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04/10/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Desafinação outonal»

« (...) Integrado nas comemorações deste ano dedicadas ao nascimento do poeta – dizem que passaram cinco séculos e, pelos festejos, o que seria se não tivessem passado…! –, tal lançamento veio colmatar uma falha de peso. Pois se estávamos até agora impedidos de apreciar o imaginário pictórico que a epopeia camoniana despertara em Valter Hugo Mãe, o que por si só seria de lamentar, muito mais pobres ficaríamos sem a leitura do prefácio assinado pelo prolixo vate (referimo-nos, claro, ao desenhista e não a Luís de Camões, que se limitou quase só a fazer versos).

23/08/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Incertezas de Agosto»

«(...) onde pára o jornalismo?

10/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Longe do mundo*»

(...) Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a todos (ou, pelo menos, à maioria).

16/07/22

E PORQUE HOJE É SÁBADO, TOMEM LÁ CAMÕES E DESCULPEM SE NÃO ARRANJEI UM INÉDITO (É Sábado, Não É?)

Se misericórdia e amor não vos atara,
A corda per si só se desfizera;
E, se isto deste modo acontecera,
Quem da prisão eterna me livrara?

Se amor, com vos prender, não me soltara,
Em cárcere infernal sempre estivera;
E, se do Ceo esse amor vos não decera,
Quem do Inferno ao Ceo me levantara?

Por demais forãm gemidos nem oferta,
Se amor vos não tivera tão atado,
E cuidam cegos que a corda vos aperta!

E vos de amor estais tam apertado,
Que só ele se acende e se desperta
Mais que algoz contra vos, por meu pecado.
LUÍS DE CAMÕES
Fonte:
Cancioneiro recopilado por Manuel de Faria. – Dedicado ao Conde de Haro em 1666, ms., f. 36. Transcrição segundo Cleonice Berardinelli, 1980. p. 457.

01/07/22

NEGÓCIOS DAS ARÁBIAS, JOE BIDEN, A GRAMÁTICA E O LADO (in)CERTO DA HISTÓRIA

«Não pedirei directamente aos sauditas que aumentem a extracção de petróleo», disse Biden quando perguntado sobre a sua visita agendada à Arábia Saudita, no âmbito de uma reunião do Conselho de Cooperação do Golfo. «A reunião é NA Arábia Saudita, não é SOBRE a Arábia Saudita», enfatizou, distinguindo o pronome da preposição.

Sem questionar os conhecimentos gramaticais do presidente dos EUA, não se pode deixar de confirmar como o nosso Luís de Camões estava certo e o mundo é mesmo composto de mudanças. 

Ainda em 2020, Biden tinha prometido transformar a Arábia Saudita num Estado pária, após a divulgação de um relatório que dava como provada a implicação do príncipe herdeiro Mohammad bin Salman no assassínio  seguido de desmembramento do corpo   do jornalista do Washington Post, Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul em 2018.

Como não amar a política?



08/04/12

Do Camões ao valter passando pelo Herberto [descubra as diferenças]

Os escrevedores que me perdoem mas talento é fundamental.
É preciso que haja um barco bêbedo, um erro de gramática, uma mulher de quem se possa dizer: Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (ou então que a mão confesse com lucidez etílica: no se puede vivir sin amor). É preciso que o sentimento não se dirija ao coração mole das pessoas sensíveis que não são capazes/ de matar galinhas...
É preciso lembrar Wilde: “A sentimentalist is simply one who desires to have the luxury of an emotion without paying for it”.
É preciso que o artificio não mate o pacto narrativo e que o lirismo não desculpe os “cagalhões líricos que por aí andam, passeiam e triunfam”.
Talento é fundamental (não confundir a sordidez de Celine com a vulgaridade de Houellebecq).
Mundo é fundamental (não confundir ter mundo com descargas confessionais).
Imaginação, precisa-se. Distanciamento, exige-se. Oficina, idem mas sem oferta de garantia (“o estilo é uma dificuldade de expressão”). Quanto ao que faz a coisa literária, permanece um “je ne sais quoi” cuja receita é tão ou mais secreta do que a dos pasteis de Belém.
O maior mistério, contudo, é escrever-se “valter hugo mãe” no Google e em poucos segundos surgirem 468 mil referências e fazer o mesmo para Herberto Helder e não se ir além das 77 700.
Lê-se a poética do primeiro (“… algo em ti me puxa/ sempre ao sentimento, mesmo antes de/ te conhecer, lembras-te, uma propensão para/ te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus/ modos…”), depois o segundo (“Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite…”) e só Camões nos impede de cortar os pulsos: UM MILHÃO E VINTE MIL entradas.

