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11/01/08

A Política já não é o que era

Ontem, depois de entrar na Brasileira do Chiado onde pude tomar uma bica e fumar um cigarro sem ser olhada como se tivesse lepra, e depois de assistir à belíssima adaptação para cinema do belíssimo romance de Ian McEwan, Expiação (no qual se fuma do princípio ao fim enquanto a vida corre com carácter de urgência) ocorreu-me que a mudança dos tempos se poderia resumir nisto.
Durante décadas houve quem agitasse, para o bem e para o mal, a bandeira do Proletários de todo o mundo, uni-vos!
Hoje em dia a coisa resumir-se-ia a Fumadores de todo o mundo, uni-vos!
Quero eu dizer: um admirável mundo novo mas indiscutivelmente mais pobre em sonhos. Acabaram-se os proletários, qualquer dia acabam-se os fumadores e depois virá outra coisa. Mas este intervalo é particularmente maçador.

09/01/08

Quem me dera um royal flush!

Os casinos vão ter um regime mais favorável no que diz respeito à aplicação da lei do tabaco. Pelo que tenho lido e ouvido, os portugueses mostram-se indignados com a excepção, incluindo os fumadores. Pois bem. Eu não.
Percebo que fundamentalistas anti-tabaco (ou de qualquer outra coisa) se indignem. Não percebo que pessoas razoáveis idem aspas.
Em vez de se raciocinar assim:
Eles que fumem nos casinos! ou, Ao menos fuma-se nos casinos! (dependendo, respectivamente, do desprazer ou prazer que cada um tem ao inalar nicotina);
Raciocina-se assado:
É proibido, é proibido! ou, Se eu não posso fumar, eles também não! (dependendo, respectivamente, de se ser mais autoritário ou invejoso).
Nenhuma das hipóteses é estimável.
Sinal dos tempos – e de uma preocupção higienista singular que tem antecedentes em leis tão tenebrosas como as do apuramento da raça ariana propostas pelo III Reich e aplicações tão actuais, presume-se, como a de Sócrates baixar o IVA dos ginásios de 21 para 5% – a proibição do fumo terá vindo para ficar.
Seria demagógico, apesar de muito, muito tentador (pelo que não resisto) lembrar que destas seis figuras, Churchill, Roosevelt, Estaline, Hitler, Mussolini e Franco, só precisamente as três últimas eram não-fumadores, mas até eu que fumadora me confesso sei reconhecer quando um argumento não tem pernas para andar (além de que o Estaline me estraga bastante o painel).
Assim, o único argumento que me ocorre contra leis proibitivas é o que remete para a sua eficácia (e eis-me rendida ao pragmatismo):
Se a SIDA (para me ater a uma patologia tendencialmente mortífera) fosse provocada pela ingestão de bróculos ou de couves de bruxelas, fácil seria exterminá-la. Proibiam-se os bróculos, interditavam-se as couves e era remédio santo. O problema é que a SIDA também se transmite pelo sexo e o sexo está associado ao prazer. E o prazer bem que podem proibi-lo...
Não estou com isto a insinuar (a soldo que qualquer Tabaqueira) que os fumadores têm orgasmos sucessivos cada vez que dão uma passa, até porque não sou freudiana. Estou simplesmente a dizer que têm prazer ao fumar.
Esclareço, para depois não me virem chamar selvagem, que sou daquelas que às vezes agradece o cartão vermelho (será por motivos egoístas: fumo menos). E das que não tem por hábito soprar glamourosamente para cima dos comensais da mesa ao lado. Na praia uso um cone, certificado ou improvisado, ou guardo as beatas no saco. Nos quartos não entram cigarros e até já considerei abandonar o tabaco por causa do maldito cheiro (cá em casa mais depressa se morrerá de uma pneunomia provocada pelas correntes de ar do que do fumo). Mas a verdade é que, e agora cito, «um governo que punisse todos os vícios de maneira imparcial é segundo toda a evidência de tal maneira impossível que nunca se viu, nem verá, uma pessoa tão estúpida que o propusesse».
O texto foi picado ao Café dos Loucos, vem assinado por Lysander Spooner (os vícios não são crime, fenda, 1999) e continua: «O máximo que se pode propor é que o governo puna um vicio ao acaso, ou quando muito alguns, ou aqueles que considera repugnantes. Mas trata-se de uma discriminação totalmente absurda, ilógica e tirânica. Que direito pode ter seja que grupo de homens a dizer: "nós puniremos os vícios dos outros homens mas ninguém punirá os nossos próprios vícios (...)».
Dir-lhe-ia, se fosse vivo, caríssimo Lysander Spooner, que a mim os que me assustam realmente são os que não têm vício nenhum. Que também os há. Como o homem do bigodinho do painel de ainda há bocado.

