Pronto. Já está. Já passou. Já foi e não doeu nada. Daqui a 10 anos, os
sobreviventes festejarão de novo a data apesar do reumático. A pergunta
“onde é que você estava no 25 de Abril?” fará cada vez menos sentido e
haverá cada vez mais gente a baralhar 1974 com 1794, ano em que
Robespierre mandou guilhotinar Danton, para morrer ele próprio de cabeça
decepada pouco tempo depois, episódio que ainda hoje contribuirá em muito para fundamentar a ideia de que a natureza humana é mesmo do piorio.
Por cá, tivemos o Salgueiro Maia mas, ainda assim, há quem ache que nunca fiando...
“O caso do Salgueiro Maia é um caso comovente, para nós portugueses e
para nós sociedade foi um bem ele ter morrido. É muito cru dizer isto,
para a família e para ele é uma infelicidade, mas nós precisávamos de um
puro. (...) Se ele continuasse a viver não sei se aguentaria isso. Não é
possível tanta aspiração de beleza e de pureza numa figura viva”,
resumiu cruamente Lídia Jorge, naquilo que poderá ser interpretado como
uma defesa do axioma “um herói bom é um herói morto”, e isto apesar de
Tolstoi se ter fartado de escrever romances que provam o contrário.
Claro que Tolstoi só há um e mais nenhum, mas se o cinismo entretanto
não nos matar a todos, e a descrença não nos liquidar de tristeza,
alguns estarão cá para os festejos, portanto, daqui a 10 anos, mas daqui
a 100, pevides.
Daqui a 100 talvez nem haja Portugal, conforme
apontam as estatísticas da nossa escassa reprodução, cumprindo-se por
essa via (ínvia?) o desabafo de Sena: “O nosso problema não é salvar
Portugal, é salvarmo-nos de Portugal”.
O tempo, esse grande
escultor, aproximará ainda mais o 25 de Abril do 5 de Outubro, mandando
para o galheiro da História as declarações pomposas de Luís Montenegro
(que, aliás, tinha um ano e usava fraldas no 25 de Abril): “Isto não é o
5 de Outubro na Praça do Município”, justificando assim o
inconseguimento de não deixarem falar os militares de Abril na
Assembleia da República, e eu se fosse militar também me chateava, pá e
mandava o Luís Montenegro mudar de fraldas (citando naturalmente
Eça...), já que a ingratidão é uma coisa muito feia e esta coisa do “25
de Abril é de todos”, como disse o ministro da Defesa, pode cair muito
bem num salão 40 anos depois, mas o facto é que alguém teve de dar o
corpo ao manifesto que não se foi lá por geração espontânea nem por obra
e graça de nenhum soft power sagrado.
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29/04/14
21/02/14
Tic-Tac-Tic-Tac-Tic-Tac... e um dia faz PUM!
Nunca fui à Suíça. Também nunca fui ao Luxemburgo. No Luxemburgo
dizem-me que é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha
do que um luxemburguês ter sido lá nado e criado. Mais de 30% da
população é de origem estrangeira e cerca de 16% portuguesa, o que
talvez explique o facto de o 1º-ministro ter contratado uma empresa do
Luxemburgo para lhe atender os telefones
da casa de São Bento, na eventualidade de alguém lhe querer falar - e
eu sei lá, há gente capaz de tudo! –, milagre da globalização e milagre
do ajuste directo, neste caso à We Promote, detida pela Sociedade
Comercial Silvas (Primos), S.A., detida, por sua vez, pela Finanter
Incorporation, que, por sua vez... mas eu não sou de intrigas e também
me chamo Silva: voltemos à bucólica Suíça.
