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05/08/22

AMNISTIA INTERNACIONAL DEBAIXO DE FOGO

A Aministia Internacional atribui crimes de guerra aos russos: aplausos.

A Aministia Internacional denuncia que as tropas ucrânianas usam civis como escudos de guerra, ai que cai o Carmo e a Trindade e logo volta a acusação de não saber distinguir o invasor do invadido.

Como uma vez, já um bocado enfadada com a manipulação, gritei bem alto num anfiteatro da Faculdade, após o professor da cadeira de Teoria de Conhecimento sublinhar pela terceira ou quarta vez como quem não quer a coisa que o Empirismo é uma variante do Idealismo: «Já percebemos!»

Estamos assim. 

22/12/12

O Homem Pensa, Deus Ri

Gosto muito de Santo Agostinho. Apesar disso, só posso dar razão a Jim Hankinson quando este escreve em “O Especialista Instantâneo em Filosofia”, a propósito da chamada Idade das Trevas: “a pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se em disputas tais como se Deus era Uma Pessoa em Três ou Três Pessoas Numa, a natureza exacta da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo)”.
Séculos passados sobre a castração de Abelardo e a Querela dos Universais, deparamo-nos com a polémica sobre o burro e a vaca. Ao que parece, o Papa terá sido mal citado. Bento XVI, apesar de ter escrito que tais criaturas não constam no registo bíblico, nunca ordenou que fossem excomungadas do presépio.
Não deixa de ser curioso, contudo, o ruído à volta das declarações do chefe da Igreja católica. Jornais, televisões e redes sociais atiraram-se aos pobres animais como cães a osso, e os debates renhidos sobre a existência de Deus deram lugar a acesas discussões sobre a existência dos dois quadrúpedes.
Que nos seja permitido suspeitar que tal deriva teológica substancia um empobrecimento intelectual do mundo, a que acresce o facto de ninguém nos garantir que a veemência posta na defesa dos pobres bichos não possa igualar, em fanatismo, o vigor com que foi afirmado o Ser Supremo.
É dos livros que a fé move montanhas e tende a deixar um rasto de cadáveres. Chato mesmo, é que nada nos garante que sem fé a coisa tivesse corrido melhor, apesar de alguns estudos afiançarem que os países nórdicos (com maior % de ateus) são socialmente mais justos. E se a coisa for do clima?

08/09/11

A Parábola da Agulha (que para o eduquês já demos)

Longe de mim ter teorias sobre educação. Há poucas coisas, aliás, sobre as quais tenha teorias, apesar de Platão ser o meu pensador preferido pelo menos desde 1978, salvo erro, ano em que conclui que a sua Teoria das Ideias se podia resumir na boa a uma parábola contada algures por Herberto Helder.

Cito: “Levanto-me então da plateia e, por entre as metralhadoras esculpidas, conto de novo a parábola da agulha, que me obceca. Desentranhei-a de um velho manual. Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caiu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.”

Como presumo até os estudantes liceais de Filosofia saberão (supondo que ainda existam), na Caverna Platónica também fazia escuro p’ra caraças. Vai daí, o filósofo, que, como a mulher da parábola, nada tinha de parvo, foi à procura das Ideias noutro sítio.

Voltando à educação e ignorando os temas sindicais recorrentes – assunto sobre o qual “só sei que nada sei” –, o que eu gostaria mesmo era que alguém reflectisse a sério sobre isto: “Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que provavelmente levará à alteração de certos aspectos da consciência num futuro não muito distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo”, António Damásio, O Livro da Consciência.

Atendendo à dificuldade que há já em sentá-los (a que acresce a insistência na discussão estéril do “eduquês”), temo que o custo seja grande. E qualquer dia nem a agulha do Platão, perdão, do Herberto Helder, nos ajudará a encontrar o Norte.

