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19/07/09

Ainda a FLIP: do acordo ortográfico à volubilidade das massas

O encontro tinha como tema o Acordo Ortográfico. A mesa opunha-se.
O jovem angolano Ondjaki dizia-se conformado mas era contra, o jovem brasileiro Marcelino Freire dizia-se revoltado e era contra.
A conversa enveredou rapidamente para a sexologia.
Marcelino Freire disse que ainda assim preferia um acordo pornográfico, para saber onde metia a língua; Ondjaki disse, parafraseando Pessoa, que a minha pátria é a minha língua numa portuguesa. Um elemento do público indignou-se por terem tirado o trema da minha linguiça (que levava trema no Brasil) e o público, ao rubro, aplaudia ruidosamente.
No meio da galhofa, um português sisudo e bem entradote pediu a palavra. Apresentou-se como fundador da Universidade Lusíada de Lisboa, puxou de uma data de galões que não consegui registar e defendeu inflamado o Acordo, chamando reaccionários e patrioteiros aos seus opositores.
O mesmo público, incluindo os elementos da mesa, aplaudiu ruidosamente.
Eu, que já era contra o Acordo antes, saí de lá ainda mais depois. E confirmei a minha fobia às reuniões de massas. Mesmo as alfabetizadas.

15/07/09

Fragmentos de um discurso amoroso (não, não é Roland Barthes, é Domingos de Oliveira)