Como dizia, nunca lá fui. Um amigo brasileiro com quem fui há muitos anos a Paris antes de eu ter ido com ele a Paris foi sozinho à Suíça. Louro e de olhos azuis, mais louro do que um suíço louro e com os olhos mais azuis do que um suíço de olhos azuis. Na altura, imperava a ditadura brasileira e o meu amigo vivia na Europa como refugiado político. Quando chegou à fronteira da Suíça, os suíços foram muito simpáticos porque pensaram que ele era um suíço louro & tal mas mal olharam para os documentos sentiram-se ludibriados porque ele era um selvagem brasileiro vindo do Rio Grande do Sul! Engavetaram o sorriso suíço e mandaram o meu amigo tirar as malas do carro. O meu amigo obedeceu civilizadamente e eis senão quando dá pelos guardas suíços com as manápulas enfiadas nos pertences, manuseando cuecas, camisolas interiores (por causa do frio da Europa...), lâminas de barbear e panfletos anti-fascistas. O meu amigo achou aquilo muito pouco civilizado e pensou em invocar a Convenção de Genebra. Lembrando-se que haviam sido os suíços a inventar o J dos passaportes judaicos, pediu-lhe que calçassem luvas. Os guardas, respeitadores da Lei, calçaram as luvas, vasculharam o que tinham a vasculhar e em seguida desmontaram peça a peça o carro do meu amigo que era um Mini amarelo no qual muitos anos depois, mas isso os suíços não o poderiam saber, haveríamos de ir os dois a Paris.
O meu amigo ficou com um grande pó aos suíços, incluindo o Alain Tanner que tinha feito “A Cidade Branca”. Eu o suíço de que mais gosto é do Robert Walser. E pronto. Para a semana talvez fale da Dinamarca, onde também nunca fui, mas que já me descreveram como sendo um país muito civilizado onde se matam girafas.
Como dizia, nunca lá fui. Um amigo brasileiro com quem fui há muitos anos a Paris antes de eu ter ido com ele a Paris foi sozinho à Suíça. Louro e de olhos azuis, mais louro do que um suíço louro e com os olhos mais azuis do que um suíço de olhos azuis. Na altura, imperava a ditadura brasileira e o meu amigo vivia na Europa como refugiado político. Quando chegou à fronteira da Suíça, os suíços foram muito simpáticos porque pensaram que ele era um suíço louro & tal mas mal olharam para os documentos sentiram-se ludibriados porque ele era um selvagem brasileiro vindo do Rio Grande do Sul! Engavetaram o sorriso suíço e mandaram o meu amigo tirar as malas do carro. O meu amigo obedeceu civilizadamente e eis senão quando dá pelos guardas suíços com as manápulas enfiadas nos pertences, manuseando cuecas, camisolas interiores (por causa do frio da Europa...), lâminas de barbear e panfletos anti-fascistas. O meu amigo achou aquilo muito pouco civilizado e pensou em invocar a Convenção de Genebra. Lembrando-se que haviam sido os suíços a inventar o J dos passaportes judaicos, pediu-lhe que calçassem luvas. Os guardas, respeitadores da Lei, calçaram as luvas, vasculharam o que tinham a vasculhar e em seguida desmontaram peça a peça o carro do meu amigo que era um Mini amarelo no qual muitos anos depois, mas isso os suíços não o poderiam saber, haveríamos de ir os dois a Paris.
O meu amigo ficou com um grande pó aos suíços, incluindo o Alain Tanner que tinha feito “A Cidade Branca”. Eu o suíço de que mais gosto é do Robert Walser. E pronto. Para a semana talvez fale da Dinamarca, onde também nunca fui, mas que já me descreveram como sendo um país muito civilizado onde se matam girafas.
28/01/14
Hugo Soares, a criança velha
Não verga, diz ele. A frase, para começo de conversa, denuncia um total desconhecimento da sabedoria oriental. Não é com efeito necessário ter alcançado o nirvana para saber que tudo o que não verga parte. É essa a lição dos mestres, é essa a lição do bambu: durante uma borrasca, o bambu inclina-se à passagem do vento. E o que é que aconteceu a semana passada na Assembleia da República se não um vendaval? Choveram declarações de voto: sim era afinal não. “The key word here is blackwhite”, como diria Orwell. (E o que torna tudo isto um bocadinho mais desinteressante é Orwell já o ter dito antes: “Aplicada a um membro do Partido, significa uma leal disposição para dizer que o preto é branco quando a disciplina do Partido assim o exige...”). Nada de novo debaixo do sol, portanto, descontadas as famílias concretas, as crianças concretas, que a nova lei viria proteger. Ah, o superior interesse da criança!