19/02/11

Reflexão para o fim-de-semana

"Os perus reais são mais pesados que os perus imaginados" in Pense - Uma Introdução à filosofia, Simon Blackburn, Gradiva, 2001

09/10/10

Ó Platão, pobre Platão e foi para a Marta Rebelo escrever estas barbaridades que Sócrates bebeu a cicuta

«A República Portuguesa, essa jovem de 100 anos, está longe de constituir a sociedade justa que Platão compôs n' A República, no século IV a.C. Trata-se de um "diálogo socrático", género literário em prosa: todo o diálogo é narrado na primeira pessoa, por Sócrates, que desafia o interlocutor à discussão para, através da ironia e da maiêutica, fazerem uma descoberta dialogante da verdade e chegaram ao ideal da sociedade justa. No Politéia de Platão, tal como na República do 5 de Outubro, a educação é o núcleo da justiça social, pois permite seleccionar e avaliar as aptidões de cada um. Ora, dividida a alma platónica em três partes, resta saber em quem é que, nos cem anos da nossa República, predomina o apetite, a coragem e a razão.»

Aqui, a partir daqui e do que eu mais gosto é da definição de “diálogo socrático”: género literário em prosa em que todo o diálogo é narrado na primeira pessoa.
Por muito menos do que isto o meu querido professor José Trindade Santos dava-lhe com A República na cabeça.

12/04/10

A castidade explicada às mulheres por Pedro Arroja: e tudo por causa da metafísica

Ele há coisas que a gente pensa que já não existem mas existem. Por exemplo: Pedros Arrojas.
Eu sei que a história do mundo não tem confirmado assim tanto a escatologia feliz proposta por Hegel e Marx. Tenho até algumas dúvidas sobre os ganhos da emancipação feminina. Mas caraças! Chamarem-me estúpida é que não.
Afinal, de onde é que esse tal Pedro Arroja me conhece para afirmar assim do pé para a mão que eu seria incapaz de compreender o meu marido (que até ver não tenho...) se este resolvesse dedicar um dia da sua vida à especulação metafísica, filosófica ou teológica fechado num quarto sozinho, eventualmente rodeado de livros?
De onde é que ele eventualmente me conhece para afirmar que eu possuo um enorme sentido prático da vida e me falta sentido metafísico?
Ao autor de tais dislates paleolíticos, três coisas:
1. Desafio-o a discutir comigo (mas nunca no seu quarto, era o que mais faltava...) as provas da existência de Deus de Santo Anselmo. E se conhecer algo de mais metafísico, faça favor.
2. Peço-lhe encarecidamente que, no intervalo das suas meditações filoteológicas, me ajude em alguns problemas práticos para cuja resolução já desisti de contribuir. Assim de repente, consigo lembrar-me do lavatório de uma das casa de banho que pinga, da janela da sala do meio que não fecha, do impresso do IRS que não sei preencher, de um espelho pesadísimo que precisava de pendurar na parede, de uns quantos puxadores de porta fanados...
3. Finalmente, garanto-lhe que sou um exemplar confirmado do género feminino, não tenho bigode nem nunca me foi detectada nenhuma produção excessiva de testosterona.
E quanto ao resto [a prosa do Arroja pode ser lida na íntegra aqui] deixe-me que lhe diga: se houvesse um Prémio Nobel da Praticalidade, perdão, Imbecilidade, ia direitinho para si.
Ele há com cada um!

11/02/10

Ora aqui está outro que nunca me enganou

Bernard-Henri Lévy é como o outro: aborrece-me. Acho-o pomposo e vaidoso, malgré a indiscutível elegância no trajar. Do corte de cabelo não falo.
Cá para mim, limita-se a escrever e a dizer banalidades que servirão talvez para épater le bourgeois mas pouco mais.
"Vertigem Americana" era uma bosta (quem quiser saber porquê pode ler este post da altura) e, volta não volta, alguém lhe denuncia trapalhadas (no referido post estão algumas).
No seu livro mais recente, "De la guerre en philosophie", depois de arrumar com facilidade Hegel e Marx acrescentou-lhes o Kant.
O tiro, porém, saiu-lhe pela culatra. É que para alicerçar a sua "teoria anti-kantiana" recorreu a Jean-Baptiste Botul (1896-1947), o pretenso autor d' "A Vida Sexual de Emmanuel Kant" que por acaso está vivo, é um brincalhão e chama-se Fréderic Pagès.
Botul, o fake (assim como a vida sexual do filósofo alemão que ninguém pode garantir ter existido), saltou da tumba - ou seja, do anonimato - e desmascarou o "novo filósofo" com idade para ter juízo.
Lévy, comme d'habitude e apesar dos cabelos brancos, armara-se aos cágados.

