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20/07/11

A book a day keeps the doctor away: "A Vida que Podemos Salvar", Peter Singer

O mais recente livro do filósofo Peter Singer combina ética, política, ciência e filantropia e obriga-nos a reflectir sobre o nosso papel num mundo em que a pobreza, a fome e a morte por falta de cuidados médicos básicos atinge milhões de seres humanos (cerca de 1400 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza, valor que o Banco Mundial estabeleceu como sendo de 1,25 dólares por dia).
A Vida que Podemos Salvar retoma o estilo habitual do autor, no qual ética e lógica formam um binómio indissociável. Nem sempre será totalmente convincente, apesar da argumentação parecer, em muitos aspectos, imbatível.
As premissas de que se parte são claras: o sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos são maus; se está no seu poder impedir que algo mau aconteça, sem sacrificar nada de importância semelhante, é errado não o fazer; ao contribuir para organizações humanitárias pode prevenir o sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos, sem sacrificar nada de importância semelhante; conclusão: se não fizer donativos a organizações humanitárias está a fazer algo errado.
Num país como Portugal onde a solidariedade é muitas vezes confundida com caridadezinha, os ricos são, maioritariamente, unhas-de-fome e a recusa de uma esmola se faz acompanhar do inacreditável “tenha paciência!” (além da miséria é preciso ainda suportá-la com resignação), este livro vem colocar algumas questões éticas prementes, independentemente da filantropia ser – ou não – a solução para a pobreza no mundo. Não será (e o filósofo não foge ao tema). A Vida que Podemos Salvar é, contudo, muito mais do que um manual filantrópico com exemplos concretos de ricos e famosos generosos ou avarentos. Da discussão moral ao debate científico sobre a biologia do altruísmo, Singer escreveu um livro que visa, sobretudo, tornar-nos melhores.
A Vida que Podemos Salvar, Peter Singer, Gradiva, 2011, tradução de Vítor Guerreiro

19/06/09

A propósito da famigerada arrogância de Sócrates gostava de dizer que há arrogantes de quem gosto muito

Para que não restem dúvidas: não me parece que a arrogância seja, em si mesma, um mal. Aliás, poucas coisas me parecem, em si mesmas, um mal.
Daí que eu obedeça a poucos mandamentos. Nunca os contei mas duvido que somados dêem 10...
Esclareça-se: não me sinto moralmente debilitada por isso. Tenho para mim que o que se diz dos pássaros aplica-se na perfeição aos princípios: mais vale um na mão do que dois a voar...
Mas voltando ao assunto deste post.
A arrogância pode ter várias interpretações. Por exemplo, na minha geração se um tipo nascia no Restelo e tratava mal um empregado de mesa era considerado arrogante. Já se nascesse em Alcântara, bairro que fica mesmo coladinho, idêntico comportamento fazia dele um malcriado.
Claro que para o empregado de mesa a diferença residia sobretudo na gorjeta, o que, em determinadas circunstâncias, pode ser uma diferença ENORME.
E é chegados aqui que somos obrigados a concluir que, apesar da aritmética simples do Singer, a ética é um assunto complicado para caraças.
Mas voltando ao assunto deste post.
Insistem alguns em ver na arrogância do primeiro-ministro a razão da sua queda anunciada. O Senhor Comentador, porém, soube pôr o dedo na ferida:
«Sócrates é como é (...) É agressivo? É. É chato? É. Acha que está sempre certo? Acha. Estamos fartos? Estamos. Mas a arrogância é insignificante no meio de tudo isto. As boas maneiras não são para aqui chamadas. O que interessa são as suas decisões. Apenas e só. Se concordamos com elas, pode, para nós, arrogar à vontade. (...) Ou como diria o outro, não é a arrogância. É a política, estúpido».
Plenamente de acordo. Mas permitam-me um acrescento pessoal. Só aos génios se deve conceder o direito à arrogância, nunca aos estúpidos. Eu, pelo menos, oferecer-me-ia sem problemas para servir cafés ao Oscar Wilde e ouvi-lo responder: «Ah! Não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão que estou errado».