Deduzo, pois, e creio que sensatamente à luz das preocupações expressas por Hugo Soares com os rebentos alheios, que é do superior interesse da criança ser retirada à família e enviada sei lá, não para a Sibéria que cá não temos disso, mas para uma instituição ou para junto de parentes distantes (mesmo sem os conhecer de lado nenhum), decerto a melhor forma de garantir a “preservação das suas ligações psicológicas profundas, nomeadamente no que concerne à continuidade das relações afectivas”, para citar algo que até um deputado obtuso conseguirá entender. Neste particular, creio, estamos conversados.
Ainda assim ele não verga. Ele, Hugo Soares, não verga. E, como um batoteiro de Casino, faz uma “aposta tardia”, enquanto o seu Partido, parceiro do jogo, distrai o croupier. Aposta no Referendo, o número vencedor da indecente roleta em que se converteu o superior interesse da criança. Estaremos perante o caso típico de alguém que nos tenta convencer que o Manuel Germano se confunde com o género humano. A demagogia é coisa antiga. Antiga e eficaz. Mas até a demagogia tem de aparentar certa decência. Deixar crianças concretas desamparadas não é decente. Assim se explicará o desconforto e a chuva de declarações de voto. O que me conduz à regra de ouro das “Leis Fundamentais da Estupidez Humana” enunciadas por Carlo Cipolla: “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.”
23/01/14
Sábado haverá um pós Hugo Soares
Stress
Não quero
chocar ninguém. O caso é que há momentos na vida de um cronista em que um
cronista daria tudo para poder plagiar uma coisinha qualquer e pronto: estava
feito! «Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima,
não seria uma solução.» Drummond, isso
sei eu. Em verdade, porém, vos digo: anda por aí demasiada informação. Demasiada.
De desmaiar. Razão tinha José Sócrates quando disse: “O mundo mudou muito nas
últimas três semanas” (dou a mão à palmatória). Agora imagine-se isto – o mundo
a mudar – mas semanalmente. A acelerar feito cavalo louco, “a galopar, a
galopar”, como no poema do Rafael Alberti.
Impossível processar tudo.
Impossível! Prova: mal refeitos ainda da morte de Eusébio e do candente
problema do Panteão cadente, sem esquecer a pergunta que nos provocou a todos uma
carrada de nervos: onde é que você estava no dia 23 de Julho de
1966?, suspende-se de novo o país na bola do Ronaldo. E quando nos
recompúnhamos da bola e do “bocadinho de Ronaldo dentro de nós” (valha-nos
Deus!), eis que salta uma inusitada vara de leitões para os lados da Mealhada. Com
todas as esperanças já postas na Mealhada, veio finalmente a saber-se que tudo
afinal se resumira a uma dose de leitão cobrada a mais por engano, anti-climax tipicamente
português (Agarrem-me se não eu mato-o! ou, na versão camiliana, Maria! Não me
mates, que sou tua mãe). Siga outro assunto.
Servirá de assunto o grupo
parlamentar do PSD variar entre “co-adoção”/“adopção” e querer um referendo à
força? Passo a transcrever a prosa, trimbada e tudo, mas aviso já que, embora
tendo cumprido os 12 anos de escolaridade obrigatória que os mesmos (ou
similares) que comeram leitões na Mealhada propunham ver reduzidos a nove (isto
cada um é para o que nasce...), posso não ter alcançado o português da coisa, ortografia
incluída.
Cito: “Projeto de Resolução Nº 857/XII Propõe a realização de um referendo sobre a
possibilidade de co-adoção pelo cônjugue ou unido de facto do mesmo sexo e
sobre a possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo, casados ou unidos de
facto.” Pelas vossas alminhas!
Redacção à parte, sobre esta mania de referendar certos
temas gostaria de invocar Albert Camus, autor morto bastante mais recomendável
do que muitos vivaços que por aí andam: “A democracia não é a lei da maioria,
mas a protecção da minoria”. Fica para trabalhos de casa.
13/01/14
A gente a falar.