"Ou bien encore Kant, le prétendu sage de Königsberg, le philosophe sans vie et sans corps par excellence, dont Jean­-Baptiste Botul a montré, au lendemain de la Seconde Guerre mondiale, dans sa série de conférences aux néo-kantiens du Para­guay que leur héros était un faux abstrait, un pur esprit de pure apparence - et cela à deux titres au moins: le concept de monde nouménal où s’entend l’écho d’une jeu­nesse spirite, vécue parmi les ombres et les limbes, dans un royaume d’êtres énig­matiques et accessibles par la seule télépa­thie; l’idée, ensuite, des catégories de l’entendement, la manie du transcendan­tal, l’obsession de catégories rigides fonc­tionnant comme un corset et qui semblent parfois là pour contenir une folie souter­raine, donner forme au flux chaotique des sensations, faire barrage à la confusion mentale dont les biographes savent, aujourd’hui, qu’elle le menaçait plus qu’aucun autre - Kant, ce fou furieux de la pensée, cet enragé du concept, dont toute la Critique de la raison pure pourrait se lire, dans ce cas, comme le récit d’un drame intime, une autobiographie secrète et cryptée… Pourquoi est-ce que je dis tout cela?"
Boa pergunta.

Resumindo: o rei ia nu e desta vez toda a gente viu.
O mais divertido, porém, é que o filósofo botulista tenha escrito: [Kant] "era um abstracto falso, um puro espírito de pura aparência." Acho que em psicologia se chama a isto transferência.

28/08/09

Porque nos querem fazer crer que a realidade deles é única, inevitável e sem caroços

Confesso: o credo realisticó-pragmático provoca-me apoplexia. Explicando-me melhor. Apesar de provavelmente deus nem sequer existir, entre o bispo George Berkeley e o agnóstico (?) José Sócrates não hesito: janto com o primeiro. Com ou sem temas fracturantes servidos à sobremesa. E digo mais. Entre a ditadura desta corja medíocre e os marcianos de Brown o meu par é o Luke Deveraux.
Tornando a coisa absolutamente clara: I do have certain feelings. My feeling is that whoever is in charge, I want him out (Lewis Black). E chamem-me irrealista à vontade.

17/08/09

A book a day keeps the doctor away - ou a prova de que um compêndio de filosofia não tem necessariamente de ser escrito por idiotas nem para idiotas

