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06/08/22

NÃO PERCEBO, NEM QUERO PERCEBER, DE TÁCTICAS MILITARES MAS É-ME IMPOSSÍVEL NÃO ACHAR ESTRANHO QUE OS RUSSOS SE BOMBARDEIEM A SI PRÓPRIOS

Aprende-se muito com a literatura. Por exemplo, com Elizabeth Finch de Julian Barnes onde um dos capítulos é dedicado a Juliano, o Apóstata, o último imperador pagão de Roma que mandou queimar a sua própria frota para não a deixar como oferta ao inimigo.

Vem isto a propósito de os russos terem, segundo os ucranianos, bombardeado a maior central nuclear da Europa que eles próprios ocupam. 

«Estou extremamente preocupado com os bombardeamentos de ontem [sexta-feira] da maior central nuclear da Europa, o que sublinha o risco muito real de uma catástrofe nuclear que ameaça a saúde pública e o ambiente, na Ucrânia e não só", advertiu Grossi numa declaração divulgada em Viena, considerando que se “está a brincar com o fogo".

Moscovo e Kiev acusaram-se hoje mutuamente de comprometerem a segurança da central nuclear de Zaporiyia, a maior da Europa.

Grossi recordou que, segundo as autoridades ucranianas, não houve danos nos reactores nem emissão de radiações, mas houve danos em outras partes da central.

O chefe da agência das Nações Unidas para a energia nuclear considerou "completamente inaceitável" a colocação da central em perigo e argumentou que visá-la militarmente é "brincar com o fogo", podendo ter "consequências potencialmente catastróficas".

"Apelo veemente e urgentemente a todas as partes para que exerçam a máxima contenção nas proximidades desta importante instalação nuclear com seis reactores", escreveu.

Grossi voltou a oferecer a disponibilidade da AIEA para realizar uma missão de verificação no local e "evitar que a situação fique ainda mais fora de controlo".

O diretor da AIEA expressou em Junho a sua vontade de visitar a central controlada pela Rússia, mas a Ucrânia criticou veementemente esses planos, alegando que a viagem do funcionário argentino da ONU poderia ser entendida como uma legitimação da ocupação russa. (...)

O Presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, acusou a Rússia através de uma mensagem de vídeo de "voltar a criar uma situação extremamente perigosa para toda a Europa”: “bombardearam a central nuclear de Zaporiyia duas vezes".

Moscovo, que controla esta instalação praticamente desde os primeiros dias da sua campanha militar na Ucrânia, contestou as declarações, classificando, pelo seu lado, Kiev de ser promotora do "terrorismo nuclear". (...)»

09/08/10

A book a day keeps the doctor away: "O Papagaio de Flaubert", Julian Barnes

O papagaio de Flaubert antes de ser de Flaubert, ou sequer de Barnes, foi de Félicité, a eterna criada de madame Aubain retratada pelo mestre em Um Coração Simples, conto extraordinário, perfeito, como quase tudo o que saiu da pena do autor de Madame Bovary.
Tantos anos passados, o inglês Geoffrey Braithwaite atravessa o Canal (Barnes, o próprio, fá-lo-ia também para escrever precisamente o conjunto hilariante de histórias Do Outro Lado do Canal) com o objectivo de observar, in loco, o papagaio que havia servido de inspiração a Flaubert.
O animal está embalsamado, tal qual ficaria no final de Um Coração Simples, a ordens de Félicité que se iria também pouco depois, confundindo beatificamente a ave com o Espírito Santo.
Mas será o papagaio do Museu de Rouen, de facto, o de Flaubert? Assim parece mas, entretanto, um outro papagaio...
Julian Barnes, francófono assumido, escreve aqui um genial ensaio, apresentando-o sob a forma de romance, numa mescla de géneros que dá ao conceito de híbrido um sabor irresistível. Se toda a gente soubesse falar assim dos clássicos, estes conquistariam de certeza o coração de mais leitores. Primeira conclusão.
Segunda: Barnes é um grandessíssimo escritor. Vencedor de vários prémios, O Papagaio de Flaubert foi agora reeditado. Educação sentimental que mistura biografia com humor (a rodos) e envereda descontraidamente pelo pastiche, pelo policial (?), levando-nos a concluir pela impossibilidade das respostas definitivas, o livro questiona o mestre para lhe dar razão.
O obcecado pela objectividade do “mot juste”, o defensor convicto do apagamento do autor (apesar do paradoxo de “Madame Bovary c’est moi”), é esquadrinhado por Braithwaite, seu fã incondicional, que busca o homem por detrás da obra. Mas qual o papagaio que se pode reclamar, realmente, do eremita de Croisset?
Se há título que consegue aliar divertimento e inteligência é este. Porque o texto, claro, é digno do seu objecto.
O Papagaio de Flaubert, Julian Barnes, Quetzal, 2010