Uma
pessoa não quer falar do descansado do Eusébio. Uma pessoa quer falar do
“inconseguimento” e do “nível social frustacional” (não deveria ser
desfrustacional?). Uma pessoa quer dizer que lidou com o ser-do-ente do
Heidegger, o falo e a fala do Lacan, o ser-em-si e o ser-para-si do
Sartre, o Id, o Ego e o Super-ego... Inconseguimentos?! Pfft! Quantos
são?! Quantos são?! Uma pessoa quer
gritar à Helena Matos: sim, sou uma pseudo-intelectual, e depois? Depois
foi o paroxismo: o Panteão, ok, mas a meias que é mais barato. Corta!
Cena 2: Um Eusébio estoico e bailarino sobrepõe-se à novilíngua e ao Eusébio “património nacional”, apesar de o corpo ainda quente e já a falarem de money (sai uma rodada de whisky em memória do morto, paga o Soares).
Cena 3: Eusébio de copo na mão num bar dançante, velho e porte de gigante, nada a ver com a altura em centímetros, meus senhores, um senhor!
Mais cenas. O presidente da República: “uma pessoa de grande humildade” (ai a humildadezinha, ai o bolor e as inanidades). O primeiro-ministro: “um exemplo de humildade” (outra vez o caruncho?!) E o Eusébio a meter-se no texto que era para ser sobre inconseguimento e nível frustacional mais o recalibrar do ministro a dilatar a base de incidência, sem esquecer a linha precaucionária, portugueses, vocês não me atravessem a linha precaucionária, e do nada aparece “O Touro Enraivecido”, “I’me the boss! I’me the boss! I’me the boss!...” e entra de novo o Eusébio, a farsa do Império multiracial a preto e branco agora em 2014 em directo e a cores: “O facto de não ser colocado num jazigo e ir para a terra, digamos assim, poderá estar de alguma forma ligado à cultura africana?”
Ora ai está uma pergunta que nada tem de pseudo-intelectual, nem sequer de intelectual, é mesmo só muito estúpida (sai um Livro do Génesis e mais um whisky por favor), e o mesmo Eusébio que levou com o Estado Novo leva com a imprensa livre e o Estado democrático, pão e circo, os Romanos estavam fartos de saber, isto já está tudo inventado, e também tudo ligado, a língua a inconseguir-se, sobra-nos o Eusébio e já não nos sobra o Eusébio, tudo a bajular o homem, tu dá-lhes baile, tu dá-lhes baile que não foste homem de letras mas para isso esteve cá o O’Neill a chamar-te “tragalhadanças”.
Quanto à segunda figura do Estado, pois que te faça uma saúde que talvez lhe baixe o nível frustacional. Que tu descanses e eles inconsigam é o que eu desejo.
Cena 2: Um Eusébio estoico e bailarino sobrepõe-se à novilíngua e ao Eusébio “património nacional”, apesar de o corpo ainda quente e já a falarem de money (sai uma rodada de whisky em memória do morto, paga o Soares).
Cena 3: Eusébio de copo na mão num bar dançante, velho e porte de gigante, nada a ver com a altura em centímetros, meus senhores, um senhor!
Mais cenas. O presidente da República: “uma pessoa de grande humildade” (ai a humildadezinha, ai o bolor e as inanidades). O primeiro-ministro: “um exemplo de humildade” (outra vez o caruncho?!) E o Eusébio a meter-se no texto que era para ser sobre inconseguimento e nível frustacional mais o recalibrar do ministro a dilatar a base de incidência, sem esquecer a linha precaucionária, portugueses, vocês não me atravessem a linha precaucionária, e do nada aparece “O Touro Enraivecido”, “I’me the boss! I’me the boss! I’me the boss!...” e entra de novo o Eusébio, a farsa do Império multiracial a preto e branco agora em 2014 em directo e a cores: “O facto de não ser colocado num jazigo e ir para a terra, digamos assim, poderá estar de alguma forma ligado à cultura africana?”
Ora ai está uma pergunta que nada tem de pseudo-intelectual, nem sequer de intelectual, é mesmo só muito estúpida (sai um Livro do Génesis e mais um whisky por favor), e o mesmo Eusébio que levou com o Estado Novo leva com a imprensa livre e o Estado democrático, pão e circo, os Romanos estavam fartos de saber, isto já está tudo inventado, e também tudo ligado, a língua a inconseguir-se, sobra-nos o Eusébio e já não nos sobra o Eusébio, tudo a bajular o homem, tu dá-lhes baile, tu dá-lhes baile que não foste homem de letras mas para isso esteve cá o O’Neill a chamar-te “tragalhadanças”.
