Há uma frase de Paul Valéry que creio assentar como uma luva à escrita de Teolinda Gersão: “ Ce qu’il y a de plus profond chez l’homme, c’est la peau”. (Traduzo, para quem já esqueceu o francês: “O que há de mais profundo no homem é a pele”).
Escritora discreta, apesar do reconhecimento, “As águas livres – Cadernos II” é a sua obra mais recente. O caderno I ficou lá para trás (1984) e chamou-se “Os guarda-chuvas cintilantes”, facto que a própria se encarrega de nos lembrar agora: «O primeiro, a que na altura não chamei Caderno, foi "Os guarda-chuvas cintilantes". Dei-lhe como subtítulo Diário, o que provavelmente desconcertou os leitores. Na verdade, é um diário heterodoxo, que quebra os dois pilares em que era suposto assentar: o eu e o tempo (…).»
Confessadamente adversa a ortodoxias (nomeadamente, à dos “formatos”), Teolinda Gersão lança “As águas livres” a seguir ao romance “A Cidade de Ulisses”, surpreendendo-nos com um livro algo inclassificável. Com facilidade encontramos nele, pelo menos, três registos: o explicativo, o reflexivo e o descritivo. A sua organização e conteúdo fragmentários atravessam territórios vastíssimos, geografias diversas (dentro e fora do país) – aventurando-se também com mestria pelo universo dos sonhos –, desrespeitam o tempo-sequência, invocam questões/filiações literárias, não desprezam a política, sendo, no essencial, um exercício delicado de “atenção” ao mundo.
A oficina é discreta, o narrador é despretensioso, o texto nunca se põe em bicos de pés. A sabedoria não chega com fanfarras, a palavra dispensa paramentos, o estilo (essa dificuldade de expressão a que se referiu Mário Quintana) é desataviado. «Kierkegaard aparece às vezes de visita.» (estou a citar).
Teolinda Gersão, As Águas Livres – Cadernos II, 2013, Sextante
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10/10/13
05/02/13
A book a day keeps the doctor away: Engano, Philip Roth
Eis um divertissement que requer alguma coragem.
Publicada originalmente em 1990, “Engano” é uma novela que tem como tema o
adultério mas em que os verdadeiros “enganados”, se os há, são os leitores de
Roth.
Os temas, tratados aqui recorrendo apenas à forma de diálogo, são os
habituais: a escrita, a solidão, a América, o judaísmo, Israel, as mulheres, a
esquerda, o envelhecimento.
Amantes adúlteros conversam. Quem conversa com quem
é uma interrogação que só a início perturbará o leitor. Depois o texto vai-se
compondo com mestria, num sedutor exercício de prestidigitação, hipnotizados que ficamos pelo número
de magia revelado paulatinamente à medida que avançamos na leitura.
Quem é
Philip, a personagem masculina, escritor americano e judeu, adúltero rendido a
uma mulher mais nova, suficientemente neurótica para que ele se interesse por
ela? Roth, claro, tantas são as pistas que nos são dadas. Mas logo a conclusão
parece precipitada, e é o próprio Philip (personagem) quem nos baralha os
indícios, colocando-nos a nós, leitores, no papel da mulher legítima que
confunde ficção e literatura, manipulação e verdade. Confundirá?
A pergunta
nunca chega a ter uma resposta satisfatória, enredada no paradoxo do mentiroso,
sendo o mentiroso, e isto é inevitável, aquele que escreve.
O próprio, aliás, considerará
a questão despicienda (“Quando um romancista digno desse nome [chega a uma
certa idade], já não traduz a sua experiência numa fábula: impõe a sua fábula à
experiência”).
Paródia de si próprio, “Engano” ficciona o escritor, ou a imagem
pública do escritor, divertindo-se a baralhar as cartas, numa variação irónica
do verso de Pessoa: “O poeta é um fingidor…”. No fim, vence em casa, claro.
Philip Roth, Engano, D. Quixote, 2013,
trad. de Francisco Agarez
18/12/12
A book a day keeps the doctor away: "Os Superficiais"
O tema anda a ser falado por aí. António Damásio, por
exemplo (que é citado por Nicholas Carr), referiu-se-lhe a “vol d’oiseau” em “O
Livro da Consciência”: “(…) as capacidades geradas pelas multitarefas [da era digital] trazem vantagens
espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem
associativas, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual
poderá ser esse custo.”
Carr dedica ao assunto um livro inteiro, significativamente chamado: “Os Superficiais”. O resto do título define com igual clareza a sua área de estudo: “O que a Internet Está a Fazer aos Nossos Cérebros”.
Défice
de atenção e dificuldade de memorização são alguns dos pavores que assombram a
educação, mesmo se, infelizmente, os responsáveis preferem distrair-se com polémicas
oitocentistas. A tese de Carr é clara: as vantagens do uso da Internet não podem
fazer esquecer os seus malefícios – que não são poucos: “A internet é uma
tecnologia do esquecimento” (pág. 239).
“Os Superficiais” é um passeio
fascinante pelas alterações que as novas tecnologias estão a introduzir na
nossa mente (e também no nosso comportamento emocional). A obra assenta em dois
pilares fundamentais: na neuroplasticidade (o cérebro individual não é uma
estrutura de betão e “educa-se” ao longo da vida com a experiência) e na famosa
convicção de McLuhan: “O meio é a mensagem”. Entre as visões
determinista e instrumentalista da tecnologia, Carr tenta uma 3ª via, mas,
embora as suas conclusões não sejam apocalípticas, algum desconforto se instala
no leitor quando o acaba de ler: estará a internet a embrutecer-me?
Depois
pensamos: se ele próprio conseguiu escrever 326 páginas sobre isso talvez ainda
haja esperança!
Os Superficiais - O que a internet
está a fazer aos nossos cérebros, Nicholas Carr, Gradiva, 2012, trad. de Luiza Alves da Costa, 326 páginas
16/04/12
A book a day keeps the doctor away: "A Filha do Optimista", Eudora Welty
O que escrever e como escrever sobre um livro ao qual assenta como uma luva o atributo perfeito? Porque é de perfeição que falamos quando falamos de A Filha do Optimista de Eudora Welty (apenas uma nota de perplexidade: a Relógio D’Água optou por manter o “p” de “optimista” no título embora no corpo do romance se opte pela grafia segundo o (des)acordo ortográfico).Eudora Welty (1909-2001) é um dos muitos nomes “sulistas” que fazem grande a literatura dos EUA. O romance agora traduzido, vencedor do Pulitzer em 1973 mas já publicado numa versão curta de conto em “The New Yorker” no ano de 1969, narra o confronto entre duas jovens mulheres separadas pela geografia e pela cultura: Laurel e Fay. A primeira é filha do juiz McKelva, a segunda é a sua actual mulher, com quem o juiz casou há ano e meio após enviuvar da mãe de Laurel.
As três personagens encontram-se de momento em Nova Orleães, cidade onde McKelva veio a uma visita médica que acabará por complicar-se tragicamente. Pai e filha são nascidos no Mississípi, embora Laurel viva e trabalhe em Chicago; quanto a Fay, é originária do Texas e apenas se mudou para Mount Salus após o casamento. Muito mais nova do que o marido, não leva a sério o problema de saúde do juiz, ao contrário da filha deste que, intuindo a gravidade do caso, se metera no primeiro avião para o acompanhar ao médico.
O triângulo do conflito fica magistralmente desenhado no primeiro parágrafo: “Uma enfermeira segurou a porta para eles entrarem. Primeiro o juiz McKelva, em seguida a filha, Laurel, e por último a esposa, Fay, penetraram no gabinete sem janelas onde o médico ia observá-lo. O juiz McKelva era um homem alto e pesado, de setenta e um anos, que habitualmente usava os óculos presos a uma fita. Com eles na mão desta vez, sentou-se na cadeira elevada, como um trono, mais alta do que o banco do médico, com Laurel de um lado e Fay do outro.”
A mesma economia e aparente simplicidade narrativas atravessarão as cerca de 130 páginas de A Filha do Optimista, decididamente o melhor texto longo de Eudora Welty, conhecida, sobretudo, pelos seus contos. O romance está dividido em três partes distintas e atravessa-o uma contenção desprovida de qualquer sentimentalismo, apesar de o tema se prestar a isso: um homem justo e velho casa-se com uma mulher jovem de poucos escrúpulos. Após a sua morte, a filha, dedicada, culta e bem-formada, confronta-se com a memória do passado (o que inclui, naturalmente, a memória da sua própria mãe), acabando por, nesse processo, confrontar também a provinciana madrasta com o seu comportamento condenável. O risco de se cair num registo maniqueísta e moralista é, porém, completamente evitado por Welty que consegue com mestria deixar-nos com uma obra aberta, na qual o contraste moral entre as duas mulheres – fundado nas suas origens culturais e geográficas – se deixa ler na sua absoluta individualidade e humanidade, sem recurso a quaisquer ardis extraliterários.