Quase podia servir de manual. Um manual que, como a palavra indica, se transporta na mão. Organizado com rigor e inteligência, Problemas da Filosofia não interessará apenas ao público especializado (como é, aliás, característica da colecção ‘Filosofia Aberta’ da Gradiva, onde se insere). Útil, sem dúvida, aos estudantes da disciplina e eventual ferramenta de professores, o livro de James Rachels (1941-2003) consegue ser suficientemente apelativo para poder ser lido por qualquer pessoa que, como Brian Cohen (do filme dos Monty Python), pense que andamos cá para pensar pela nossa própria cabeça.
Os temas são os habituais, e provavelmente eternos. Começando por Sócrates, o grego que terminou a beber a cicuta, discute-se Deus e a origem do Universo, o problema do mal, a vida pós-morte, a questão do Eu e da identidade, a dicotomia corpo e mente, o livre-arbítrio, a objectividade do conhecimento, os fundamentos da ética e o sentido da vida. É obra! E é tanto mais obra quanto Rachels consegue, para cada argumento, expor o seu contraditório, tudo isto em pouco mais de 300 páginas.
Com notas explicativas e sugestões de leitura que permitirão ao leitor interessado ir mais a fundo nas questões, o autor de Problemas da Filosofia (de quem a Gradiva já publicara o obrigatório Elementos da Filosofia Moral) aborda numa linguagem simples, mas não simplória, o por vezes hermético pensamento filosófico, traduzindo-o em perguntas que qualquer um de nós perceberá: ‘porque razão as pessoas boas sofrem?’; ‘poderá uma máquina pensar?’; ‘as pessoas serão responsáveis pelo que fazem?’; ‘porque razão é mau mentir?’; ‘como sabemos que as nossas experiências representam correctamente o mundo?’, etc.
Dentro de uma linha de exposição que privilegia a argumentação lógica e analítica, Rachels consegue fugir aos sofismas e pôr-nos a pensar. Andassem os manuais escolares perto disto e a filosofia nos liceus seria outra coisa. Embora também seja verdade que, como bem ilustra o caso de Sócrates, ‘corromper a juventude’ (uma das razões porque terá sido condenado à morte) não é actividade recomendável a qualquer um. Pelos riscos evidentes que pode comportar, claro.
Problemas da Filosofia, James Rachels, Gradiva, 2009

14/01/09

Ainda no gamanço: da meteorologia à lógica ou de como isto anda mesmo tudo ligado

Era Outono e os índios da reserva perguntaram ao novo chefe se o Inverno ia ser frio. Educado segundo o estilo moderno, o chefe nunca tinha aprendido os antigos segredos e não fazia ideia se o Inverno iria ser frio ou ameno. Para jogar pelo seguro, aconselhou a tribo a apanhar lenha e preparar-se para um Inverno frio. Alguns dias mais tarde, lembrou-se de telefonar para o Serviço Nacional de Meteorologia e perguntar se previam um Inverno frio. O meteorologista replicou que, de facto, pensava que o Inverno seria bastante frio. O chefe aconselhou a tribo a armazenar ainda mais lenha.
Duas semanas mais tarde, o chefe ligou de novo para o Serviço de Meteorologia.
― Continuam convencidos de que o Inverno vai ser frio? - perguntou.
― Continuamos ― respondeu o meteorologista ― Tudo indica que vai ser um Inverno muito frio.
O chefe aconselhou a tribo a apanhar toda a lenha que conseguissem encontrar. Passadas duas semanas, o chefe telefonou uma vez mais para o Serviço de Meteorologia e perguntou como pensavam que o Inverno seria naquele momento.
― Agora, estamos a prever que será um dos Invernos mais frios de que há registo! ― informou o meteorologista.
― A sério? ― perguntou o chefe ― como podem ter tanta certeza?
― Os índios andam a apanhar lenha como loucos! ― replicou o meteorologista.
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar, capítulo II - Lógica/Argumento Circular, ed. D. Quixote [aqui]

24/10/08

Com a crise, que será feito dos investidores do Second Life e dos linden dólares?

Cá para mim os avatares confiaram demasiado no imaterialismo do bispo de Berkeley e a mente cósmica caiu-lhes em cima. Mas quem tiver notícias, chute.

28/11/07

De Maio de 68 a Novembro 07 ― Sinais do Progresso (Post Modificado e, Espera-se, Melhorado)

