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08/04/12

Do Camões ao valter passando pelo Herberto [descubra as diferenças]

Os escrevedores que me perdoem mas talento é fundamental.
É preciso que haja um barco bêbedo, um erro de gramática, uma mulher de quem se possa dizer: Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (ou então que a mão confesse com lucidez etílica: no se puede vivir sin amor). É preciso que o sentimento não se dirija ao coração mole das pessoas sensíveis que não são capazes/ de matar galinhas...
É preciso lembrar Wilde: “A sentimentalist is simply one who desires to have the luxury of an emotion without paying for it”.
É preciso que o artificio não mate o pacto narrativo e que o lirismo não desculpe os “cagalhões líricos que por aí andam, passeiam e triunfam”.
Talento é fundamental (não confundir a sordidez de Celine com a vulgaridade de Houellebecq).
Mundo é fundamental (não confundir ter mundo com descargas confessionais).
Imaginação, precisa-se. Distanciamento, exige-se. Oficina, idem mas sem oferta de garantia (“o estilo é uma dificuldade de expressão”). Quanto ao que faz a coisa literária, permanece um “je ne sais quoi” cuja receita é tão ou mais secreta do que a dos pasteis de Belém.
O maior mistério, contudo, é escrever-se “valter hugo mãe” no Google e em poucos segundos surgirem 468 mil referências e fazer o mesmo para Herberto Helder e não se ir além das 77 700.
Lê-se a poética do primeiro (“… algo em ti me puxa/ sempre ao sentimento, mesmo antes de/ te conhecer, lembras-te, uma propensão para/ te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus/ modos…”), depois o segundo (“Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite…”) e só Camões nos impede de cortar os pulsos: UM MILHÃO E VINTE MIL entradas.

03/11/07

Porque Há Coisas que me Irritam: Michel Houellebecq

No 2+2=5, este post, que remete para uma divertida reportagem publicada no Libération, dá conta de um encontro universitário que decorreu em Amesterdão a propósito da obra de Michel Houellebecq, escritor francês perseguido pelo escândalo ou vice-versa, e no qual algumas cabeças pensantes depositaram a coroa de salvação da literatura francesa. Incompetente para falar de assunto de tal envergadura (a saber, o de saber se a literatura francesa precisa ou pode ser salva), tenho, no entanto, opinião sobre o escritor Houellebecq. Opinião que saiu reforçada pela leitura de algumas pérolas que lhe dedicaram os críticos reunidos na Holanda: agradou-me em particular esta, proferida por uma investigadora da Universidade de Oslo (seja qual for o seu significado):«Num mundo em dissolução, incontrolável, só o corpo permanece resgatável». Lembrei-me, então, de resgatar e adaptar alguns textos sobre os livros deste autor. Começo por Plataforma (Bertrand, 2002).
A história contada em Plataforma, livro que tanto sururu provovou, resume-se em poucas penadas. Michel é um funcionário público que trabalha no Ministério da Cultura. A sua vida consiste em orçamentar eventos que quase sempre abomina, «ir dar uma volta por um peep-show» ao fim da tarde e adormecer diante do televisor ao fim da noite. Um dia, durante uma semana de férias na Tailândia, cruza-se com Valérie, jovem funcionária da agência Nouvelles Frontières, e o exotismo do local trespassa-lhe a existência: apaixona-se. Valérie idem. Michel deixa de frequentar os «peep-shows» e o casal passa a fazer amor sempre que pode, por vezes com a ajuda de um ou outro parceiro (nada de particularmente promíscuo). Entretanto, a jovem muda de agência e, em conjunto com o novo chefe, decide criar uma rede de turismo lícito e sexual, ideia que recebe o apoio de uma sociedade alemã. No dia da inauguração do primeiro clube, de novo na Tailândia, um grupo islâmico fundamentalista ataca o hotel. Há mortes, e o romance acaba mal.
À conta do livro, Houellebecq teve vários processos na Justiça. Grosso modo, as acusações diziam respeito à presumível promoção do ódio contra os árabes e defesa do proxenetismo. Uma entrevista dele à «Lire» deu o toque a rebate. Bem bebido, o escritor fez declarações chocantes (ou que, pelos vistos, chocaram). Eis alguns exemplos: «A prostituição, acho muito bem. Como profissão, não é assim tão mal paga»; «O Islão é uma religião perigosa, e isto desde que apareceu. Felizmente, está condenada»; «Claro que há vítimas nos conflitos do Terceiro Mundo, mas são elas próprias que os provocam. Se os pobres idiotas se divertem a extirpar-se, deixá-los»; «Quando era novo, ele (De Gaulle) irritava-me. (...) acabo por simpatizar mais com Pétain»; «A abolição da pena de morte está bem... mas não faço disso uma questão de princípio», etc., etc. (também disse que «não há ideias de direita», para justificar porque é que só atacava as de esquerda).
Apesar de Houellebecq insistir na clássica distinção entre autor e personagem, a referida entrevista veio permitir estabelecer uma certa proximidade entre o Michel-narrador e o Michel-escritor. A primeira questão que se coloca, contudo, é saber se o facto de o segundo preferir o colaboracionista Pétain ao resistente De Gaulle é relevante para a qualidade literária. Não, decididamente. A segunda é saber se o livro é bom, mau ou assim assim.
Pois bem, é assim assim. Começa com garra, aguenta as personagens, tem cenas de sexo bem esgalhadas, mantém um estilo coerente, neutro e seco. Então, o que falha? O reaccionarismo? Que se lixe o reaccionarimo. O problema de Houellebecq é aquilo a que poderíamos chamar simpaticamente «excesso de ideias». Se em As Partículas Elementares a fusão da biologia com a física quântica vinha permitir a clonagem do «homem novo» (através de um chato arrazoado pseudocientífico), em Plataforma, agora por intermédio do sexo (que se identifica com amor, numa repescagem requentada de Reich), o que se propõe é salvar o Ocidente caduco. Megalómano, confundindo literatura com análise sociológica, o escritor perde o pé. Não resiste a apresentar soluções pueris - Oh L’amour! - e supostamente universais. Compreende-se, assim, porque insiste tanto no seu ódio a Céline. É que esse desconhecia soluções, convicto de que o mais provável é que daqui ninguém saia vivo. Em resumo: sob o manto diáfano da irreverência esconde-se um menino de coro que tresanda a kitsch.