Mostrar mensagens com a etiqueta José Cardoso Pires. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Cardoso Pires. Mostrar todas as mensagens

16/09/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «A MORTE SAIU À RUA»

«... Eram os loucos anos 80. Sobretudo nas cidades, a juventude, isenta agora de ir para África combater os turras e gritar Angola é Nossa, dava finalmente ares de modernidade (ou de pós-modernidade) — amortecido o apelo dos comícios e da Reforma Agrária — e recuperava o tempo perdido da geração anterior.

O clima era culturalmente festivo e as noites não lhe ficavam atrás (quase se poderia colá-las ao título da francesa Raphaele Billetdoux editado pela saudosa Cotovia: As Minhas Noites são mais Belas que os Vossos Dias). E para se entender melhor o abismo que separa o ambiente, o tom, a alegria dessa época da anterior, registe-se a data de publicação de dois dos nossos romances maiores: O Delfim de José Cardoso Pires, 1968; O que Diz Molero de Dinis Machado, 1977. (...)

Estreou então entre nós o filme A Cidade Branca. Era 1983, na capital, no Bairro Alto, ainda havia jornais e putas, e foi com dificuldade que convenci um amigo brasileiro a ir ao cinema ver a fita do suíço. O meu amigo não podia com helvéticos. Odiava chocolate suíço, relógios de cuco, a banca suíça, os Alpes suíços, o queijo Gruyère e, claro, todo e qualquer artista suíço (talvez pudesse apreciar Robert Walser, mas porque Walser era louco). (...)»

28/10/08

José Cardoso Pires (2-10-1925/26-10-1998)

«(...) O largo. (Aqui me apareceu pela primeira vez o Engenheiro, anunciado por dois cães.) O largo:
Visto da janela onde me encontro, é um terreiro nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia – é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. À tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam. (...)»
José Cardoso Pires, O Delfim, 1968

26/12/07

Portugal como Vontade e Representação

«Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo». Eis o que nunca poderia dizer porque Portugal nunca me disse muito – e uma acidez espasmódica galga-me a boca do estômago quando me falam de pátria. [Nada escrevo de original. José Cardoso Pires registou-o em Alexandra Alpha: «Isto não é um país, é um lugar mal frequentado».]
A imagem – a pedir uma dose reforçada de Alka-Seltzer – é contrária à poética das coisas belas, eu sei. Também sei isto: «Metade da minha alma é feita de maresia». Nasci no extremo Sul: a geografia vale tanto como a genética.
Dir-me-ão: «E o Cavaco?». O Cavavo é um «montanhêro», na feliz definição do meu descansado tio, algarvio da borda d’água, que a reservava com parcimónia a todos os que tivessem nascido a mais de três quilómetros do mar.
Pouco importa já aquele que o poço trocou pela fonte. Dada a mudança acrescida de estatuto existencial – de primeiro-ministro infalível ascendeu a chefe de Estado dilacerado pelas dúvidas [não aprovo/ aprovo/ não aprovo/ aprovo/ Ó MARIA!] – só o futuro próximo lhe fará, ou não, justiça. Daqui a 9 meses, aproximadamente, virá a público o resultado do seu lancinante grito: «Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo!» O meu tio está morto, logo, incapacitado. Se não estivesse, esta história da West Coast teria acabado com ele.
Com a Primavera veio o Allgarve: 9 milhões de euros gastos numa campanha mundial decidida pelo inefável Ministro da Economia e Inovação (?), Manuel Pinho. [É verdade que nessa altura era-lhe impossível saber que, sem custar um tostão a Portugal, Gerry McCann viria a organizar no Verão a maior campanha de marketing a que o Algarve já assistiu desde o tempo em que era reino.]
Em pleno Inverno do nosso descontentamento chega a cowboyada da West Coast: «Como pode uma marca que é a 23ª do mercado, que tem fraca e até má reputação, pobres argumentos, baixo preço e uma desmotivada força de vendas, dar a volta por cima e criar um grande impacto no mercado?». A marca – e depois eu é que falto ao respeito à pátria... – é Portugal.
«Portugal é visto como um país do Sul. Um país de Sol e Mar mas também de subdesenvolvimento, iliteracia, corrupção e dos recorrentes indicadores estatísticos de miséria. O Sul é o filtro que nos condena a sermos vistos como somos». Ora a merda!!! [e olhem que na minha família não somos de dizer asneiras].
Continuemos a ler Pedro Bidarra, grau 33 em marketing e publicidade e responsável da campanha: «Sem ser exaustivo, digamos que o Sul tem bom tempo, calor, gente simpática, boa comida, paz, esplanadas e dolce farniente; e tem subdesenvolvimento, gente pobre e iliterada, corrupção e os indicadores estatísticos de miséria» [sem ser exaustiva: serei da gente pobre e iletrada ou da simpática e corrupta?].
E o que é que tem a West Coast? Ah! Ah! Segundo a mesma luminária tem «associações "aspiracionais" – Hollywood ou Silicon Valley, por exemplo – que sem nada termos que fazer contaminam o conceito positivamente, tornando-o mais glamouroso e mais cosmopolita. Depois há as pontes e colinas de Lisboa e S. Francisco, o Vale do Douro e o Napa Valley, a aridez da Baja Californiana e o nosso Alentejo, coincidências felizes que é só aproveitar
Se isto fosse mesmo a West Coast ou eu a Calamity Jane esse tal Bidarra mais o Pinho do costume haviam de comer pó. Em memória do meu tio. Amen (e com glamour aspiracional).