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27/09/22

GUERRA NA UCRÂNIA: A PROPAGANDA COMO MAL ABSOLUTO

E foi depois de dar com o título de uma notícia que anunciava a fuga de Putin para um "palácio secreto" (o bunker de Hitler, topam...?) que descobri esta crónica que traduzo. 

E sobre a propaganda do lado putinista, lamento, lamento mesmo, mas não tenho matéria para fazer omoletes. A censura está instalada do lado de cá e para nosso bem, naturalmente, não fosse a gente correr a alistar-se no exército russo. 

«PODE AINDA DEBATER-SE A GUERRA NA UCRÂNIA?

Gérad Araud (Le Point, 18-9-2022)

«Desconfiemos dos especialistas de salão que povoam as TVs e impedem qualquer debate equilibrado sobre esta guerra. 

Quando dei por mim num estúdio de televisão para participar num debate sobre a guerra na Ucrânia,  senti imediatamente a armadilha em que havia caído. Todos os outros participantes eram “verdadeiros crentes” que vinham celebrar as recentes vitórias da Ucrânia não só sem lhes acrescentar qualquer contexto ou nuance, mas também impedindo que isso pudesse acontecer. Não me enganei. Não houve debate, pois todos estavam presentes com o objectivo de tudo fazerem para que a derrota da Rússia, doravante a seus olhos adquirida, fosse total. A Ucrânia devia recuperar todos os seus territórios, incluindo a Crimeia, e obter reparações do agressor, enquanto Putin enfrentava um novo julgamento em Nuremberg.

Que fique claro que eu ficaria muito satisfeito com esse resultado e que considero a vitória da Ucrânia do interesse do nosso país. Mas tenho a fraqueza de examinar a viabilidade e o custo de uma apólice quando esta me é oferecida e foi isso que tentei fazer. Qual seria o custo humano? É realista, por exemplo, ambicionar a recuperação da Crimeia anexada pela Rússia e que esta defenderá a todo custo, possivelmente recorrendo inclusive ao uso de armas nucleares? Talvez esteja errado, mas acho estas perguntas legítimas. O que eu fui dizer! Um respondeu que a Rússia tinha sequestrado trezentas mil crianças ucranianas e outro que a ocupação é pior do que a guerra.

Note-se que tais respostas não tinham nada a ver com a minha pergunta. Sentimentos opunham-se ao meu raciocínio. Olharam-me de lado. Não tive oportunidade de ser ouvido e calei-me. Nessa mesma noite, a minha conta no Twitter transbordava de insultos dirigidos ao pró-russo que eu era. Pró-Rússia por fazer perguntas sobre o custo de uma política; pró-Rússia por recusar o entusiasmo cego depois de um sucesso inegável, mas parcial.

A primeira vítima da guerra é sempre a verdade

Dito isto, que os genuínos pró-russos não tentem aproveitar-se de mim. A Rússia é de facto o agressor e seu exército está envolvido em atrocidades bem documentadas, independentemente do que Madame Royal pensa.

Não estou surpreendido com o que me aconteceu, que é apenas uma ilustração modesta da impossibilidade virtual de um debate equilibrado em tempos de guerra. “A primeira baixa da guerra é sempre a verdade”, terá dito Kipling. Uma verdade que, ao que parece, deixa de interessar a quem quer que seja quando as armas começam a falar. De facto, os beligerantes lançam-se sem pudor no exercício da propaganda e hoje é um eufemismo notar que os ucranianos, nesse aspecto, se mostraram melhores do que os russos.

Além disso, à nossa volta, na maioria das vezes escolhe-se um campo com base em convicções pré-existentes e não na análise ponderada do que acontece. Por exemplo, há bastantes pró-russos nos dois extremos do espectro político. Acrescente-se a isso o peso das emoções perante o sofrimento dos civis e temos criado um coktail de embriaguez, indignação e entusiasmo que silencia qualquer voz  tão-só levemente matizada.

Não houve, aliás, um especialista que twittou recentemente: “Pedir negociações foi o que fez Pétain; apelar a resistir foi o que fez de Gaulle”? Esta comparação absurda, que é a negação da ética do debate, visa tornar ilegítima a menor dúvida. Vemos mais uma vez o que a guerra nos traz: desumanização do adversário, maniqueísmo, credulidade e fanatismo; dispensa a razão, o questionamento e a dúvida. Porque escaparia ela agora ao seu destino?

Heroísmo de sofá

De nossa parte, nós que queremos entender o conflito antes de comentá-lo, que nos orgulhemos de fazer tudo para manter a cabeça fria. Nunca esqueçamos que nos enganam de ambos os lados, embora sem que, resultado dessa constatação, optemos por um cepticismo absoluto que seria tão pernicioso como a credulidade. Distingamos rigorosamente a análise dos factos da opinião que deles se pode deduzir. Admitamos que os "bons" ocasionalmente cometem erros, até crimes, e que os "maus" às vezes têm boas razões para a insatisfação.