Paris, Maio 1968
Paris, Novembro 2007
«Dissemos que o objecto do Espírito não é se não ele próprio. Nada há de mais elevado do que o Espírito, nada seria mais digno de se tornar no seu próprio objecto. O Espírito não encontra paz, não pode ocupar-se de mais nada antes de se conhecer e saber o que é (...) O Espírito deve, pois, chegar ao saber do que é verdadeiramente e objectivar esse saber, transformá-lo num mundo real e produzir-se a si próprio objectivamente. É esse o fito da história universal. (...) O Espírito não é um ser natural, como o animal que é aquilo que é imediatamente. O Espírito produz-se a si próprio, faz-se a si próprio o que é. O seu ser não é existência em repouso, mas actividade pura: o seu ser é ter sido produzido por si, ter-se tornado por si, ter-se feito por si. Para existir verdadeiramente é necessário que tenha sido criado por si: o seu ser é o processo absoluto. Esse processo, mediação de si próprio consigo próprio e por si próprio (e não por um outro) implica que o Espírito se diferencie em Momentos distintos, se entregue ao movimento e à mudança e se deixe determinar de diversas maneiras. Esse processo é também, essencialmente, um processo gradual, e a história universal é a manifestação do processo divino, da marcha gradual através da qual o Espírito conhece e realiza a sua verdade. Tudo o que é histórico é uma etapa desse conhecimento de si. O dever supremo, a essência do Espírito, é conhecer-se e realizar-se. É o que ele leva a cabo na história: produz-se sob certas formas determinadas, e essas formas são os povos históricos. Cada um desses povos exprime uma etapa, designa uma época da história universal. Mais profundamente: esses povos encarnam os princípios que o Espírito encontrou em si e que deve realizar no mundo. Existe, pois, entre eles uma conexão necessária que não exprime se não a natureza mesma do Espírito. A história universal é a manifestação do processo divino absoluto do Espírito nas suas mais elevadas formas: marcha gradual pela qual ele alcança a sua própria verdade e toma consciência de si. Os povos históricos, as características determinadas da sua ética colectiva, da sua constituição, da sua arte, da sua religião, da sua ciência, constituem as figurações desta marcha gradual.»
E estava eu a encontrar consolo nestas palavras de Hegel, escritas em A Razão na História, quando o poeta Borges me saltou ao caminho no meio dos escombros da periferia parisiense e filosofou do alto da sua cegueira: «A metafísica é um ramo da literatura fantástica». Porra!

27/11/07

Era uma vez um Ursinho de Peluche Chamado Maomé... — a História Parece Ter Graça mas não Tem Graça nenhuma

Este texto foi escrito a propósito da contestação histérica às caricaturas de Maomé publicadas em Setembro de 2005 por um jornal dinamarquês. Tudo o que nele está dito se aplica, por maioria de razão, ao actual caso da professora primária britânica, presa no Sudão por ter permitido que a um ursinho de peluche fosse dado o nome do Profeta. Está sujeita a 40 chibatadas, 6 meses de prisão e uma multa em dinheiro. Parece mentira mas não é.



Estes são os meus princípios. Se não gostarem, arranjo outros. A frase é de Groucho Marx e há quem ande a levá-la a sério. Os pedidos de desculpa — os «apelos ao respeito e ao bom senso», eufemisticamente falando — multiplicaram-se nas últimas semanas, encabeçados pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que veio apelar ao perdão dos ofendidos e lembrar que a liberdade de imprensa se deve exercer respeitando «plenamente os princípios e crenças de todas as religiões».
No já remoto dia 12 de Maio de 1952, no New York Herald Tribune, o cardeal espanhol Pedro Segura arriscava ser mais claro: «A liberdade de imprensa é um dos maiores males que ameaçam a sociedade moderna». Apesar das suas desavenças com Franco, Pedro Segura era um homem de direita. Também por isso, não deixa de ser curioso que, com algumas excepções, sejam os media posicionados desse lado quem mais vem reproduzindo os cartoons da discórdia. Razão invocada? Haja liberdade de opinião! O mundo anda confuso.
Em 1859, no ensaio On Liberty (Ensaio sobre a Liberdade, Arcádia, 1973), John Stuart Mill escrevia que «o único fim pelo qual a humanidade está autorizada, individual ou colectivamente, a interferir na liberdade de acção de qualquer um dos seus é para sua própria protecção». Cerca de 100 anos antes, Voltaire terá dito: «Não concordo com uma única palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito a dizê-lo».
Esta tolerância inegociável, assente numa liberdade axiomática que tanto tempo levou a conquistar — recorde-se que o Index do Vaticano apenas foi suprimido pelo Papa Paulo VI em 1965 e que a reabilitação oficial de Galileu data de 1992, 359 anos após o célebre «Eppur si muove» —, parecia, pelo menos para alguns e até há poucas semanas, prerrogativa da nossa cultura. Engano nosso?
A gaguez com que muitos vêm reagindo à vaga de fundo dos fundamentalistas islâmicos permite-nos suspeitar que, também deste lado (talvez porque o mundo é redondo e não tem lados), o princípio da liberdade, nomeadamente o da liberdade de expressão, pode estar a preços de saldo.
Acrescentando à lista de citações outro notável, note-se apenas como Bertrand Russell, a propósito da censura, definia «obscenidade» ainda em tempos bem recentes: «Obscenidade não é termo passível de definição legal exacta: na prática dos tribunais, significa 'tudo o que choca o magistrado'». À luz da actual e piedosa compreensão pela revolta dos fiéis, o termo (agora chamam-lhe blasfémia) parece ter-se tornado em «tudo o que choca as multidões em fúria».
Não sejamos ingénuos. Por detrás do caso dos cartoons espreitam, também na Europa, coisas com muito menos graça. A xenofobia é, com certeza, uma delas. Ainda assim, alguém consegue imaginar os Estados membros da União Europeia reunidos de urgência em 1978, a braços com uma revolta cristã contra A Vida de Brian, o último Monty Python acabado de estrear?
Pois é o que vem acontecendo em Bruxelas, vários séculos passados sobre a chamada Idade das Trevas, aquela durante a qual, na opinião de Jim Hankinson, «a pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se em disputas tais como se Deus era Uma Pessoa em Três ou Três Pessoas Numa, a natureza exacta da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo)» (in O Especialista Instantâneo em Filosofia, Gradiva/Público, 1996).
Hankinson é um brincalhão, mas Aristóteles estava a falar a sério quando concluiu que «as cobras não têm pénis porque não têm pernas; e não têm testículos por serem tão compridas». Hoje rimo-nos desta precipitação empírica, mas tenderá o (nosso) riso a desaparecer, como previu o francês Marcel Schwob?
«Esta prova física grosseira do sentido que temos de uma certa desarmonia no mundo deverá apagar-se face ao cepticismo total, à ciência absoluta, à piedade geral e ao respeito por todas as coisas. Rir é deixar-se surpreender por uma negligência das leis (...)», escreveu o autor de Vidas Imaginárias (Teorema, 1990). Nesta altura, os simpatizantes do respeito e do bom senso dirão que há limites para tudo. 35 anos depois de Jesus Cristo (Superstar) ter dançado na Broadway, teremos de começar de novo?
Sobram os adeptos do «bom gosto». Sobre esses, o filósofo espanhol Fernando Savater disse o que havia a dizer na edição de 11-02-2006 do El País: «Jean Daniel (reputado jornalista francês, fundador e director de Le Nouvel Observateur) informou-nos, nestas mesmas páginas, que aceita a blasfémia sempre que acompanhada de bom gosto e dignidade artística: ele é daqueles que apenas apreciam stripteases quando são feitos ao som de Mozart».
Guardados para o fim os que se indignam com «o insulto gratuito e permanente a uma cultura» («Choque e Pavor», Daniel Oliveira, Expresso, 4-02-2006) e, fazendo minhas as palavras do cronista, «só para sabermos do que estamos a falar», repare-se na confusão instalada, para desconforto de muitos (mais à esquerda do que à direita), entre três conceitos distintos: tolerância, cepticismo e relativismo (no qual nem Einstein acreditava).
Simon Blackburn, filósofo inglês, autor, entre outros, do útil e divertido Dicionário de Filosofia (Gradiva, 1997), deu, a 13-12-2001, uma palestra sobre o tema no King's College londrino.

