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16/08/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Os livros são para se comer»

«(...) A mulher que nunca largará a cor do luto viajou menos do que a mulher de olhos muito azuis. Na realidade, nunca viajou. Com uma história igualmente, se não mesmo mais difícil – mãe espanhola que cruzou o rio em fuga da Guerra Civil e marido contrabandista que cruzaria o rio em sentido contrário enfrentando tanto a Guarda Fiscal como a Guardia Civil – é a prova de que a causalidade é conceito demasiado infecundo, sobretudo quando aplicado ao comportamento humano. Sempre positiva, apesar da vida de trabalho e pobreza, sempre gentil, apesar da dureza que lhe calhou em sorte, contrasta com familiar de sangue e destino comum a quem um simples “Bom dia!” poderá acarretar como resposta: “Bom dia só se for para si!”

06/08/11

A book a day keeps the doctor away: "O Intruso", William Faulkner

Um Faulkner de final feliz datado originalmente de 1948, posterior, pois, à publicação de obras-primas como Na Minha Morte, O Som e a Fúria ou Absalão! Absalão! Em Portugal, na década de 60, seria traduzido na Europa-América sob o título O Mundo Não Perdoa; volta agora mais conforme ao original, Intruder in the Dust, nome com que foi também adaptado ao cinema em 1949.
Sul, pó, desolação, homens de convicções viris, calados. Uma sociedade assente no racismo e em papéis imutáveis. Faulkner regressa a um dos seus temas de eleição, através desta história de resumo fácil: um negro, Lucas Beauchamps, é acusado de matar um branco pelas costas.
Preso, aguarda-o o linchamento. Ajudado por um rapaz branco, Charles Mallison, que vive obcecado pelo comportamento “desajustado” de Lucas (Charles quisera pagar-lhe um favor – quatro anos antes, o negro salvara-o de morrer afogado – e vira as suas moedas recusadas), e pelo advogado Gavin Stevens, que se nega durante muito tempo a acreditar em Lucas, este acabará por ser ilibado do crime.
Faulkner constrói o livro ao “estilo policial”, mas o que é realmente marcante é a forma hábil como nos vai dando as personagens, subtraídas a qualquer maniqueísmo psicológico ou outro: e se Stevens tem dificuldade em aceitar a inocência de Lucas, Lucas, por sua vez, terá dificuldade em acreditar na justiça dos brancos.
Depois, claro, há a escrita inconfundível do autor de Palmeiras Bravas. Pujante, torrencial, elíptica, de nos pôr a cabeça à roda, a que se alia o trabalho do(s) tempo(s) da acção (tempo que é sobretudo memória), duas características que, por si só, fariam sempre de Faulkner um escritor inimitável (já que o poder dos génios é, por vezes, também esse: o de gerar um vazio à sua volta).

"It was just noon that Sunday morning when the sheriff reached the jail with Lucas Beauchamp though the whole town (the whole county too for that matter) had known since the night before that Lucas had killed a white man."

O Intruso, William Faulkner, 2011, Bertrand Editora



17/11/10

Vão desculpar-me a linguagem de caserna mas custa-me a crer que um clube de gajas nuas fomente a leitura de Faulkner ou sequer do Henry Miller

Cada um lê como muito bem lhe apetece. Uns gostam de ler na cama, antes ou depois de dormir ou de outra coisa qualquer. Há quem teime nos cafés, apesar do sumiço dos mesmos. Há quem prefira jardins e há quem eleja a sanita. Há leitores que só na biblioteca e outros que só em trânsito. Há quem leia enquanto come. Há quem não dispense o barulho e há quem exija silêncio.
O meu leitor preferido é Eliot: I read, much of the night, and go south in the winter.
Isto era tudo o que eu sabia sobre o assunto antes de ter tropeçado no Naked Girls Book Club, um clube semiprivadoe exclusivamente feminino em que a condição para se ser sócio é gostar de ler despido(a). E quem julgue que a coisa se fica pela leitura d’ O amante de Lady Chatterley ou similares mais apimentados, esclareço já que quando se clica no rectângulo à direita que diz “books reviews” vamos parar imediatamente a Faulkner e ainda por cima a Absalom, Absalom.
Impressionados? Eu fiquei, embora confesse que só me veja a ler Tolstói muito vestida, de preferência de xaile, lareira acesa e uma caixa de madeleines para acompanhar o cognac.
O que me leva da Karénina a Marilyn. Dizia Wilder: My aunt Minnie would always be punctual and never hold up production, but who would pay to see my aunt Minnie?
Citado o meu guru, se é verdade que as meninas do Book Club serão um pouco mais atraentes do que a tia Minnie do Wilder, I presume, ainda assim a Marilyn mete-as a todas num chinelo. Despida ou vestida. E se ela lia e mesmo que não lesse!

14/10/10

A book a day keeps the doctor away: "A Viagem dos Inocentes", Mark Twain

Faço minhas as palavras citadas na contracapa de A Viagem dos Inocentes: “Quando penso como fui enganado pelos livros de viagens sobre o Oriente, só me apetece comer um turista ao pequeno-almoço”.
Atendendo a que a frase transcrita data de 1869, ou seja, de há 141 anos, a conclusão impõe-se e não é de índole optimista: apesar da invenção do Allgarve, não parece ter havido melhoras.
Falamos do autor de As Aventuras de Tom Sawyer, logo, não falamos de um qualquer. Nem sequer de uma viagem qualquer.
Do que se trata aqui é da narrativa do périplo pela Europa e pela Terra Santa de um grupo de americanos que parte para o Velho Mundo como quem parte para um piquenique. No caso, a bordo do USS Quaker City que zarpou de Nova Iorque a 8 de Junho de 1867 para regressar apenas seis meses depois.
Entre os passageiros, Mark Twain, pseudónimo de Samuel Langhorne Clemens, aquele a quem outro gigante, William Faulkner, classificaria como o “pai da literatura americana”. Paternidade à parte, Clemens é obrigatório.
O livro, a sua real estreia literária (descontados uns contos anteriores), regista, à maneira de um diário de bordo, as aventuras e desventuras do grupo de inocentes peregrinos que, desta vez, rumam em sentido contrário (no original, “The Innocents Abroad, or The New Pilgrims' Progress”, numa referência explícita aos primeiros europeus a desembarcarem na América).
O humor de Twain não perdoa. O Velho Mundo é passado a pente fino (e disso são exemplo as notas sobre os Açores), mas os excursionistas também não escapam: “Estamos acampados perto de Temnin-el-Foka, um nome que os rapazes simplificaram consideravelmente para facilitar a pronúncia. Chamam-lhe Jacksonville. Soa um pouco estranho, aqui no vale do Líbano, mas tem a vantagem de ser mais fácil de decorar (…)”.
E que melhor forma de assinalar os 100 anos da morte de Mark Twain do que a publicação (ainda por cima pela mão da editora com os livros mais bonitos do país...) desta deliciosa viagem inédita em Portugal?

A Viagem dos Inocentes, Mark Twain, Tinta-da-China, 2010, trad. Margarida Vale de Gato

09/07/07

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Entre a dor e o nada, escolho a dor», William Faulkner, Palmeiras Bravas.
E este é um daqueles pensamentos sobre os quais tenho as minhas dúvidas porque não me parece lá muito reconfortante