"Há pessoas que sofrem com separações, outras, muito mais raras, se alegram com isso. Realmente uma separação é sempre um alívio. E alguns logo encontram a 'solidão magnífica', conforme chamou Freud. Mas não sou esse tipo de pessoa e para os homens comuns, separação dói muito.  
O assunto não me é estranho porque já fiz um filme sobre ele e também porque tive cinco casamentos e cinco separações. 
No entanto não tenho nada a dizer sobre o assunto. Há coisas assim, quanto mais se vive ou mais se pensa, mais obscuras ficam.  
Na primeira separação, tinha uns vinte e poucos anos. O nome dela era Eliana. Me desarticulei tanto que não podia sair na rua, achando que os edifícios cairiam sobre mim. Lembro também que foi nessa época que descobri a psicanálise, e logo depois o álcool. Na boemia, no tempo sem tempo da boemia, procurava aflitamente o Amor. Quebrei minha mão dando um soco na parede e fui à sessão de psicanálise tocar uma flauta de plástico que alguém me deu, com a mão engessada. Quero dizer que sofri muito.  
Na minha segunda separação sofri muito. Tinha três namoradas ao mesmo tempo, e brochava com as três. O nome dela era Leila. Em vez de tocar a flauta, fiz um filme, 'Todas as Mulheres do Mundo'. Ninguém duvide disso: períodos de separação são em geral altamente produtivos.  
Minha terceira separação, Nazareth, eu tinha quarenta e poucos, sofri muito e não teve graça nenhuma. Eu estava sem dinheiro e vivia minha vida nos corredores dos bancos adiando promissórias, parcelando dividas, movido por anfetaminas. Naquela época eram vendidas como remédio para emagrecer.  
Meu quarto casamento, Lenita, durou dez anos e tive uma filha. Maria Mariana. Na quarta separação tinha quase cinquenta, tive poucas namoradas, poucas porém boas. 
Até que há vinte e oito anos atrás, casei com Priscilla, adorável criatura que me acompanha até hoje. E lá pelo oitavo ou décimo ano de casamento, passamos um ano separados. Se eu tinha desarticulado na primeira, nessa ultima desagreguei, quero dizer, sofri muito. Mas sempre produtivamente. Essa experiência resultou num filme, 'Separações'.  
Se eu cito esses dados biográficos nesta palestra, é apenas para tentar perceber o que há de comum entre essas cinco malditas porém necessárias passagens. Na verdade quase pode ser dito que todo homem solteiro quer casar assim como todo casado quer ficar solteiro. Não conheço nenhum casal decente que não nutra um sólido desejo de separação. Faz parte de um bom casamento, creio. Afinal, o amor tira a liberdade, sem dúvida. O que é inadmissível. E a solidão muita vezes é desagradabilíssima e vazia. Enfim assim vamos todos, amando e desamando, carneirinhos à espera do corte.  
A pergunta que faço hoje em dia a respeito do assunto é sobre a possibilidade de amar, casar e separar sem sofrer. Muito me perguntei sobre o mistério da dor do amor. Para tentar entender a dor do amor existem três indagações sobre o amor, ele mesmo.  
Primeiro. Porque o amor (a paixão) acaba? Infinita enquanto dura, mas não dura. É por esquecimento de si mesmo? Porque sendo explosão, com tempo se atenua? Porque, tendo dado ao amante sua chance de eternizar-se, não tem mais nada a fazer ali? 
A segunda indagação vai mais direto ao ponto: porque dói tanto quando o amor acaba? Porque é tão triste? Porque é inaceitável? Nenhum raciocínio ou vivência autorizou a crença de sua perenidade? Porque afinal nos dilaceramos? Ah, a dor do amor. É mais que uma angústia. É uma febre, uma desidratação. Poucas coisas são tão tristes quanto o fim de um grande amor. Talvez nem o fim da vida seja tão triste. E o que dói? Onde dói? Dói por não ser mais o que era. Dói por tudo que poderia ser, se ainda fosse, mas não será jamais. Dói a perda da paixão, única moeda cósmica que temos a nossa disposição. Porém, acalmemos. Deve haver um motivo objetivo para tanta dor. Examinemos metodicamente uma a uma as perdas.  
O que se perde quando é perdido um amor? Talvez a moeda cósmica? Não, não deve ser isso. Todos os homens sofrem separações e nem todos se importam com o cosmos.  
A perda do objeto sexual? Também não deve ser isso. Há muitas Marias para cada João.  
Qualquer coisa ligada a ciúme de terceiros? Mas há separações que não envolvem terceiros, nem por isso deixam de ser sofridas.  
Tão pouco são irrazoáveis as explicações psicológicas, quebra da fantasia, falência de um investimento sentimental ou qualquer coisa desse tipo. Mas também não é isso. Homens maduros, estudiosos, que certamente ultrapassaram esse tipo de acontecimento psicológico também sofrem como cães envenenados.  
Aprofundemos essa espiral.  
Talvez o horror da solidão quando convivemos muito com a pessoa amada, perdemos totalmente a noção de como somos sós no mundo. Nossa íntima alegria ou dor é compartilhada, ganhamos um ouvinte interessado e perder isso, convenhamos, é perder muito.  
Talvez o medo da liberdade, citando Dostoievski, meu caro companheiro desde a adolescência, 'Não há nada que o homem deseje mais do que a liberdade, nem nada que lhe seja tão doloroso'.  
Na terceira indagação sobre o amor pergunto se ele é necessário. Na pesquisa da verdade todas as hipóteses devem ser levantadas, mesmo as deselegantes. Existirá mesmo um grande homem só? Não será um homem um animal a dois? Como intuíam os antigos gregos, um ser cuja biológica natureza verdadeira é ser parte de uma unidade maior, chamada casal. Se a função da hipótese é responder a paradoxos, esta é a meritosa, posto que pelo menos explica a dor do amor. Dói porque falta uma parte, tanto quanto doeria se nos arrancassem um braço ou um olho. Quando escrevi o roteiro do filme 'Separações' eu tinha farto material a respeito. Tanto retirado da minha vivência quanto daquela dos amigos, mas não conseguia fechar a história. Somente pude fazê-lo quando lembrei da Kubler Roth e de suas fases pelas quais obrigatoriamente passa um doente terminal. Quando reparei que elas podiam coincidir com as fases do meu herói ridículo num período de separação, o roteiro ficou resolvido. Somente é possível comparar a separação de dois amantes com a morte de um homem.
No filme minha ordem é: a negação ('Não! Não pode ser! É mentira, ela vai voltar. Foi uma briguinha à tôa.'), a negociação ('Se ela voltar para mim eu paro de fumar, subo os degraus da Penha, nunca mais vou ser galinha'), a revolta (“Quero te matar, sua puta!”) e a aceitação, que é quando se arranja outra namorada. Ou então a mulher volta. Observe que tomei certas liberdades com a Kubler Roth. Inverto a ordem, que é: a negação, a revolta, a negociação, a depressão e a aceitação. E dou por subentendida a fase da depressão.  
Bem, espero que quem não viu possa ver o filme. É muito engraçado ver aquele homem arrastando-se pelo chão, pagando todos os micos possíveis para recuperar a mulher amada.  
Hoje tenho 72 anos, continuo querendo me separar da Priscilla, e ela de mim naturalmente, posto que somos normais e tenho a impressão que poderíamos fazer isso alegremente sem nenhum ciúme e nenhuma dor. Tenho essa exata impressão e com a mesma convicção que não acredito absolutamente nela. Morro de medo de me separar da Priscilla. Creio, concluindo, que é uma questão genética. Há homens que nasceram para viver sozinhos, e certamente não sou um deles. A verdadeira arte de viver talvez seja tentar ser aquilo que você é. O que evidentemente é muito difícil.
Me aguardem no meu próximo filme, é uma espécie de continuação de 'Separações'. Acompanhando o casal, até digamos assim, o fim. Titulo: 'Inseparáveis'."