[... vieram-me nesmo agora dizer que o Primeiro-Ministro decidiu que o Tratado Europeu não iria a referendo («um dos grandes defeitos da Democracia é os resultados»). Vou contar até 10, fumar um cigarro e recolher ao leito. Boa noite!]

04/01/08

Gente Singular*

Juro que não ia falar de tabaco. Nem sequer para prestar solidariedade ao presidente da ASAE, apanhado a fumar no Casino do Estoril depois da entrada em vigor da lei que proíbe o fumo, a qual será fiscalizada pelo próprio organismo a que preside António Nunes. Sobre o acontecido, e já que voltei ao tema, só quero dizer o seguinte: antes aldrabão que fascista! (A propósito de casino, recordo que nem os norte-americanos, pioneiros da luta antitabágica, se lembraram de proibir o fumo aqui).
Como resistir, porém, a esta matéria pícara vinda directamente do Sul? (Relembro que o Sul é aquela direcção que
Pedro Bidarra nunca saberia apontar por muito xerém que comesse). Transcrevo:
Um auto «foi levantado no Algarve, terça-feira, pouco antes de almoço, quando o proprietário de um café da Fuzeta, concelho de Olhão, chamou a GNR para autuar um cliente que se recusava a apagar o cigarro. Chegada a patrulha, o prevaricador e seus cigarros já tinham partido e o dono do café não conseguiu identificá-lo para posterior autuação. Contudo, os militares da GNR acabaram por multar o dono do estabelecimento, porque não tinha colado os obrigatórios dísticos de proibição de fumar. "Se ainda estivesse no café, o próprio fumador poderia sempre ter alegado que não sabia se era proibido ou não fumar, porque nada o indicava naquela casa", enfatizou à Lusa uma fonte da GNR».
Pela parte que me toca, fico feliz: multou-se o bufo, ilibou-se o fumador. Este saiu à francesa, àquele saiu-lhe a coima e como prémio de consolação uma praga da Fuseta. Por exemplo:
«Deus permita que venhas a morrer afogado numa pia de água benta!»
* Título roubado a um conto de Manuel Teixeira Gomes, escritor algarvio e Presidente da República entre 1923 e 1925, tendo resignado ao cargo.