O mais impressionante em A Filha do Optimista residirá, aliás, na forma sage como consegue manter em suspenso o conflito entre as duas personagens femininas principais, criando no leitor uma sensação de incomodidade que se vai avolumando, à semelhança de uma onda gigante que se nega a rebentar, preferindo desfazer-se em espuma. E mesmo na cena final em que Laurel e Fay se enfrentam, o resultado é surpreendente (dramática e moralmente surpreendente), preferindo Laurel guardar a memória dos mortos a vingar-se dos vivos. Uma pequena obra-prima.
A Filha do Optimista, Eudora Welty, Relógio D’Água, 2012, tradução de Margarida Periquito
09/04/12
A book a day keeps the doctor away: "O Doutor Glas", Hjalmar Söderberg

Com introdução assinada por Margaret Atwood em 2002, chega-nos O Doutor Glas, novela do sueco Hjalmar Söderberg (1869-1941) publicada originalmente em 1905. Nela estão presentes temas como o aborto e a eutanásia, o que talvez explique o escândalo que acompanhou a sua primeira edição.
Como bem sublinha a escritora canadiana, o “escândalo”, porém, é apenas uma parte ínfima do interesse que O Doutor Glas desperta até hoje.
Escrito sob a forma de um diário pelo próprio protagonista, Tyko Gabriel Glas, o livro descreve de forma contida, e aparentemente muito simples, a escolha (moral) de Glas, médico que, indiferente aos valores subjacentes à sua profissão, se sente obrigado a escolher entre uma mulher e o seu “repugnante” marido, o reverendo Gregoruis.
O arbítrio, neste caso, exige radicalismo, e entre reflexões racionais e ansiedades inexplicáveis, vamos assistindo ao adensamento da trama, mas com tal subtileza (e leveza) que é como se tudo se passasse numa espécie de anticlímax contínuo.
A acção decorre num plano quase silencioso, onde o não-dito assume papel fundamental. Não há crime e castigo e, nesse sentido, Glas é bem mais moderno que Raskólnikov.
O livro, e não há forma de discordar de Atwood, é, em si mesmo, absolutamente moderno, na medida em que recorre a todas as estratégias literárias que fazem o grande romance do último século: papel ao inconsciente, derivas narrativas, cortes burlescos, anti-heróis individualistas, crítica da hipocrisia social, desejo e sexo…
Tudo isso está em Hjalmar Söderberg, mais os terrores nocturnos que terá ido buscar a Poe, exposto sem alarde nem espalhafato, num registo elegante que esconde um vulcão prestes a explodir. Belíssimo.
O Doutor Glas, Hjalmar Söderberg, 2012, Relógio D’Água, tradução de Miguel Serras
Pereira
15/03/12
A book a day keeps the doctor away: "Poeira da Alma", Nicholas Humphrey
Começando pelo fim. No último capítulo de Poeira da Alma, o reputado psicólogo evolucionista Nicholas Humphrey cita o filósofo Tom Nagel, um crítico das teorias reducionistas da mente (“Sem consciência, o problema mente/corpo seria muito menos interessante. Com consciência parece insolúvel”), reformulando-lhe a frase: “sem consciência, os seres humanos seriam muito menos interessantes. Com consciência, parecem quase demasiado interessantes para serem traduzidos em palavras”.Arriscar em palavras uma nova teoria da consciência é o objectivo de Poeira da Alma. Um risco justificado logo no início quando, a propósito de uma crítica a obra anterior, então classificada
como “apenas profundamente interessante”, Humphrey pergunta: (…) quem quereria ter um epitáfio a dizer que as suas ideias eram ‘apenas profundamente interessantes’?”
O humor. O humor atravessa o livro, naquele registo reconhecidamente britânico, capaz de rir de coisas sérias. E a consciência é um caso sério. Tão sério, que há quem garanta que é um problema – cientificamente – impossível. Mais ainda do que os “objectos impossíveis” cujas imagens são reproduzidas ao longo das páginas, começando pelo “triângulo de Penrose”, “ilusão de perspectiva” que Humphrey vai “transpor” para o tema da consciência, registando-a, afinal, como
um cenário de magia que nós próprios criamos dentro das nossas cabeças.
Tal cenário, contudo, tem finalidade biológica, é fruto da evolução das espécies e mesmo funda a espiritualidade humana, que o investigador, aliás, distingue do espírito religioso, avançando até “que provavelmente a espiritualidade ainda é mais adaptativa sem a religião”.
Um ensaio fascinante e provocador.
Poeira da Mente, A Magia da Consciência, 2012, tradução de Ana Falcão Ramos, Gradiva
01/03/12
A book a day keeps the doctor away: "Contos Escolhidos", Isaac Babel
Os livros é como tudo: há maus, medíocres, sofríveis, bons e excelentes. Contos Escolhidos, Isaac Babel (1894-1940), pertence à última categoria.Apesar do título que, dir-se-ia, deixa muita coisa de fora, a obra do russo foi curta no género – preferiu o conto – e na quantidade.
Uma das filhas, Nathalie Babel, organizou-a postumamente e, em 2002, As Obras Completas de Isaac Babel surgiram em inglês traduzidas do russo por Peter Constantine, reunindo cronologia e notas, uma introdução da norte-americana Cynthia Ozick e prefácio da própria filha. No total, 1072 páginas, incluindo prosa memorialista e argumento para filme nunca realizado. Número suficiente para um escritor de quem se diz ter dito que, ao contrário de Tolstoi, capaz de narrar ao minuto os acontecimentos do dia, preferia ir directo ao assunto e atacar logo os cinco minutos principais.
Alguns amantes de Babel (entre os quais Jorge Luis Borges, e o brasileiro Rubem Fonseca que andou com ele ao colo em Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos) aguardarão ainda a descoberta de inéditos. A vida aventureira e, finalmente, trágica do escritor permite pensar assim.
Nascido em Odessa no seio de uma família judaica, numa altura em que os pogroms serviam ainda de inspiração ao humor de Sholem Aleichem (escritor que, aliás, Babel traduziu do iídiche para russo), muda-se para São Petersburgo onde abraça a causa bolchevique e encontra o seu mentor, Máximo Gorgi. A morte deste último em 1936 alia-se à praga do “realismo socialista” a que acresce a paranóia estalinista. Babel é preso em 1939, acusado de traição, sujeito a tortura e executado. Os seus manuscritos são confiscados e o seu nome banido. Décadas antes, em 1934, durante o Congresso da União de Escritores Soviéticos, gracejara sobre a sua condição de escritor sob suspeita, comentando que estava a tornar-se «num mestre de um novo género literário, o género do silêncio”.
Contos Escolhidos reúne textos subtraídos, sobretudo, a Exército de Cavalaria e Contos de Odessa traduzidos do russo por Nailia Baldé que também assina a Nota Introdutória (Contos de Odessa tem duas edições anteriores ao 25 de Abril e uma outra da Dinossauro de 2005, e, sob o título, Cavalaria Vermelha, existem duas de 1976).
Como escreveu a escritora e crítica britânica Margaret Drabble (“The Guardian”, 11/05/2002) a obra de Babel “cheira a guerra e cavalos, cebolas e arenques, fome e sangue”. A escrita fragmentária, paradoxal, na qual a comicidade casa com a crueldade, sai reforçada por associações surpreendentes, incoerências, repetições, construções em elipse. Regada com um humor mordaz e colorido, é uma escrita telúrica (e, nesse sentido, bem russa) que tanto nos horroriza como nos faz soltar gargalhadas.
A prosa é precisa (o “mot juste” espreita todos os parágrafos acompanhado, embora, de inventiva linguagem), transmitindo uma espécie de nonchalance que a aproxima do puro jogo. Os retratos pícaros das personagens de Odessa, com os seus bandidos, contrabandistas e casamenteiros (“Contos de Odessa”), os relatos da frente de batalha, sanguinários, desesperados e, ainda assim, cómicos (“Exército de Cavalaria”), e o tom vagamente nostálgico das histórias mais pessoais (“Contos Dispersos”), comprovam um grandessíssimo escritor.
Banido, maldito e obrigatório.