Texto de Domingos de Oliveira (dramaturgo, cineasta e actor brasileiro) lido pelo próprio na FLIP 2009

13/07/09

A tal de FLIP

Não perguntei à própria e, ainda assim, apostaria uma rodada de cachaça em como Dona Margarida não assistiu à conversa do brasileiro Silio Boccanera com Richard Dawkins. 

O cientista ateu que, à imagem dos Beatles, corre o risco de se tornar mais famoso do que Jesus Cristo apresentou-se na FLIP no dia 2. Na manhã seguinte, enquanto ele se aventurava mar dentro na companhia do navegador que fez em solitário a primeira viagem de circum-navegação do mundo – certamente o mais notável habitante de Paraty, Amyr Klink –, Dona Margarida, a responsável pelo meu café da manhã, despedia-se assim: “Num momento em que se fala tanto de literatura em Paraty, também eu quero-te falar do meu autor”. Pausa. “Do autor de todos os autores...” Nova pausa. “Deus!” E, dito isto, ofereceu-me dois exemplares da “Sentinela”.

É pouco provável que Dawkins e Dona Margarida venham alguma vez a confrontar ideias, pensei. Na noite anterior, ao invés, era isso que esperava do debate com o autor de A Desilusão de Deus. Aconteceu outra coisa. Uma entrevista em registo leve e simpático que lhe permitiu recordar algumas das suas conhecidas ideias sobre ateísmo e religião, com um único momento realmente esclarecedor, quando o criador dos “memes” discorreu sobre darwinismo social: “Os que me acusam de partilhar essa visão, talvez se tenham limitado a ler o título de O Gene Egoísta esquecendo-se de consultar as notas de roda-pé, ou seja, o livro”. A plateia riu-se e eu com ela. Mas o que gostaria mesmo era de ter assistido a uma conversa entre Dawkins e Damásio. Não cabia no programa. Embora o programa fosse extenso.

A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) começou no dia 1de Julho. Começou bem. A conferência de abertura esteve a cargo de Davi Arrigucci Jr., professor e crítico brasileiro (tido por Julio Cortázar como um dos melhores intérpretes da sua obra), responsável por vários estudos e ensaios sobre Manuel Bandeira (1886-1968). O poeta que um dia ameaçou ir-se embora para Pasárgada era o homenageado da 7ª edição da FLIP e Davi Arrigucci Jr. deu sobre ele uma aula magistral, daquelas que mete tudo: generosidade, inteligência, amor e erudição.

