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08/02/09

Beatices pragmáticas ou dos imigrantes e das suas circunstâncias

Veio a Alta-comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, Rosário Farmhouse, chamar a atenção para o possível agravamento da xenofobia em tempo de crise. Fez muito bem. O que já não consigo perceber é os termos em que o fez.
Num discurso cheio de boas intenções, Rosário Farmhouse deixou cair os motivos para gostar tanto de imigrantes: Sem imigrantes o futuro será bem pior. É graças a eles que vamos conseguindo ter algum equilíbrio demográfico e na balança da segurança social. Mas disse mais, a senhora alta-comissária. Referindo-se directamente aos ingleses, acrescentou: Vamos conseguir demonstrar que somos diferentes e que não vamos fazer aos imigrantes aquilo que actualmente nos estão a fazer no Reino Unido.
Duas perguntas:
a) não devemos ser xenófobos com ninguém, excepto com os malandros dos bifes?
b) que fazer com os imigrantes que não se reproduzam ou que estando, por exemplo, doentes ou no desemprego, emperrem a balança?
Resumindo: há umas senhoras que na sua infinita indulgência me lembram demasiado a Cilinha, a tal que referindo-se à especificidade do colonialismo português e seus pretinhos ainda hoje jura a pés juntos: "Nós [portugueses] éramos fantásticos. Os outros tratavam-nos a chicote, como bichos. A nossa África era completamente diferente. Eles ainda hoje têm saudades".
E a isto também se podia chamar beatice chic e update.

05/02/09

Da relação milagrosa entre o "Angola é nossa" e o peritoneu do meu pai

Se estivessemos em 1961, e ainda bem que não estamos, ontem, 4 de Fevereiro, tinha começado o inferno português em África. A propósito da data, permitam que partilhe convosco um episódio caseiro. Abrevio.

Um dia, mandava Salazar, começou-se a falar da guerra. Que vinha aí. O meu pai não gostava de África. Apesar de nascido no Algarve, dava-se mal com o calor. Não queria ir. Então, ele e mais três muchachos alugaram um carro de praça (nome por que eram conhecidos os táxis) e puseram-se a caminho na direcção oposta. O táxi galgou Olhão/Hamburgo num ápice de sete dias.
Chegados finalmente à Alemanha, o meu pai acabaria a trabalhar para um clã italiano familiar dos Sopranos, proprietário de uma garagem de reparação de automóveis. Foi aí, entre motores fanados, radiadores sobreaquecidos, escapes tuberculosos, velas ardidas e peças contrabandeadas que lhe deu a dor de burro que o traria de volta. O coice era apendicite, evoluiu para peritonite e, não lhe subtraindo o pneuma mas ainda assim vinte quilos, isentou-o do ultramar. Regressou à pátria.
Na fronteira, junto a Vilar Formoso, a polícia portuguesa conferia os passaportes. A licença para se deslocar ao estrangeiro já há muito caducara e o Pide de serviço quis saber os motivos da ausência e do regresso. A resposta saiu rasa: Fui para aprender a grande língua de Goethe e volto por saber a pátria em perigo. O Pide olhou-o de esguelha mas logo se perfilou quando, retomando o fôlego, o meu pai largou um gutural Angola é nossa! No bolso, guardava o papel que o dava como inapto em alemão. Juntou-lhe o passaporte português e abandonou Fuentes d’Oñoro com um sonoro auf Wiedersehen. Entre dentes e sorriso largo acrescentou para o Pide: Va fan culo.
E foi assim que não me tornei alemã.