Quanto à segunda figura do Estado, pois que te faça uma saúde que talvez lhe baixe o nível frustacional. Que tu descanses e eles inconsigam é o que eu desejo.
08/01/14
Going right to the point
Analisar o humor, terá dito Elwyn Brooks White, um dos nomes mais
antigos da revista “The New Yorker”, “é como dissecar uma rã. Poucas
pessoas se mostram interessadas e no fim a rã morre”. A frase é certeira
e não é difícil demonstrá-lo: nada tem menos graça do que ter de
explicar onde está a graça. Quando era jovem, andar pelo mundo meio
deprimido fazia parte do charme, hoje em dia vivemos sob a ditadura do
riso (a prova é que até Cavaco Silva tenta dizer um chiste de quando em
vez, embora quando lhe chamaram palhaço tivesse ido a correr queixar-se
ao Ministério Público...).
Adiante e resumindo: seja qual for o assunto, sai uma graçola para a mesa do canto! Que fique claro: eu adoro uma boa piada e ninguém tem nada com isso. Mas, se bem se lembram, até o livro mais divertido de Roth – falo, claro de “O Complexo de Portnoy”– acaba com “O FINAL DA ANEDOTA”.
Vou tentar explicar melhor, citando outro judeu. Trata-se de um diálogo retirado do filme “Manhattan”. Isaac Davis, o próprio Woody Allen, está numa festa e pergunta: “Has anybody read that Nazis are gonna march in New Jersey? (…) We should go down there, get some guys together, y'know, get some bricks and baseball bats and really explain things to them.” Comenta um convidado: “There is this devastating satirical piece on that on the Op Ed page of the Times, it is devastating.” E insiste Isaac Davis: “Well, a satirical piece in the Times is one thing, but bricks and baseball bats really gets right to the point.” (fim da citação)
Não me interpretem mal. Não se trata de apelar à violência, como o fizeram há pouco Mário Soares, Papa Francisco e o Rodrigues Guedes de Carvalho. Trata-se tão-só de às vezes me apetecer dizer: “Onde é que está a graça, oh idiota?”.
Foi exactamente isso que senti perante o anúncio de umas malas, inspiradas em (cito) “emoções fortes”, a que designers portugueses (e quem sou eu para os desmentir...) chamaram “Warsaw safe box”: “Imagine-se nos anos 40 em Varsóvia olhando para as pessoas que correm pelas ruas tentando escapar ao caos em que a cidade submergira. Tinham de deixar tudo para trás: as casas, a vida a que estavam habituadas, provavelmente para nunca mais voltarem... Mas no interior das malas levavam jóias, relógios, tudo o que tinham de mais valioso, tudo o que não podiam deixar entregue à cruel destruição.”
Agora digam-me: o Isaac Davis tinha ou não tinha razão quanto aos tijolos e aos tacos de baseball?
Adiante e resumindo: seja qual for o assunto, sai uma graçola para a mesa do canto! Que fique claro: eu adoro uma boa piada e ninguém tem nada com isso. Mas, se bem se lembram, até o livro mais divertido de Roth – falo, claro de “O Complexo de Portnoy”– acaba com “O FINAL DA ANEDOTA”.
Vou tentar explicar melhor, citando outro judeu. Trata-se de um diálogo retirado do filme “Manhattan”. Isaac Davis, o próprio Woody Allen, está numa festa e pergunta: “Has anybody read that Nazis are gonna march in New Jersey? (…) We should go down there, get some guys together, y'know, get some bricks and baseball bats and really explain things to them.” Comenta um convidado: “There is this devastating satirical piece on that on the Op Ed page of the Times, it is devastating.” E insiste Isaac Davis: “Well, a satirical piece in the Times is one thing, but bricks and baseball bats really gets right to the point.” (fim da citação)
Não me interpretem mal. Não se trata de apelar à violência, como o fizeram há pouco Mário Soares, Papa Francisco e o Rodrigues Guedes de Carvalho. Trata-se tão-só de às vezes me apetecer dizer: “Onde é que está a graça, oh idiota?”.