11/12/11

“Não é desgraça ser pobre”

O enunciado vem no Luís de Camões. Portugal daria novos mundos ao mundo, vaticinava Júpiter n’ Os Lusíadas, e o facto é que aconteceu.
A última vez que tal coisa vimos foi quando da criação do Allgarve, golpe d’asa do ex-ministro Manuel Pinho, profeta inovador, além de temerário.
Se digo temerário, não o faço para proveito próprio ou estilístico, antes porque recordo “o esforço e valentia” com que enfrentou a maldição de Garrett que tantos lhe imprecaram (aquando da demolição da casa do escritor no bairro de Campo de Ourique, entretanto adquirida pelo ministro).
E recorde-se: nem mesmo quando os mais arreigados maldizentes, “por manha e falsidade”, o ameaçam com o fantasma da “menina dos rouxinóis” Joaninha de seu nome, versão da Murta Queixosa antes de haver Harry Potter Manuel Pinho se acobarda. A nova casa está lá, para mostrar e provar a fibra de que é feita a gesta lusitana.
Não vive o seu melhor momento a gesta lusitana apesar de a entrada do fado no Património Oral e Imaterial da Humanidade, batendo, por exemplo, o kung fu de Shaolin, embora, precisamente por ser imaterial, tal distinção não pareça vir resolver grande coisa.
Como, porém, é sabido, nem só de pão vive o homem, ou, em francês: “S’ils n’ont pas de pain, qu’ils mangent de la brioche”, não sendo também de mau tom citar Mário Cesariny: “(...)/Que afinal o que importa não é haver gente com fome/ porque assim como assim ainda há muita gente que come/(...)”.
Segundo o recente relatório da OCDE, Divided We Stand: Why Inequality Keeps Rising, ainda haverá por aí muita gente que come mas o fosso entre os ricos e os pobres atingiu o nível mundial mais elevado das últimas três décadas.
E como o relatório não inclui dados deste ano annus horribilis que dará lugar daqui a pouco a outro annus horribilis (oxalá me enganasse!) nem sei o que diga mais. Talvez a solução esteja no crowding out ou, então, é ao contrário: a culpa é do crowding out.
Vá-se lá entender os místicos!

26/06/10

Eu também gosto muito de Camões mas não gosto nada, nadinha mesmo, do José Sócrates

E uma das razões porque não gosto de José Sócrates — além de, em geral, não gostar de engenheiros formados ao domingo nem de pessoas de mão na anca que estão sempre a dizer "era o que mais faltava" — é ficar envergonhada sempre que o primeiro-ministro abre a boca para anunciar qualquer coisa mais profunda.
Atente-se, por exemplo, neste heterotético silogismo conjugado, como habitualmente, na primeira pessoa: "Mário Soares é um patriota, gosta de Camões. Eu gosto dos políticos que gostam de Camões. Eu gosto muito de Mário Soares."
A outra razão para não gostar dele é que, tendo-se os portugueses habituado ao género Sócrates, parece que querem mantê-lo em vigência preparando-se para votar em massa no seu gemelgo Passos Coelho.
Quanto ao poeta, como penso ter deixado claro... gosto muito de Camões.

10/06/09

Salgueiro Maia: mais vale tarde do que nunca? Não sei

Para que conste e porque não sofremos de amnésia: há 20 anos Cavaco Silva recusou uma pensão por serviços excepcionais e relevantes a Salgueiro Maia. O homem tinha-nos oferecido a democracia de bandeja, mas o que havia de excepcional ou relevante nisso? Ao invés, o então primeiro-ministro agraciou dois PIDES com uma reformazinha. Suponho que pelos bons serviços prestados à Nação...
Agora, com 20 anos de atraso e o homem morto, o mesmo Cavaco vem prestar homenagem ao capitão de Abril no âmbito das comemorações do dia de Camões. Está certo. Do poeta também não consta reconhecimento em vida. E que nos seja permitido duvidar que Cavaco tenha alguma vez lido os Lusíadas.