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05/03/09

Fátima Lopes veste a Nossa Senhora e põe-lhe umas coisas na cabeça

A amiga do peito de Manuel de Pinho lá foi de novo a Paris, levada pelo Portugal Fashion. Não vos vou maçar com o que eu penso sobre o facto de, entre todos os criadores portugueses, ser ela a escolhida para desfilar là-bas. Vou apenas deixar-vos com o resumo da colecção.
E cito.
O 21º desfile de Fátima Lopes é uma resposta à crise, pois transborda de beleza e positivismo. Vestida por Fátima Lopes, Nossa Senhora é divina, exuberante, feminina e muito moderna. Desfilando sobre densas nuvens brancas, traz-nos uma colecção em três tons: o preto elegância, o vermelho sangue e o branco pureza.
As formas são esculturais. Obras de arte nos mais nobres materiais e numa infinidade de texturas: seda, rendas, cabedal, camurça, puras lãs e cachemira.
As malas e os saltos dos sapatos são tamanho XXL.
A música, criada a propósito, inspira o majestoso espectáculo.
O que vale a este país é que todos os dias há uma anedota nova!

27/11/08

Em louvor das modas & bordados: porque há outros assuntos menos fúteis do que a política que também merecem o meu interese

A ex-comunista Miuccia Prada foi absolutamente franca acerca do assunto: Não acredito em pessoas que dizem que roupa não é importante. Perante este quase jacobinismo, e ainda que certos argumentos de autoridade possuam a solidez de uma casca de banana, não resisto a invocar em defesa da signora Prada a arte certeira de Twain: Clothes make the man. Naked people have little or no influence in society.
Pretende o anterior parágrafo introduzir o tema. E o tema é: será a moda um capítulo essencial da ditadura imagética? Para tentar responder, três interrogações prévias en passant. O que é moda? O que é ditadura? O que é imagem?
Segundo a proverbial definição de Jean Cocteau,
la mode, c’est ce qui se démode, o que concorda em absoluto com a máxima de Coco Chanel: A moda passa, o estilo permanece. O que é ditadura? Essa parece fácil. Mais coisa menos coisa, resume-se a um quadro de pensamento único (segundo os seus acólitos tendencialmente ad aeternum…) em que alguém manda e eu obedeço. Imagem? Conceito de contornos menos claros, talvez nos baste entendê-la como a representação visual de um objecto ou de uma ideia.
Chegados aqui, estrebucha um pouco o juízo de que a moda serve a ditadura da imagem. Desde logo, porque aquela é na essência efémera e toda e qualquer ditadura anseia por imitar a Toyota: Vem para Ficar (cito um slogan português de 1969 que gozou de considerável sucesso ― a prova é que até eu me lembro dele). Depois, porque as imagens de moda são cada vez mais plurais; fenómeno que tem, aliás, fácil justificação: se há algo que não casa com a moda é o modelo uniforme, que sucede ser o fardamento dilecto dos ditadores das mais variadas tendências. Ou como colateralmente se escreve em História da Beleza, obra colectiva dirigida por Umberto Eco: Os media já não apresentam um ideal único de beleza. Os meios de comunicação tanto propõem a opulência de Mae West como a graça anoréxica das últimas modelos; a beleza negra de Naomi Campbell e a nórdica de Claudia Schiffer; a mulher fatal e a rapariga frágil ao estilo de Julia Roberts. O nosso viajante do futuro já não poderá diferenciar o ideal estético difundido pelos media. Será obrigado a render-se perante a orgia de tolerância, de sincretismo total, de absoluto e irrefreável politeísmo (…). De onde virá, então, a crença generalizada de que a moda é um factor de opressão?

Vou dar um exemplo. A minha tia Raquel, uma leiga em semiótica que intuitivamente sabia como um vestido pode significar muitas coisas, tinha a opinião que se segue: Quem quer ser bonito deixa-se esfolar! Escusado será dizer que cuidava da aparência com apuro hollywoodesco e que, tão-pouco dada às letras, teria subscrito, voluntária, a desafectação confessa de Clarice Lispector: Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios. Seriam, tanto a tia Raquel como a conceituada escritora, fashion victims avant la lettre? Porque é nisso, afinal, que todos estão a pensar quando falam de ditadura da imagem relacionando-a com moda.
Claro que «ditadura da imagem» é tecedura provida de muito mais elasticidade. Tanto pode compreender os manuais escolares (polvilhados de «bonecos») como a anorexia nervosa (disfunção alimentar grave que define um quadro neurótico, e cuja origem tem vindo a ser imputada, com alguma ligeireza, aos modelos em passerelle); tanto abarca as entorses televisivas (a virtualidade do meio a substituir-se ao real) como a manipulação publicitária (produtos fetiche causa de (in)satisfação narcísica), como, como…
Afinal, num mundo saturado de signos que vertiginosamente se auto-reproduzem, gerando um efeito de hiper-realidade, talvez seja difícil, senão mesmo impossível, escaparmos às imagens e às suas representações simbólicas (mas, ainda agora, a crise financeira veio provar que uma hipoteca não deixa de ser uma hipoteca só porque alguém a mascara sob títulos nobiliárquicos como «Structured Investment Vehicles»/SIV). Mal comparado: um vestido comprado numa grande superfície não passa a ser Alber Elbaz só por lembrar vagamente um desenho da Lanvin.

