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22/11/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis»

« (...) Avisto as rosas que abriram rente ao muro que marca a bifurcação do caminho que leva ao largo. Hoje não está lá o pequeno cão preto que guarda a passagem, atento e carrancudo como Caronte, o barqueiro do Hades. Estas são rosas literalmente cor-de-rosa, túrgidas, de pétalas labirínticas e resistentes, e não brancas e frágeis como as rosas que florescem em cachos no mês de Maio junto ao barranco por estes dias cheio de água, uma água argilosa que corre rápida e rumorosa escondendo as margens cobertas de musgo do atalho agora impraticável, os campos à volta forrados de uma erva alta e viçosa que deixa em destaque o laranja – sóis artificiais que ornamentam os campos – das laranjeiras carregadas, todas as outras árvores nuas, com excepção de uma ou outra figueira cujas folhas ásperas se recusam a encarquilhar ou de uma ou outra nespereira de floração amarelada, desgrenhada e sem graça. De resto, a Natureza tem sido generosa em água e trovoadas nocturnas. Os raios que antecedem o estrondear dos céus iluminam o rio e assombram a sonolência dos barcos. Espectáculo que permite perceber a diferença entre o belo e o sublime, dão-se graças por aqui à existência de pára-raios.

09/09/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «TEMPOS DESCONHECIDOS»

«... Não é apenas a ciência que se vem debruçando sobre esta realidade [o envelhecimento] que nos afecta a todos – sejamos nós pró-ucranianos, pró-russos, neutros (que também os há…), ou tão-só cidadãos da inabordável ilha Sentinela do Norte, cujos habitantes, presume-se, não são a favor de ninguém (em abono dos sentineleses se diga que é mais fácil amar um Povo do que o vizinho do lado).

Desde logo a lírica. E antes de prosseguir, sublinhe-se que esta não ocupa território incompatível com a ciência, pelo menos no que toca ao rigor da linguagem empregada, por vezes mais rigorosa até no campo do poetar. Um exemplo. Quando um cientista alude ao gato de Schrödinger, é impossível saber se fala de um gato vivo ou morto; já estes versos de Valter Hugo Mãe (“nenhum amor escapa impune”),

sobre o nelson que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da Isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade.”

logo nos deixam perceber que nelson e isabel não estavam mortos, pelo menos quando foram nomeados, embora nos possamos perguntar se não estaremos perante um homicídio da poesia. (...)»

29/07/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «COMO É DIFÍCIL PENSAR QUANDO TUDO ARDE»

Se, por um lado, bem nos podiam convidar para ir recuperar Olivença aos espanhóis, ‘tá quieto!, por outro toleramos sem pestanejar que o mesmo indivíduo, de nome Mário Ferreira, a quem foram atribuídos 52% dos apoios do Plano de Recuperação e Resiliência à recapitalização de empresas – 40 dos 77 milhões de euros disponíveis –, entretanto constituído arguido numa operação que investiga crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento, tenha já confirmada uma viagem ao espaço no foguetão do Jeff Bezos comprada decerto com desconto. Nem à bazuca! como no vídeo dos Marretas onde Miss Piggy canta Never on Sunday



Imaginemos estes homens em guerra. Difícil. Tão ou mais difícil do que está a ser para nós lidar com esta. E a lide é à distância.
Ah! Se o homem das cavernas tivesse sabido rir… (...)»

07/05/13

Só tenho uma dúvida, se eu não gostar de comer frango com as mãos mandam-me para um campo de reeducação na Coreia do Norte?

José Luís Peixoto gosta do seu povo. E é por me comover que ele goste tanto do seu povo que dedico ao Peixoto este poema que o Mário Cesariny dedicou às gentes que gostam do seu povo.

Vamos ver o povo
Que lindo é
Vamos ver o povo
Dá cá o pé

Vamos ver o povo
Hop-lá!
Vamos ver o povo

Já está.

A declaração de amor ao povo de José Luís Peixoto pode ser lida aqui

27/04/12

De como uma aldrabice do eduardo pitta me levou a este maravilhoso poema ou deus escreverá direito por linhas tortas [obrigada, nuno, sejas tu quem fores]

ESTE POST TEM QUE VER COM ESTE (cf. caixa de comentários)

"Escrevo ainda sobre o livro de contos Nos Sonhos Começam as Responsabilidades, de Delmore Schwartz (1913-1966), a obra que o consagrou. Admirado por Nabokov e T. S. Eliot, Schwartz é um dos poetas mais importantes dos anos 1930-40 americanos. Convidado habitual da Casa Branca, morreu aos 52 anos na miséria extrema. (...)."
[do senhor citado mais abaixo]

"In addition to being known as a gifted writer, Schwartz was considered a great conversationalist and spent much time entertaining friends at the White Horse Tavern in New York City."
[daqui]


E AGORA VAMOS AO QUE INTERESSA






Nothing is given which is not taken.

Little or nothing is taken which is not freely desired,
       freely, truly and fully.

"You would not seek me if you had not found me": this is
       true of all that is supremely desired and admired...

