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13/10/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Não mais do que a espuma dos dias»

 «(...) Para os que tiveram a felicidade de nascer e viver na Europa do pós-guerra, outra era despontava. Houve até quem arriscasse que a História tinha chegado ao fim.

19/06/22

COISAS REALMENTE IMPORTANTES E SIMPLES: CONHECIMENTO É DIFERENTE DE INFORMAÇÃO

Excertos da recente entrevista do filósofo e professor italiano Nuccio Ordine, «O intelectual de hoje tem de dizer o que a sociedade não quer escutar», roubados a Maria Helena Damião e Isaltina Martins do blogue De Rerum Natura.

P: Contou que vem de uma família onde ninguém tinha estudado e de uma povoação onde não havia livros, e que descobrir a escola foi um “milagre”. O milagre de que toda a criança precisa é encontrar um bom professor? 

R. Para mim é uma prioridade. Muitos directores e professores têm dito que a pandemia fez compreender que o futuro do ensino é a telemática. Não, isso é uma loucura. A tecnologia é uma interrupção brutal da relação entre o professor e o aluno. A única maneira de transmitir o conhecimento é a presencial. Sem a comunidade não há transmissão de sabedoria. Leio sempre aos meus alunos uma carta maravilhosa que Camus enviou ao seu professor de Argel no dia em que lhe concederam o Prémio Nobel (…) [esse professor] mudou-lhe a vida. Nenhuma plataforma digital pode fazê-lo, só um bom professor (...) muitos professores que fazem isto em absoluto silêncio, não os conhecemos. E somente a escola pública pode garantir a eliminação das desigualdades, e hoje está a destruir-se a escola e a universidade públicas em toda Europa para aplicar as leis americanas e britânicas. 

P: A formação de professores está a ser precarizada? (...)

R. A escola não dá importância ao inútil. No discurso que Boris Johnson fez, há uns meses, aos estudantes britânicos disse que deverão escolher não a área que de que gostam, mas a que lhes pode trazer algum benefício. Para mim, isto é a destruição total da educação. Por isso, a ética das profissões está a decair (…): se há médicos que exercem medicina para ganhar dinheiro, não são bons médicos porque não têm amor. Não posso vender a minha dignidade (…). Outro aspecto incrível é os alunos pensarem que têm de estudar para aprender uma profissão. Há uma poesia maravilhosa de Kavafis, Ítaca, em que ele fala com o leitor para lhe dizer que a importância da viagem de Ulisses não é chegar a Ítaca, mas a experiência da viagem. Há que fazer entender aos estudantes que o importante é a viagem que fazem com o professor e os colegas, a experiência da escola. A ideia da escola/universidade-empresa não tem sentido. 

P. Neste presente cruel que mercantiliza as nossas vidas, dar prioridade a essa experiência pode acabar com a expulsão do sistema… 

R. Pode ser um risco, compreendo, mas tive muitos alunos que demonstraram que quando se estuda com paixão e amor, num momento ou noutro, há sempre uma possibilidade de ganhar a vida com dignidade. Na loucura da avaliação das universidades há um parâmetro que diz que uma boa universidade é aquela que leva o estudante a ganhar muito dinheiro (…). A escola sempre formou cidadãos cultos, democráticos, solidários. Hoje a ideia é que temos de produzir “frangos de aviário” com vontade de ganhar dinheiro e que só pensam em criar empresas. 

P. O senhor é um dos maiores defensores das Humanidades (...). O que pensa ao ver as mudanças nos currículos que eliminam a filosofia ou a aprendizagem de memória? (…) 

R. Estamos a destruir as coisas fundamentais. Há muitos pedagogos que dizem que aprender de memória uma poesia não tem sentido. Para mim, são estúpidos. Quando aprendes uma poesia de memória, com o coração – em inglês e francês diz-se by heart per coeur –, fica em ti. E um dia quando olhas para uma coisa, ela surge do teu interior e compreendes coisas que antes não podias. Há um testemunho incrível de Primo Levi. Aprender La divina comédia de Dante permitiu-lhe, numa noite, proporcionar um momento de felicidade aos outros judeus presos no campo de concentração. Não te podem roubar as coisas que aprendeste. É maravilhoso como metáfora da sua importância. A ideia de hoje em dia é que tens de aprender só coisas práticas, esquecendo que a ciência, para criar, também necessita de fantasia e de imaginação (…) 

P. Há um paradoxo no mundo actual: graças às novas tecnologias, temos ao nosso alcance o acesso a toda a cultura que queremos, mas ao mesmo tempo estão ressurgindo as ideologias mais extremistas: nacionalismos, populismos, a extrema direita… 

R. É preciso fazer uma pequena precisão a esta leitura (...) pensamos que informação significa conhecimento, mas são duas coisas diferentes. Temos mais informação, mas não conhecimento. A internet é uma mina de ouro para quem sabe; para quem não sabe é muito perigosa. Um dia fiz uma experiência com os estudantes e pesquisei Giordano Bruno numa meia centena de sítios: um delírio total (…). Sobre o conhecimento se não tenho uma autoridade não posso falar. A internet é uma armadilha enorme, foi isso que criou a gente que invadiu o Capitólio dos Estados Unidos. O “senhor com os cornos” é uma imagem da ignorância dos lideres como Trump, Bolsonaro, Le Pen, Salvini… que contam histórias mentirosas. 

P. O que deve fazer um filósofo, um intelectual, num mundo como o de hoje? 

R. Tem de falar contracorrente. O problema de hoje é que não temos sentido crítico. O intelectual tem de ser um herético, como o era Giordano Bruno, que diz as coisas que a sociedade não quer escutar. Desafortunadamente, nas universidades os intelectuais parece que se resignaram, não têm vontade de reagir. Creio que temos de lutar, porque cultivar a utopia é fundamental para mudar o mundo.

17/06/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «A Bomba Amanhã Promete Ser Boazinha mas Esquece»

«... O exemplo recente da pandemia provocada pelo coronavírus que pôs o mundo de pantanas (e cuja ameaça continua a pesar sobre nós como o céu sobre a cabeça dos intrépidos gauleses de Uderzo e Goscinny…) devia dar-nos a noção exacta da nossa fragilidade como espécie. Afinal, o facto de nos situarmos no topo da cadeia alimentar não traz só boas notícias: se desaparecermos, ninguém passará fome por isso.

A guerra que se desenrola — e como não falar da maldita guerra? — no território da Ucrânia também diz muito sobre os limites de uma sociedade rendida à tecnologia. (...)

A Internet como aldeia de comunicação e informação global pode estar em risco? Uma nova cortina de ferro, como aquela já presente na China, com a sua internet privada criada de raiz, não parece ser, para já, do interesse de Putin, apesar dos testes que os russos vêm realizando para criar a sua própria rede (Runet). E se o governo ucraniano chegou a pedir o isolamento digital da Rússia, a resposta que recebeu foi negativa. No início de Março, Göran Marby, presidente da Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, responderia sem subterfúgios ao pedido ucraniano feito pelo vice-primeiro-ministro, Mykhailo Fedorov: “… cabe-nos tomar medidas que garantam que o funcionamento da Internet não seja politizado e não temos autoridade para aplicar sanções”. (...)»