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08/04/11

A ecuménica loucura dos portugueses

«A ortodoxia em moda apela a que não se procurem “culpados”. Mas, se, de facto, não se procurarem “culpados”, para quem fica a culpa do tristíssimo fracasso do Portugal democrático? Para a má vontade de um Deus perverso? Para o destino? Ou para a insuficiência atávica do indígena? Era bom apurar isto, porque, se alguma destas três possibilidades (principalmente a última) ofende a delicadeza nacional, a única saída que nos resta é aceitar a ecuménica loucura dos portugueses. Quem se deixa chegar onde chegámos, levado por três dúzias de políticos, sempre reeleitos e até, às vezes, respeitados, não merece outro nome. E, pior ainda, quem desiste da verdade acaba inevitavelmente por desistir de si próprio.» Vasco Pulido Valente, lido aqui

19/09/10

Quantos ciganos queres para a troca? (II)

[na continuação deste post e dos muitos comentários]

«Há ou não há fundamento para comparar a expulsão dos ciganos da Roménia e da Bulgária, ordenada por Sarkozy, com o que os nazis fizerem durante a II Guerra Mundial (como chegou a dizer a comissária da Justiça da UE, Viviane Reding) e com as deportação para Alemanha de 75.000 judeus (na maior parte sem nacionalidade francesa), de que o regime de Vichy se encarregou por conta do III Reich?
Num sentido, não há. Hitler queria exterminar os ciganos (como de facto exterminou centenas de milhares por toda a Europa) e não parece que a Roménia e a Bulgária tencionem tratar da mesma maneira os ciganos que Sarkozy eventualmente "repatriar". Mas, desgraçadamente, isto não torna o episódio um simples caso de emigração ou residência ilegal. E não torna, porque há outra face em que a política de Sarkozy se aproxima e até às vezes se confunde com a política de Hitler.
Não é por acaso que a França resolveu escolher os ciganos como objecto do seu rigor e não escolheu, por exemplo, os portugueses. Os ciganos são uma minoria étnica vulnerável e não têm um Estado que os defenda, e os portugueses não são e têm o mais velho Estado da Europa, ainda por cima membro da UE, para falar por eles. Promover colectivamente um pequeno grupo de "estranhos", sem protecção, a bode expiatório de uma crise grave e à superfície irresolúvel é uma antiga técnica do populismo, que Sarkozy (como Hitler) não hesitou em usar. Só que, por força, ela estabelece sempre sem exame uma culpa colectiva e aponta ao cidadão comum os "culpados" de um "crime" imaginário.
Qual é o verdadeiro "crime" dos ciganos? Em primeiro lugar a "raça" (uma noção mais do que ambígua). Em segundo lugar a cultura, que, neste caso, incluiu o nomadismo. E, em terceiro lugar, a recusa de se "integrar" na sociedade francesa, presumindo que existe um único modelo de "sociedade francesa". Ora, como muitas vezes já se verificou, estas três "razões" levam directamente ao ódio e à perseguição. E aqui Viviane Reding não se engana, a II Guerra mostrou a que extremos pode chegar e com que rapidez se pode espalhar o estigma imposto por uma autoridade nacional a uma minoria étnica. Berlusconi já permitiu 315 "intervenções" do Estado em acampamentos de ciganos. Pior ainda, consta que a santificada Angela Merkel se prepara para expulsar 12.000. Onde fica nisto e para onde vai a "Europa" dos direitos do homem?»
Vasco Pulido Valente no Público, lido aqui

25/10/09

Ainda o Saramago e o marketing antijeová

«Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito.»
Vasco Pulido Valente, "Uma farsa". Público. 23.10. 2009
Ou como me dizia um amigo: «É como se alguém lesse as Fábulas de La Fontaine e achasse que aquilo era mesmo sobre cigarras e formigas».
Já depois de ter feito este post, descobri que há um kit Saramago ateísmo para donas de casa modernas, e que aos 100 primeiros compradores serão oferecidos action man de José Saramago.
Não podia deixar de vir acrescentar estas preciosas informações.