«A tolerância é a disposição para combater a opinião apenas com a opinião: por outras palavras, a disposição para proteger a liberdade de expressão e para enfrentar as divergências de opinião apenas com a reflexão crítica e não com a repressão ou a força», resumiu, sublinhando depois uma evidência histórica que nem todo o esforço doutrinário do padre Carreira das Neves (ver Expresso, «Actual», 11-02-2006) consegue obliterar: «A tolerância deu entrada na vida política com o Iluminismo. Trata-se de uma virtude caracteristicamente secular (...). De um modo diferente, o relativismo presume que "não existem assimetrias na razão e no conhecimento, na objectividade e na verdade (...)". Tudo o que há são diferentes pontos de vista, cada um dos quais "verdadeiro" para aqueles que o defendem (...). Não só devemos tentar compreendê-los (aos vários proponentes dos vários pontos de vista), mas também reconhecer a existência de uma simetria de estatutos. As suas opiniões "merecem o mesmo respeito que as nossas" (...) podemos ter valores ocidentais, mas eles têm outros; nós temos uma visão ocidental do universo, eles têm a deles; nós temos a ciência ocidental, eles têm a ciência tradicional», etc., etc.
Resta a especificação de «cepticismo». Blackburn fá-la com clareza: «Segundo o relativista, a crença e a convicção voam pela janela fora porque (...) há por aí demasiadas verdades (...). Para o céptico, a crença e a verdade voam pela janela fora porque a verdade é demasiado rara. Ao contrário da atitude mental relativista, a do céptico é muitas vezes merecedora de admiração».
O resultado patético da promoção generalizada do «ponto de vista» a princípio gnoseológico e ético é bem ilustrado por Blackburn, que narra, nem a propósito, um episódio retirado de um encontro ecuménico: «Primeiro os budistas falaram das vias para a serenidade, da subjugação do desejo, do caminho da luz, e os seus colegas do painel disseram todos: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro". Então o hindu falou dos ciclos de sofrimento, nascimento e renascimento, dos ensinamentos de Krishna e da via para a libertação, e todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro". E assim sucessivamente, até que chegou a vez do sacerdote católico falar da mensagem de Jesus Cristo, da promessa de salvação e do caminho para a vida eterna. Nessa altura, todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro". Mas ele deu um murro na mesa e gritou: "Não! Não é uma questão de eu me dar bem com isso! É a verdadeira palavra de Deus, e se não acreditam vão todos direitos para o Inferno!" E todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro"».

Marguerite Yourcenar estava convencida que as religiões monoteístas tinham sido a desgraça dos homens. Nietzsche anunciava que os deuses tinham morrido de riso ao ouvirem um deles dizer que era o único. Alfred Jarry garantia que «Deus é o caminho mais curto entre o zero e o infinito, tanto numa direcção como noutra». São opiniões estimáveis, mesmo se não temos de concordar com elas.
Entretanto, há gente condenada ao silêncio, à morte, desaparecida, facto que os ocidentais preocupados «com insultos gratuitos permanentes» tendem a esquecer com total liberdade. Leia-se novamente Savater: «Sei - disse-mo Cioran - que todas as religiões são cruzadas contra o sentido de humor, nego-me, contudo, a acreditar que mil e quinhentos milhões de muçulmanos se tenham forçosamente de sentir ofendidos: seria tomá-los a todos por imbecis, o que me parece sumamente injusto. Se fosse muçulmano (...) perguntar-me-ia, como fez o semanário jordano Shihane, "o que prejudica mais o Islão, estas caricaturas ou um sequestrador que degola a sua vítima em frente às câmaras?" Infelizmente, já não teremos resposta nem debate, porque o semanário foi imediatamente fechado e o seu director despedido».
Como lembrou Susan Neiman em O Mal no Pensamento Moderno (Gradiva, 2005) - ela sim, com inegável bom senso - «lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche». Nem por isso a filósofa norte-americana deixa de realçar que «a perda de certezas sobre os alicerces gerais dos valores não afectou as certezas sobre os exemplos particulares». Por esta razão, a advertência sobre o risco de pensarmos que «os "bons" somos nós e os "maus" são os outros» (Carreira das Neves) não acrescenta nada ao assunto, escamoteando apenas uma realidade que importa condenar, sem ilusões na «conciliação do inconciliável» (ver Vasco Pulido Valente, Público, 12-02-2006): sistemas teocráticos onde o petróleo flui por entre a maior miséria e as mulheres vivem subtraídas aos mais elementares direitos.

