É final de percurso. Ficam ali junto ao jardim, vazios e silenciosos, e o motorista, na espera, encosta por vezes a cabeça sobre o volante. Outras vezes anda cá por fora, mãos pensativas nos bolsos, zelando pelos pneus. Já assisti a um ou outro pontapé. À luz do fim do dia a cena torna-se absurdamente nostálgica e sem que eu saiba explicar porquê deixa-me sempre triste. Parece um quadro do Hooper. Hoje de manhã, foi só depois da cadela ter cumprido aquela parte do ‘vamos lá escavar um bocadinho à procura da Maddie’ que o vi sair detrás da árvore, aos pulinhos, ainda ajeitando as calças demasiado subidas. Não sei se corou porque, com grande sentido das conveniências, a cadela puxou-me na direcção oposta. Recomeçou a brincar com a trela e voltámos felizes para casa, exorcizado o Hooper.
Mostrar mensagens com a etiqueta Edward Hopper. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Edward Hopper. Mostrar todas as mensagens
07/08/09
06/08/09
A book a day keeps the doctor away
Nasceu no mesmo dia e no mesmo mês do que eu (e do que uma das personagens de "Bullet Park"): será isso uma curiosidade que só a mim interessará. Assinalo-a, naturalmente, porque o norte-americano John Cheever (1912-1982) foi um mestre. Tivesse sido ele um escritor medíocre e evitaria o assunto."Bullet Park", considerada uma das suas obras mais conseguidas, mistura com brilhantismo lirismo e ambiente noir, experimentalismo e técnica realista. Ao longo das quase 200 páginas do romance, Cheever consegue a proeza de tanto nos lembrar a delicadeza de Chekhov como a crueldade de Patricia Highsmith; o sensualismo de John Updike e o rigor minimal de Edward Hopper.
Precisamente Updike, de quem foi amigo, classificá-lo-ia como o maior estilista da sua geração. Brilhante na narrativa curta (obrigatória a leitura dos seus "Contos Completos", cujo Volume I foi traduzido já este ano pela Sextante), Cheever mantém em "Bullet Park" o mesmo gosto pelos mistérios inesperados dos subúrbios, dos quais foi retratista exímio.
Elliot Nailles e Paul Hammer (note-se a brincadeira entre a sonoridade de nailles, similar a pregos, e hammer, de martelo) são as personagens condutoras da acção. Conhecem-se em Bullet Park, e o segundo não é exactamente o que parece.
Precisamente Updike, de quem foi amigo, classificá-lo-ia como o maior estilista da sua geração. Brilhante na narrativa curta (obrigatória a leitura dos seus "Contos Completos", cujo Volume I foi traduzido já este ano pela Sextante), Cheever mantém em "Bullet Park" o mesmo gosto pelos mistérios inesperados dos subúrbios, dos quais foi retratista exímio.
Elliot Nailles e Paul Hammer (note-se a brincadeira entre a sonoridade de nailles, similar a pregos, e hammer, de martelo) são as personagens condutoras da acção. Conhecem-se em Bullet Park, e o segundo não é exactamente o que parece.
A vida monótona de Bullet, que quase lembra a de uma aldeia, com homens casados a viajarem diariamente de comboio para o trabalho, esperando-os no lar donas de casa, tranquilas umas, outras desesperadas, será abalada pela chegada de Hammer. Não de imediato. Só na Parte II nos aproximaremos mesmo da tragédia, que será anunciada ao leitor sem grandes cerimónias.
Vidas duplas (a bissexualidade de Cheever podia ser agora invocada, mas as explicações biográficas pouco mais são do que precárias e pretensiosas), crises existenciais, comportamentos fora das regras, tudo isto sob um fundo de normalidade burguesa que pode tornar-se explosiva. Embora a contenção defina o tom. Porque mesmo a maior violência é descrita com uma mansidão que lembra, de facto, aqueles tempos evocados por Cheever no prefácio a "Contos Completos", em que "quase toda a gente usava chapéu". Cheever não é, porém, um moralista. É só que, terá ele percebido, a condição humana ultrapassa em muito a filosofia sonhada por Horácio. Nada de novo, portanto. Apenas um enorme talento pictórico, um humor corrosivo e moderno, uma imaginação atenta ao real e uma preocupação extrema com a "palavra justa". Ou seja, muito bom.