Isaac Babel, Contos Escolhidos, Relógio D'Água, 2012, tradução de Nailia Baldé
16/02/12
A book a day keeps the doctor away: "A Caixa Negra", Amos Oz
A primeira edição portuguesa de A Caixa Negra data de 1990 e, entretanto, muitos outros títulos de Amos Oz foram traduzidos. Juntamente com David Grossman é, decerto, o escritor israelita mais conhecido entre nós.Militante do movimento “Paz Agora”, que pugna pelo entendimento entre israelitas e palestinianos, isso não impediria Amos Oz de acusar de terrível cegueira moral José Saramago quando este comparou os territórios ocupados a Auschwitz.
De moral e política fala A Caixa Negra. E ainda de religião, cinismo, rancor e misericórdia. Estruturado sob forma epistolar, o romance gira em torno de um núcleo de personagens bem distintos que vão criando entre si uma teia de relações complexas sob a qual se desenham, como em caleidoscópio, os nexos sociopolíticos de uma sociedade em mutação.
Do sonho sionista inicial, encarnado na figura do pai de Alec, à criação de colunatos encetada por Sommo, judeu sefardita que, pelo dinheiro, consegue vingar social e politicamente, é também da ascensão da direita religiosa e expansionista que trata A Caixa Negra.
Amos Oz fá-lo, contudo, sem nunca ceder à tentação ideológica.
Tudo começa quando Ilana, ex-mulher de Alec, reputado intelectual de origem ashkenazi a viver no estrangeiro e herdeiro de considerável fortuna, escreve ao ex-marido pedindo-lhe ajuda para encontrar o filho de ambos, nunca reconhecido por Alec como sendo seu.
Ilana, agora casada com Sommo, homem crente de origens humildes, vai, através desse pedido de socorro, abrir uma verdadeira caixa negra, a qual, por sua vez, desencadeará, uma série de acontecimentos inesperados, simultaneamente salvíficos e catastróficos, contaminados, sempre, pela ironia da História.
A ler (ou reler).
A Caixa Negra, Amos Oz, D. Quixote, 2012, trad. de Miguel Serras Pereira
14/02/12
Vamos lá falar de coisas que valem a pena para variar [livros, naturalmente]
O italiano Primo Levi é conhecido, sobretudo, pelos textos que escreveu sobre a sua própria experiência do Holocausto.Se Isto É um Homem ou As Tréguas são leituras obrigatórias para quem queira tentar compreender o que significou ser judeu na Europa (civilizada) de há pouco mais de meio século e (também) o que poderia querer dizer David Rousset, outro sobrevivente, com a frase: Os homens normais não sabem que tudo é possível.
Na sombra fica, por vezes, o facto de Primo Levi ser químico de formação e de o seu livro O Sistema Periódico (que parodia a tabela dos elementos químicos para a aplicar alegoricamente ao carácter multifacetado do indivíduo) ter sido, em 2006, considerado pela Real Academia de Londres o melhor livro de ciência alguma vez escrito.
O físico teórico Tullio Regge (Turim, 1933) é decerto menos popular junto do grande público, embora a comunidade científica lide há muito com coisas que levam o seu nome, como os Cálculo e Trajectórias de Regge. Receberia em 1980 o Prémio Einstein, e algumas das suas propostas dos anos 60 estiveram na origem e desenvolvimento da chamada “Teoria das Cordas”, modelo que, ao propor-se unificar a Relatividade e a Quântica abriria, segundo alguns, caminho a uma "Teoria de Tudo".
Contrariando as visões mais pessimistas de C.P. Snow que, em 1959, cunhou a expressão “duas culturas” para definir a dissociação entre “humanidades” e “ciências” que ele via crescer perigosamente na cultura ocidental, Diálogo Sobre a Ciência e os Homens é bem a prova que nem tudo estará perdido.
Sejamos, ainda assim, completamente honestos. Em primeiro lugar, o livro data, originalmente, de 1984. Nada nos leva a crer que, desde então, os “vasos comunicantes” entre “letras” e “ciências” tenham intensificado/mantido as trocas. Segundo, os interlocutores são, pela sua inteligência, eloquência, imaginação e curiosidade, espécimes raros. E se acrescentarmos a informação de que este diálogo resulta de um convite feito pela RAI que organizava, então, uma série de conversas sobre física dirigida ao grande público, talvez tenhamos que regressar, e mesmo duas vezes, ao “pessimismo” de Snow.
Não há muitos livros, afinal, em que, logo a abrir, uma das “personagens” diga: “Entre as coisas que tenho em comum com Primo Levi (…) há uma mania real e secreta: estou a estudar, por mim próprio, hebraico antigo. (…) Já consegui ler todo o Génesis”; ou nos quais, em comentário, a segunda “personagem” recorde a sedutora Rahab, descrita assim no Talmude: “qualquer homem que pronunciasse o seu nome imediatamente ejaculava”. E isto para princípio de conversa.
A dado passo, Regge invoca as suas experiências caseiras e confessa que “Deitava fogo a tudo. Uma reacção muito bonita era misturar anidrido arsenioso, que é algo venenoso…”; e logo Levi explicita: “É muito venenoso – é o veneno da Madame Bovary”.
Reclamam do latim que lhes ensinavam no liceo: o “latim de Cícero, cristalizado”, diz Regge; “bom para lápides”, acrescenta Levi que a Cícero contrapõe o “muito interessante” Celso que “explica como se operavam amígdalas no seu tempo”.
A conversa estende-se às respectivas famílias e origens, física das estrelas e física das partículas, religião, Borges, computadores...
Uma pergunta de Levi (que todos gostaríamos de fazer): “Porque vemos apenas três das onze dimensões?”. Um comentário (relativista) de Regge a propósito de Asimov: “uma viagem a uma velocidade superior à da luz (…) tais coisas dão-me traumas psíquicos”.
Em síntese: um livro que nos enche de vontade de aprender. E de rir.
Diálogo sobre a Ciência e os Homens, Primo Levi e Tullio Regge, Gradiva, 2012, trad. de Eduardo Lage
10/11/11
A book a day keeps the doctor away: "Comissão das Lágrimas", António Lobo Antunes
Disse em tempos Eduardo Lourenço, a propósito da escrita de António Lobo Antunes, que “a África foi o espelho no qual ele pôde ver melhor o delírio da experiência portuguesa”, mostrando-nos “não apenas a morte em África, mas a nossa própria miséria, os nossos terrores sepultos” (António Lobo Antunes. A Crítica na Imprensa 1980-2010 Cada Um Voa Como Quer, Edição Ana Paula Arnaut, Almedina, 2011, p. 257).O escritor, depois de recentemente ter andado por lá perto no belíssimo O Meu Nome É Legião, volta a render-se ao tema, agora num mergulho em apneia que tem como ponto de partida um episódio histórico.
Comissão das Lágrimas, cujo título retoma, com exactidão, o nome pelo qual ficou conhecido a comissão que, em Angola, seleccionou — e enviou sumariamente para a morte — os presumíveis envolvidos no golpe fratricida de 27 /05/1977, ter-lhe-á surgido a partir da história trágica de Elvira, conhecida por Virinha, uma militante do MPLA que, torturada e assassinada na sequência dos acontecimentos, se tornaria num símbolo de resistência: “a rapariga sem língua continua a cantar, erguíamo-la do chão e continuava a cantar, atirávamo-la contra o cimento e continuava a cantar, não se cala (…)”, p. 47.
Se o livro se funda no real, este, porém, apenas lhe serve de pretexto e, como sempre em António Lobo Antunes (uma das razões por que é grande), o particular depressa cavalga o universal.
Aqui, África é, de facto, um “espelho no qual ele [pode] ver melhor o delírio da experiência portuguesa”, mas também o sofrimento que nos calha a todos.
O romance retoma o chamado registo polifónico habitual (“o meu ofício é traduzir vozes”, p. 128), organizando-se em torno de três personagens principais: Cristina, que está internada numa clínica, assombrada por vozes que não lhe dão descanso; a sua mãe branca, Alice/Simone, ex-dançarina de plumas de lantejoulas que “coxeia [agora] a sua desgraça”, p. 49; e António, o preto a quem os brancos não deixaram ser padre, o pai (?) torcionário que, em Lisboa, continuará “à espera que o matem”, p. 49.
A polifonia é contrariada pelo cruzamento intrincado dos registos e pela dúvida que se instala ao longo do texto. Quem fala? E, quem fala, diz a verdade ou delira?
O tema da verdade — que é, afinal, o tema que importa a todos os Inquisidores — confunde-se, assim, nas memórias (reais? inventadas?) de Cristina na clínica e nas confissões arrancadas pela Comissão das Lágrimas, mais a confissão a que António é obrigado no seminário: “(…) perguntavam-me — Desonraste a Divindade? e não era que não quisesse contar, era que não achava o que devia ser contado, pensava — Ensinem-me o que deve ser contado ou — Ensinem-me o que querem que eu conte”, p. 112.
