o humanista: A notável redução da violência, a par do aumento da tolerância que se tornou tão aparente nos últimos séculos, não teria ocorrido sem a homeostase sociocultural.
Da citação anterior pode inferir-se outra das ideias-chave da obra, esta uma relativa novidade. Damásio introduz em O Livro da Consciência… uma “quarta dimensão” que remete para a evolução das espécies: A maioria das espécies cujo cérebro dá origem a um eu fá-lo a um nível nuclear. Os humanos possuem tanto um eu nuclear como um eu autobiográfico. Há uma série de mamíferos que provavelmente também têm ambos, como os lobos, os nossos primos símios, os mamíferos marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie animal chamada cão doméstico.
Indo mais longe — e afundando assim um pouco mais a concepção da superioridade radical do homem — pode ler-se num subcapítulo intitulado “Consciência humana e não-humana”: 1) se uma espécie tem comportamentos que são melhor explicados por um cérebro com processos mentais do que por um cérebro com meras disposições para a acção (como, por exemplo, os reflexos); e 2) se a espécie dispõe de um cérebro com todos os componentes descritos nos capítulos seguintes como sendo necessários para criar uma mente consciente nos seres humanos, 3) então, meu caro leitor, a espécie é consciente. Feitas as contas, estou pronto a aceitar qualquer manifestação de comportamento animal que me faça pensar na presença de sentimentos, como um sinal de que a consciência não deve andar longe.
Mas o que é afinal a consciência? O livro avança uma definição pela positiva e pela negativa. Pela positiva, a consciência é a característica da mente que possibilita que nos percebamos a nós próprios como um eu distinto do mundo. Resumindo: é através da consciência que a nossa subjectividade se afirma. Precisa Damásio: A consciência é um estado mental — se não houver mente, não há consciência: a consciência é um estado mental particular, enriquecido por uma sensação do organismo específico onde a mente está a funcionar; e o estado mental inclui o conhecimento de que a dita existência ocupa uma certa situação, de que existem objectos e acontecimentos que a cercam. E, sem resistir ao apelo da filosofia, acrescenta: A consciência é um estado mental a que foi acrescentado o processo do ser.Pela negativa, a consciência não se confunde com processos inconscientes. Nem com aqueles que apenas convocam um ingrediente activo (produção de imagens actual e constante no cérebro) nem com os que implicam um ingrediente latente (o que envolve um repositório de registos, para cuja existência a memorização é indispensável). Estes processos, que parecem prenunciar uma economia da consciência, assentam em três situações conhecidas: produção superabundante e constante de imagens no cérebro; selecção e ordenação espacio-temporal das mesmas, espaço limitado de exibição.
Neste particular, e apesar de o tema, alheio ao livro, merecer apenas um parêntese, valerá a pena citar esta nota de Damásio: (Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que provavelmente levará à alteração de certos aspectos da consciência num futuro não muito distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo.)
Fechado o parêntese, uma outra ideia-chave: as imagens são a moeda corrente da mente. O termo “imagem” é utilizado num sentido lato, englobando registos auditivos, tácteis, e até os sentimentos, entendidos como “uma variedade de imagem”.
A própria consciência assentará, por sua vez, num processo evolutivo que passa pelo “proto-eu”, pelo “eu nuclear” e, finalmente, pelo “eu-autobiográfico” (com a memória, ou os vários tipos de memória, a desempenhar um papel cada vez mais significativo). A ancestralidade decorrente desta visão, levou António Damásio a interessar-se por sistemas considerados mais arcaicos, nomeadamente o “humilde tronco cerebral”, apesar de deixar claro que a consciência humana necessita tanto do córtex cerebral como do tronco cerebral. O córtex cerebral não pode fazer tudo sozinho, tão-pouco o tronco cerebral.
Livro complexo para um tema complexo ou, como se escreveu mais atrás, em biologia o caminho mais curto entre dois pontos raramente é uma linha recta.
29/09/10
Homens de quem eu gosto: António Damásio
A propósito do seu último livro: O Livro da Consciência - A Construção do Cérebro Consciente, Temas e Debates
[Por aqui, uma entrevista que lhe fiz em 2003]
28/05/08
A propósito do António Damásio ter andado por aí e de eu estar convencida de que o altruísmo ainda é o que nos poderá salvar da barbárie
Nota sobre Ao Encontro de Espinosa seguida de entrevista feita por e-mail em Outubro/2003 (não, não falámos de elefantes...)Embora o desaconselhem as normas, este texto começa por uma negação. Ao invés da ideia vulgarizada por alguma ficção científica, na qual a superioridade dos alienígenas fica demonstrada pela sua capacidade de revelar «cabeça fria», o neurobiólogo António Damásio vem reafirmar em Ao Encontro de Espinosa que os sentimentos fazem parte integrante, e determinante, do processo de regulação homeostática da vida.
