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23/04/09

A book a day keeps the doctor away

Ecletismo poderá ser palavra apropriada para definir os livros de Henrique Garcia Pereira. Engenheiro e professor catedrático do Instituto Superior Técnico, baby boomer com muito gosto e, ao que se percebe, proveito, Garcia Pereira (que não é familiar do advogado homónimo) acaba de publicar o segundo volume da sua trilogia Fragmentos do Mediterrâneo.
Depois de nos ter levado a deambular por Chipre e pela Grécia (Creta, Milos e Aegina), acompanhamo-lo agora até à Sicília, Capri, Sardenha, Córsega, Génova, Nice e Avignon, todos os destinos reunidos sob o título A Cortina Central (Terorema, 2009).
O terceiro volume, já anunciado, e que se chamará A Janela Hispano-Atlântica há-de percorrer Barcelona, Valência, Ibiza, Cádis e Huelva, para terminar no Algarve, em Tavira.
O autor avisa na contracapa: “O Mediterrâneo não se herda, consegue-se. E eu consegui o meu Mediterrâneo percorrendo-o lentamente em dezasseis capítulos, organizados em três faixas geográficas (cortadas segundo o meridiano). Mas esta aparente linearidade coexiste com uma turbulenta cartografia sentimental, feita pela escrita das cidades marítimas que explodem no espaço-tempo…”.
Viagem sentimental, pois, que se não imita Sterne também não se esgota em roteiro nostálgico. Eclético, sempre, Garcia Pereira mistura literatura e história, revoluções e amores fugazes, geologia e apontamentos de circunstância. Aproveitando para reafirmar algumas das suas manias privadas, com destaque para a sua claríssima aversão a tudo o que não seja urbano – o que me levou a recordar com absoluta nitidez a definição de Manuel Vicente sobre o “campo”, resumido literalmente pelo arquitecto a: “o sítio onde paro para mijar entre duas cidades” – o engenheiro químico e de minas transmuta-se em viajante com história, recordando episódios e compilando saberes. Fá-lo com o acrescento de imagens (infelizmente, de fraquíssima impressão) e de notas absolutamente saborosas que, mais do que servirem de muleta de apoio ao texto principal, funcionam como links que remetem para outras leituras, abrindo o espaço (pessoal) do seu Mediterrâneo a um verdadeiro hiperespaço de cultura, idiossincrasias e cumplicidades. Um prazer.

28/09/08

Leituras

«O meu Mediterrâneo começa em Tavira, pelos meados do século XX, e acaba (provisoriamente) em Chipre, já neste milénio».
Começa assim o novo livro de Henrique Garcia Pereira, Fragmentos do Mediterrâneo.
Não confundir o autor com o advogado do MRPP, e não confundir o livro com um guia de viagens exóticas. Citando Josep Pla, citado nos Fragmentos..., nele «no hay mosquitos, ni chacales, ni objeto sorprendente o raro». Quanto a Garcia Pereira, é professor catedrático do Instituto Superior Técnico e gosta de «misturar tudo». Também escreveu Arte Recombinatória, 2000, Apologia do hipertexto na deriva do texto, 2002, e A Matéria de que são feitos os Sonhos, 2004. É fã incondicional de Enrique Vila-Matas.

31/12/07

Literatura para Fumadores mas, como não Sou Fundamentalista, os não Fumadores também Podem Ler