E agora: podemos falar a sério ou já não se pode brincar?

13/11/07

Café Philo: a Alta-Filosofia Bebe-se na Pastelaria

The Philosophers' Drinking Song



SEGUE A LETRA

Immanuel Kant was a real pissant
Who was very rarely stable.
Heidegger, Heidegger was a boozy beggar
Who could think you under the table.
David Hume could out-consume
Wilhelm Friedrich Hegel, [some versions have 'Schopenhauer and Hegel']
And Wittgenstein was a beery swine
Who was just as schloshed as Schlegel.
There's nothing Nietzsche couldn't teach ya
'Bout the raising of the wrist.
Socrates, himself, was permanently pissed.
John Stuart Mill, of his own free will,

On half a pint of shandy was particularly ill.
Plato, they say, could stick it away-

-Half a crate of whisky every day.
Aristotle, Aristotle was a bugger for the bottle.

Hobbes was fond of his dram,
And René Descartes was a drunken fart.

'I drink, therefore I am.'
Yes, Socrates, himself, is particularly missed,

A lovely little thinker,
But a bugger when he's pissed.

30/10/07

Dente por Dente, Olho por Olho que quanto ao Tabaco já Estamos Servidos, Obrigada

Vão-me desculpar o tom repugnantemente confessional deste post mas há mais de três dias que me dói um dente. Cá vai: a Direcção-Geral da Saúde emitiu uma circular a todos os Centros de Saúde para que criem consultas específicas dirigidas a quem queira deixar de fumar, na sequência da nova lei do tabaco que entrará em vigor a 1 de Janeiro. A dependência tabágica, um dos temas mais fracturantes das sociedades pós-pós-modernas (a juntar a outros, como o aborto, a eutanásia, pena de morte, índice mínimo de massa corporal, celibato de padres e freiras, etc.), transforma-se, assim, numa patologia oficialmente reconhecida em Portugal.
Eu sei que a inveja é uma coisa muito feia. Mas as filas de fumadores arrependidos que imagino a formarem-se nos Centros de Saúde beneplacitamente acolhidas por pessoal de sorriso Pepsodent em riste faz vir ao de cima o pior que há em mim. E pergunto: por que não antes consultas específicas dirigidas a quem não queira ficar desdentado? E já agora também: por que não antes consultas específicas dirigidas a quem não queira ficar cegueta?
Concedo que um abcesso não é uma enfermidade fracturante por aí além, mas desde quando é preciso ser realisticamente moderno para se ter direito a médico? A pergunta é retórica. A dor é real. Recorda-me que o país entrou em delírio e que a Berkeley nunca lhe deve ter doído os dentes.

25/09/07

RELATIVISMO ECUMÉNICO

«Primeiro os budistas falaram das vias para a serenidade, da subjugação do desejo, do caminho da luz, e os seus colegas do painel disseram todos: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso, porreiro". Então o hindu falou dos ciclos de sofrimento, nascimento e renascimento, dos ensinamentos de Krishna e da via para a libertação, e todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso, porreiro". E assim sucessivamente, até que chegou a vez do sacerdote católico falar da mensagem de Jesus Cristo, da promessa de salvação e do caminho para a vida eterna. Nessa altura, todos disseram: 'Eh pá, fixe, se te dás bem com isso, porreiro". Mas ele deu um murro na mesa e gritou: "Não! Não é uma questão de eu me dar bem com isso! É a verdadeira palavra de Deus, e se não acreditam vão todos direitos para o Inferno!" E todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso, porreiro"», Simon Blackburn