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29/04/12

Não é 1 de Maio, o 25 de Abril já foi, mas o que eu quero agora é falar do 27 de Julho... de 1970

É dos livros que Salazar caiu de uma cadeira e depois disso nada foi como dantes. Como seria de esperar numa terra de escravos, cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto, a queda, embora aparatosa, foi amortecida. Tão amortecida que uma farsa se organizaria em torno do Presidente do Conselho, convencendo-se este por dois anos que continuava a mandar. Mas “Tudo É Vaidade” e a Ceifeira levá-lo-ia a 27 de Julho de 1970, dia em que muitos portugueses optaram por aprimorar-se com uma gravata vermelha, ainda as gravatas não tinham sido proibidas por Assunção Cristas.
O caso é que antes da morte do ditador se tornar oficial, na editora onde a minha mãe trabalhava se soube por portas e travessas clandestinas que Salazar já não estava entre nós. Primeiro foi a descrença, natural ao fim de 36 anos, depois foi a festa. Resumindo: a contribuição dos presentes para o Produto Interno Bruto baixou nesse dia para níveis negativos.
A minha mãe resolveu, então, avisar o marido da boa nova, certa que essa seria a retaliação possível pelos anos que este passara a olhar o mar revoltado e teatral no Forte de Peniche. Telefonou e disse: “Prepara champanhe, temos de comemorar”. Uma colega acrescentaria entre risos: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras”.
A graça acabou mal e acabaram as duas na António Maria Cardoso, no edifício da PIDE onde, em memória das vítimas, foi entretanto erguido um condomínio de luxo. A polícia chegara depressa, e elas, identificadas já pela voz, receberam ordem de prisão. Quanto a meu pai, passaria a noite à espera da mulher na rua de má memória, sem champanhe, e não sei se de gravata vermelha.
E é também por isto que gosto muito do 25 de Abril.
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27/07/10

Foi há 40 anos que o Salazar bateu as botas e a minha mãe acabou a noite na António Maria Cardoso, então sede da PIDE, hoje um condomínio de luxo

[Já contei esta história lá atrás mas recordo-a em dia de festa]
Em minha casa foi tudo preso pelo menos uma vez. A qualidade das estadias na cadeia variou muito, com o meu pai a bater o recorde de mais ou menos três anos entre os Fortes de Caxias e de Peniche — o de Peniche, consideravelmente mais húmido.
A história que quero contar diz respeito à minha mãe.
A minha mãe foi levada para a sede da PIDE, local onde se ergue agora um condomínio de luxo com vista, ouvi dizer, sobre um marco de suplícios, exactamente há 40 anos. Foi no dia em que o Oliveira bateu asas e voou, apesar de na altura a Coca-Cola estar proibida e ninguém ainda ter inventado o Red Bull.
A minha mãe trabalhava então numa editora anti-regime, a "Seara Nova", que a ânsia pelo poder (absoluto) do PC haveria de levar à falência no pós-25 de Abril. Oficialmente, ninguém sabia que o ditador já tinha ido para os anjinhos. Mas a malta não era parva e também tinha informadores.
Alguém chegou à "Seara..." com a notícia fresquinha, testemunhada com estes que a terra há-de comer pela equipa que tratava Salazar desde que este falhara a cadeira. Transposto o cepticismo, que o homem parecia eterno, bateram-se palmas e gritou-se Hurra! Hurra! (esta parte do Hurra! Hurra! sou eu agora a inventar).
A minha mãe dirigiu-se ao telefone e telefonou ao meu pai (que já não era hóspede em Peniche): "Prepara uma garrafa de champanhe, hoje temos que comemorar!" No meio da excitação, uma colega, quase tropeçando nos fios, arranca-lhe o bocal do ouvido e acrescenta: "Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras. À noite há festa!"
O meu pai correu à Baixa a comprar uma gravata vermelha. Não chegou a haver arraial. Passado pouco mais de meia hora, a "Seara..." era invadida por agentes da polícia política que solicitam — sem grandes faz favor ou por obséquio — que a minha mãe e a amiga os acompanhem à sede. Os nomes coincidiam rigorosamente com as vozes sob escuta, e acabam as duas nas instalações da PIDE ao Chiado. Verdade seja dita que lhes serviram jantar.
A minha mãe, sempre desconfiada, recusou educadamente o repasto "não fosse aquilo ter para lá alguma droga!" A amiga, alentejana folgazona que hoje seria catalogada de obesa, comeu e apenas não repetiu porque não quis abusar de tamanha hospitalidade.
A minha mãe trejurou um evento sentimental para justificar o champanhe. A amiga disse que sofria de amnésia e que não se lembrava sequer da última vez que tinha ido ao cinema. Entretanto, a minha mãe devia estar com uma fome dos diabos, e foi quando deu entrada em cena o sempre impecável subdirector Sacchetti (ainda vivinho da costa, pelo menos até há bem pouco estava) que se lhe dirigiu com a costumada eloquência: "A senhora não tem vergonha! Ainda agora saiu de cá o marido e nem isso lhe serviu de lição!"
Agit-prop e lições de moral à parte, quem lhes passou a carta de alforria foi ele, não sem antes invocar repetidamente o sagrado nome do falecido, esse "grande homem de quem já sentimos saudades!"
À porta da António Maria Cardoso esperava-as o meu pai, um pequeno saco na mão. Dentro não havia champanhe. Convencido que a madrugada seria longa para a mulher, juntara à pressa algumas mudas de roupa e julgo que uma escova de dentes. Usava a gravata vermelha, o que a minha mãe considerou certamente um repto desnecessário. Depois a amiga disse que nem se comera assim tão mal e foram comemorar na mesma.
Isto agora contado tem graça mas na altura imagino.