Não esqueçamos que no final, se um ou outro lado está certo ou errado, infelizmente isso não é determinante, é o campo de batalha que decidirá; um campo de batalha onde nada está definido, onde ainda correrá muito sangue, onde a incerteza é a única certeza. Desconfiemos dos estrategas de salão que nos atacam com as suas sucessivas verdades sempre com a mesma segurança.

Mas o mais importante não reside aí: lembremo-nos sempre que esta guerra que não somos nós a travar significa a morte dos outros e a devastação da casa dos outros. Que este lembrete nos imponha um mínimo de decência e modéstia.
Demasiados especialistas das nossas TVs gostariam que a guerra decorresse até à morte do último ucraniano. Que a Ucrânia disponha de todas as armas para vencer, claro, mas que tal apoio não nos transforme em belicistas irrealistas, dispostos a todas as jogadas, seja qual for o preço para os ucranianos. Nunca percamos de vista o objectivo de restabelecer a paz, o que inevitavelmente supõe alguma forma de compromisso com o agressor.
“Bem-aventurados os pacificadores”, diz o Evangelho. Conte comigo: sempre me recusarei a ceder ao exercício fácil do “heroísmo do sofá” tão prepoderante hoje nos nossos ecrãs, mesmo que isso signifique ser insultado.»

24/08/22

PAULA TEIXEIRA DA CRUZ NÃO GOSTA DE ZELENSKY E ESTÁ NO SEU DIREITO

Confesso não ter opinião  e porque a teria?  sobre o presidente ucraniano. Umas vezes percebo o radicalismo do seu discurso dirigido a A ou a B, outras vezes tenho dificuldade em segui-lo, até por me parecer que nem sempre tanto dedo em riste favorece a causa ucraniana. 

Nunca alinhei no seu endeusamento, é um facto, mas isso porque nunca consegui ter gurus  nem mesmo quando era moda tê-los. Aliás, com excepção do Billy Wilder não estou a ver mais ninguém a quem  pudesse declarar a minha fidelidade de olhos fechados e ouvidos entupidos.

Duas coisas me encanitam sobremaneira: o apagamento dos pecadilhos da Ucrânia (até os Azov e as perseguições às populações de origem russa conseguiram branquear...) e acima de tudo  mas acima de tudo mesmo  a minha convicção profunda de que esta guerra  e a recusa em cedências e negociações (reafirmada ontem por Zelensksy ao contrário do que nos apregoam, vai trazer MENOS e não mais democracia ao mundo. 

Dito isto, os insultos na caixa de comentários do artigo de Paula Teixeira da Cruz são muito significativos de um clima do qual a racionalidade se ausentou, para dar lugar a uma emotividade a resvalar para a histeria. Creio que é a isto que se chama propaganda. 

Da Paula Teixeira da Cruz: «Zelensky considera-se um novo faraó da opinião pública internacional, um messias do Ocidente que não admite críticas ou hesitações no apoio incondicional à sua estratégia de guerra até à derrota e humilhação da Rússia, como numa superprodução de Hollywood. (...)»

04/08/22

«What Does Nancy Pelosi Think She’s Doing in Taiwan?»

SÓ HOJE LI ISTO SOBRE A SENHORA PELOSI. Mas é muito elucidativo da coragem de quem tem as costas quentes.
E já agora, de novo me interrogo: de onde saiu de repente tanta mulher adepta de soluções musculadas?
Confirma-se que os recém-convertidos são os piores ou isto são resquícios de mães autoritárias cujos filhos já saíram de casa e precisam de continuar a mandar? Ou as duas coisas?

02/06/22

GUERRA NA UCRÂNIA: NO HORIZONTE, UMA GUERRA QUENTE ENTRE A RÚSSIA E OS ESTADOS UNIDOS?

The war in Ukraine may be impossible to stop. And the US deserves much of the blame

Christopher Caldwell 

«Even if we don’t accept Mr. Putin’s claim that America’s arming of Ukraine is the reason the war happened in the first place, it is certainly the reason the war has taken the kinetic, explosive, deadly form it has. Our role in this is not passive or incidental. We have given Ukrainians cause to believe they can prevail in a war of escalation.

Thousands of Ukrainians have died who likely would not have if the United States had stood aside. That naturally may create among American policy makers a sense of moral and political obligation—to stay the course, to escalate the conflict, to match any excess.

The United States has shown itself not just liable to escalate but also inclined to. In March, Mr. Biden invoked God before insisting that Mr. Putin “cannot remain in power.” In April, Defense Secretary Lloyd Austin explained that the United States seeks to “see Russia weakened” …  

Mr. Biden’s suggestion that Mr. Putin be tried for war crimes is an act of consummate irresponsibility. The charge is so serious that, once leveled, it discourages restraint; after all, a leader who commits one atrocity is no less a war criminal than one who commits a thousand. The effect, intended or not, is to foreclose any recourse to peace negotiations. (...)»