24/12/07

A ASAE vista por Jacques Tati e Vasco Pulido Valente

Uma Cozinha ASAE/DGS
A ASAE Explica-se
A ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), preocupada com o seu bom-nome e reputação, resolveu explicar que não é tão má como a pintam. “Dizer mal” da ASAE parece que se tornou uma “moda” e ela, naturalmente, sofre com isso; tanto mais que ajudou Portugal a estar “à frente da Europa” na sua importantíssima especialidade. Para que Portugal a compreenda e a estime, resolveu assim desfazer alguns “mitos”: do mito da bola-de-berlim ao mito da açorda. A bola-de-berlim, por exemplo. A ASAE não proibiu que se venda a bola-de-berlim nas praias. Proibiu, sim, que se vendam nas praias bolas-de-berlim de mau “fabrico” (e, tanto quanto me lembro, em “contentores” com uma temperatura excessivamente alta), para evitar que o bom público ingerisse “óleos saturados”, muito deletérios para a “saúde humana”. Se este zelo inquisitorial expulsar a bola-de-berlim das praias, ninguém poderá culpar a simpática ASAE. O mesmo se passa com a colher de pau. Ao contrário de um boato insidioso, a ASAE não baniu as colheres de pau. Só baniu as colheres de pau “que não se encontrem num perfeito estado de conservação”. Será que a ASAE se propõe examinar as colheres de pau de cada português? Revolver com minúcia cada gaveta? É uma ideia prometedora. Quanto às castanhas que se costumavam embrulhar em papel de jornal, a ASAE jura que não condena essa prática venerável, desde que o papel de jornal não contenha qualquer desenho, pintura ou palavra impressa “na sua parte interior”. Por outras palavras, desde que não seja papel de jornal. A ASAE é generosa. Excepto no galheteiro, que não quer ver na frente; e nos petiscos domésticos, de que suspeita do fundo da sua alma vigilante (os portugueses são porcos). Já com o pão para a açorda, a ASAE adoptou uma política liberal, uma vez que lhe dêem a garantia (como?) de que ele não foi contaminado. E, num gesto, que sempre lhe agradeceremos, não obriga ao uso de copos de plástico para o café.
A ASAE é um corpo de polícia estimável. A polícia é em si própria estimável e o indigenato precisa muito de polícia. Como a história prova, os portugueses não se portam nunca convenientemente se não os proibirem, inspeccionarem, multarem e de várias maneiras reprimirem a intervalos regulares. Pena que a benéfica existência da ASAE não encoraje o governo a fundar uma milícia contra o álcool, o tabaco, o sal, o açúcar, a obesidade e a preguiça. E, pensando bem, contra o voto. [in Público]

09/12/07

A Revolução Cultural Chinesa Vertida para Português — Com a Devida Vénia a António Barreto

A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados. A SOLUÇÃO FINAL vem aí.
Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará.Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda agente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar! Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico. Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido. Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos. Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem ao lado a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido. Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido. Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas. Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido. Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido. Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido. Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais. É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos. Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever. Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto. Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género. Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas. No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta"produto não válido", mesmo que esteja vazia. Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação. Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda. Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido. Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido. Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica. As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas. As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado. Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço. Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta coma data e a hora do corte. O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.
António Barreto, Público, 25 de Novembro de 2007

25/11/07

Alto e Pára o Baile!

ASAE/DGS encerra a cozinha da «Casa do Alentejo».
À velocidade a que se vêm fechando restaurantes e similares pelo país, há que concluir que muitos portugueses, sem o saber, estariam à beira do óbito, precedido por vómitos, náuseas, confusão mental e dificuldades respiratórias. O que nos tranquiliza [não é a ASAE/DGS] é Paracelso: «O veneno está na dose»

12/11/07

Um Poeta na Pastelaria. Servido a Quente. A Pastelaria Agradece. Na Verdade não Sabe como Agradecer. E Reafirma: ainda não Estamos Todos Parvos!

