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17/05/09

Em resposta a D. José Policarpo e confessando a minha total miopia

Afirmou o cardeal-patriarca de Lisboa, por acasião da missa deste fim-de-semana no Terreiro do Paço, que "os habitantes da grande Lisboa têm essa particularidade: não precisam de entrar numa Igreja para rezarem diante de uma imagem do Coração de Jesus. Toda a cidade se transformou num templo, onde só não sente o amor de Cristo quem não quer".
Apenas queria dizer ao D. José Policarpo que não só nunca fui agraciada com o amor de Cristo como, abrindo-se as janelas da minha casa sobre o Tejo, a única coisa que consigo vislumbrar é um enorme mamarracho do outro lado do rio. O que não é coisa que me espante: afinal, a ideia de reproduzir em Almada o Redentor carioca nasceu na cabeça do cardeal Cerejeira, homem que não ficou para a História pelo seu sentido estético.

15/01/09

Um monte de sarilhos: só falo do que sei

Há muitos, muitos anos, muito antes do conflito de civilizações, tive um namorado muçulmano. Conheci-o em Montmartre, era pintor (naturalmente) e vivia numa casa onde Picasso, o próprio, pintara uns retratos quando jovem artista. Na altura ― há muitos, muitos anos, como disse ― eu era muito namoradeira (um dia contarei como essa característica me afastou definitivamente da extrema-esquerda...). Engatei-o, ou ele engatou-me, para o caso tanto faz, durante uma visita ao bairro. Abdullah, vamos chamar-lhe assim, vendia quadros. E no meio de tanta versatilidade pictórica ― torres eiffel a carvão, meninos com lágrimas a óleo, paisagens pontilhistas e abstraccionismos vários ― os quadros de Abdullah sobressaíam. Naquele dia fiquei ali a olhá-los.
Abdullah tomou-me por compradora e quis-me vender uma obra. Eu disse que não tinha dinheiro. Ele baixou o preço... Depois um pouco mais... Um pouco mais ainda... E foi então que eu lhe contei que não era dali, que vinha de um país pobre e que era pobre. Abdullah tomou-me por pária, como ele, e comoveu-se.
Abdullah era da Côte d'Ivoire, e eu levei mais de uma semana a conseguir traduzir Côte d'Ivoire para Costa de Marfim porque na altura não sabia os nomes dos países em francês. Convidou-me para jantar. Que voltasse às 7, quando dava por encerrado o negócio. Eu respondi talvez e fui à minha vida. Enquanto andava na minha vida, pensava na proposta de Abdullah. Como era muito namoradeira, e tinha gostado muito d' O Fio da Navalha do Somerset Maugham, acabei por voltar a Montmartre, sem o que este post nunca teria existido.
Abdullah já empilhara as obras quando cheguei e olhou para mim (como suponho José Policarpo olharia para a nossa senhora de fátima se esta lhe aparecesse...), duvidando da minha corporalidade. Após tantos convites em vão, la voilà! Acho que foi isso que Abdullah pensou.
Para abreviar razões e este post, eu e Abdullah tornámo-nos namorados. Comíamos galinha picante com sumo de pacote (vinho, jamé!), ele mostrava-me fotografias da Côte d'Ivoire (lindíssimas!), falava-me da família que tinha deixado para trás, do seu sonho de ser pintor à Paris... e telefonava-me dez vezes por dia. Tanto telefonema acabou por atafegar-me, principalmente por causa daquela parte em que ele insistia em saber onde é que eu estivera durante o telefonema anterior que ninguém tinha atendido. Ao pesadelo de Bell juntou-se o do dernier métro: sempre que após um dia passado juntos eu queria ir para casa, Abdullah argumentava com o absurdo dos perigos subterrâneos; mas um homem que tem como namorada uma passante ocasional, que aceita jantar com ele sem o conhecer de lado algum, também deveria saber que não vai ser uma viagem de metro, mesmo tardia, a conseguir retê-la chez soi... Finalmente, Abdullah desatou a querer casar e levar-me à Côte d'Ivoire, onde me apresentaria ao pai, à mãe, à avó, aos irmãos e irmãs, aos tios e aos primos... As famílias demasiado alargadas dão-me claustrofobia e aquilo começou-me a assustar, muito mais do que o último metro que, de facto, por vezes não era seguro. Resumindo: eu estava-me a meter num «monte de sarilhos».
Poupo-vos ao desenlace, para acrescentar apenas que nunca mais vi o Abdullah nem fui à Costa do Marfim. E que dessa parte tenho pena.