O romance retoma o chamado registo polifónico habitual (“o meu ofício é traduzir vozes”, p. 128), organizando-se em torno de três personagens principais: Cristina, que está internada numa clínica, assombrada por vozes que não lhe dão descanso; a sua mãe branca, Alice/Simone, ex-dançarina de plumas de lantejoulas que “coxeia [agora] a sua desgraça”, p. 49; e António, o preto a quem os brancos não deixaram ser padre, o pai (?) torcionário que, em Lisboa, continuará “à espera que o matem”, p. 49.
A polifonia é contrariada pelo cruzamento intrincado dos registos e pela dúvida que se instala ao longo do texto. Quem fala? E, quem fala, diz a verdade ou delira?
O tema da verdade — que é, afinal, o tema que importa a todos os Inquisidores — confunde-se, assim, nas memórias (reais? inventadas?) de Cristina na clínica e nas confissões arrancadas pela Comissão das Lágrimas, mais a confissão a que António é obrigado no seminário: “(…) perguntavam-me — Desonraste a Divindade? e não era que não quisesse contar, era que não achava o que devia ser contado, pensava — Ensinem-me o que deve ser contado ou — Ensinem-me o que querem que eu conte”, p. 112.
A capacidade da ficção ir mais longe, explicará o desejo do literário. Por isso, talvez, o realismo esteja tão distante do registo de António Lobo Antunes, mesmo se, paradoxalmente, as palavras em que se exprime optem cuja sempre por uma materialidade crua, na fronteira do prosaico: “uma traineira com problemas nos ossos, por vezes um rebocador aflito da hérnia”, p. 313.
Finalmente, se Angola é o cenário principal de Comissão das Lágrimas, só se dá a ver em contraponto com a marquise de Lisboa, “o mundo dos naperons” que ficou para trás no tempo, as camponeses “de olhos cheios de vacas”, o passado que se mistura ao presente,ambos dolorosos.
E mais uma vez em António Lobo Antunes, seria preciso regressar à inocência da infância, no pressuposto que tal coisa possa existir.
Finalmente, se Angola é o cenário principal de Comissão das Lágrimas, só se dá a ver em contraponto com a marquise de Lisboa, “o mundo dos naperons” que ficou para trás no tempo, as camponeses “de olhos cheios de vacas”, o passado que se mistura ao presente,ambos dolorosos.
E mais uma vez em António Lobo Antunes, seria preciso regressar à inocência da infância, no pressuposto que tal coisa possa existir.
António Lobo Antunes, Comissão das Lágrimas, 2011, D. Quixote
30/10/11
A book a day keeps the doctor away: "Um Mundo Iluminado", Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly
Escreveu Susan Neiman em O Mal no Pensamento Moderno que “lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche”. E acrescentou a filósofa norte-americana no mesmo ensaio: “(…) Pode não haver um princípio geral que prove que a tortura e o genocídio são condenáveis, mas isso não nos impede de os considerarmos casos paradigmáticos de mal”.
O livro não se resume ao optimismo que se poderá ler nestas frases; ainda assim gostaríamos de lembrar que tal optimismo foi, ainda há pouco, negado pelos factos: a legitimidade da tortura, por exemplo, a pretexto do 11 de Setembro, voltou a ser defendida (ou, pelo menos, admitida) por gente que, dias antes, não hesitaríamos em considerar civilizada e convidar para casa.
Um Mundo Iluminado, escrito pelos filósofos norte-americanos Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, tem como ponto de partida a multiplicidade e volatilidade dos tempos que correm. A profusão de escolhas (paralisantes). A velocidade com que somos bombardeados por diferentes opiniões. A perda de referentes absolutos e princípios gerais. A deflagração dos pontos de referência, para além de nós próprios.
O livro não se resume ao optimismo que se poderá ler nestas frases; ainda assim gostaríamos de lembrar que tal optimismo foi, ainda há pouco, negado pelos factos: a legitimidade da tortura, por exemplo, a pretexto do 11 de Setembro, voltou a ser defendida (ou, pelo menos, admitida) por gente que, dias antes, não hesitaríamos em considerar civilizada e convidar para casa.
Um Mundo Iluminado, escrito pelos filósofos norte-americanos Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, tem como ponto de partida a multiplicidade e volatilidade dos tempos que correm. A profusão de escolhas (paralisantes). A velocidade com que somos bombardeados por diferentes opiniões. A perda de referentes absolutos e princípios gerais. A deflagração dos pontos de referência, para além de nós próprios.
Em suma, parte do mundo intuito por Nietzsche (que seria hoje o nosso) — não certamente por acaso, O nosso niilismo contemporâneo é o título do primeiro capítulo —, tentando formas de fugir ao desespero que lhe estará associado.
Dito isto, não se tenta aqui qualquer renascimento de Deus — na medida em que poderíamos afirmar que Deus, do ponto de vista da clareza existencial, tornava as coisas mais fáceis, iluminando-as, à imagem do Muro de Berlim que, antes de cair, assinalava (ainda) com (alguma) precisão o lugar dos bons e dos maus.
O tema não é novo. Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly tentam, porém, uma aproximação original ao problema (porque de um problema se trata…).
Numa sociedade dessacralizada e secular, onde encontrar sustento que nos alimente o espírito e contrarie a anemia existencial?
As respostas, se as houver, estão nos grandes clássicos da literatura ocidental, garantem os autores. Mas, talvez para que a ideia de “grandes clássicos” não afastasse de imediato metade dos potenciais leitores, Um Mundo Iluminado opta por descolar ancorado a um escritor contemporâneo, David Foster Wallace, que, apesar de franco adepto da ironia, não resistiu à depressão e foi encontrado morto, enforcado, em 2008.
A obra de Wallace, analisada em contraponto com o percurso de Elizabeth Gilbert (autora do best-seller, Comer, Orar, Amar), introduz-nos ao coração do ensaio: “Na perspectiva nietzscheana de Wallace, nós somos os únicos agentes activos do universo, responsáveis por criar, a partir do nada, qualquer noção que possa existir do sagrado e do divino. Gilbert, pelo contrário, adopta uma concepção como a de Lutero da maturidade. Na sua perspectiva, somos destinatários passivos da vontade divina, nada mais do que receptáculos para a graça que ele possa decidir conceder-nos. Não haverá um meio-termo?”
Em busca desse “meio-termo”, somos conduzidos aos mundos de Homero, Dante, Melville, Descartes e Kant, guiados, não por uma visão teleológica da existência, mas por caminhos sinuosos pejados de deuses.
À visão tecnológica, empobrecida e insípida da actualidade, Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly contrapõem um mundo politeísta alicerçado na physis e na poiética. Mesmo que, no final, continuemos a desconfiar da sua possibilidade, fartámo-nos de aprender.
Um Mundo Iluminado, Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, 2011, Lua de Papel, trad. de Francisco Gonçalves
Dito isto, não se tenta aqui qualquer renascimento de Deus — na medida em que poderíamos afirmar que Deus, do ponto de vista da clareza existencial, tornava as coisas mais fáceis, iluminando-as, à imagem do Muro de Berlim que, antes de cair, assinalava (ainda) com (alguma) precisão o lugar dos bons e dos maus.
O tema não é novo. Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly tentam, porém, uma aproximação original ao problema (porque de um problema se trata…).
Numa sociedade dessacralizada e secular, onde encontrar sustento que nos alimente o espírito e contrarie a anemia existencial?
As respostas, se as houver, estão nos grandes clássicos da literatura ocidental, garantem os autores. Mas, talvez para que a ideia de “grandes clássicos” não afastasse de imediato metade dos potenciais leitores, Um Mundo Iluminado opta por descolar ancorado a um escritor contemporâneo, David Foster Wallace, que, apesar de franco adepto da ironia, não resistiu à depressão e foi encontrado morto, enforcado, em 2008.
A obra de Wallace, analisada em contraponto com o percurso de Elizabeth Gilbert (autora do best-seller, Comer, Orar, Amar), introduz-nos ao coração do ensaio: “Na perspectiva nietzscheana de Wallace, nós somos os únicos agentes activos do universo, responsáveis por criar, a partir do nada, qualquer noção que possa existir do sagrado e do divino. Gilbert, pelo contrário, adopta uma concepção como a de Lutero da maturidade. Na sua perspectiva, somos destinatários passivos da vontade divina, nada mais do que receptáculos para a graça que ele possa decidir conceder-nos. Não haverá um meio-termo?”