Texto e foto enviados por José Agostinho Baptista para a Pastelaria e que com muita honra se publicam
ASAE ... Entretanto, o coelhinho beirão, que ao fim de tantos anos acabou por comprar uma Gillette Mach 3 Turbo, made in largo do rato, e quis limpar a sua face poluída, como acólito supremo do sistema maçónico e tenebroso, fala da grandiosidade do paraíso sochialista que já esqueceu os entre-os-rios e todas as outras tragédias lusitanas e democráticas. Casas pias, apitos dourados, e outros que tais, como, por exemplo, o roubo de galinhas no quintal da princesa de Caneças. Para eles, é tudo igual.
Eu também seria capaz de amar este e outros homens da mesma estirpe, se tivesse o orgulho nacional de ter perdido todos os jogos do Campeonato do Mundo de Rugby e fosse o lobo que já não existe em serra nenhuma de Portugal. Eu seria capaz de amar o primeiro-ministro com o meu nome próprio (que infelicidade a minha, meu pai!) e outro (apelido?) de um grego maluco e genial, eu seria capaz de amar este rapaz quarentão e elegante que inventou cursos superiores (?) e gosta de percorrer, seminu, as cidades decadentes da sua Europa. Que corpo aceitável, se ao menos, por dentro, tivesse uma alma...
Depois, eles surgem, flamejantes, os rambos do novo fascismo, os fiscais castradores do prazer e da economia. Os lacaios do "homem melhorado". Com os seus blazers da Maconde, invadem cidades, litorais e serras, oferecem chocolates e gelados às criancinhas, manipulando-as até à delacção. Medronho caseiro, "rancho", "dobrada" chouriços que não passam pelos famosos computadores nacionais do primeiro-ministro doutor-engenheiro-imperador, corredor de maratonas da treta, frio e cibernético homem moderno que acha que nas Beiras e em Trás-os Montes os que lá vivem devem fazer farinheiras informatizadas, tudo deverá ser proibido e penalizado com coimas para o Estado da penúria.
Por isso, os rambos lusitanos, à boa maneira dos Reagan, Ford e Bush, depois de despirem os blazers que lhes realçam a pança, trazem à presença dos pais e familiares das crianças ludibriadas, as suas verdadeiras vestes de polícias de choque. São estes representantes do mau-gosto, da destruição da sensibilidade e do prazer que querem zelar pelos nossos hábitos (pela nossa saúde, salvo seja), líquidos e sólidos. Heróis do homem novo (?) é vê-los, intrepidamente, a invadir o dia-a-dia de quem só quer degustar. Destroem tudo, menos o que não presta. Impõem pizzas e hamburgers, coca-cola e sumol, sumos diversos a martelo, fumos de fábricas e automóveis, mas do demoníaco tabaco, nunca.
Manipuladas pela TV, as mentes escravizadas olham para o lado e aceitam. Os "pivôs" (que palavrão das modernas mentiras ortográficas) dirigem-se-nos, impávidos ou sorridentes, quer anunciem a dor ou a morte, ou um concurso de parolos. Cumprem a mensagem dos chefes, sejam eles do capital ou da política, irmãos siameses da mesma desgraça. Muito futebol (mau futebol), axns e doutores house, ou a burguesia entulhada em psiquiatras e farmácias. Vivam os pachecos e os marcelos, as águas pôdres do pântano, e o nosso querido presidente que desde Boliqueime só viu as praias à distância.

07/11/07

Os Petiscos ou a História da Cenoura e do Burro

Não me interpretem mal. Eu adoro salada de rúcula, tapas de salmão fumado, pasta al dente, tomate com mozzarella e comida japonesa. Ainda assim, custa-me perceber porque desataram os pratos referidos a invadir os restaurantes portugueses de Norte a Sul, à custa de outros sabores como as sardinhas assadas, os pastéis de bacalhau, a salada de grão, os peixinhos da horta, as batatas a murro, as ameijoas à Bulhão Pato, o xarém de conquilhas, sei lá eu. Não me interpretem mal: o meu paladar não sofre de qualquer desvio nacionalista nem a globalização é para aqui chamada. Porque onde é que já se viu os franceses cortarem no camembert, os espanhóis largarem os pimentos padrón ou os belgas os mexilhões?
Eu sei que às brigadas da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica não é isto que as preocupa. Mas será o seu zelo higienista alheio ao caso? Porque o caso é este: qualquer dia, arriscamo-nos a fazer o papel daquela personagem criada em 1973 por Woody Allen para Sleeper, comédia de ficção-científica em que o dono do restaurante Happy Carrot dava entrada no hospital e, por acidente, era posto a dormir durante 200 anos, ressuscitando num mundo completamente diferente. Dois séculos passados, o que ele continuava a não perceber, in the first place, é como é que tinha adoecido se só comia cenouras.