Sujeito de outras conversas, nomedamente de uma que reuniu três representantes da nova poesia brasileira – Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas – e de uma evocação sentida feita em conjunto por Edson Nery, 87 anos, amigo e intelectual estudioso do poeta, e Zuenir Ventura, 78 anos, jornalista e ex-aluno do pernambucano, o homem que em 1930 versejava Estou farto do lirismo comedido/ Do lirismo bem comportado/ Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente/ protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor./ Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário/ o cunho vernáculo de um vocábulo./ Abaixo os puristas saiu (poeticamente, falando) em braços quando Edson Nery gritou no final para uma plateia ao rubro: “Viva Manuel Bandeira!”. 

Se no que toca à poesia pouco mais aconteceu no programa oficial, ficcionistas não faltaram. Edna O´Brien, que encerrou a sua participação na FLIP lendo um poema dedicado a Barack Obama e cujo livro de estreia em 1960, Country girls, se viu banido pela igreja do seu país, juntou-se a Anne Enright, vencedora surpresa do Man Booker 2007 com Corpo Presente, (traduzido pela Gradiva). Ambas irlandesas, trouxeram ao Brasil o país de Joyce, tanto as suas mitologias literárias como as suas realidades mais negras. 

Os brasileiros estiveram presentes em força. Claro. Destaque (pessoalíssimo) para a prestação de Domingos de Oliveira (dramaturgo e cineasta) e para os escritores Cristovão Tezza (autor da Gradiva), Bernardo Carvalho e Milton Hatoum (os dois editados em Portugal pela Cotovia, que também publicou entre nós os referidos Angélica Freitas e Heitor Ferraz; Carlito Azevedo, da revista literária “Inimigo Rumor”, responsável em Paraty pela “Oficina Literária”; assim como Tatiana Salem Levy, nascida em Portugal em 1979 de pais brasileiros refugiados políticos, presente na FLIP a pretexto do seu livro A Chave de Casa, finalista do prémio Portugal Telecom de literatura de 2008). Quanto a Chico Buarque, cujo último e excelente romance, Leite Derramado, acaba de ser lançado também em Portugal pela Dom Quixote, fez frisson. A plateia, esgotadíssima, rendeu-se-lhe: uns às palavras, outros (sobretudo outras, desconfio) aos olhos verdes. 

Os franceses chegaram com uma delegação disposta ao escândalo, se excluirmos do pacote o afegão Atiq Rahimi que trocou, entretanto, o persa pelo francês, vencedor do prémio Goncourt 2008 pelo seu Syngué sabour - Pierre de patience e cujas obras estão traduzidas entre nós pela Teorema. 
O voyerismo do público não poupou Catherine Millet, autora do autobiográfico A Vida Sexual de Catherine Millet (ASA), Sophie Calle, artista conceptual que Paul Auster usaria como personagem em Leviatã, e Grégoire Bouillier, escritor e ex-namorado da própria Sophie Calle. Os limites entre ficção e vida privada foram assunto de debate, o que também viria à baila aquando da conversa com o jornalista americano Gay Talese, representante emblemático do new journalism, ou com o mexicano Mario Bellatin (a quem, estranhamente, ninguém perguntou por Vila-Matas) O assunto tem muito que se lhe diga, mas quase tudo ficou por dizer. À reflexão preferiu-se uma abordagem a roçar o estilo "People", sinal talvez dos tempos e/ou da multidão que arrasta a FLIP, muito longe já dos seus primórdios mais íntimos ou mais literários. Como se preferir.

Ao “show off” conseguiu fugir Lobo Antunes, um dos nomes mais aguardados. Conquistou a assistência falando largamente das suas raízes brasileiras mas não se ficou por aí. Falou de literatura. Falou de livros. Assuntos que nem sempre foram tema principal durante os cinco dias da festa. Correrá esta o risco de se transformar numa feira de vaidades? O futuro a Deus pertence, diria Dona Margarida. Quanto a mim, nos próximos dias vou seguir o poeta à letra: Ai que prazer/ Não cumprir um dever/ Ter um livro para ler/ E não o fazer!

Imagem da manifestação promovida pelos habitantes da uma aldeia local encravada no condomínio privado das Laranjeiras, onde os condóminos chegam de avião particular e a entrada é guardada de metralhadora. Chico Buarque foi o único autor a referir-se ao assunto.