Em busca desse “meio-termo”, somos conduzidos aos mundos de Homero, Dante, Melville, Descartes e Kant, guiados, não por uma visão teleológica da existência, mas por caminhos sinuosos pejados de deuses.
À visão tecnológica, empobrecida e insípida da actualidade, Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly contrapõem um mundo politeísta alicerçado na physis e na poiética. Mesmo que, no final, continuemos a desconfiar da sua possibilidade, fartámo-nos de aprender.
Um Mundo Iluminado, Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, 2011, Lua de Papel, trad. de Francisco Gonçalves
13/09/11
A book a day keeps the doctor away: "O Segundo Avião", Martin Amis
É algo que já foi mais comum: a reflexão política sobre temas contemporâneos assinada por escritores. O engajamento político (ou mesmo partidário) dos homens de letras foi perdendo peso com o fim da Guerra Fria, acompanhando uma suspeição generalizada pelas ideologias. Martin Amis desconfia das ideologias mas persiste numa tradição que fez a grandeza de alguns e o falhanço de outros tantos.
Os artigos sobre o 11 de Setembro escritos por Martin Amis entre 2001 e 2007 surgem reunidos neste volume sob o título de O Segundo Avião. A estes se acrescentam dois contos: “No Palácio do Fim”, onde o autor de Money imagina a vida dos duplos do filho de um ditador, e um outro que recria “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”, terrorista que morreria no embate do primeiro avião com as Torres Gémeas.
As duas ficções optam por encenar escatologias em que a fantasia fecal dá bem ideia do que Amis pensa sobre o assunto: a “bomba na retrete” no caso de “No Palácio do Fim”; “a incontestável fúria das (…) entranhas”, em “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”.
As posições do escritor inglês são incómodas. Não poupam ninguém. Não poupam a Al-Qaeda, não poupam bin Laden, não poupam Bush, não poupam Blair, não poupam Chomsky. Para além disso, o homem escreve bem que dói.
“Em Movimento com Tony Blair”, apontamentos de viagens em que o escritor/repórter acompanha o ex-primeiro-ministro, é um tratado de inteligência, ironia e domínio do ofício: “Testemunhamos os discursos triunfais e ouvimos os aplausos, mas normalmente não vemos o momento de feroz deleite político, o profundo e duradouro contentamento da vindicação: eu sempre tive razão! Num outro castelo, o de Hillsborough (o postigo da rainha em Belfast e ocasional lugar de pernoita de Bush), houve outro desses, quando Blair teve uma serena meia hora com o titubeante Teddy Kennedy e o temível Peter Hain. A História — o imprevisto sem remorsos — conspirara por uma vez na vida com o desejo deles, e era tudo muito comedido, neste perdoável regozijo, tudo muito sussurrado e enrouquecido e duramente alcançado.”
Recordamos a escrita viril de Bellow, mestre de Amis, e sentimos uma saudade imensa dos bons textos jornalísticos.
Dez anos passados do 11 de Setembro, O Segundo Avião é a forma adequada de assinalar a data. Submersos pela crise, esse dia parece-nos cada vez mais longínquo e a paranóica War on Terror terá dado lugar a temas mais prementes.
Há, contudo, um antes e um depois do 11 de Setembro — assim como há um antes e um depois da Queda do Muro de Berlim. Amis di-lo com clareza: “O 11 de Setembro deu-nos um planeta que quase nem reconhecemos. Em certo sentido veio revelar o que já ali estava (…) desde o colapso da União Soviética: a inédita preponderância de uma única potência. Revelou também o há muito estabelecido mas crescentemente dinâmico ódio ao Ocidente entre as nações islâmicas, um ódio muito exacerbado pela relação que a América mantém com (…) Israel (…). Além disso, como todos os ‘atos de terrorismo’ — que facilmente e sem subjectividade alguma se podem definir como violência organizada que toma por alvo os civis — (…) foi um ataque à moralidade: sentiu-se um défice geral. Quem é que, a 10 de setembro, esperaria estar pela altura do Natal a ler uns nada escandalizados editoriais no Herald Tribune acerca dos prós e dos contras de se usar a tortura nos ‘combatentes inimigos’? Quem esperaria que a Grã-Bretanha renunciasse à doutrina do não-primeiro-uso do nuclear? O terrorismo mina a moralidade. Além disso, também mina a razão” — sendo próprio da razão distinguir tolerância de relativismo, compreender de aceitar. É isso que Amis faz.
Martin Amis, O Segundo Avião, 2011, Quetzal, trad. de Jorge Pereirinha Pires
Os artigos sobre o 11 de Setembro escritos por Martin Amis entre 2001 e 2007 surgem reunidos neste volume sob o título de O Segundo Avião. A estes se acrescentam dois contos: “No Palácio do Fim”, onde o autor de Money imagina a vida dos duplos do filho de um ditador, e um outro que recria “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”, terrorista que morreria no embate do primeiro avião com as Torres Gémeas.
As duas ficções optam por encenar escatologias em que a fantasia fecal dá bem ideia do que Amis pensa sobre o assunto: a “bomba na retrete” no caso de “No Palácio do Fim”; “a incontestável fúria das (…) entranhas”, em “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”.
As posições do escritor inglês são incómodas. Não poupam ninguém. Não poupam a Al-Qaeda, não poupam bin Laden, não poupam Bush, não poupam Blair, não poupam Chomsky. Para além disso, o homem escreve bem que dói.
“Em Movimento com Tony Blair”, apontamentos de viagens em que o escritor/repórter acompanha o ex-primeiro-ministro, é um tratado de inteligência, ironia e domínio do ofício: “Testemunhamos os discursos triunfais e ouvimos os aplausos, mas normalmente não vemos o momento de feroz deleite político, o profundo e duradouro contentamento da vindicação: eu sempre tive razão! Num outro castelo, o de Hillsborough (o postigo da rainha em Belfast e ocasional lugar de pernoita de Bush), houve outro desses, quando Blair teve uma serena meia hora com o titubeante Teddy Kennedy e o temível Peter Hain. A História — o imprevisto sem remorsos — conspirara por uma vez na vida com o desejo deles, e era tudo muito comedido, neste perdoável regozijo, tudo muito sussurrado e enrouquecido e duramente alcançado.”
Recordamos a escrita viril de Bellow, mestre de Amis, e sentimos uma saudade imensa dos bons textos jornalísticos.
Dez anos passados do 11 de Setembro, O Segundo Avião é a forma adequada de assinalar a data. Submersos pela crise, esse dia parece-nos cada vez mais longínquo e a paranóica War on Terror terá dado lugar a temas mais prementes.
Há, contudo, um antes e um depois do 11 de Setembro — assim como há um antes e um depois da Queda do Muro de Berlim. Amis di-lo com clareza: “O 11 de Setembro deu-nos um planeta que quase nem reconhecemos. Em certo sentido veio revelar o que já ali estava (…) desde o colapso da União Soviética: a inédita preponderância de uma única potência. Revelou também o há muito estabelecido mas crescentemente dinâmico ódio ao Ocidente entre as nações islâmicas, um ódio muito exacerbado pela relação que a América mantém com (…) Israel (…). Além disso, como todos os ‘atos de terrorismo’ — que facilmente e sem subjectividade alguma se podem definir como violência organizada que toma por alvo os civis — (…) foi um ataque à moralidade: sentiu-se um défice geral. Quem é que, a 10 de setembro, esperaria estar pela altura do Natal a ler uns nada escandalizados editoriais no Herald Tribune acerca dos prós e dos contras de se usar a tortura nos ‘combatentes inimigos’? Quem esperaria que a Grã-Bretanha renunciasse à doutrina do não-primeiro-uso do nuclear? O terrorismo mina a moralidade. Além disso, também mina a razão” — sendo próprio da razão distinguir tolerância de relativismo, compreender de aceitar. É isso que Amis faz.
Martin Amis, O Segundo Avião, 2011, Quetzal, trad. de Jorge Pereirinha Pires
13/08/11
A book a day keeps the doctor away: "Sob a Rede", Iris Murdoch
Iris Murdoch é uma escritora sui generis que consegue aliar, como poucos, as ideias abstractas — que fazem o caldo das suas histórias —, às personagens concretas — dir-se-iam de carne e osso — que povoam os seus livros.
Formada em filosofia, temas como o amor, o poder, a linguagem ou a responsabilidade moral transformam-se em Murdoch em paisagens humanas, imprevisíveis e teatrais, como se, através da imaginação desta autora nascida em Dublin (1919-1999) — considerada um dos expoentes da literatura de língua inglesa da segunda metade do século XX — as próprias Ideias platónicas ganhassem vida e complexidade.