«Podemos imaginar a máquina da homeostasia como uma árvore bem alta e larga em que os variados ramos são os fenómenos automáticos de regulação da vida», localizando-se no seu topo os sentimentos, entendidos como «a expressão mental de todos os outros níveis da regulação homeostática». Dir-se-ia, pois, que, refutando as crenças profundas de Mister Spock (o imperturbável membro da nave «Enterprise»), quanto mais sentimentais mais evoluídos.
Chegados aqui, cumpre notar que a expressão «sentimentais» resulta de uma mera liberdade linguística. Emoções e sentimentos são tratados por António Damásio neste Ao Encontro de Espinosa com o costumado e transparente rigor científico. Acrescente-se, a propósito, que apesar de tudo o que separa o cientista português do criador do «Método» ― lembremos que ao primeiro livro chamou O Erro de Descartes ― a sua prosa não deixa de invocar a clareza e distinção cartesianas.
Logo no início, A. Damásio esclarece-nos como chegou à «neurologia do sentir»: «Levei muito tempo a descobrir que os obstáculos postos à ciência dos sentimentos não tinham qualquer cabimento e que a neurologia dos sentimentos não era menos viável do que a da visão ou da memória». Vários casos de doença neurológica convencem-no a enfrentar o tabu: «Primeiro, era óbvio que certas espécies de sentimentos podiam ser bloqueados pela lesão de um sector cerebral discreto (...) Segundo, era também óbvio que sistemas cerebrais diferentes controlavam diferentes espécies de sentimentos (...) Terceiro, quando os doentes perdiam a capacidade de exprimir uma determinada emoção também perdiam a capacidade de sentir o correspondente sentimento.»
Neste ponto, contudo, um facto veio contestar o comummente aceite. Afinal «tudo indicava que a emoção precedia o sentimento». E cito: «Alguns doentes incapazes de sentir certos sentimentos eram ainda capazes de exprimir as emoções que lhes correspondem». Recorrendo a exemplos clínicos, Damásio demonstrará a anterioridade das emoções. Aonde o conduz tal demonstração? À possibilidade de afirmar que «temos emoções primeiro e sentimentos depois porque, na evolução biológica, as emoções vieram primeiro e os sentimentos depois». Ou seja, os sentimentos representam um grau de sofisticação maior em termos biológicos.
Além disso, porque os sentimentos resultam das emoções, que têm lugar no «teatro do corpo», não podem ser uma simples «colecção de pensamentos com certos temas ligados a um rótulo emocional». Porque, inteligentemente se pergunta, se assim fosse «como seria possível distingui-los de quaisquer outros pensamentos?» Indo mais longe: «Quando se remove essa essência corporal a noção de sentimentos desaparece (...) deixa de ser possível dizer ‘sinto-mo feliz’, e passamos a ser obrigados a dizer ‘penso-me feliz’.» Na medida em que os sentimentos são uma percepção determinada do corpo a funcionar de uma determinada maneira, não são percepção passiva; isto porque «as origens imediatas da essência do sentimento estão colocadas dentro do corpo e não fora do corpo».
Com a capacidade habitual para se fazer entender, Damásio explica: «O leitor pode contemplar a Guernica de Picasso tão intensamente quanto quiser, o tempo que quiser, tão emocionalmente como quiser, mas nada vai acontecer à tela. Os seus pensamentos sobre a tela vão mudar, claro, mas a tela vai continuar intacta, espera-se. No caso do sentimento, o objecto imediato é ele próprio modificável, por vezes de uma forma radical. O equivalente dessas modificações no exemplo de Guernica seria uma modificação substancial da tela (...) especialmente no caso de sentimentos de alegria e de tristeza, tem lugar um recrutamento dinâmico do corpo (...) que dura vários segundos ou até minutos, e a que correspondem variações dinâmicas da nossa percepção, ou seja, do nosso sentimento.»
Para que servem os sentimentos? Eis outra das perguntas que se enfrenta em Ao Encontro de Espinosa. Partindo dos exemplos de alegria e mágoa (obviamente ligados ao prazer e à dor), Damásio conclui que «os sentimentos são, em suma, as manifestações mentais do equilíbrio e da harmonia, da desarmonia ou do desacordo (...) são primariamente ideias do corpo no processo de obter estados de sobrevida óptimos».