A propósito da entrada em vigor amanhã da lei anti-tabaco, repesquei um texto sobre um livro que anda por aí (foi publicado em 2004 pela Teorema) e que fala das relações entre a cultura e o acto de fumar. Chama-se apropriadamente A Matéria de Que São Feitos os Sonhos e merece ser lido. O autor, quando o conheci, fumava SG Ventil.
A Matéria de Que São Feitos os Sonhos não é um livro a favor ou contra o fumo. Pretende apenas, a pretexto desse prazer etéreo, expor «uma teia sem fim de narrativas que evidencia como as grelhas de leitura mudam com a mudança do mundo. Na verdade, no início dos anos 60 (...) a representação que se fazia dos ‘grandes homens’ estava indissoluvelmente ligada a um cigarro (Bogart), a um charuto (Churchill) ou a um cachimbo (Sherlock Holmes)».
Arriscando-me a ser acusada de ignorante a respeito dos malefícios do tabaco, recordo que Churchill morreu aos 91 anos, Arthur Conan Doyle aos 71 e que, dos três, apenas Bogart desapareceu precocemente aos 57. Mas, como decerto subscreveria Hanif Kureishi, «antes ignorante que fascista».
«(...) porque a morte, como processo fortemente não-linear, tem aversão à ‘separabilidade’ dos factores que a provocam, talvez seja de aceitar alegremente o velho aforismo ‘It’s better to die from something than from nothing’», escreve-se na pág. 238 em resposta ao facto de fumar se ter tornado «the leading cause of statistics». Recordar que «não é possível dar conta da combinatória de riscos a que cada ‘morto’ foi sujeito» talvez não seja despiciendo quando, entre outras, mortes tão provectas como as de Bette Davis, Cantinflas ou John Huston (todos aos 81 anos), Sinatra e Barbara Stanwyck (82), Freud (83), Groucho Marx (86), ou mesmo David McLean, o cowboy da Marlboro (73), são apontadas pelos militantes antitabagistas como exemplos de desaparecimentos ligados ao tabaco. Apetece lembrar que, atendendo pelo menos à idade, os referidos teriam de morrer de alguma coisa.
Reafirme-se: o objectivo de Henrique Garcia Pereira não é negar os riscos da nicotina; o que ele faz é passar em revista memórias, leituras e cumplicidades, criadas e vividas em ambiente de fumo. Dele, aliás, não seria de esperar um livro politicamente correcto ou — dever-se-ia antes dizer? — politicamente saudável.
Lisboeta, nascido na capital em 1945, formou-se em Engenharia Química e de Minas no Instituto Superior Técnico, onde é professor catedrático. Define-se como babyboomer, urbano e viajante. Adivinha-se, pela leitura dos seus textos (onde as notas de rodapé fazem parte do núcleo duro da escrita), ser também um leitor compulsivo (e um amante incondicional de Enrique Vila-Matas).
Em 2000 publicou Arte Recombinatória (Teorema) [é esse livro que exibe na fotografia acima]; em 2002, Apologia do Hipertexto na Deriva do Texto (Difel), obra a que a APE concedera o Prémio Revelação de 1999. A intrincada teia que estabelece entre vida/ciência/literatura, já presente nos trabalhos anteriores, volta a constituir a trama do presente livro.
À primeira parte, onde Garcia Pereira deriva pelas suas memórias invocando a bolorenta Lisboa da sua juventude, fugas e autores de estimação, seguem-se oito anexos temáticos que relacionam o fumo com a clorofila; o amor; a repressão; o jornal; o risco; a lentidão; o imaterial; e, e, e...
O tema do cigarro serve-lhe, por exemplo, para tecer alguns comentários sobre a «leveza» das ligações em rede (Net), para contar a história da cigarreira de Crowley onde este terá escondido uma enigmática carta a Pessoa ou, até, para estabelecer relações desejáveis entre a imaterialidade do fumo e a figura do judeu errante. E, porque escrevi «judeu errante», sublinho as passagens onde se referem as campanhas nazis contra o tabaco e os estudos do médico alemão Fritz Lickint, que, já em 1939, publicava um trabalho sobre a relação entre fumo e cancro no aparelho respiratório.
A Matéria de Que São Feitos os Sonhos conta centenas de histórias, em ritmo levemente provocatório, e recorda, sobretudo, que enquanto actores conscientes não necessitamos de ser protegidos daquilo que nos dá prazer. Lembre-se que a radicalidade das actuais campanhas já chegou ao ponto de passar uma borracha sobre vários retratos (o que remete para o belíssimo começo de Kundera em O Livro do Riso e do Esquecimento): Lucky Luke, os Beatles e Malraux são apenas três exemplos de censura histórica.
Como diz Harvey Keitel em Smoke: «Cigarros hoje, sexo amanhã», e hoje já nem a simples pergunta «Desculpe, tem lume?» seria permitida a Bacall antes de ensinar Bogart «how to whistle».