Um Platão ao contrário que, ao invés de Sartre (autor que Murdoch estudou), é capaz de nos conduzir para lá de personagens-arquétipo.
Como se escreve em Sob a Rede: “Toda a teorização é uma fuga. Temos de ser regidos pela própria situação e esta é indiscutivelmente particular. Efectivamente, é qualquer coisa da qual nunca nos conseguimos aproximar o suficiente, por muito que tentemos é como se ela estivesse a rastejar sob a rede. (…) É certo que as teorias podem, com frequência, ser uma parte da situação que temos de enfrentar. Mas, então, toda a espécie de mentiras e fantasias óbvias podem ser parte de tal situação; e diria que devemos saber detectar e evitar as mentiras e não que devemos ser bons a mentir. (…) Sei que coisa alguma nos consola e nada se justifica a não ser uma boa história – mas isso não impede que todas as histórias sejam mentiras. Apenas os homens mais eminentes podem falar e ser, apesar de tudo, verdadeiros. Qualquer artista sabe isto de uma forma confusa; sabe que uma teoria é a morte e que qualquer expressão está sobrecarregada de teoria. Somente os mais fortes podem vencer esse peso.”
Oxalá, pela sua aparente aridez, o excerto citado não afaste leitores do divertidíssimo Sob a Rede. Trata-se (apenas) de uma passagem do diálogo, O Silencioso, que, em tempos, o protagonista deste primeiro romance de Iris Murdoch havia escrito e publicado; o mesmo é relido, com saudável ironia e distanciamento, pelo seu autor em Sob a Rede.
Oxalá, pela sua aparente aridez, o excerto citado não afaste leitores do divertidíssimo Sob a Rede. Trata-se (apenas) de uma passagem do diálogo, O Silencioso, que, em tempos, o protagonista deste primeiro romance de Iris Murdoch havia escrito e publicado; o mesmo é relido, com saudável ironia e distanciamento, pelo seu autor em Sob a Rede.
O livro de estreia de Iris Murdoch data de 1954 e relata as aventuras picarescas de um escritor/tradutor, quase sempre falido, na Londres intelectual da altura, Jake Donaghue; mistura amores, política, estrelas de cinema, pequenos gangsters, muitas passagens pelos pubs, e até o rapto de um simpático cão/vedeta, em registo acelerado e burlesco.
Donaghue, o protagonista/narrador, é um bom tipo que vai sobrevivendo de expedientes nos intervalos de penúria, faz pela vida como pode e tem uma tendência acentuada para encontrar mulheres que não se importam de olhar por ele.
No início acaba de ser posto na rua por uma delas, que o troca por um corrector de apostas de perfil mais que duvidoso. O resto do romance relata as andanças de Donaghue que, no meio do caos em que vê transformada a sua vida, tenta manter alguma integridade moral, reflectindo sobre as escolhas que lhe vão sendo impostas, surpreendendo-se com os vários twists que não esperava (o leitor acompanha-o…).
As características e preocupações dos futuros romances de Murdoch estão já todos aqui, nomeadamente o tema do Bem (transversal à obra) que se vê reforçado pela inclusão da figura de Hugo Belfounder, personagem algo enigmática, milionário que lida mal com o dinheiro e o poder e que busca o despojamento a qualquer preço.
As características e preocupações dos futuros romances de Murdoch estão já todos aqui, nomeadamente o tema do Bem (transversal à obra) que se vê reforçado pela inclusão da figura de Hugo Belfounder, personagem algo enigmática, milionário que lida mal com o dinheiro e o poder e que busca o despojamento a qualquer preço.
O melhor de Sob a Rede está, contudo, na forma pícara como a escritora entrelaça a catadupa de acontecimentos e… nos próprios acontecimentos.
Deixando-se levar sem freio, Iris Murdoch cria algumas cenas de antologia, como a bebedeira que termina com o mergulho nocturno no Tamisa de Donaghue e amigos (incluindo Lefty, o excêntrico líder dos Novos Socialistas Independentes), ou o desabamento dos cenários da antiga Roma, nos estúdios de cinema onde Lefty fazia um empolgado e empolgante comício interrompido pela polícia. Sem a maturidade de outros livros posteriores, ainda assim, uma delícia!
Iris Murdoch, Sob a Rede, 2011, Relógio d’Água, trad. de Maria de Lourdes Guimarães
Iris Murdoch, Sob a Rede, 2011, Relógio d’Água, trad. de Maria de Lourdes Guimarães
06/08/11
A book a day keeps the doctor away: "O Intruso", William Faulkner
Um Faulkner de final feliz datado originalmente de 1948, posterior, pois, à publicação de obras-primas como Na Minha Morte, O Som e a Fúria ou Absalão! Absalão! Em Portugal, na década de 60, seria traduzido na Europa-América sob o título O Mundo Não Perdoa; volta agora mais conforme ao original, Intruder in the Dust, nome com que foi também adaptado ao cinema em 1949.
Sul, pó, desolação, homens de convicções viris, calados. Uma sociedade assente no racismo e em papéis imutáveis. Faulkner regressa a um dos seus temas de eleição, através desta história de resumo fácil: um negro, Lucas Beauchamps, é acusado de matar um branco pelas costas.
Sul, pó, desolação, homens de convicções viris, calados. Uma sociedade assente no racismo e em papéis imutáveis. Faulkner regressa a um dos seus temas de eleição, através desta história de resumo fácil: um negro, Lucas Beauchamps, é acusado de matar um branco pelas costas.
Preso, aguarda-o o linchamento. Ajudado por um rapaz branco, Charles Mallison, que vive obcecado pelo comportamento “desajustado” de Lucas (Charles quisera pagar-lhe um favor – quatro anos antes, o negro salvara-o de morrer afogado – e vira as suas moedas recusadas), e pelo advogado Gavin Stevens, que se nega durante muito tempo a acreditar em Lucas, este acabará por ser ilibado do crime.
Faulkner constrói o livro ao “estilo policial”, mas o que é realmente marcante é a forma hábil como nos vai dando as personagens, subtraídas a qualquer maniqueísmo psicológico ou outro: e se Stevens tem dificuldade em aceitar a inocência de Lucas, Lucas, por sua vez, terá dificuldade em acreditar na justiça dos brancos.
Depois, claro, há a escrita inconfundível do autor de Palmeiras Bravas. Pujante, torrencial, elíptica, de nos pôr a cabeça à roda, a que se alia o trabalho do(s) tempo(s) da acção (tempo que é sobretudo memória), duas características que, por si só, fariam sempre de Faulkner um escritor inimitável (já que o poder dos génios é, por vezes, também esse: o de gerar um vazio à sua volta).
Faulkner constrói o livro ao “estilo policial”, mas o que é realmente marcante é a forma hábil como nos vai dando as personagens, subtraídas a qualquer maniqueísmo psicológico ou outro: e se Stevens tem dificuldade em aceitar a inocência de Lucas, Lucas, por sua vez, terá dificuldade em acreditar na justiça dos brancos.
Depois, claro, há a escrita inconfundível do autor de Palmeiras Bravas. Pujante, torrencial, elíptica, de nos pôr a cabeça à roda, a que se alia o trabalho do(s) tempo(s) da acção (tempo que é sobretudo memória), duas características que, por si só, fariam sempre de Faulkner um escritor inimitável (já que o poder dos génios é, por vezes, também esse: o de gerar um vazio à sua volta).
"It was just noon that Sunday morning when the sheriff reached the jail with Lucas Beauchamp though the whole town (the whole county too for that matter) had known since the night before that Lucas had killed a white man."
O Intruso, William Faulkner, 2011, Bertrand Editora
31/07/11
A book a day keeps the doctor away: "De Olhos Abertos", Marguerite Yourcenar
O livro consiste numa longa conversa com o francês, entretanto desaparecido, Matthieu Galey, e a autora de Memórias de Adriano acabaria por não apreciar o resultado. Teria as suas razões, mas para nós, leitores de De Olhos Abertos, o livro é uma dádiva. Desde logo, de inteligência.
Matthieu Galey organizou-o tematicamente e os muitos capítulos tanto cobrem a obra literária da escritora de origem belga (os muitos títulos, influências maiores, etc.), como a sua vida pessoal, sem deixar de lado as convicções de Yourcenar sobre temas tão variados como política, ecologia, feminismo ou religião.
Para quem está familiarizado com os livros da única mulher até agora aceite na Academia Francesa (um facto a que se atribuirá maior ou menor importância), estas entrevistas talvez despertem o desejo de reler coisas tão perfeitas como A Obra ao Negro ou Golpe de Misericórdia. Para os que desconhecem Marguerite Yourcenar, trata-se de uma excelente introdução.
