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25/11/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E O QUE DIRIA MONTAIGNE?»

 «... Quanto à morsa de Oslo, sujeita ao stress da presença humana apesar dos apelos para que deixassem o animal em paz, decidiram as autoridades, temendo que pudesse tornar-se agressiva, matá-la. Foi poupada no entanto ao esquartejamento ao vivo para educação dos infantes como aconteceu à girafa da Dinamarca. Não desesperemos: talvez seja verdade que o mundo pula e avança…

Não sei por que me lembrei da morsa. Da morte anunciada da morsa. Entretanto, os humanos já tinham chegado aos oito mil milhões de exemplares.

Talvez tenha sido — é uma hipótese que me coloco — devido à torrente de raciocínios absurdos com que nos presentearam ultimamente. E que não se deixe de considerar absurdo o raciocínio que esteve na origem da decisão de matar a morsa: os humanos estão a stressar o animal; o animal stressado pode tornar-se agressivo; mate-se o animal!

Note-se: eu não estou a sugerir, à maneira de Swiff, que, em vez de se matar a morsa, se matassem os humanos. Mas se ao menos falassem menos!

....

É neste quadro dantesco [do Qatar]  — em linha com o Afeganistão, embora sem cordilheiras e com bastante mais dunas, areia e estádios e hotéis —, que só podemos ficar sensibilizados com as declarações de António Costa recusando-se a ir para lá louvar a sharia, era o que mais faltava!, e em especial de Marcelo Rebelo de Sousa que, dando o corpo às balas (salvo seja) se mostrou disposto a encabeçar — in situ — uma arriscadíssima cruzada em prol dos direitos humanos.

Quanto a Augusto Santos Silva, nada lhe ouvi ainda, mas estou certa de que emprestará à defesa dos valores democráticos universais, a mesma determinação de que deu provas na defesa do Acordo Ortográfico. (...)»

24/08/10

Silly season ainda: cá para mim os militares que querem ir ao focinho ao Lobo Antunes são da escola do Santos Silva

As ameaças de um grupo de militares ao escritor António Lobo Antunes cheiram-me a esturro. Não porque duvide da indignação dos ditos mas por me parecer estranho que alguém que quer ir ao focinho de outrem (expressão de caserna, naturalmente) ande por aí a anunciá-lo pela comunicação social. A não ser, claro, que os militares em causa gostem de fazer tudo às claras, como julgo ser o caso do ministro que os tutela.
E se, por um lado, estes reformados da guerra me recordam demasiado aquela expressão portuguesa do "agarrem-me senão... qualquer coisa", por outro, Santos Silva, ao anunciar publicamente o envio de espiões para o Afeganistão e Líbano, provou que não basta ser adepto do malhanço para saber brincar às guerras.
Quanto ao escritor Lobo Antunes, gosto muito. Sobre a coragem não-literária do próprio nada sei. Mas em verdade também vos digo: cá para mim, a coragem, como quase todas as qualidades humanas, depende. Pessoalmente, prefiro um escroque cobarde a um escroque corajoso. Sempre causará menos estragos.

[Sobre o livro onde vem impressa a frase que terá ateado a fogueira, Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes, de João Céu e Silva, como escrevi na altura, não o achei grande espingarda]

31/08/09

Ontem a meio da tarde dei comigo a pensar no Augusto Santos Silva

Não se ponham com ideias. Foi só por causa d' A Segunda Guerra Mundial, o livro de Martin Gilbert que ando a ler.
Às tantas tropecei na imagem acima. Um comboio de tropas alemães a caminho daquilo a que Hitler viria a chamar um figo, levando pintalgado no exterior uma frase que traduzida dá nisto: Vamos para a Polónia malhar nos judeus.
Lembrei-me do actual ministro da propaganda. Mantidas respeitosamente as distâncias e circunstâncias (mas e se as últimas fossem outras?).
Não me interpretem mal. Malhar pode suceder a todos. Quem nunca malhou que atire a primeira pedra… e eu encolho-me. Mas quem lhe toma o gosto vai um bocadinho mais longe... Por exemplo, até Varsóvia.
Por essas e por outras, acho sempre preferível uma gritaria elevada. Com argumentos à altura. Quanto ao estilo queres porrada? queres porrada?, vulgo estilo Sarkozy, passo. Completamente. Nunca gostei de mocas de Rio Maior e não seria agora que ia mudar de orientação. Mesmo que servissem aquelas ― hoje ― para malhar na direita.