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22/09/11

Eduardo Pitta descobriu que, afinal, Sócrates não era o salvador da pátria... e em seguida foi comer profiteroles

O blogger Eduardo Pitta não faz a coisa por menos: "a Europa está à beira da implosão" e Portugal "não conta no desenho do novo Reich".
Seguro do seu radicalismo apocalíptico que, garante, será revelado ao mundo no prazo de 15 dias ou, pelo menos, até ao Natal, conclui que andamos a perder tempo com miudezas: "o governo que está é irrelevante. Este ou qualquer outro (menos acriançado)".
O itálico é dele e os profiteroles também. É o que dá, dez anos depois, querer imitar o estilo mordaz, seco e inimitável de Bellow.
Como diria (e disse), a propósito de Mark Steyn, Martin Amis (escritor igualmente mordaz e seco e com a grande vantagem de ter convivido longamente com Bellow antes de este ter morrido): "dei por mim a decidir que o sentido de decoro do Sr. [Pitta] deverá ser quase inumanamente escasso."

13/09/11

A book a day keeps the doctor away: "O Segundo Avião", Martin Amis

É algo que já foi mais comum: a reflexão política sobre temas contemporâneos assinada por escritores. O engajamento político (ou mesmo partidário) dos homens de letras foi perdendo peso com o fim da Guerra Fria, acompanhando uma suspeição generalizada pelas ideologias. Martin Amis desconfia das ideologias mas persiste numa tradição que fez a grandeza de alguns e o falhanço de outros tantos.
Os artigos sobre o 11 de Setembro escritos por Martin Amis entre 2001 e 2007 surgem reunidos neste volume sob o título de O Segundo Avião. A estes se acrescentam dois contos: “No Palácio do Fim”, onde o autor de Money imagina a vida dos duplos do filho de um ditador, e um outro que recria “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”, terrorista que morreria no embate do primeiro avião com as Torres Gémeas.
As duas ficções optam por encenar escatologias em que a fantasia fecal dá bem ideia do que Amis pensa sobre o assunto: a “bomba na retrete” no caso de “No Palácio do Fim”; “a incontestável fúria das (…) entranhas”, em “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”.
As posições do escritor inglês são incómodas. Não poupam ninguém. Não poupam a Al-Qaeda, não poupam bin Laden, não poupam Bush, não poupam Blair, não poupam Chomsky. Para além disso, o homem escreve bem que dói.
“Em Movimento com Tony Blair”, apontamentos de viagens em que o escritor/repórter acompanha o ex-primeiro-ministro, é um tratado de inteligência, ironia e domínio do ofício: “Testemunhamos os discursos triunfais e ouvimos os aplausos, mas normalmente não vemos o momento de feroz deleite político, o profundo e duradouro contentamento da vindicação: eu sempre tive razão! Num outro castelo, o de Hillsborough (o postigo da rainha em Belfast e ocasional lugar de pernoita de Bush), houve outro desses, quando Blair teve uma serena meia hora com o titubeante Teddy Kennedy e o temível Peter Hain. A História
o imprevisto sem remorsos conspirara por uma vez na vida com o desejo deles, e era tudo muito comedido, neste perdoável regozijo, tudo muito sussurrado e enrouquecido e duramente alcançado.”
Recordamos a escrita viril de Bellow, mestre de Amis, e sentimos uma saudade imensa dos bons textos jornalísticos.
Dez anos passados do 11 de Setembro, O Segundo Avião é a forma adequada de assinalar a data. Submersos pela crise, esse dia parece-nos cada vez mais longínquo e a paranóica War on Terror terá dado lugar a temas mais prementes.
Há, contudo, um antes e um depois do 11 de Setembro
assim como há um antes e um depois da Queda do Muro de Berlim. Amis di-lo com clareza: “O 11 de Setembro deu-nos um planeta que quase nem reconhecemos. Em certo sentido veio revelar o que já ali estava (…) desde o colapso da União Soviética: a inédita preponderância de uma única potência. Revelou também o há muito estabelecido mas crescentemente dinâmico ódio ao Ocidente entre as nações islâmicas, um ódio muito exacerbado pela relação que a América mantém com (…) Israel (…). Além disso, como todos os ‘atos de terrorismo’ que facilmente e sem subjectividade alguma se podem definir como violência organizada que toma por alvo os civis (…) foi um ataque à moralidade: sentiu-se um défice geral. Quem é que, a 10 de setembro, esperaria estar pela altura do Natal a ler uns nada escandalizados editoriais no Herald Tribune acerca dos prós e dos contras de se usar a tortura nos ‘combatentes inimigos’? Quem esperaria que a Grã-Bretanha renunciasse à doutrina do não-primeiro-uso do nuclear? O terrorismo mina a moralidade. Além disso, também mina a razão” sendo próprio da razão distinguir tolerância de relativismo, compreender de aceitar. É isso que Amis faz.
Martin Amis, O Segundo Avião, 2011, Quetzal, trad. de Jorge Pereirinha Pires