Voltando às fashion victim e à tia. No caso dela, pelo seguinte. A todos os partidários de que a actual ditadura imagética engendra mulheres supliciadas por saltos-agulha funâmbulos, pinças contorcionadas, escovas de rímel cerdosas, escalpes faciais sanguíneos ou jejuns sacrificatórios, apenas vos digo isto: haviam de a ter conhecido! Carradas de limão nos olhos para lhes puxar o brilho. Pastos sebosos na cara. Cabelos engomados a quente. Soutiens armadilhados. Depilação nauseante. Cintas asmáticas. Receitas cabalísticas. Mezinhas encriptadas. Alguém falou n’O Jardim dos Suplícios? Octave Mirbeau não alcançaria sequer o primeiro grau maçónico se tivesse de se medir com a geração das mulheres da filha da minha avó!
Aqui há uns anos, o poeta Herberto Helder contava uma história que era assim: parara a carrinha de livros da Gulbenkian num descampado alentejano, quando uma camponesa se acercou da dita e se pôs a folhear os títulos. Depois de muito folhear, requisitou dois: Pode-se Modificar o Homem?, do biólogo francês Jean Rostand, e Estética, de Hegel. Surpreendido com a preferência, e embora correndo o risco de parecer snob, o livreiro motorizado perguntou-lhe o motivo da escolha. A resposta foi simples. Com o primeiro, pretendia aprender a lidar melhor com o seu homem; com o segundo, a pôr-se mais bonita para ele. Que moral podemos tirar daqui? Por um lado, que os signos, como queria Saussure, estão sujeitos à lei da arbitrariedade, por outro, que mesmo no deserto de Mário Lino as mulheres preferem estar bonitas a feias.
E agora pergunto eu. O que mais as favorece? Por exemplo: produtos de beleza La Mer, maquilhagem Shiseido e roupinha Hermès, ou qualquer um dos referidos itens comprados no supermercado? Se este texto não se dirigisse aos dois sexos, seria chegada a altura de interpelar as leitoras: «Minhas amigas, que não nos contem patranhas! A ditadura não é da moda. A ditadura é do dinheiro.» (ou como disse a Dolly Parton: You’d be surprised how much it costs to look this cheap!) Não fora isto, poucos se importariam em tornar-se fashionistas, pelo menos de vez em quando.
O termo fashion victim tem, e com justeza, conotações pejorativas.Terá sido inventado por Oscar de La Renta para definir alguém que, desprovido de estilo e carisma, se rende acriticamente a todas as tendências, sobretudo àquelas que calcula estarem na mó de cima. A marca é tudo e quanto mais cara melhor, poderia resumir o credo das fashion victims. As quais, se quando se olham ao espelho escutam sempre uma voz pronunciando as palavras mágicas ― Em todo o mundo não existe beleza maior! ―, na realidade não deixam de ser o melhor álibi para o sarcasmo de Wilde: A moda é algo tão intoleravelmente feio que tem de ser mudado todos os seis meses.
Mas agora vou confessar-vos uma coisa. É verdade que na série Sexo na Cidade todo o guarda-roupa estava irrepreensivelmente correcto. Mas quem se lembra de Absolutamente Fabulosas!, talvez possa preferir a extravagância demencial de Edwina Monsoon, apesar de, como alguém escreveu, ela parecer por vezes um batido de Elton John com corneto de morango. O que nos conduz até John Galliano, o designer da Dior que em tempos confessou: Simplicity is a such a bore! Sometimes the real fun is in bad taste. O que, por seu turno, nos remete para uma frase de sinal contrário: Gostava de ter inventado as ‘jeans’. Têm carácter, ‘sex appeal’, simplicidade ― tudo o que desejo para as minhas roupas, Yves Saint Laurent.