23/02/08

Oh diabo! Andarão as bolas de Berlim a apodrecer ao Sol? (Clique para obter a resposta) Afinal, isto é uma Pastelaria

(...) Para se ter uma noção objectiva da desproporção entre os riscos que a sociedade enfrenta e o empenho do Estado para os enfrentar, calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária.

24/12/07

A ASAE vista por Jacques Tati e Vasco Pulido Valente

Uma Cozinha ASAE/DGS
A ASAE Explica-se
A ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), preocupada com o seu bom-nome e reputação, resolveu explicar que não é tão má como a pintam. “Dizer mal” da ASAE parece que se tornou uma “moda” e ela, naturalmente, sofre com isso; tanto mais que ajudou Portugal a estar “à frente da Europa” na sua importantíssima especialidade. Para que Portugal a compreenda e a estime, resolveu assim desfazer alguns “mitos”: do mito da bola-de-berlim ao mito da açorda. A bola-de-berlim, por exemplo. A ASAE não proibiu que se venda a bola-de-berlim nas praias. Proibiu, sim, que se vendam nas praias bolas-de-berlim de mau “fabrico” (e, tanto quanto me lembro, em “contentores” com uma temperatura excessivamente alta), para evitar que o bom público ingerisse “óleos saturados”, muito deletérios para a “saúde humana”. Se este zelo inquisitorial expulsar a bola-de-berlim das praias, ninguém poderá culpar a simpática ASAE. O mesmo se passa com a colher de pau. Ao contrário de um boato insidioso, a ASAE não baniu as colheres de pau. Só baniu as colheres de pau “que não se encontrem num perfeito estado de conservação”. Será que a ASAE se propõe examinar as colheres de pau de cada português? Revolver com minúcia cada gaveta? É uma ideia prometedora. Quanto às castanhas que se costumavam embrulhar em papel de jornal, a ASAE jura que não condena essa prática venerável, desde que o papel de jornal não contenha qualquer desenho, pintura ou palavra impressa “na sua parte interior”. Por outras palavras, desde que não seja papel de jornal. A ASAE é generosa. Excepto no galheteiro, que não quer ver na frente; e nos petiscos domésticos, de que suspeita do fundo da sua alma vigilante (os portugueses são porcos). Já com o pão para a açorda, a ASAE adoptou uma política liberal, uma vez que lhe dêem a garantia (como?) de que ele não foi contaminado. E, num gesto, que sempre lhe agradeceremos, não obriga ao uso de copos de plástico para o café.
A ASAE é um corpo de polícia estimável. A polícia é em si própria estimável e o indigenato precisa muito de polícia. Como a história prova, os portugueses não se portam nunca convenientemente se não os proibirem, inspeccionarem, multarem e de várias maneiras reprimirem a intervalos regulares. Pena que a benéfica existência da ASAE não encoraje o governo a fundar uma milícia contra o álcool, o tabaco, o sal, o açúcar, a obesidade e a preguiça. E, pensando bem, contra o voto. [in Público]

11/12/07

Confirma-se: a Sociologia Política É uma Treta e Há Coisas que só mesmo a Genética Poderá Explicar - III