"An enigma is an animal," said the hurried, harried 
        schoolboy:

And a horse divided against itself cannot stand;

And a moron is a man who believes in having too many 
       wives: what harm is there in that?

O the endless fecundity of poetry is equaled 
By its endless inexhaustible freshness, as in the discovery
        of America and of poetry.

Hence it is clear that the truth is not strait and narrow but infinite:
All roads lead to Rome and to poetry
        and to poem, sweet poem
       and from, away and towards are the same typography.

Hence the poet must be, in a way, stupid and naive and a 
       little child;

Unless ye be as a little child ye cannot enter the kingdom 
        of poetry.

Hence the poet must be able to become a tiger like Blake; a
       carousel like Rilke.

Hence he must be all things to be free, for all impersonations
a doormat and a monument
to all situations possible or actual
The cuckold, the cuckoo, the conqueror, and the coxcomb.

It is to him in the zoo that the zoo cries out and the hyena:
"Hello, take off your hat, king of the beasts, and be seated, 
Mr. Bones."

And hence the poet must seek to be essentially anonymous.
He must die a little death each morning.
He must swallow his toad and study his vomit
as Baudelaire studied la charogne of Jeanne Duval.

The poet must be or become both Keats and Renoir and
Keats as Renoir.
Mozart as Figaro and Edgar Allan Poe as Ophelia, stoned 
out of her mind
drowning in the river called forever river and ever...

Keats as Mimi, Camille, and an aging gourmet.
He must also refuse the favors of the unattainable lady
(As Baudelaire refused Madame Sabatier when the fair 
blonde summoned him,

For Jeanne Duval was enough and more than enough, 
although she cuckolded him
With errand boys, servants, waiters; reality was Jeanne Duval.
Had he permitted Madame Sabatier to teach the poet a greater whiteness,
His devotion and conception of the divinity of Beauty
would have suffered an absolute diminution.)

The poet must be both Casanova and St. Anthony,

He must be Adonis, Nero, Hippolytus, Heathcliff, and
Phaedre,
Genghis Kahn, Genghis Cohen, and Gordon Martini
Dandy Ghandi and St. Francis,

Professor Tenure, and Dizzy the dean and Disraeli of Death.

He would have worn the horns of existence upon his head, 
He would have perceived them regarding the looking-glass, 
He would have needed them the way a moose needs a hatrack;
Above his heavy head and in his loaded eyes, black and scorched,
He would have seen the meaning of the hat-rack, above the glass
Looking in the dark foyer.

For the poet must become nothing but poetry, 
He must be nothing but a poem when he is writing 
Until he is absent-minded as the dead are
Forgetful as the nymphs of Lethe and a lobotomy...
("the fat weed that rots on Lethe wharf").



DAQUI

29/10/11

À espera dos bárbaros

Cavafy, o grego, não conheceu Kadhafi, o líbio. Este, chefe de Estado entre 1969 e 2011, foi assassinado a 20 de Outubro último.
A sua morte foi registada em directo; a não ser que — à semelhança de No Palácio do Fim de Martin Amis — Senad el Sadýk el Ureybi — o rebelde líbio que disse perante as câmaras não lhe agradar “a ideia de ele ser capturado vivo” e daí ter-lhe dado dois tiros, “um na cabeça, outro no peito” — se tenha enganado no alvo e atingido tão-só um sósia.
Não vi o vídeo e para o caso tanto faz. Não vi, como não vi o da criança chinesa atropelada, do enforcamento de Saddam ou da decapitação de Daniel Pearl. Em jovem assisti, por militância cultural, a 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasoloni. Enouhg is enough.
Leio agora que foram divulgadas mais imagens dos últimos momentos do alucinado, que apenas acrescentam crueldade à crueldade. Entretanto, o Ocidente festejou a queda do ditador — um “líder carismático”, nas palavras de José Sócrates (convidado de honra do 41º aniversário da revolução líbia), que ainda em finais de 2007 acampava no Forte de São Julião da Barra, era recebido com pompa pelo governo português e até dava “aulas” sobre os “Problemas da Sociedade Contemporânea” na reitoria da Universidade Clássica de Lisboa.
Não se pense, porém, que a hipocrisia foi exclusivo da “diplomacia económica” de Sócrates/Amado.
Aznar,González, Prodi, Berlusconi, Sarkozy, Putin, Barroso, Lula, Chávez, Fidel, Condoleezza Rice, Obama… nenhum faltou ao beija-mão. A alguns narizes, o smell do petróleo cheira melhor que o nº 5 da Chanel.
A indiferença com que reagiram à ignomínia do assassínio do homem diz bem do novo paradigma que assinala o caminho do declínio: em vez das públicas virtudes, Estado de Direito e tal, acção directa, no caso, versão kiss, kiss, bang, bang.
É o regresso ao Far West, mas sem bons — só feios e maus.
Citando Cavafy, o poeta que não conheceu Kadhafi: “E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? Essa gente, mesmo assim, era uma solução”.

09/06/10

A Pastelaria do Cesariny

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra