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23/12/13

Boas Festas e não se fala mais nisso.

O Mano-Rei! Conheci o Boris Skossyreff em casa dos meus pais, era eu uma criança. Foi lá jantar uma noite, levado pelo Francisco Fernandes Lopes, médico famoso da terra, melómano, grande amante do Bel Canto. Do russo, guardo uma memória vaga. Paletó branco, gestos maneiristas, um monóculo de vidro que lhe acentuava o olhar redondo, de peixe. Lembro-me de sentir cólicas…Um rei e ao vivo… Quando o vi à porta de casa, sem coroa, sem escudo, sem trazer sequer uma espada, confesso a desilusão. Fez-me uma festa distraída na cabeça e cumprimentou a minha avó em francês, ao que ela, que tinha aprendido alguns mots com as filhas do Massé, o gerente da Fábrica Velha que viera da Bretanha para se radicar em Olhão, respondeu, desembaraçada, mulher levada da breca: “J’espere que vossemecê, le prince, aimez charrinhos alimádôs, que é o que há. Merci beaucoup.” Esta parte, a dos charros limados com pronúncia, julgo que não a registei na altura, será frase em segunda mão sacada aos anais da família… Vá lá alguém confiar na sua própria memória!

O que corria em Olhão é que um tal Boris Skossyreff procurava transporte marítimo, não para a Índia mas para o Marrocos francês. Em Espanha tinham-no posto a andar, a ele e às suas manias, de grandeza ou realeza, no caso dava o mesmo. Com a coroa e o ceptro deixados para trás, em Andorra, talvez na prisão em Madrid, entrou em Portugal pela fronteira de Portalegre, a salto e a calcantes, sem papéis e pés elefantinos, diria o próprio, um contrabandista a guiá-lo pelos caminhos da serra a troco de doze pesetas que na altura era dinheiro. Chegados com uma mala de mão que transportavam à vez, acaba a polícia local por mandar o Mano-Rei para Lisboa. Pormenores ultimados, sapatos novos, segue dois dias depois de camioneta, assento de segunda-classe e séquito condigno, um bófia embasbacado por tarefa tão ilustre, “Acompanha vossemecê Sua Alteza e não a perca de vista”, a diferença dos bilhetes por conta do Skossyreff que os iam embarcar em terceira, apertados junto às couves e aos suínos, guardados os talões de despesa que o pajem de serviço já antes morfara um bife e dois ovos à conta, contava o Lopes que tinha visto o recibo assinado pelo Príncipe, tal e qual, Príncipe Boris, um bife e dois ovos, vinho e limões, açúcar e aguardente, total oito escudos e cinquenta, talvez tenham roubado o homem.

O Doutor Lopes era visita de casa. Um extravagante! Estava para Olhão como o ás de copas para a Sueca, se é que me percebe, que por qui sempre houve quem jogasse fora do baralho ou sem o baralho todo. Ainda hoje me pergunto o que o terá levado a ficar pelo Algarve, “impressionista e mole”, como disse o João Lúcio. A única explicação que encontro é a barraca que ele tinha na Armona, para onde ia com a família no Verão, incluindo duas ovelhas não fosse dar-se o caso de na ilha o leite faltar às meninas, todas elas com nomes que não lembram ao diabo mas lembraram ao operista. Belkiss, Melusina, Isis, Selma, só se safou a Raquel e o filho que era Júnior e também estudou para médico, o doutor Lopinhos. O sénior passava às sextas. O meu pai ligava o rádio, um luxo naqueles tempos, a minha mãe, um caso de alforria precoce, servia anis em cálices de vidro fininho que se punham rosados à contraluz, unas ganas de vivir que talvez por ser espanhola gostava de receber, de ter a gente por perto… Lembro-me, já mais velho, das fantasiosas revoltas planeadas na cozinha à volta de um café con leche e pão fresco com mantequilla, como ela insistia em dizer, bombas na guarda-fiscal e boicote à Recreativa Rica, o meu pai da oposição e nós, jovens, com a cabeça cheia de amanhãs que cantam, um deles, o Bentinho, planeava greves operárias na fábrica da família e mais tarde, fez ele bem, pôs-se a andar para a Alemanha, safou-se dos conserveiros e do café con leche que era uma azia no estômago, ele e mais três num carro aprazado em Faro, directinhos a Paris e ala depois para Hamburgo. Por cá, quando se soube, comentava-se à boca calada: “Sabes para onde foi o Bentinho? Foi para a Alemanha Oriental!”, e umas oitavas abaixo: “E sabes como foi para lá? Foi de táxi!”, a primeira uma rotunda mentira mas sempre apimentava a fuga. Viviam-se os tempos dos amanhã que cantam.
Uns anos depois voltou a aparecer por aí, uma peritonite curada num hospital em Berlim do lado de cá do muro, um atestado médico a dá-lo como incapaz, ele com a cópia no bolso e o PIDE na fronteira a espiolhar-lhe os papéis, a revirar-lhe a licença para se ausentar no estrangeiro que caducara há muito. “O senhor, o que foi fazer à Alemanha?”, e o Bentinho, de todos nós o mais dado à literatura: “Aprender a língua de Goethe”. E o agente, desconfiado do tal Goethe: “Qual a razão do regresso?”
“Foi-me dito que a pátria estava em perigo!”, larga o aleijado das vísceras que sabe não correr riscos, o riso a subir-lhe do estômago e a enroscar-se na garganta, nos olhos, e o schwein, como lhe chama entredentes, atónito e reverencial, a bater-lhe continência, a abrir alas para o deixar passar, siga, faça favor, ditosa pátria que tais filhos tem, o comboio quase a partir e o Bentinho em Vilar Formoso, a guerra por um canudo que não seria ele a ir bater com os costados em África, foi bater com os costados em Peniche que o Tarrafal estava encerrado para obras, ou sou eu que confundo as histórias, facto apurado é que o Boris só chegaria à Alemanha lá para quarentas e tais, e depois da Alemanha à Sibéria, como deve ter sentido saudades do calor e do fedor de que se queixava aqui, por agora está em casa dos meus pais trazido pelo Lopes, o Lopes que era amigo do Pessoa e do Almada e arranhava russo, procura barco que o leve para Marrocos.
Vou-lhe contar. Sair daqui de barco parecia a Boris a única forma de contornar a falta de visto para Paris, depois de o cônsul francês em Lisboa se ter negado ao carimbo. Porque passaporte já tinha. Indocumentado à chegada a Portalegre, o apátrida conseguira que as autoridades portuguesas lhe fornecessem um, embora peculiar, só o autorizava a sair. Não era tudo, mas já era alguma coisa, sobretudo porque os espanhóis insistiam em sonegar-lhe os papéis. Na capital fora bem recebido. As celas escuras e pestilentas de Barcelona e Madrid deram lugar em Lisboa a um quarto asseado e arejado de hotel, duas janelas à falta de uma, refeições quentes e fartas, tardes passadas no Café Chiado a pôr a correspondência em dia, The Duke and Duchess of Kent tank you for your kind telegram, visitas ao Estoril, entrevistas aos jornais e, no meio das idas e vindas à Polícia Internacional, ao Governo Civil e à Administração dos Correios de Portugal, onde consegue obter o Bilhete de Identidade nº 893
Titular: (nome próprio), Boris; (apelidos) Príncipe de Andorra, Conde de Orange
Profissão: Proprietário
Domicílio: Hotel Francfort
1, 80 m de altura, olhos verdes, cabelos pretos
ainda lhe sobra tempo para conhecer o putativo Alexandre Románov, perdido como ele na Lisboa dos anos 30, acaso um familiar do Grão-Duque Alexander Mikhailovich da Rússia mas o homem esclarece que não, Románoves há muitos, comenta desconfiado, o calvário dele é outro, proprietário de um cofre cujo segredo está decomposto em duas séries de números registadas em dois documentos diferentes, um na sua posse e outro, que lhe fora indevidamente subtraído pela Máfia durante a sua curta estadia em Nápoles, nas mãos do Al Capone, esse mesmo, o gangster americano, o que está preso e por bons anos, uma infeliz circunstância que complicava tudo, o caso era bicudo, como retomar o contacto, eis o que o afligia, já expedi várias cartas cifradas para Alcatraz mas nunca obtive resposta… E foi quando a visão sinistra de Alcatraz se intrometeu na conversa que Boris concluiu estar na presença de um doido, de um Rasputin aparentemente benigno cujos delírios aspergia a vinho do Porto há quase uma semana, pagava o príncipe de Andorra, sem imaginar que em Olhão não ia ser muito diferente. Vou-lhe contar.
Após acordado o transporte para Marrocos, numa pequena embarcação de recreio que o próprio proprietário cavalheiresca e voluntariamente pusera à disposição do Príncipe, sem mais cobranças do que aquelas que resultassem do arranjo do motor, vinte dias aprazados para a afinação e conserto, vem-se a descobrir que o homem tinha sido preso em Tavira, denúncia de um montanheiro a quem tentara vender uma máquina de notas falsas, o barco inexistente e o putativo marítimo mandado internar no hospício por acórdão do Tribunal onde já estava alistado, mormente por marcar presença nas procissões do concelho onde tem por hábito insultar a Virgem e incensar São José, para escândalo e incompreensão dos acólitos, e por tudo quanto vem de ser exposto, à face dos factos provados, condena-se o réu e etc.
Por esta altura, Boris começava a enlouquecer com a espera, o calor e as peculiaridades locais. Tudo teria sido diferente se Zé da Mónica o tivesse levado a Marrocos. Já lhe falei do Zé da Mónica? Era um bom homem, alegre, corajoso… Esteve durante uns anos emigrado em Angola e na América, até que em desgraçada hora regressou a Portugal, a Olhão, e investiu os tostões arrecadados numa pequena embarcação de cabotagem, o Sorting Clube Olhanense. A vida corria-lhe bem, casado, pai de família, bon vivant e ágil dançarino, os fretes para a Andaluzia e Marrocos não paravam de crescer, a fama dele também, e foi quando se lhe meteu na cabeça acrescentar à carga refugiados políticos, ao que se sabe não pelo que lhe pagavam que seria pouco ou mesmo nada. Os espanhóis tinham-no debaixo de olho, e isto antes da Guerra Civil, a dada altura chega a haver tiroteio, a marinha espanhola ataca-o em alto-mar, a coisa põe-se feia e na fuga morre o piloto do barco, o João de Faro, que leva com uma bala perdida. Era, pois, desse homem, bonacheirão e casmurro, que conhecera a largueza de África e da América, conhecido daqui até ao Mar do Larache, que o Mano-Rei ouvira falar em Faro. Vou-lhe contar.
Estava o Boris Skossyreff já no Algarve, onde lhe tinham dito que seria mais fácil arranjar barco para Marrocos, quando se cruza acidentalmente com o Romão Gonçalves. Uma figura! Conhecido no meio artístico por tenor absoluto, o “tritão lírico do Tejo” apresenta-se a Boris como Romanini, empresário, cinéfilo e tenor, ao seu dispor, o que talvez tenha levado o russo a pensar tratar-se de outro transviado da História. Neste caso a galhardia do nome tinha menos que ver com árvores genealógicas e mais com cubas etílicas. O que acontece é que o Romão Gonçalves havia lançado anos antes um licor, o licor Romanini, que pretendia rivalizar com o abençoado Bénédictine, ao qual quisera emprestar uma certa maviosidade italiana, compreensível num homem dado aos requebros de voz, embora o mesmo não passasse de um composto nacional de mel e plantas, recomendado, dizia a publicidade, para os órgãos respiratórios e, vá lá saber-se porquê, para os músculos. Ora músculos era coisa que não faltava ao corpulento Romão, que não hesitava, aliás, em lhes dar uso sempre que o achava necessário. Umas vezes acabava na esquadra e outras acabava herói, como aconteceu durante a visita dos reis da Bélgica, quando, num “arrojado acto de coragem e patriotismo”, escreveram os jornais da época, se atira às águas do Tejo e bracejando com ciência em direcção ao iate real, acompanha os movimentos natatórios com a interpretação do hino belga, apoteose devidamente registada em película, uma entre as várias fitas que muito contribuíram para a fama de Romão Gonçalves, cantor, nadador, boxeur, enfim, um bardo e um sportsman, qualidade esta que, mais do que o canto, o terá aproximado de Boris nessa tarde solarenga de Maio em que acidentalmente se cruzam o rei e o tenor em Faro.
Todos os caminhos levam a Olhão, é caso para se dizer. E é assim que o avantajado Romanini,

decerto despojado do seu casaco de peles e porventura do cão, por via das temperaturas elevadas que se faziam sentir nesse longínquo ano de 1935, dois adereços que se lhe tinham colado ao corpo desde que aparecera em tais preparos no filme “As Aventuras do Tenor Romão ou O Dó de Peito” de cuja existência Boris Skossyreff não estaria a par... E agora perdi-me... Dizia eu… que foi assim que o avantajado e portuguesíssimo Romanini conduz a Olhão o elegante russo apátrida, na convicção de que Zé da Mónica, seu conhecido, seria o homem certo para levar Boris a Tanger.
Porque a vida não corre a direito, e vai ter agora de acreditar em mim, dá-se o caso de o Zé da Mónica andar por essa altura vestido de mulher. Não porque fosse Carnaval ou ao homem lhe tivesse dado para travesti, mas porque fora o estratagema encontrado para fugir aos esbirros da polícia política que lhe apertavam o cerco. Dois anos escondido em casa de familiares, saídas apenas nocturnas e de bioco mouro a cobri-lo da cabeça aos pés, para acabar por ser preso, atraiçoado por uma falsa amnistia, espancado até à morte acusado de espiar para os ingleses. Não é uma história feliz.
Feliz, se quer que lhe diga, é a história da troupe de circo que os meus pais trouxeram de Huelva, cinco acrobatas fugidos ao Franco que se treinavam no corredor da nossa casa, cambalhotas, flic-flacs e piruetas e eu a espreita-los da cozinha esquecido do café con leche e do pão fresco com mantequilla, até que um dia um deles caiu ao poço e a minha avó acabou com aquilo, foram-se os acrobatas, depois foi a minha avó, as filhas do Massé, o Zé da Mónica, o Francisco Fernandes Lopes, o Romanini, o Mano-Rei, a minha mãe espanhola e o meu pai anti-salazarista, foram todos, mas juro que um dia os cheguei a ver na televisão, no Circo do Monte Carlo, juro que eram eles, pendurados lá no alto, no trapézio, parecia que voavam.
 



08/09/09

Que me perdoem as senhoras mas este post é dirigido a três moços para que eles não pensem que brinco com a realeza

Ao centro, na fotografia, o russo Boris Skossyreff, rei de Andorra por seis dias e posterior e provisoriamente exilado em Olhão, tendo à sua esquerda o advogado e jornalista Mário Líster Franco e, à direita, o médico e melómano olhanense Francisco Fernando Lopes.
[Francisco e Tomás, aqui está a prova de que o homem existiu; João, guarda-me por favor os tais papéis sobre o mano-rei].
Voltaremos ao assunto. Ainda não sabemos como.

18/05/09

Eu vinha falar de coisas sérias mas oh caraças! o olhanense subiu à primeira divisão

Esclarecimento prévio: não faço ideia de quem seja o António Pina. Parece que é Presidente do Turismo do Algarve. Suponho que seja mais do Allgarve dado isto: Subida à primeira divisão terá impacto no turismo. Esclareço que me estou nas tintas para o impacto. Já não para isso do clube da minha terra ter voltado à primeira-divisão, mesmo se já não vejo futebol desde o dia em que um homem lindo de morrer chamado Zidane deu uma cabeçada num adversário, cena que, se pensarmos bem, podia ter sido tirada de um filme antigo do Scorsese.
Naturalmente, voltar à primeira-divisão não é a mesma coisa do que ser "Campeão do Algarve e de Portugal" como o foi o Olhanense em 1923/24. Mas para que não se ponham com piadas, deixo-vos com um naco de prosa retirado do nº11 da colecção Os Nossos 'Azes' do Foot-ball (Julho de 1924), dedicado ao jogador Raul Figueiredo, vulgo Tamanqueiro, jogador do clube da minha terra-natal.

"Cremos que foi Eça de Queiroz, esse espírito cintilante que marcou entre nós o advento da escola naturalista na nossa literatura, quem afirmou que Portugal... é Lisboa.
A afirmação sendo um pouco arrojada mas suficientemente argumentada pelo genial autor do Fradique Mendes, pode aplicar-se agora ao assunto que pretendemos abordar.
Queremos com isto tão somente demonstrar que o nosso biografado de hoje, sendo um dos mais completos estofos de jogador, é ainda quase desconhecido do público de Lisboa, a despeito de aqui ter efectuado uma série de jogos, todos eles conduncentes a uma apreciação que tem necessariamente de ser favorável ao simpático jogador do grupo Campeão de Portugal, em football.
Por isto mesmo, talvez, estamos convencidos que não faltará quem pretenda negar a classe do excelente jogador, modesto, quase humilde, que nós fomos encontrar no cais de Olhão, descalço e de calças arregaçadas, conduzindo cabazes com sardinhas, isto a despeito do tal profissionalismo que se diz existir no Algarve e que nós ainda estamos para saber onde é que existe. Note-se que nós falamos deste modo porque conversámos com todos os jogadores do Sporting Club Olhanense e que nos consta, nenhum deles possui rendimentos a não ser Francisco Montenegro, cuja família, aliás, tem meios próprios.
Fomos pois, propositadamente a Olhão colher elementos para a biografia de Figueiredo, mais conhecido pelo soubriquet de Tamanqueiro, que já agora será o nome porque o trataremos, visto ninguém em Olhão o conhecer pelo seu nome que não seja de Tamanqueiro.
O half-bach centro do Sporting Club Olhanense é um jogador forte, bem constitído e de um fôlego admirável.
O seu jogo afirma-se e impõe-se claramente pela precisão magnífica dos seus passes que são verdadeiramente modelares. Possui uma energia de ferro e uma colocação espantosa. Por isto mesmo, sendo um belo elemento na alimentação do ataque é um dos mais fortes, senão o mais forte esteio da defesa do grupo Campeão de Portugal.
Tem um shoot fortíssimo e seguro. As recargas são sempre perigosas e na marcação de penaltys é um marcador de primordial quilate. Tem um senão: a sua baixa estatura. Mas possuidor de um souplesse excepcional, os seus formidáveis saltos suprem quase a falta de estatura para o lugar que desempenha. O seu jogo de cabeça é verdadeiramente primoroso e matemático e as exibições que fez em Lisboa, nomeadamente a que fez na final do campeonato de Portugal contra o Football Club do Porto, são a segura garantia do que afirmamos. Possui uma grande mobilidade e pode dizer-se que é um primeiros dribleurs do país.
Como conseguiu então Tamanqueiro a sua classe bastante apreciável e que os seleccionadores têm de ter em atenção?
Pela intuição, simplesmente pela intuição. Tamanqueiro possui uma inteligência mais que modesta. Mas possui extraordinárias faculdades assimilativas que fizeram dele um dos primeiros players do país.
(...)"
E pronto. Viva o Sporting Club Olhanense!

09/03/09

O gang de Al Capone em Olhão [que é para depois não dizerem que eu invento]

Captain Manuel Zora, contrabandista de rum ao serviço de Al Capone, acerca do qual escrevi aqui, e que tem um livro publicado nos EUA sobre a sua pessoa chamado The Sea Fox; The Adventures of Cape Cod’s most colorfull rumrunner.

03/04/08

Perdoem-me o chauvinismo mas eu nasci numa terra pícara. Foi há 200 anos elevada a vila e é berço de personagens memoráveis. Começo por Captain Zorra


Marilyn nunca veio a Olhão. A actriz que Billy Wilder foi dos poucos a levar a sério ― garantindo, a contracorrente, que ela não precisava de lições de representação, apenas de se inscrever no colégio suíço Ómega, «onde dão cursos de pontualidade superior» ― ainda não era nascida quando Manuel Zorra ― Captain ou Manny Zora nos States ― troca as águas do Algarve pelas margens do rio Hudson. Era a segunda fuga. A primeira, a bordo de um barco de pesca que se dirigia a Gibraltar, acabou com o rapaz a ser mandado para casa, uma dúzia de anos apenas. Pouco depois, aos quinze, arrisca salto maior, sem rede nem título de transporte válido, a fasquia na América. Ah, a América! No porto de Nova Iorque, lotado de europeus deserdados para quem o americano dream é agora a derradeira esperança, espera-o um familiar que não ficará para a história. Nesse dia, vê neve pela primeira vez. The Sea Fox; The Adventures of Cape Cod’s most colorfull rumrunner conta (também) o que aconteceu depois.
O livro A Raposa dos Mares inclui relato dos anos americanos: a chegada, os biscates, a pesca, a Depressão e a Máfia, os festins e as raparigas, as misérias e as glórias. Nunca traduzido, narra como o olhanense, fintando fome e Lei Seca, empresta engenho e astúcia aos homens de Al Capone, sobrevive ao FBI e aos que lhe pagam em cash o contrabando do álcool, chega à fala com os maiores ― Dos Passos e Eugene O’Neill estão na lista dos amigos ― , ele próprio herói de série B e da vida, príncipe das marés e traficante encartado com direito a letras gordas nos jornais controlados por Hearst.
Na década de 60 abandona Provincetown e volta à terra de origem. Instala-se no Avenida, entretanto desaparecido. À mesa do velho café, dá aulas de inglês (oral) com pronúncia americana e acode aos poucos turistas que se aventuram na vila. Homem grande, mãos de gigante e nariz à Jimmy Durante, espanta os locais com as suas histórias de gangsters e garotas libertinas, a que soma a distinção do porte e a elegância das fazendas italianas. Com o tempo, o fascínio esmorece. Reformado sem casa própria, colosso para quem se olha agora como atracção circense, Zorra definha em silêncio. Alguns jornalistas chegam a entrevistá-lo.
Vera Lagoa transcreveu encontro memorável, grand finale no cemitério, ela, ele e o coveiro, dado a tertúlias. A Baptista Bastos confessará, melancólico, em conversa regada a uísque, na Armona, era a ilha um paraíso: «O que eu aprendi nos anos americanos. Santo Deus, o que aprendi! Queria ser grande, queria ser famoso, queria ser conhecido na América. E, para isso, precisava de ser um homem com dólares (...) é muito importante ter dinheiro, o dinheiro dá poder, é necessário para um homem ser feliz. A fome só é boa até uma certa altura da vida: permite-nos ter cautela, ensina-nos a ser hábeis; é a melhor companheira da maturidade daqueles que se tornam ricos». Quando morreu, Manuel Zorra teria 76 anos. Sepultado em Olhão, foi-se sem deixar lastro de monin, como por ali se dizia.
A obra que o imortalizou, assinada por Scott Corbett, data de 1956. Ex-soldado correspondente em Paris, Scott era um respeitável escritor que, anos antes de se cruzar com a raposa dos mares, vira a conta bancária engrossar com a adaptação para cinema de The Reluctant Landlord, o seu romance de estreia, no ecrã Ninho de Amor, filme onde Marilyn, aliás Norma Jean Mortenson, na circunstância Roberta Stevens, faz brevíssima aparição que lhe apimenta o currículo; em 1952, já trabalha com Howard Hanks ― nunca virá a Olhão.
Por esses tempos, a cidade, então com estatuto de vila, continua a esbanjar fortunas obtidas durante a guerra. Tinha sido um regabofe. Enquanto Hitler empestava a Europa com o fedor da suástica, por lá ia-se aviando, esgotos a céu aberto, fosse aos países do Eixo fosse aos (poucos) Aliados. Contas feitas, tanto a Alemanha perderia a guerra como Olhão as suas fábricas. Das 37 existentes sobram hoje apenas três.
(...)
Legenda das imagens
Captain Manuel Zora, 1955, Philip Malicoat (1908-1981) oil on canvas, 16" x 14"
Recensão de 1961 assinada por Almeida Langhans ao livro de Scott Corbett