E é nesta inequívoca inscrição do mental na carne que Damásio mais se aproxima de Espinosa. Não porque se manifeste em qualquer deles um materialismo «puro e duro» mas porque afirmam, cada um à sua maneira, a convicção de que nada existe fora da Natureza. O erro de Descartes, e o da modernidade, foi precisamente o de negar essa aliança indissolúvel, de que o dualismo corpo/alma é apenas uma das manifestações. Ao afirmar a sua concordância com Espinosa quando este «disse que a alegria (...) estava associada a uma transição do organismo para um estado de maior perfeição» (e o inverso para a tristeza), Damásio dá o salto para a ética, propondo não só que os sentimentos são fundamentais para o comportamento em sociedade como arriscando, de uma forma bem mais pessoal do que em qualquer outro dos seus livros, uma hipótese radical: na esteira de Espinosa, a do fundamento biológico da virtude. Assim sendo, a autopreservação, essência da vida, obrigar-nos-ia a preservar o outro, sem o qual não podemos sobreviver. Como escreveu Oliver Sacks, «o mais ousado, o mais recompensador, e o mais pessoal dos livros de António Damásio».
Contadas as referências literárias dos seus livros, será que o gosto pela literatura casa com o facto de se ter decidido a escrever para o grande público?
Dou grande valor à comunicação com um público inteligente, é verdade. Tenho, sobretudo, um enorme desejo não só de apresentar as minhas ideias como de saber o que o leitor atento pensa delas. A maior (e inesperada) recompensa que os livros me trouxeram são as cartas que recebo, dia a dia, de todo o mundo, a propósito daquilo que escrevi.
Dizem-me que na edição norte-americana de Ao Encontro de Espinosa, D. Manuel aparece no índice remissivo como Rei de Espanha...
O pobre D. Manuel voltou a ser de Portugal nas novas edições da Harcourt, bem como nas versões europeias. Infelizmente, os índices remissivos não costumam ser revistos pelo autor e é fácil escaparem estes deslizes.
O seu notório sentido do dramático denuncia um grande leitor. Que autores e livros tem à sua cabeceira (os científicos não valem...)?
Shakespeare e T.S. Eliot. Os poetas preferidos incluem Jorie Graham, W.S. Merwin, Wallace Stevens. Leituras recentes: John Banville, W.G. Sebald, A.S. Byatt. Estou a reler George Eliot (Middlemarch). Gosto muito de reler determinados livros e aqueles que mais revisito não precisam sequer de ser os maiores expoentes da «grande literatura». Volto a Joyce (Dubliners, Ulysses), Fitzgerald (The Great Gatsby), Hemingway (The Sun Also Rises) para ouvir a voz de amigos; ao Eça ou a certos poemas de Sophia de Mello Breyner quando tenho saudades de Portugal.
Contrariando a desconfiança pela filosofia, lê-se em Ao Encontro de Espinosa: «Através da história, a filosofia tem prefigurado a ciência e julgo que a ciência deve reconhecer esse esforço». Como aconteceu o seu encontro com essa invenção dos gregos?
Esse encontro deve-se a um grande mestre, Joel Serrão, meu professor de Filosofia no Liceu Passos Manuel. O meu interesse pela «razão das coisas» tinha começado antes, influenciado por pais que me fizeram ler, muito cedo, literatura inglesa e americana, cheia de perguntas sobre o mundo real. A filosofia é o princípio de todas as ciências e foi, durante séculos, todas as ciências. Hoje não pode nem deve competir com as disciplinas científicas; mas pode e deve contribuir para o rigor e clareza dos conceitos de que a ciência faz uso. Ou seja: a filosofia continua a desempenhar um papel central na cultura.
Quer isso dizer que se opõe a sacralização da ciência?
A ciência é uma das vias para o saber mas não é a única. É evidente que certos aspectos da natureza requerem uma abordagem científica, e é evidente que a tecnologia que deriva da ciência tem um papel decisivo a desempenhar nas soluções para o sofrimento humano. Mas a integração dos dados científicos numa visão abrangente da natureza requer uma empresa supracientífica. Há mais de um pedestal dentro da cultura.
O lançamento de um livro como Espinosa, de Steven Nadler, poderá ser (mais) um sinal de que assistimos à redescoberta do filósofo proscrito educado na língua portuguesa?