14/02/09

O fascismo foi uma enorme maçada!

Suponho que terá sido essa razão [parecer-lhe o fascismo português very boring...] que levou o realizador Jorge Queiroga a apimentar a época. Disse ele: o que pretendíamos era abordar o lado mais pessoal da vida de Salazar, de uma forma desempoeirada.
Tão desempoeirada ― acrescento eu ―, como a ideia de transformar o Tribunal da Boa-Hora num hotel de charme, a sede da PIDE em condomínio de luxo ou o Forte de Peniche numa pousada com vista.
Lamento vir contrariar tamanho arejamento de espírito, e logo a um fim-de-semana, mas estou com o Juiz Harry Stone: I try to keep an open mind, but not so open that my brains fall out.

30/11/08

Continuação das memórias na alcova: da vez em que a minha mãe foi jantar à António Maria Cardoso e conheceu o Sacchetti

Em minha casa foi tudo preso pelo menos uma vez. A qualidade das estadias na cadeia variou muito, com o meu pai a bater o recorde de mais ou menos três anos entre os Fortes de Caxias e Peniche – o de Peniche, consideravelmente mais húmido.
A história que quero contar diz respeito à minha mãe.
A minha mãe foi levada para onde andam agora a construir um condomínio de luxo com vista, ouvi dizer, sobre um marco de suplícios, em dia muito fácil de fixar. Foi no dia em que o Oliveira bateu asas e voou, apesar de na altura a Coca-Cola estar proibida e ninguém ainda ter inventado o Red Bull. A minha mãe trabalhava então numa editora anti-regime, a «Seara Nova», que a ânsia pelo poder (absoluto) do PCP haveria de levar à falência no pós-25 de Abril. Oficialmente, ninguém sabia que o ditador já tinha ido para os anjinhos. Mas a malta não era parva e também tinha informadores. Alguém chegou à «Seara...» com a notícia fresquinha, testemunhada em presença pela equipa que tratava Salazar desde que ele falhara a cadeira. Transposto o cepticismo que o homem parecia eterno, bateram-se palmas e gritou-se Hurra! Hurra! (esta parte do Hurra! Hurra! sou eu agora a inventar). A minha mãe dirigiu-se ao telefone e telefonou ao meu pai (que já não era hóspede em Peniche): «Prepara uma garrafa de champanhe, hoje temos que comemorar!». No meio da excitação, uma colega, quase tropeçando nos fios, arranca-lhe o bocal do ouvido e acrescenta: «Acabaram as filmagens do “Solar das Oliveiras”. À noite há festa!». E pronto, o meu pai correu à Baixa a comprar uma gravata vermelha. Não chegou a haver arraial. Passado pouco mais de meia hora, a «Seara...» é invadida por agentes da polícia política que solicitam – sem grandes faz favor ou por obséquio – que a minha mãe e a amiga os acompanhem à sede. Os nomes coincidiam rigorosamente com as vozes sob escuta, e acabam as duas nas instalações da PIDE ao Chiado. Verdade seja dita que lhes serviram jantar. A minha mãe, sempre desconfiada, recusou educadamente o repasto «não fosse aquilo ter para lá alguma droga!». A amiga, alentejana folgazona que hoje seria catalogada de obesa, comeu e apenas não repetiu porque não quis abusar de tamanha hospitalidade. A minha mãe trejurou um evento sentimental para justificar o champanhe. A amiga disse que sofria de amnésia e que não se lembrava sequer da última vez que tinha ido ao cinema. Entretanto a minha mãe devia estar com uma fome dos diabos, e foi quando deu entrada em cena o sempre impecável subdirector Sacchetti (ainda vivinho da costa, pelo menos na Primavera estava, e com contactos telefónicos à distância de um só clique) que se lhe dirigiu com a costumada eloquência: «A senhora não tem vergonha! Ainda agora saiu de cá o marido e nem isso lhe serviu de lição!». Agit-prop e lições de moral à parte, quem lhes passou a carta de alforria foi ele, não sem antes invocar repetidamente o sagrado nome do falecido, esse «grande homem de quem já sentimos saudades!».
À porta da António Maria Cardoso esperava-as o meu pai, um pequeno saco na mão. Dentro não havia champanhe. Convencido que a madrugada seria longa para a mulher, juntara à pressa algumas mudas de roupa e julgo que uma escova de dentes. Usava a gravata vermelha, o que a minha mãe considerou certamente um repto desnecessário. Depois a amiga disse que nem se comera assim tão mal e foram comemorar na mesma. Isto agora contado tem graça mas na altura imagino.