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20/01/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «ERAM TEMPOS DIVERTIDOS»

«... E por falar em plantas, uma palavra, antes de continuar, para a usual clarividência da nossa ministra Maria do Céu que, já tendo profetizado a venda milionária de hortaliças para a China no início da pandemia de Covid-19, veio há dias pôr os espanhóis na ordem, explicando-lhes que a eliminação do IVA nos produtos básicos decidida pelo governo do lado foi um disparate. “Nós entendemos que não é forma de acontecer”, declarou quando confrontada com a medida. Mas lembrando-se talvez do fiasco que constituiu a venda de couves para o Império do Meio, acrescentou em português mais terra-a-terra: “De qualquer modo, estamos a avaliar”.

Éramos portanto, jovens, felizes e maioritariamente divertidos. A obsessão com a fidelidade ao marxismo-leninismo e a política pura, dura e partidária atenuara-se e até o PCP, fruto das circunstâncias, moderara a irritante mania de manipular as assembleias, avançando com pontos de ordem à mesa que exigiam votações quando os opositores às suas propostas se inscreviam para falar. O MRPP, por seu turno, deixara de bater nas pessoas que, fazendo prova de grande imprudência, colavam cartazes por cima dos seus cartazes com data de validade há muito caducada. (...)»

14/01/12

“Vou-me embora pra Pasárgada”*

Começo por uma confissão: nunca fui do MRPP.
Se professei o maoismo, e professei-o (nobody's perfect), fi-lo sempre do lado dos bons (cf. por favor, A Vida de Brian).
Dito isto, e dito que teria uns 16 anos quando me raspei — tudo porque começaram com umas tretas da moral burguesa versus moral proletária e queriam obrigar a malta a casar-se ou, pelo menos, a ir virgem para o casamento —, acrescento que no que toca à arte dos graffiti avant Basquiat, e em matéria de slogans, o partido de Arnaldo Matos sempre se mostrou imbatível.

Vem isto a propósito das recentes declarações de Miguel Relvas que, dando como exemplo os jovens portugueses emigrados que encontrou em Moçambique, voltou a insistir na tecla do Pirem-se daqui!, Desamparem-me a loja! (e ai de quem insinuar que a palavra “loja” esconde alguma indirecta ao ministro, ou sequer à Maçonaria).

Lembrei-me, pois, ouvindo Relvas, do célebre slogan cunhado outrora pelo MRPP: “Nem mais um soldado para as colónias!
Na senda publicista de O’Neill, ocorreu-me: Nem mais um desempregado para as colónias!

E porque esta coisa de nos quererem pôr com dono me chateia, queria lembrar três coisas.
1. Já não há colónias;
2. «Nunca houve um encerramento geográfico como o de hoje. Quando se saía de Inglaterra, podia-se ir para a Austrália, a Índia, o Canadá; agora, deixou de haver autorização para trabalhar. O planeta fecha-se. Todas as noites, centenas de pessoas tentam entrar na Europa a partir do Magrebe. O planeta está em movimento, mas em que direção? Terrível, o destino atual dos refugiados. Deram-me a honra, na Alemanha, de fazer um discurso perante o governo. Terminei dizendo: "Senhoras e senhores, todas as estrelas se tornaram amarelas"» (George Steiner, “Télérama”, 12/12/2011);
3. Dados públicos apontam para cerca de meio milhão de portugueses desempregados sem subsídio. Entre os mais penalizados, estão todos os que têm cerca de 50 anos e não encontrarão trabalho.
Posto isto, Senhor Ministro, o que nos sugere? Já percebemos a parte do Raus! Agora o difícil é: fugir para onde?

* poema de Manuel Bandeira


11/10/10

Allô! Allô! Vem aí o amigo do Sócrates que por sua vez é muito amigo da China, não confundir com a Cinha

Como é sabido, algum tempo antes das famigeradas semanas que fizeram o mundo mudar para xuxu, o engenheiro José Sócrates andou pela Venezuela a vender Magalhães inquebráveis.
Parece que Chávez ficou convencido da qualidade do produto e aceitou vir agradecer pessoalmente ao nosso Primeiro.
A visita a Portugal está anunciada para as próximas semanas e faz parte de um pacote que também contempla a Rússia, a Bielorússia e o Irão (tudo gente altamente recomendável).
No entretanto, quer dizer, enquanto Chávez não chega nem o orçamento se orçamenta, o prémio nobel da paz foi atribuído a Liu Xiaobo.
Naquele estilo que faz Alberto João Jardim parecer um menino de coro, o venezuelano pronunciou-se sobre a decisão norueguesa no seu programa dominical "Allô Presidente": O governo chinês, fazendo uso de sua independência e soberania, reclama pelo prémio a esse senhor que está preso lá. Acontece que deram o Nobel a um cidadão dissidente e contra-revolucionário chinês, que está preso na China certamente por violar as leis da China.
E rematou: Aqui vai a nossa saudação, a nossa solidariedade ao governo chinês. Viva a China!
E agora se me permitem remato eu: Viva o Magalhães! Viva o José Sócrates! Viva o MRPP! Et Vive la Suisse Libre!