Espinosa começa hoje a ser redescoberto. Não há grande dúvida de que a figura central e insuficientemente reconhecida do «Radical Enlightenment» é Espinosa, e que as suas ideias sobre o tecido social tiveram uma influência subterrânea no desenvolvimento da modernidade europeia e norte-americana. A mim, porém, aquilo que mais me interessa, naturalmente, é a sua radicalidade no que respeita à concepção da mente humana. É tão radical que antecipa diversas ideias que hoje fazem parte da biologia e da neurociência de ponta. É por isso que digo neste livro que Espinosa foi um protobiologista. É de notar também que esta modernidade biológica implica uma modernidade ética que era revolucionária no século XVII e que continua ainda a sê-lo. Talvez o maior valor de Espinosa resida precisamente nesse facto.
O tema das emoções tem sido uma constante do seu trabalho. Em O Erro de Descartes relacionava-as com a razão, em O Sentimento de Si com a consciência. Neste terceiro, ocupa-se das «emoções sociais». Quais foram, resumidamente, as investigações que lhe permitiram ir alargando o campo de acção das emoções?
Há diversas linhas de investigação que apoiam esse percurso. As primeiras dizem respeito a doentes com lesões pré-frontais. As segundas a doentes muito jovens com lesões semelhantes. As primeiras demonstram a ruptura dos mecanismos de decisão que se segue ao comprometimento de certas emoções; as segundas mostram como tais comprometimentos bloqueiam a socialização de uma forma quase completa. Uma outra linha de investigações, em indivíduos normais, usando a neuroimagem funcional, também nos deu a possibilidade de delinear pormenores do processo de sentir as emoções. Todo este trabalho tem permitido confirmar hipóteses formuladas há mais de uma dezena de anos. E daí podermos afirmar que na base de todas as faculdades ― decisão, consciência, comportamentos éticos ― estão o corpo, a emoção como emblema de regulação biológica, e o sentir das emoções.
«Os sentimentos orientam os esforços conscientes e deliberados da autoconservação e ajudam-nos a fazer escolhas que dizem respeito à maneira como a autopreservação se deve realizar», escreve. Estaria de acordo em contestar a famosa máxima cartesiana «Penso, logo existo» através da fórmula «Sinto, logo existo»?
Absolutamente. «Sinto, logo existo» é uma proposição verdadeira e é a formulação preferível. Sem o sentir não é possível pensar ou conhecer o que se pensa. Sem sentir não há «si». E na ausência da maquinaria da emoção e do sentir duvido que o comportamento moral jamais tivesse emergido.
Ao dualismo alma/corpo cartesiano, que reduz o corpo a uma máquina e o espírito a uma substância pensante, Espinosa contrapõe uma concepção monista em que corpo e mente não são duas substâncias distintas mas manifestações diferentes da mesma substância: a Natureza ou Deus (que deixa de ser transcendente). A concepção dualista de Descartes seria responsável (escreveu-o em O Erro de Descartes), por exemplo, pela «incapacidade de a medicina tradicional considerar o ser humano como um todo». Mas, por seu turno, não poderá o pensamento espinosano conduzir a um alargamento do mecanicismo ao território da mente?
É uma questão pertinente. De facto, o desvendar do tecido biológico pode levar a teorizar um mecanismo estreito e ignorante. É um risco, claro, mas temos de correr esse risco e contrapor uma visão geral não mecanicista e inteligente. O que não podemos, parece-me, é chegar a ela sem compreender os mistérios da biologia.
Reclamar uma base neurobiológica para o comportamento humano, nomeadamente para o comportamento social, não pode deixar de levantar o problema da liberdade. Nesse contexto, seria possível explicar melhor a afirmação: «os sentimentos abrem a porta a uma nova possibilidade: o controlo voluntário daquilo que até então era automático»?
Estou convencido, e julgo que Espinosa também estaria, de que apesar do passado biológico e cultural que pesa sobre nós quando decidimos ― e que nos conduz quase inevitavelmente a certas decisões ― dispomos de um certo espaço de manobra nessas decisões, um certo grau de livre arbítrio. O espaço pode não ser grande mas existe em muitas circunstâncias, e permite-nos contrariar respostas automáticas a que a herança biológica nos poderia conduzir. A capacidade que hoje temos de contrariar impulsos básicos depende dos sistemas de homeostasia social que temos vindo a criar, muito imperfeitamente, ao longo de uns escassos milhares de anos.
Dado que a vida tende a preservar-se, no seu entender devem os comportamentos humanos autodestrutivos, nomeadamente o suicídio, ser considerados patológicos?
É difícil e perigoso distinguir o normal do patológico no comportamento humano. Na maior parte dos casos, contudo, o suicídio não pode deixar de ser patológico, quer se trate de alguém com uma profunda depressão, quer se trate de um kamikaze.