Foi exactamente isso que senti perante o anúncio de umas malas, inspiradas em (cito) “emoções fortes”, a que designers portugueses (e quem sou eu para os desmentir...) chamaram “Warsaw safe box”: “Imagine-se nos anos 40 em Varsóvia olhando para as pessoas que correm pelas ruas tentando escapar ao caos em que a cidade submergira. Tinham de deixar tudo para trás: as casas, a vida a que estavam habituadas, provavelmente para nunca mais voltarem... Mas no interior das malas levavam jóias, relógios, tudo o que tinham de mais valioso, tudo o que não podiam deixar entregue à cruel destruição.”
Agora digam-me: o Isaac Davis tinha ou não tinha razão quanto aos tijolos e aos tacos de baseball?
11/12/13
O Meu Reino Não É Deste Mundo
Não interessará nada, mas mudei de bairro. “Vai aonde te leva o coração” escreveu a italiana Susanna Tamaro. Nunca li. No meu caso foi mais: “vai aonde te leva a crise”. A crise levou-me a um simpático bairro.
Não me queixo. Há quem viva debaixo da ponte, diria a Isabel Jonet que tem estado calada. Se o outro bairro era agitado, este é calmo. Se no outro havia jovens em barda, neste dominam os velhos (eu própria devo estar a ficar velha, tal e qual o António Lobo Antunes).
Gosto do ambiente. Calcorreio a calçada (portuguesa, por enquanto) e perco-me em percursos elípticos que me afastam cada vez mais de casa. O desenho das ruas nada tem de cartesiano. Em vez de um centro, um traçado curvilíneo que persigo aleatoriamente (no espaço-tempo curvo não há rectas nem esquinas pontiagudas...).
Aproveito as compras e os passeios com a cadela para o descobrir. O louco da travessa de cima que gosta de cães. Opequeno lugar/café vazio onde nunca entrei porque o homem atrás do balcão tem carranca de fascista, que ainda os há (e confirmam-me ojeito para retratista: é ruim como as cobras!). A drogaria que mistura tintas, vassouras, detergentes, louça antiga e um caixote de limões. A loja de candeeiros a que chamam hospital dos ditos. A padaria do mercado onde o cheiro do (bom) café vence os eflúvios do peixe. A serraçãoimprovisada que também vende torneiras e outros encanamentos domésticos. A florista despretensiosa que sabe os nomes das plantas em latim (ou similar). A pastelaria que cheira a bolos de arroz. A loja de velharias. De livros em 2ª mão.
Muita coisa fechou. Está a fechar. Às compras, eu e os velhos. Para cima e para baixo, ziguezagueando copernicamente ao ritmo do sol que bate nos passeios.
12/10/13
Ballet rose?
A
primeira coisa a dizer sobre as eleições autárquicas é que a palavra
“autárquicas” é difícil de pronunciar. A segunda é que o chamado “arco da
governação”, versão elegante do vernáculo “alterne”, foi castigado pelo voto. Sócrates
falou em débâcle, palavra francesa
para “desastre”, “fracasso” ou “queda”. Mas se falou em “queda” não falou em
Albert Camus – tentou apenas citar de Gaulle. Note-se, en passant (de passagem), que dé-bâ-cle
é um vocábulo cheio de potencialidades: Débâcle,
light
of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Dé-bâ-cle. Nabokov
não faria melhor. Literatura à parte, a terceira conclusão a tirar é que se na noite
das eleições o PS tinha ganho, na manhã seguinte o PS tinha perdido. Portugal
será por natureza um país dado aos paradoxos e isso explicará também que
tenhamos como vice-primeiro-ministro o chefe de um partido cujas câmaras
municipais se resumem a cinco num universo de 308. É o penta! É o penta! (estou
a citar). Deixando de lado análises mais profundas – aos comentadores o que é
dos comentadores –, que teriam de incluir a vitória do PCP (o Alentejo é
vermelho, olarilas), de Rui Moreira no Porto (“não percebem nada disto”), de
António Costa em Lisboa (os ciclistas deram uma abada aos taxistas), ou dos
abstencionistas e demais vencidos da vida, o verdadeiro fenómeno foi o triunfo de
Isaltino Morais em Oeiras, mesmo se por interposta pessoa, o que deu inclusive direito
a fogo-de-artifício junto à cadeia de Caxias. Ficámos a saber que existem celas
para fumadores, o que me parece bastante civilizado, e também que entre um
ex-inspector da Judiciária e um condenado da Justiça, vence o segundo. Isto
daria um romance que, esperamos, Moita Flores nunca escreva.