31/05/08

Livros que valem a pena

Pessoa só estava certo às vezes. Ou seja, isto nem sempre se aplica: «Ai que prazer/ Não cumprir um dever/ Ter um livro para ler/ E não o fazer!». Porque se certos livros são mesmo uma «maçada», nem por aproximação o adjectivo condiz com A Mesa Limão.
Não é preciso subscrever a teoria dos géneros de Todorov, nem sequer ter lido A Filosofia da Composição de Poe, para intuir que o conto tem que se lhe diga. Abreviando: se o romance, pela sua dimensão, permite certos deslizes (quem não acertar numa frase menos feliz de Proust que atire a primeira pedra...), em texto curto as mazelas são visíveis a olho nu, irremediáveis e, eventualmente, mortais. Ora, nada disso acontece nestes contos de Julian Barnes, cuja mestria para o género já ficara comprovada, por exemplo, no hilariante Do outro lado do Canal.
Neste caso a morte substiui-se à França enquanto tema unificador, filtrada aquela pelo envelhecimento das personagens (algumas inesquecíveis). E para arrumar já A Mesa Limão na prateleira certa: embora diferente na forma e estilo, pode ele emparceirar, pelo talento e matéria, com outros dois livros igualmente possuídos pela passagem do tempo – O Animal Moribundo, de Philip Roth, e Diário da Guerra dos Porcos, de Adolfo Bioy Casares.
O tom fica dado na abertura, com «Uma Breve História do Penteado»,
tríptico do mesmo homem que se senta no barbeiro em três idades diferentes, nunca, na verdade, perdendo o medo atávico de se fazer tosquiar, o mesmo que em criança o paralizava quando, acompanhado pela mãe, esta lhe definia o corte: «curto atrás e aos lados e em cima um bocado menos».
«A História de Matd Israelson», que recorda Tchékhov, é uma obra-prima de construção, relato da relação amorosa nunca consumada entre Anders Bodén e Barbro Lindwall, finalmente desfeita pela morte dele, o amor previamente desbaratado num diálogo equívoco.
«Reviver», outra história de amor (entre um homem velho e uma jovem fogosa), mergulha na vida do escritor russo Ivan Turgenev e casa na perfeição nostalgia e ironia: «Ele continuou a invocá-la até à morte. Foi, num sentido, a sua última viagem, a última viagem do coração. “A minha vida ficou para trás”, escreveu, “e aquela hora passada no compartimento do comboio, onde quase me senti como um rapaz de vinte anos, foi a última explosão da chama.” Quer isto dizer que quase teve uma erecção?».
Em «Saber Francês», exemplo maior do chamado humor à inglesa, o estilo epístolar dá-nos a ler as cartas que uma idosa francófona, recolhida num lar, dirige ao próprio Barnes, também ele um amante da língua e da pátria de Flaubert (e quem nunca leu o O Papagaio de Flaubert não sabe o que perde...), interrompidas no fim pela morte da remetente.
«Vigilância» retrata um casal de homossexuais, um deles melómano enfurecido pelo crescendo de tosse e espirros nos concertos; «Apetite» utiliza uma das paixões confessadas de Barnes (a cozinha) para narrar um pungente episódio de senilidade; «A Gaiola da Fruta» faz da sexualidade tardia o tema central...
Os 11 títulos – tão à-vontade na tragédia como na comédia, no humor como na melancolia, no vernáculo como no erudito, nos assuntos da alma como do corpo – são a prova de que a literatura ainda nos consegue provocar aquele «arrepio na espinha», de que falava Nabokov, o menos sentimental dos escritores.
Resumindo: Barnes terá envelhecido e, com ele, as suas personagens. Como o vinho do Porto, quanto mais velho melhor.