A sua confiança nas vantagens que a neurobiologia pode trazer está bem visível quando escreve que «o êxito ou o fracasso da humanidade depende em grande parte do modo como o público e as instituições que governam a vida pública puderem incorporar essa nova perspectiva da natureza humana em princípios, métodos e leis». Contudo, a história dos homens permite certas desconfianças. O avanço do conhecimento neurobiológico poderá legitimar receios na área da manipulação das mentes ou serão eles meros produtos de uma ficção-(pseudo)científica?
O problema da manipulação das mentes é muito sério, embora deva ser visto sob diversos ângulos e com uma certa ironia. A manipulação das mentes que permitiu as recentes eleições americanas nada deve à neurobiologia: deve tudo à sabedoria da publicidade. Se soubermos em mais pormenor o modo como funcionam as nossas emoções e sentimentos, talvez seja até mais fácil defendermo-nos dessa sábia manipulação. O espanto e a admiração podem ser péssimos conselheiros.
Quando afirma que «os nossos cérebros continuam equipados com a maquinaria biológica que nos leva a reagir de um modo ancestral» (por exemplo, gerando emoções que conduzem a preconceitos raciais e culturais que terão sido úteis em termos evolutivos), e quando acrescenta que «alguns dos dispositivos da regulação da homeostasia do nosso organismo têm vindo a ser aperfeiçoados ao longo de milhões de anos de evolução biológica, como é o caso dos apetites e das emoções. Mas outros dispositivos, nomeadamente os sistemas de justiça e de organização sociopolítica, existem há uns escassos milhares de anos», não estará a confiar demasiado no melhoramento biológico da condição humana? Neste caso, não será mais o humanista a falar do que o homem de ciência?
Concordo que quem fala nessas passagens é o humanista e optimista que sou. Contudo, não espero que o nosso genoma venha a incorporar os novos mecanismos de homeostasia não automática no futuro próximo. Os novos mecanismos emergem num espaço cultural e serão, antes do mais, transmitidos culturalmente. Daí o meu optimismo. Nada nos impede de encontrar soluções novas para as mais variadas problemáticas socioculturais, que são, todas elas, necessariamente problemáticas biológicas de alto nível ― as estruturas sociopolíticas estão ligadas por um cordão umbilical à regulação básica da vida. Nada nos impede de persuadir os seres humanos de boa-vontade a adoptar essas soluções. Hoje mesmo. Não é preciso aguardar a transmissão genética.
Em termos éticos, faz sentido para si propor a indiferença emocional (designadamente a incapacidade para sentir compaixão) como base para o «mal»? E, sendo assim, poderia o «mal» ser entendido como uma «anomalia»?
Boa questão. A falta de compaixão é patológica, embora a patologia tenha diversas causas ― não precisa de ser provocada nem por uma lesão cerebral, nem por uma mutação genética; pode ter causas culturais. Quanto ao «mal» que daí deriva é, de facto, uma anomalia. É necessário compreender, porém, que o «tratamento» dessa «anomalia» não se restringe à medicina e que inclui «terapêuticas» socioculturais.
Podemos concluir do seu livro que as emoções são um exclusivo dos organismos vivos e, nessa medida, criar máquinas que sintam uma impossibilidade da natureza? Ou ser-nos-á permitido imaginar, no futuro, criaturas artificiais, à imagem dos replicantes do Blade Runner, dotados de sentimentos?
Não vejo como essas criaturas de ficção possam sentir como sentimos, a não ser, é claro, que sejam feitas da mesma carne de que somos feitos, o que significa que não seriam artificiais mas... humanas. Formalmente não creio que exista qualquer problema - é possível imaginar seres artificiais que sentem. O problema reside no conteúdo exacto daquilo que sentem.
Pondo agora o sentir de lado, «O homem pensa, Deus ri»?
Um provérbio curioso. À primeira vista o significado é transparente. A espécie humana precisa de pensar para que lhe possa ser possível resolver a sua tragédia. Deus não sofre qualquer tragédia e por isso pode rir, sem drama, impensadamente. Todavia, na perspectiva actual o provérbio não funciona. O Deus de Einstein não se ri do homem, não joga aos dados com o homem. E o Deus espinosano, que existe na espessura da matéria e dos organismos vivos, também não. A crueldade do divino é uma aparência. O que não significa que a realidade não possa ser ainda mais perturbante: a indiferença. Seja como for, dado que podemos pensar, podemos responder, e, quando as coisas correm bem, até podemos rir.
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