12/09/13
Crónica do Farol
Se, de acordo com o Génesis, foi Adão quem deu nome a todos as criaturas, de acordo com os estudos clássicos foi Aristóteles o primeiro a classificá-las. Sistematicamente. Teologia e filosofia à parte, já toda a gente viu uma criança a fazer “montinhos” de coisas, reunindo-as homogeneamente pela cor, forma, quantidade, etc. A minha geração, pelo menos, lembrar-se-á decerto dos cartoons publicados durante décadas na imprensa, e que consistiam em dois desenhos só na aparência iguais: o título era “Descubra as Diferenças” (este e outros passatempos foram substituídos a posteriori pelo Sudoku, um quebra-cabeças oriental que também terá contribuído, muito antes de ter entrado em vigor o (des)Acordo Ortográfico, para a decadência das Palavras Cruzadas).
Não estarei longe da verdade se arriscar que “fazer montinhos” parece constituir característica essencial da natureza humana: dos jogos infantis à taxonomia científica, reunir e classificar afiguram-se bons candidatos à segunda mais velha profissão do mundo. Tenho para mim que de todos os conjuntos possíveis compostos por elementos humanos – seres que apreciam/detestam gelatina, seres que diabolizam/aplaudem o Tribunal Constitucional, etc. – os conjuntos mais díspares entre si são os que contêm as pessoas que gostam/não gostam de ilhas. Dentro do conjunto das pessoas que gostam de ilhas, existe o subconjunto das pessoas que gostam de ilhas pequeninas. E, dentro deste, o subconjunto constituído pela personagem criada por D. H. Lawrence. Claro que a conhecida frase de John Donne “Nenhum homem é uma ilha” vem baralhar o raciocínio (qualquer que ele fosse). E agora perdi-me. (Quem nunca se perdeu numa ilha que atire a primeira pedra).
Não estarei longe da verdade se arriscar que “fazer montinhos” parece constituir característica essencial da natureza humana: dos jogos infantis à taxonomia científica, reunir e classificar afiguram-se bons candidatos à segunda mais velha profissão do mundo. Tenho para mim que de todos os conjuntos possíveis compostos por elementos humanos – seres que apreciam/detestam gelatina, seres que diabolizam/aplaudem o Tribunal Constitucional, etc. – os conjuntos mais díspares entre si são os que contêm as pessoas que gostam/não gostam de ilhas. Dentro do conjunto das pessoas que gostam de ilhas, existe o subconjunto das pessoas que gostam de ilhas pequeninas. E, dentro deste, o subconjunto constituído pela personagem criada por D. H. Lawrence. Claro que a conhecida frase de John Donne “Nenhum homem é uma ilha” vem baralhar o raciocínio (qualquer que ele fosse). E agora perdi-me. (Quem nunca se perdeu numa ilha que atire a primeira pedra).