O parágrafo anterior reconduz-nos ao ponto de partida. Face a tanta diversidade de estilos, atitudes e tendências, será legítimo falar de uma ditadura? Será legítimo insistir em que a moda escraviza as mulheres (e, de acordo com os números de vendas, cada vez mais homens)? Fará sentido continuar a difamar uma indústria que vive de vender beleza (mesmo que a preços obscenos)?
Não desenho roupas, desenho sonhos, resumiu Ralph Lauren. E, muito antes dele, disse Jean Cocteau: A arte produz coisas feias que, não raras vezes, se tornam bonitas com o tempo. A moda, ao invés, produz coisas bonitas que, com o tempo, se tornam feias. Falhou apenas Cocteau em dois dados do problema. Primeiro, o apelo estético incólume de algumas peças (basta pensar em Cristóbal Balenciaga…), depois, a capacidade da moda para se reinventar a si própria (já vestimos bocas-de-sino, já abominámos bocas-de-sino, e que eu apanhe já outra constipação se, com diferentes alinhavos, não vamos voltar a usá-las!).

Ao contrário das mulheres do tempo da tia Raquel ― e podem crer que eu não a inventei ―, essas sim, sujeitas ao espartilho da moda (mesmo se o espartilho fora abolido algumas décadas antes, no início do século XX), os consumidores de hoje transitam livremente entre códigos. Para expor a ideia de forma visual, já que uma imagem vale mais de mil palavras (provérbio oriental que até Mao Tsé-tung honrou ao deixar-se fotografar a tomar banho no rio Yang-Tsé em 1966, provando às massas, e aos opositores da Revolução Cultural, que ainda muita água passaria por baixo das pontes até ele abandonar o poder). Que semelhanças se poderão encontrar entre os estilos de Madonna (já em si mesmo plural), Gisele Bündchen, Kate Moss, Agyness Deyn, Jennifer Lopez, Sophia Coppola, Julian Moore, e etc., só para dar uns exemplos? Talvez só a que reverte desta definição da actriz Sophia Loren: O vestido de uma mulher deve ser como uma cerca de arame farpado: serve o propósito mas não tapa a vista.
No actual panorama da moda, tal qual a beleza de que falava Eco, as ofertas são polimórficas e polissémicas. É verdade que não facilitam a vida ao consumidor que, quando pouco seguro, se sentirá perdido: When in doubt wear red, aconselhava Bill Blass, mas já a Ivone Silva subia ao palco e dizia: Com um simples vestido preto eu nunca me comprometo. E a dúvida fica em aberto. Coisa que seria impossível numa ditadura.

01/07/08

The high-fashion Pope

O Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, veio esclarecer a opinião pública que Bento XVI não calça Prada. E acrescentou que «as escolhas de Sua Santidade são guiadas por Cristo» e, deduz-se, não por Miuccia.
Recorde-se que em 2007 a revista Esquire tinha eleito o Papa como o «accessorizer of the year» pelos seus sapatos vermelhos.

03/03/08

Traje inovador apresentado pela embaixadora do «Portugal West Coast» em Paris. Diz-se que Miuccia Prada, essa ex-comunista, ficou roída de inveja

Fontes bem informadas garantem-me que Miuccia Prada ia tendo um ataque de nervos (digno de Anna Magnani!) quando lhe fizeram chegar as fotos do desfile de Fátima Lopes em Paris, o tal em que o brasileiro Paulo Coelho se sentou na primeira fila rendido ao apelo esotérico, se não do V Império pelo menos da West Coast.
O elaborado design e o cair elegante das roupas terão posto a italiana aos gritos – Dio, devo telefonare a Donatella! – temendo pela moda do seu país, a mesma que Manuel Pinho pensava ser imbatível em matéria de sapatos.
De passagem pela Feira Internacional de Calçado de Milão, o Ministro da Economia e Inovação provara ser um homem do mundo ao confessar aos jornalistas da SIC: «Eu vinha cá comprar sapatos italianos, mas fiquei tão impressionado com a qualidade dos sapatos portugueses que vou levar sapatos portugueses».
Hélas, como a Feira de Milão não faz vendas directas ao público, o bem informado ministro não conseguiu comprar nada, nem sequer um par de botas.
Fotografia de Christophe Becker

26/02/08

A West Coast à conquista de Paris ou: Há tipos com uma sorte do caraças. Chegam aos sítios e dão logo com as coisas