Há várias coisas que melhoram com a idade. Uma, dizem, é o vinho do Porto. A outra é de certeza o Vasco Pulido Valente.
«Deixou de fumar, começou a fazer jogging, agora corre a meia maratona. A saúde conta. Não é autoritário, nem reservado, nem austero, nem arrogante, é firme. A firmeza vem da vontade, a vontade vem da convicção. É um português que serve. Gosta mais, de resto, de servir o país nos momentos difíceis do que nos momentos fáceis. Não fala, santamente, de sacrifício. Fala, santamente, de missão. É fiel à sua missão e não pretende outra recompensa. Sofre por vir nos jornais; como o outro, não gosta de “ser falado”. Viveu sempre dividido entre a acção e “a contemplação e o pensamento”. Há, dentro dele, um “permanente paradoxo”. A política, no fundo, não passou de “uma soma de casualidades”. Mas dará sempre “o melhor de si”.
Quem não ficará extasiado com este exemplo? Um homem de família, um homem simples, que tenta ver os filhos: disciplinadamente. Um homem tolerante. Ouve as críticas. Respeita a opinião alheia e espera que respeitem a dele. Quando não está de acordo, não está: e não esquece que foi escolhido pela maioria do povo para “cumprir” o “melhor” para esse povo. “Muito obsessivo com o trabalho”, não se considera um workaholic.
Tem pena de não ler, por falta de tempo. No Verão, lê “obsessivamente”, impelido talvez pelo seu lado contemplativo e de pensamento. Este Verão, leu três livros, dois livros de história e um romance. Admira Ortega y Gasset, “um bom filósofo”, que “escreve bem”. Quanto a poetas, não admira nenhuma personalidade viva, com a presumível excepção de Manuel Alegre, de que retira um indescrito “prazer”.
Acredita que nada impede Portugal de se tornar um “país moderno, competitivo, com uma boa educação e com protecção social”. Quer um Portugal “aberto e dinâmico”. Acha Portugal “muito aberto”. Reafirma que é de esquerda, como provam a Lei do Aborto e as leis da paridade e da procriação medicamente assistida. Pensa que a perspectiva socialista é a de “pôr o Estado ao serviço dos mais pobres”. Sabe que ainda existem bolsas de pobreza. Insiste em que os países que controlam o défice são mais livres. Mais democráticos.
Isto o que é? Não é uma pessoa, não é um político, não é um ente reconhecivelmente humano. É uma montagem publicitária: polida, vácua, inócua. O herói de plástico, uma invenção. É José Sócrates, o primeiro-ministro.»
Transcrito do Público de 9 Dezembro 2007

10/11/07

Ah! Grande Vasco! ou como ainda não Estamos Todos Parvos

Quando a imprensa inglesa e americana anuncia que a proibição de fumar em restaurantes não teve efeitos visíveis na saúde pública, em Portugal essa mesma proibição entrará em vigor a 1 de Janeiro de 2008. O que me espanta nisto não é a extravagância do acto em si. Duas coisas me parecem muito piores. Em primeiro lugar, a facilidade com que em todo o Ocidente o Estado resolveu intervir na vida privada de cada um e negar radicalmente o direito de propriedade (impedindo, por exemplo, que se criem restaurantes de fumadores), sem um protesto sério em parte alguma. Em segundo lugar, a rapidez com que o fumador foi socialmente estigmatizado e o vício de fumar (há 20 anos, normal e aceitável) se tornou quase o que era antigamente uma blasfémia, uma profanação ou uma heresia. Isto não anuncia nada de bom. Por um lado, porque fatalmente à campanha contra quem fuma se vai seguir a campanha contra quem bebe e a campanha contra quem come o que não deve ou come demais. E talvez, mais tarde, a campanha contra o “sedentarismo” e a falta de exercício. Não custa nada argumentar com as doenças que o álcool e a gordura provocam (tantas como o tabaco), ou retirar do mercado “produtos de risco”, ou vigiar o que os restaurantes servem. Por outro lado, já se viu que o poder do Estado para converter a populaça ao objectivo tenebroso de “melhorar o homem” é hoje ilimitado. A metamorfose das democracias do Ocidente em totalitarismos de uma nova espécie não incomoda ninguém. Não uso a palavra descuidadamente (não uso, de resto, nenhuma palavra descuidadamente): para Hitler (que não fumava, nem bebia), o alemão perfeito não andava muito longe do perfeito espécime do Ocidente contemporâneo. Imagino muitas vezes quem, de facto, quererá este mundo sufocante e asséptico, obcecado com a “saúde”? Gente, como é óbvio, com pouca imaginação. Por mais forte que seja o culto e a idolatria do corpo, a velhice chega. E, com ela, a irrelevância, a obsolescência, a solidão. Esta sociedade de velhos trata muito mal os velhos. A ideia (e a propaganda) de uma adaptação contínua é uma grande e cruel mentira. Os velhos são um embaraço. Um peso que se atura, que se arruma num canto, que se mete num “lar”. Setenta anos de esforço para durar acabam num limbo à margem da verdadeira vida, quando não acabam no sofrimento e na miséria. O Ocidente está a criar um inferno. Por bondade, claro.
Crónica assinada por Vasco Pulido Valente no Público
(Há dias escrevi um post relacionado com o assunto: quem tiver paciência, clique aqui)