Vidas duplas (a bissexualidade de Cheever podia ser agora invocada, mas as explicações biográficas pouco mais são do que precárias e pretensiosas), crises existenciais, comportamentos fora das regras, tudo isto sob um fundo de normalidade burguesa que pode tornar-se explosiva. Embora a contenção defina o tom. Porque mesmo a maior violência é descrita com uma mansidão que lembra, de facto, aqueles tempos evocados por Cheever no prefácio a "Contos Completos", em que "quase toda a gente usava chapéu". Cheever não é, porém, um moralista. É só que, terá ele percebido, a condição humana ultrapassa em muito a filosofia sonhada por Horácio. Nada de novo, portanto. Apenas um enorme talento pictórico, um humor corrosivo e moderno, uma imaginação atenta ao real e uma preocupação extrema com a "palavra justa". Ou seja, muito bom.
John Cheever, Bullet Park, Relógio D'Água, 2009
Marcadores:
Chekhov,
Edward Hopper,
John Cheever,
John Updike,
livros,
Patricia Highsmith,
recensões
Subscrever:
Mensagens (Atom)
EM REDE
- 2 dedos de conversa
- A balada do café triste
- A causa foi modificada
- A cidade das mulheres
- A curva da estrada
- A dança da solidão
- A rendição da luz
- A revolta
- A terceira via
- A única real tradição viva
- Abrasivo
- Agricabaz
- Agua lisa
- Albergue espanhol
- Ali_se
- Amor e outros desastres
- Anabela Magalhães
- Anjo inútil
- Antologia do esquecimento
- Arrastão
- As escolhas do beijokense
- As folhas ardem
- Aspirina B
- ayapaexpress
- Azeite e Azia
- Bibliotecário de Babel
- Bidão vil
- Blogtailors
- Casario do ginjal
- Centurião
- Church of the flying spaghetti monster
- Ciberescritas
- Cidades escritas
- Cinco sentidos ou mais
- Claustrofobias
- Coisas de tia
- Complicadíssima teia
- Contradição Social
- Dazwischenland
- De olhos bem fechados
- Dias Felizes
- Do Portugal profundo
- Duelo ao Sol
- e-konoklasta
- e.r.g..d.t.o.r.k...
- Enrique Vila-Matas
- Escola lusitânia feminina
- Fragmentos de Apocalipse
- Governo Sombra
- Helena Barbas
- If Charlie Parker was a gunslinger
- Illuminatuslex
- Incursões
- Instante fatal
- Intriga internacional
- João Tordo
- Jugular
- Klepsydra
- Last Breath
- Ler
- Les vacances de Hegel
- Letteri café
- LInha de Sombra
- Mãe de dois
- Mais actual
- Malefícios da felicidade
- Manual de maus costumes
- Metafísica do esquecimento
- Mulher comestível
- Nascidos do Mar
- Non stick plans
- O Declínio da Escola
- O escafandro
- O funcionário cansado
- O jardim e a casa
- O perfil da casa o canto das cigarras
- Obviario
- Orgia literária
- Paperback cell
- Parece mal
- Pedro Pedro
- Porta Livros
- Pratinho de couratos
- Raposas a Sul
- Reporter à solta
- Rui tavares
- S/a pálpebra da página
- Se numa rua estreita um poema
- Segunda língua
- Sem-se-ver
- Sete vidas como os gatos
- Shakira Kurosawa
- Sorumbático
- Texto-al
- The catscats
- There's only 1 Alice
- Tola
- Trabalhos e dias
- Um dia... mais dias
- Um grande hotel
- We have kaos in the garden