15/04/08

Peter Singer: a propósito de certas coisas relacionadas com a ética

Não é líquido que os apoiantes do Sim do último referendo tivessem querido Peter Singer do seu lado. Ao contrário da tibieza de muitos dos defensores da despenalização, quando chamados a pronunciar-se sobre se abortar equivalia ou não a matar um ser humano, o filósofo australiano não hesita: «A comparação que fiz entre o aborto e o infanticídio foi motivada pela objecção segundo a qual a posição [favorável] que tomei sobre o aborto também justificava o infanticídio. Aceitei a acusação – sem considerar essa aceitação fatal para a minha posição – até ao ponto em que o mal intrínseco de matar o feto já desenvolvido e o mal intrínseco de matar um recém-nascido não são nitidamente diferentes», pág. 176 de Escritos Sobre uma Vida Ética.
Para se entender esta posição de Singer será preciso clarificar algumas das suas permissas morais. A primeira consiste em opor-se à «santidade da vida», conceito que, segundo ele, está em larga medida subjacente ao princípio «não matarás»:
«Não acredito na existência de Deus. Logo, rejeito a ideia de que cada ser humano é uma criatura de Deus», pág. 332. Singer nega também que a vida de um membro da nossa espécie tenha um valor especial: «[no] Génesis, encontramos a ideia (...) que Deus criou os humanos à sua imagem e lhes conferiu o domínio sobre todos os animais. Desde Darwin, pelo menos, temos conhecimento de que isso é factualmente falso (...)», idem.
Contestado o sexto mandamento e o carácter «especial» da espécie humana, o filósofo mais polémico da actualidade propõe como princípio ético uma regra simples, qual ovo de Colombo: prover ao mínimo sofrimento possível de todos os seres que sejam capazes de sentir dor. A regra aplica-se, assim, a outras espécies, e deriva directamente da circunstância do princípio moral da igualdade não assentar em questões de facto: assim como a igualdade entre os homens não depende da sua maior ou menor inteligência, força física, etc., também o princípio da igualdade entre nós e as outras espécies não depende, comparativamente, da nossa maior complexidade. Citando um dos seus mentores, Jeremy Bentham, Singer interroga, referindo-se aos animais: «A questão não é “Serão eles capazes de raciocionar?”, nem sequer “Serão eles capazes de falar?”, mas sim “Serão eles capazes de sofrer”?», pág.49.
Para regressarmos ao tema inicial deste texto – a legitimidade do infanticídio – que salto (os seus detractores chamar-lhe-iam salto mortal) terá de dar um paladino dos direitos dos animais, vegetariano assumido, para passar da sua simpatia não «especista» à consideração da possibilidade da morte de crianças?
O salto poderá ser mortal mas não é longo. Tendo postulado que «o facto de uma criatura ser humana, no sentido de pertencer à espécie Homo sapiens, não é relevante para determinar se é errado matá-la», Singer relembra que «são as características do ser individual que pode ser morto» que devem ser pesadas. Por exemplo, «os seus próprios desejos de continuar a viver ou o género de vida que poderá vir a ter». Daí infere que a criança, até uma idade variável, sendo um ser senciente mas não consciente (sente mas não é sujeito), não «possui um direito à vida tão forte como os seres capazes de se reconhecerem a si próprios como entidades distintas que persistem no tempo». A segunda ilação, apoiada num raciocínio similiar ao que estabelece para defender a eutanásia (igual a menos sofrimento), impõe que crianças nascidas com deficiências que lhes perspectivem uma vida miserável possam ser ajudadas a morrer. O caso complica-se quando se está perante crianças portadoras de doenças menos dástricas, mas cuja permanência em vida impedirá os pais de dar à luz uma outra, não deficiente. Após uma contabilidade algo mórbida conclui: «Quando a morte de uma criança deficiente conduz ao nascimento de uma outra com melhores perspectivas de levar uma vida feliz, a soma total de felicidade será maior caso a criança deficiente seja morta», pág.202.
A questão do infanticídio não esgota Escritos sobre uma Vida Ética, que contém ainda relatos autobiográficos de Singer e se estende à ecologia, política, bioética e solidariedade social. Boa introdução à obra deste pensador (os artigos são retirados de vários dos seus livros), a primeira nota que sobressai é a inteligência do próprio, actualmente o mais afamado representante do Utilitarismo, corrente que, grosso modo, pugna por uma ética normativa que faz depender os postulados morais das suas consequências. Mas se as posições que defende chegam revestidas de uma consistência férrea e me parece disparatado apelidá-lo, como alguns insistem, de «Professor Morte» ou nazi, não deixa de ser verdade que a sua lógica moral-dedutiva como que deixa de fora a vida mesma, com o que ela tem de anárquico, incongruente, pungente e compassivo. Talvez Peter Singer, como é próprio dos filósofos, sofra, afinal, da Doença do Pensamento. Ainda assim, absolutamente fascinante.
Escritos Sobre uma Vida Ética, Peter Singer, Dom Quixote, 2008