A razão do título deste post está na seguinte notícia: o ministro da Economia, Manuel Pinho, entrou este sábado numa loja de Paris, ouviu franceses a falarem de estilistas portugueses, e declarou-se convicto de que a moda está a ajudar a mudar a imagem de Portugal além-fronteiras. (...) Foi nas compras (...) que Manuel Pinho ouviu franceses falarem «espontaneamente dos criadores de moda portugueses».
Longe de mim duvidar da palavra de um Ministro, mas não terá Manuel Pinho feito confusão com os nomes? Por exemplo, alguém falou em Alberta (de Ferretti) e ele percebeu Fátima (de Lopes) [isto em pronúncia francesa (leia-se alberrtá e fatimá), e com toda a gente aos gritos a atirar-se ao último saco da Prada é bem possível de acontecer]; ou então alguma parisiense que exclamou «J'adore tout ce qui est Gaultier» e, no seu desejo inconsciente de ser amado, Manuel Pinho ouviu «J'adore tout ce qui est portugais».
E perguntarão agora os eventuais leitores deste post: «Mas se o Ministro, ficámos a saber, é fã confesso da moda nacional, porque é que foi a Paris às compras?»
Não sejam maldosos. As compras foram apenas um desvio recreativo. Manuel Pinho foi a Paris trabalhar. A saber: assistir ao desfile de Fátima Lopes organizado pelo Portugal Fashion (associação subsidiada, entre outros, pelo ICEP), no âmbito da Semana de Prêt-à-Porter Paris, e divulgar, já que lá estava, suponho, o «Portugal Europe's West Coast».
Em boa hora o fez. Sentado no desfile da amiga, Paulo Coelho, o brasileiro alquimista, rendeu-se à campanha e, dizem, prometeu divulgá-la em breve naquele canal de cabo esotérico onde se está sempre a ouvir uma voz a dizer: Abra a sua mente!
Face a tanta modernidade, pro-actividade, excelência e rigor nos resultados, três singelas perguntas:
1. Porquê Fátima Lopes para representar Portugal quando, é unânime, a sua roupa é do menos interessante e elaborado que se faz em Portugal?
2. Porquê Fátima Lopes e não Luís Buchinho, um criador com provas dadas, e até agora presença habitual da Semana de Moda parisiense?
3. Enfim, e como diria o capitão Archibald Haddock: bougres de faux jetons à la sauce tartare, porquê a West Coast?!

19/09/07

FASHION: A HISTÓRIA DENTRO DO GUARDA-VESTIDOS

«At sixteen, I was funny, skinny little thing, all eyelashes and legs. And then, suddenly people told me it was gorgeous. I thought they had gone mad», Twiggy, que faz hoje 58 anos

03/08/07

Fashion: a História dentro do guarda-vestidos


«I wish I had invented blue jeans. They have expression, modesty, sex appeal, simplicity - all I hope for in my clothes», Yves Saint Laurent.
Inventou o smoking para mulher.

21/07/07

Convidado de honra

Galliano e as amigas, no desfile Dior Couture Fall 2007. E como podia eu não render homenagem ao homem que um dia disse que uma pitada de mau gosto era indispensável ao génio?

06/06/07

Bag! Bag!

Quanto maior melhor. Eis um lema que se aplica como uma luva às malas deste Verão. Enigma vedado ao homem e, quantas vezes, à própria mulher que o transporta, as malas tornaram-se numa verdadeira gruta de Alibabá, não só pelo tamanho grande mas também pelo valor monetário que chegam a alcançar. Com preços que são, frequentemente, verdadeiros atentados à bolsa, o mercado de luxo da moda percebeu o que tinha a ganhar apostando neste tipo de artigo que, contas feitas, garante lucros bastante superiores aos da roupa propriamente dita.
Segundo a Eurostaf, só para o ano de 2006, o mercado mundial de marroquinaria de luxo e alta gama movimentou 11 mil milhões de euros, apresentando uma taxa actual de crescimento superior a 7% relativamente ao período de 2001-2004. Não admira, pois, que todas as grandes marcas se virem cada vez mais para o negócio dos acessórios. E, quem fala de acessórios fala de malas, um dos produtos mais susceptível de ser usado como distintivo. Sobretudo, quando opta por dimensões XL. Um mala como «Tribute», criada para este Verão pela Louis Vuitton, patchwork manufacturado a partir de 15 malas LV diferentes, numa edição estritamente limitada e numerada, não será, com certeza, democrática (o preço ultrapassa os 34 mil euros). Estamos, aqui, nos antípodas da «I’m not a plastic bag», desenhada por Anya Hindmarch, e que, no mercado em Abril, rapidamente se tranformou num ícone, tendo esgotado por completo (custava cerca de oito euros; neste momento, na eBay já pode ultrapassar os 370). Num caso ou noutro, as malas siginificam muito mais do que malas. Imagem (mesmo quando nega visibilidade à marca, como continua a ser a opção da Hermès), símbolo de uma atitude ou de um status, essa coisa cheia de coisas que as mulheres insistem em levar consigo continuará a ser um negócio milionário, pelo menos até ao dia em que as mulheres decidam livrar-se delas e gritar: «o diabo que as carregue!» Às malas, naturalmente.