Aristocrata de nascimento e, sobretudo, de espírito, talvez corra, contudo, o risco de ser mal interpretada. Conservadora e absolutamente livre (tanto quanto o poderá ser um ser humano), Yourcenar é uma escritora moral que bebe nos grandes clássicos e na grande literatura e cujas posições — eticamente exigentes e politicamente independentes — talvez pareçam desfasadas num tempo que saiu por aí a galope.
Aristocrata de nascimento e, sobretudo, de espírito, talvez corra, contudo, o risco de ser mal interpretada. Conservadora e absolutamente livre (tanto quanto o poderá ser um ser humano), Yourcenar é uma escritora moral que bebe nos grandes clássicos e na grande literatura e cujas posições — eticamente exigentes e politicamente independentes — talvez pareçam desfasadas num tempo que saiu por aí a galope.
Pomposa, por vezes; simples, quase sempre, deixa-se colar neste livro à frase que fez dizer ao Imperador Adriano: “A verdade é sempre um escândalo”.
De Olhos Abertos, Marguerite Yourcenar, 2011, Relógio D’Água
24/07/11
A book a day keeps the doctor away: "Nas Trevas Exteriores", Cormac McCarthy
Talvez Emmanuel Levinas estivesse certo quando escreveu: "A questão metafísica primordial já não é a de Leibniz, de saber porque existe algo em vez de nada, mas porque existe mal em vez de bem".
Não sei se Cormac McCarthy leu Levinas; o facto é que é dos poucos escritores contemporâneos a pegar a besta de caras.
Nas Trevas Exteriores – “Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes (Mateus, 22: 13) – é o seu mais recente livro publicado em Portugal. Data originalmente de 1968 e trata-se do segundo romance assinado pelo autor de Este País Não É Para Velhos.
Culla e Rinthy Holme são irmãos; a história começa com o nascimento de uma criança fruto da relação incestuosa entre ambos. Culla livra-se do recém-nascido, abandonando-o na floresta, e tenta convencer a irmã de que o bebé morreu após o parto. Quando Rinthy se apercebe da mentira, foge da cabana miserável onde os dois vivem escondidos e lança-se em busca do filho. Culla segue-lhe os passos e parte no seu encalço.
Nas Trevas Exteriores é o relato dessa errância, organizado em capítulos autónomos e desacertados, numa espiral de vagarosa violência que amplia a angústia do leitor. Como diz cirurgicamente no Prefácio Paulo Faria, o tradutor, confrontamo-nos “com uma experiência de genuíno desconforto físico, e a intensidade desse desconforto traduz a exacta medida da mestria literária de Cormac McCarthy”.
A escrita do americano é tudo menos consoladora. “God is war”, garantia o desapiedado juiz Holden em Meridiano de Sangue, personagem de quem podemos adivinhar alguns dos traços, aqui, em Trevas Exteriores, na trindade funesta com quem Culla se cruza ao longo do seu deambular vagabundo e sonâmbulo:
“Pra ondé que tu ias, vamos lá a saber?
Pra lugar nenhum, respondeu Holme.
Pra lugar nenhum.
Isso.
Ainda és capaz de lá chegar, comentou o homem. Caminhou ao longo da orla do fogo e deteve-se, olhando Holme de alto. Holme via-lhe apenas as pernas e as de Harmon, um pouco mais além. O lume esmorecera e havia somente uma única labareda em forma de língua de serpente, bífida e amarela, a assomar entre as brasas. Um terceiro par de botas acercou-se e Holme olhou-as. Tinham as biqueiras ligeiramente voltadas para dentro e estavam calçadas nos pés trocados.
Não é tudo, pois não? indagou o homem.
Eu cá não tenho mais nada, declarou Holme.”
Descendente de uma tradição sulista que inclui nomes como Flannery O’Connor ou William Faulkner, Cormac McCarthy combina, como aqueles, o sentido da tragédia humana com o grotesco, laço bem visível em alguns diálogos que roçam a idiotia ou, quiçá, a genialidade:
“E o qué um casco-de-mula? perguntou Holme. (...)
Têm a unha assim comá da mula.
Queres dizer que não têm o casco fendido?
Não têm fenda nenhuma.
Nunca na minha vida vi nenhum porco desses, disse Holme.
Isso não me espanta, comentou o porqueiro. Mas olha que podes aqui ver um, se tiveres isso na vontade.
Eu até gostava, disse Holme.
O porqueiro tornou a trocar o cajado de um braço para o outro. Dá-me impressão que isto vai contra o que diz a Bíblia, o qué que tu achas?
Sobre o quê?
Sobres estes porcos. Que são impuros por causa de terem o casco fendido.
Eu cá nunca ouvi dizer tal coisa, disse Holme.
Eu ouvi um pregador a dizer isto num sermão. O fulano sabia imenso do assunto. Disse que o demónio tinha a pata comá dos porcos. Jurou que ‘tava escrito na Bíblia, por isso eu acho que deve de ‘tar.
Também acho.
Disse que os judeus não comiam carne de porco por causa disso.
O qué isso, os judeus?
São umas gentes antigas que vêm na Bíblia. Mas ainda assim, isso não nos diz nada sobre um porco casco-de-mula, pois não? Em qué que ficamos, afinal?
Não sei, respondeu Holme. Em qué que ficamos?
Bom, afinal de contas é um porco ou não é? A fazer fé na Bíblia.
Eu cá diria que um porco é um porco, mesmo que nem sequer tenha patas.
Eu sou capaz de dizer o mesmo, concordou o porqueiro, porque, caso tivesse patas, a gente ‘tava à espera que fossem patas de porco. É como se um porco não tivesse cabeça, a gente continuava a perceber que era um porco, apesar de tudo. Mas se víssemos um porco a andar por aí com uma cabeça de mula, já a pessoa era capaz de ficar baralhada.
É verdade, anuiu Holme.
Sim, senhor. Faz um tipo pôr-se a matutar um bocado sobre a Bíblia e também sobre os porcos, hem?”
As conotações bíblicas da obra de McCarthy estão por demais assinaladas. A forma blasfema como transfigura linguagem e conteúdos sagrados, denuncia, porém, um feroz pessimismo ontológico, arredado de qualquer escatologia redentora: o Mal é uma realidade, não uma simples ausência de Bem.
Assim acontece neste título. A queda do casal de irmãos pelo pecado do incesto traduz-se num caminho sem expiação. Culla Holme, culpado do abandono da criança, vai semeando (involuntariamente?) um rasto de morte à sua passagem; Rinthy, na sua quase inocência, consegue escapar à vivência directa do inferno, para atravessar o livro num limbo de desespero silencioso.
Fantasmas andarilhos, ambos, personagens de uma estranha parábola que, apesar da absoluta materialidade da escrita de McCarthy, surge envolta num manto de irrealidade, são o Adão e Eva deste romance negro, tragédia anunciada nos pequenos textos a itálico que moram entre capítulos. E depois (ou antes de tudo) há o cego. Poderá a cegueira salvar-nos? Existirá salvação?
Nas mãos do leitor, um exemplo de genialidade literária e desassombro.
Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy, 2011, Relógio D´Água, tradução de Paulo Faria
20/07/11
A book a day keeps the doctor away: "A Vida que Podemos Salvar", Peter Singer

O mais recente livro do filósofo Peter Singer combina ética, política, ciência e filantropia e obriga-nos a reflectir sobre o nosso papel num mundo em que a pobreza, a fome e a morte por falta de cuidados médicos básicos atinge milhões de seres humanos (cerca de 1400 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza, valor que o Banco Mundial estabeleceu como sendo de 1,25 dólares por dia).
A Vida que Podemos Salvar retoma o estilo habitual do autor, no qual ética e lógica formam um binómio indissociável. Nem sempre será totalmente convincente, apesar da argumentação parecer, em muitos aspectos, imbatível.
As premissas de que se parte são claras: o sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos são maus; se está no seu poder impedir que algo mau aconteça, sem sacrificar nada de importância semelhante, é errado não o fazer; ao contribuir para organizações humanitárias pode prevenir o sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos, sem sacrificar nada de importância semelhante; conclusão: se não fizer donativos a organizações humanitárias está a fazer algo errado.
Num país como Portugal onde a solidariedade é muitas vezes confundida com caridadezinha, os ricos são, maioritariamente, unhas-de-fome e a recusa de uma esmola se faz acompanhar do inacreditável “tenha paciência!” (além da miséria é preciso ainda suportá-la com resignação), este livro vem colocar algumas questões éticas prementes, independentemente da filantropia ser – ou não – a solução para a pobreza no mundo. Não será (e o filósofo não foge ao tema). A Vida que Podemos Salvar é, contudo, muito mais do que um manual filantrópico com exemplos concretos de ricos e famosos generosos ou avarentos. Da discussão moral ao debate científico sobre a biologia do altruísmo, Singer escreveu um livro que visa, sobretudo, tornar-nos melhores.