10/07/13
Da cultura geral
O que são swaps? Os meus conhecimentos escasseiam
para poder responder com propriedade à questão, mas sinto-me absolutamente apta
a explicar o que são suapes. A
definição de suapes, ao invés da
definição de swaps, não apresenta
qualquer dificuldade, evitando-nos mesmo a maçada de ter de distinguir entre os
swaps de Maria Luís Albuquerque e os
outros. Os suapes nunca são tóxicos, tratando-se de um
artefacto simples, contrariamente aos swaps
que, como li em algum lado, não me lembro agora onde, “São documentos
supercomplexos. Alguns deles indexam os pagamentos ao algoritmo”. Nos últimos
tempos, as matérias financeiras têm ganho uma urdidura tal que quase se afigura
mais fácil entender mecânica quântica, para não falar de Lacan. A histeria invasiva
da linguagem economicista parece mesmo apontar para um novo paradigma, no qual
a tradicional oposição entre as Duas Culturas cede lugar à oposição entre os
economistas e o resto do mundo. Por exemplo, estou convencida que nem
Schrödinger nem o seu gato conseguiriam perceber como é possível, ao mesmo
tempo, promover o desemprego e combater a recessão. Talvez o mundo físico,
apesar da sua inegável complexidade, seja afinal mais fácil de captar do que o
mundo dos swaps, hipótese que os suapes corroboram. Parafraseando Jonathan
Swift (“Meditação Acerca de uma Vassoura”), vou chamar-lhes “pau singelo”. A
sua história remonta a 1496, data em que foram vistos pela primeira vez em
navios ingleses. A função manter-se-ia, tendo embora o seu design sofrido vários aperfeiçoamentos, o último já em meados do
séc. XX. Recebe várias designações, sendo suape
o nome por que é conhecido na República Dominicana. Em Portugal é vulgarmente
chamado esfregona.
22/06/13
A benefício de inventário
Quando se fizer o inventário do primeiro semestre de 2013, o lançamento do livro “Servidões” de Herberto Helder terá decerto lugar de destaque. Outro item cuja inclusão antecipo diz respeito a Vítor Gaspar, e ao momento em que o ministro confessou ter ficado admirado com o facto de o Inverno nesse ano ter sido…ora bem, invernoso.
Não tendo muito jeito para listas (Umberto Eco que me perdoe) sou ainda assim capaz de me lembrar da recomendação de Aníbal Cavaco Silva aos portugueses para que fizessem ginástica, recomendação tanto mais memorável quanto proferida a 10 de Junho, dia de Camões, poeta que, é do conhecimento público, só por se encontrar em excelente forma física conseguiu salvar a nado a sua obra.
Outros eventos. Foi por essa altura que o país se disputou com violência inaudita em torno de um miúdo que vendia T-shirts, no qual alguns lobrigaram o empreendedorismo de uma Fátima Lopes e outros entreviram a perfídia de um Iago capitalista.
Mais coisas. Ficámos a saber que Passos Coelho, indiferente aos conselhos paternos (“vais-te lixar!”), decidira recandidatar-se, tendo obtido de imediato o apoio de Miguel Poiares Maduro, doutorado que mostrava assim ter desassistido a hipótese de um governo de iniciativa presidencial (emprestando todo um outro sentido à conhecida sentença: “Nunca aceitaria pertencer a um clube que me aceitasse como sócio”).
Mas o cardápio de frases célebres ficaria incompleto sem aquela que se ouviu ao deputado José Manuel Canavarro que, respondendo a insultos do público presente nas galerias da AR, protestou alto e bom som: “As nossas mães não são para aqui chamadas!”
Não tendo muito jeito para listas (Umberto Eco que me perdoe) sou ainda assim capaz de me lembrar da recomendação de Aníbal Cavaco Silva aos portugueses para que fizessem ginástica, recomendação tanto mais memorável quanto proferida a 10 de Junho, dia de Camões, poeta que, é do conhecimento público, só por se encontrar em excelente forma física conseguiu salvar a nado a sua obra.
Outros eventos. Foi por essa altura que o país se disputou com violência inaudita em torno de um miúdo que vendia T-shirts, no qual alguns lobrigaram o empreendedorismo de uma Fátima Lopes e outros entreviram a perfídia de um Iago capitalista.
Mais coisas. Ficámos a saber que Passos Coelho, indiferente aos conselhos paternos (“vais-te lixar!”), decidira recandidatar-se, tendo obtido de imediato o apoio de Miguel Poiares Maduro, doutorado que mostrava assim ter desassistido a hipótese de um governo de iniciativa presidencial (emprestando todo um outro sentido à conhecida sentença: “Nunca aceitaria pertencer a um clube que me aceitasse como sócio”).
Mas o cardápio de frases célebres ficaria incompleto sem aquela que se ouviu ao deputado José Manuel Canavarro que, respondendo a insultos do público presente nas galerias da AR, protestou alto e bom som: “As nossas mães não são para aqui chamadas!”
Chegada aqui, só me resta pedir desculpa a Herberto Helder por o incluir em tal lista…
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