A Vida que Podemos Salvar, Peter Singer, Gradiva, 2011, tradução de Vítor Guerreiro
11/07/11
A book a day keeps the doctor away: "A Toupeira", John le Carré
John le Carré é um daqueles nomes que não precisa de apresentações. Ao lado de Ian Fleming, pai do 007, le Carré é o escritor mais famoso de romances de espionagem do século XX. A ter de escolher entre os dois, o autor de A Toupeira seria naturalmente o eleito. Assim como não hesitaria entre James Bond e George Smiley. Enquanto o primeiro é apenas um “boneco” bem esgalhado, George Smiley é uma personagem “de carne e osso” (a melhor definição de Bond, deu-a, aliás, o próprio le Carré: “A impressão que dava é que [Bond] cometeria as mesmas proezas ao serviço de qualquer país, desde que as mulheres fossem bonitas e os Martinis fossem secos.”).
A editora D. Quixote acaba precisamente de reeditar A Toupeira, um livro que tem Smiley como protagonista e a denúncia de um agente duplo ao serviço dos soviéticos como fio condutor. A trama é bem esgalhada mas o que logo sobressai é o retrato das personagens, a começar pela do espião britânico na reforma.
A editora D. Quixote acaba precisamente de reeditar A Toupeira, um livro que tem Smiley como protagonista e a denúncia de um agente duplo ao serviço dos soviéticos como fio condutor. A trama é bem esgalhada mas o que logo sobressai é o retrato das personagens, a começar pela do espião britânico na reforma.
Verdadeiro anti-herói, fisicamente decadente, introspectivo e com um casamento falhado (a forma como lida com a infidelidade da mulher é um magnífico traço do seu carácter), Smiley conduz paulatinamente a investigação, toda ela assente em episódios do passado que a memória de agentes lançados ao ostracismo vai desenterrando.
História adulta com a Guerra-fria em fundo, A Toupeira recusa qualquer visão maniqueísta do mundo, sobretudo, qualquer visão maniqueísta dos homens.
O suspense domina mas o que assombra é a inteligência de le Carré, capaz de nos envolver num enredo de espiões nostálgicos e simultaneamente implacáveis. Além disso, o que pode ser mais romanesco do que a descodificação de um duplo? E se a espionagem perdeu há muito o glamour, George Smiley, esse, continua a comover-nos. Enigmático... e enigmaticamente.
A Toupeira, John le Carré, D. Quixote, 2011
A Toupeira, John le Carré, D. Quixote, 2011
19/05/11
A book a day keeps the doctor away: "A Humilhação", Philip Roth
Do último representante do romance clássico norte-americano — assim se poderia definir (um pouco genérica e pomposamente, é certo) Philip Roth — foi há pouco publicado entre nós A Humilhação, texto datado de 2009. Depois disso, Roth já deu à estampa Nemesis e acaba de receber (há um dia) o prémio Man Booker Internacional 2011.A Humilhação é, como a maioria dos seus trabalhos mais recentes, um texto curto. Uma novela. Uma história contada em poucas páginas totalmente centrada no seu protagonista, Simon Axler, actor sexagenário que, de súbito, se vê desprovido de talento e incapaz de subir ao palco: “Em vez da certeza de que ia ser espantoso, sabia que ia fracassar. Aconteceu três vezes seguidas e, na última, já ninguém estava interessado, ninguém apareceu. Não conseguia chegar ao público. O seu talento estava morto”.
Velhice, sexo, dinheiro, fama — temas caros a Roth — conduzem a acção que, neste caso, se constrói como uma sucessão de cenas expurgadas de acessórios. A América está lá, mas filtrada pelas personagens que valem por si, quase sem enquadramento.
A recepção crítica a A Humilhação não foi muita boa, para não dizer que foi má. O escritor viu-se acusado de ter perdido fôlego, de ter publicado um trabalho esquemático, quiçá programático. Uma banal fantasia sexual masculina travestida de ficção.
No “Guardian”, William Skidelsky (que também se dedica à gastronomia) chegou a aconselhá-lo a sair um pouco mais de casa (o que me pareceu descabido, a não ser que Skidelsky estivesse a referir-se a comer mais vezes fora).
O livro é muito bom e, sobretudo, tremendamente simples. Conciso. Preciso. Como sempre, claro, expurgado de matéria adiposa, seco, irónico e implacável: os bons sentimentos não fazem a boa literatura, muito menos a do autor de Pastoral Americana.
A tantas vezes invocada “misoginia” de Roth não deve ter ajudado. Após uma passagem voluntária por um hospital psiquiátrico (momento ficcional em que se desanca numa série de lugares-comuns ligada às contextualizações psicológicas: “Uma pessoa chega a um ponto de desespero em que tenta tudo para explicar o que lhe está a acontecer, mesmo que saiba que isso não explica coisa nenhuma e que as explicações falhadas se sucedem”), Axler pensa ter encontrado a salvação na relação amorosa que inicia com Pegeen, a filha de um casal de actores amigo, agora com quarenta anos e um passado de lésbica.
Humilhado pela debandada inexplicável do seu talento no início — o que acarretaria o fim do seu casamento com Victoria —, o velho actor é humilhado de novo no final, ao ser abandonado por Pegeen, a maria-rapaz que o seu dinheiro havia conseguido transformar numa boneca de luxo: “O que estava a fazer era apenas a ajudar Pegeen a ser uma mulher que ele desejasse, em vez de uma mulher que outra mulher desejasse”. Mas a fantasia masculina de converter uma lésbia aos prazeres da heterossexualidade terminará num pesadelo de vexame e solidão. Por fim, numa tragédia.
A salvação mostra-se impossível, como bem o prova o comportamento radical de Sybil Van Buren, doente psiquiátrica que se cruza com Axler no início da novela (mãe de Alison, uma menina molestada pelo próprio pai) e que se mostra incapaz de lidar com o sucedido até encontrar a solução final, inesperada e desesperada. E é nessa personagem secundária, franzina e frágil, que parece residir a chave de A Humilhação: como se qualquer tentativa de suprir o sofrimento apenas servisse para o reproduzir — “o que vai ser o sofrimento de Alison”, pergunta-se depois de Alison ter sido vingada.
Hipótese de recurso? A de transformar a dor em arte; fingir representar, por exemplo, uma peça de Tchekov.
Philip Roth, A Humilhação, D. Quixote, 2011
01/05/11
A book a day keeps the doctor away: "Contos Carnívoros", Bernard Quiriny

Se gosta de Borges, Poe, Marcel Aymé… vai gostar de Bernard Quiriny.
Belga francófono, acaba de ser traduzido pela primeira vez em Portugal. Uma antologia de 14 histórias a que se acrescenta uma 15ª assinada por Enrique Vila-Matas, em jeito de posfácio.
Imaginação é a palavra-chave. Um jovem, ainda (n. 1978), Quiriny tem-na para dar e vender. A prova vem logo a abrir, com “Sanguínea”, o relato de um caso de amor entre um homem e uma mulher cujo corpo está coberto por casca de laranja.
As ficções que se seguem não desiludem. O escritor sabe manter-nos em suspenso, e cada conto vale por si. À imaginação, alia um conhecimento aprofundado da literatura do género, usando-o com subtileza e escapando ao mero pastiche.
O seu “alter-ego” Pierre Gould, personagem que tem o exclusivo de uma das narrativas, “O Extraordinário Pierre Gould”, fascina com razão Vila-Matas que, em posfácio (“Um catálogo de ausentes”), não deixa de dialogar com o autor de “um romance intitulado História de um Adormecido, que era, no seu dizer, o lipograma mais restritivo do mundo: proibira-se o uso de todas as palavras do alfabeto, com a excepção do z. O que dava ‘Zzzz, zzzz, zzzz’, e assim sucessivamente, ao longo de trezentas páginas.”
O conto que dá título ao livro (embora grafado no singular) põe em cena Latourelle, botânico que se enamora por Dionaea, “rainha de entre todas as plantas carnívoras”. Há um padre cuja alma se passeia entre dois corpos. Há uma tribo amazónica com uma língua incompreensível. Há um assassino a soldo que tem de levar a cabo um suicídio. Há um “escritor em formação” desprovido em absoluto de ideias…
Aliando a clareza matemática ao terror carnal, os contos de Quiriny são… para comer.
Contos Carnívoros, Bernard Quiriny, Ahab
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