18/05/22

FALAR VERDADE EM TEMPO DE GUERRA: «A UCRÂNIA ESTÁ EM PIOR ESTADO DO QUE SE PENSA»

ARTIGO DE SURIYA JAYANTI PUBLICADO NA TIME

«Foi-nos dito que, dada a dimensão da inferioridade das tropas ucranianas no início da invasão russa, não perder a guerra seria, por si só, uma forma de vitória para a Ucrânia. A diferença entre as expectativas e a surpreendente resiliência dos militares ucranianos torna fácil interpretar mal a situação actual a favor da Ucrânia. Mas não vencer é sempre não vencer. A Ucrânia está numa situação muito pior do que comummente se acredita e afirma e continuará a precisar de uma quantidade impressionante de ajuda e apoio para realmente vencer.
Adoramos outsiders. Adoramos os zé-ninguém corajosos que têm sucesso contra todas as probabilidades. Oferecem esperança às nossas vidas banais e fazem-nos sentir moralmente superiores. É por isso que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky seduziu com tanto sucesso o mundo inteiro. O seu desafio contra ventos e marés forneceu-nos alguém por quem torcer contra um bruto. Ao encorajar os ucranianos, que lutaram e se superaram, também pudemos aliviar um pouco a nossa vergonha por deixá-los a morrer sozinhos no meio da neve e da lama, eles a quem havíamos prometido protecção, "garantias de segurança".
Infelizmente, a liderança de Zelensky e o dilúvio de ajuda humanitária e militar internacional que ele suscitou não impediram um nível chocante de destruição das cidades, economia e sociedade ucranianas. O facto de Kiev não ter caído e de as tropas russas se terem retirado para Leste mascara como a Ucrânia está num estado pior do que aquele que é retratado pelos media.
Convém lembrar que a Ucrânia luta contra uma invasão russa desde 2014. Entre 2014 e Fevereiro de 2022, quase 10 mil pessoas foram mortas na guerra latente em Donbass, mas pouco ou nenhum progresso militar foi feito. A Ucrânia luta agora com o mesmo exército num teatro alargado contra uma força rival superior. É graças ao valor absoluto das suas tropas que a Ucrânia conseguiu, desde 24 de Fevereiro, não apenas manter-se, mas também forçar os russos a recuar de Kiev, Kharkiv, Chernigiv e áreas vizinhas.
A Rússia, no entanto, controla agora um território ucraniano muito maior do que antes de 24 de Fevereiro. O exército de Putin detém Kherson, o que resta de Mariupol, todo o território de intervenção, e agora não apenas Luhansk e Donetsk, mas também toda a região do Donbass. Por exemplo, enquanto as autoridades ucranianas controlavam cerca de 60% de Luhansk antes da recente invasão russa, as forças russas controlam agora mais de 80% da região. Ocupam também cerca de 70% da região de Zaporizhye. Cumulativamente, isso representa um aumento do território ocupado pelos russos de cerca de 7%, incluindo a Crimeia, antes de Fevereiro, mais do dobro actualmente. Visto a essa luz, não perder parece muito mais uma derrota do que uma vitória.
O Ministério da Defesa ucraniano não divulga o número de baixas em combate para manter o moral das tropas, mas especialistas calculam que a Ucrânia perdeu pelo menos 25 mil soldados - entre 11 mil mortos e 18 mil feridos. Após mais de dois meses e meio de guerra, as perdas da Ucrânia representam pelo menos 10% de seu exército, provavelmente exausto, de menos de 250 mil homens. Essas perdas, no entanto, são muito, muito inferiores às da Rússia, que se calculam em mais de 35 mil, reforçadas por uma surpreendente perda de armas e equipamentos, como tanques e navios de guerra.
O sucesso relativo da Ucrânia deve-se em parte às armas que pelo menos 31 governos ocidentais lhe forneceram. A Grã-Bretanha enviou mísseis anti-tanque, anti-aéreos e anti-navios, sistemas de defesa aérea e outras armas; a Eslováquia, o sistema de defesa aérea S-300, os drones dos Estados Unidos, obuses, mísseis e sistemas anti-blindagem, e isto é apenas uma amostra. Tais armas permitiram à Ucrânia maximizar sua vantagem no terreno, firmar a determinação das suas tropas e explorar as fraquezas militares da Rússia e a sua aparente falta de planeamento e preparação. Sem o envio desse material, Kiev poderia já ter caído.
Porém, apesar de a Ucrânia estar a regurgitar de armas e outros equipamentos militares, funcionários do Ministério da Defesa e combatentes voluntários admitem discretamente que não têm capacidade para absorver a ajuda. A maioria dos equipamentos e armas requer treino para poder ser usado o que, mesmo disponível, leva tempo. Da mesma forma, o afluxo de 16 mil ou mais combatentes voluntários estrangeiros pode parecer uma grande e inesperada vantagem, mas, na verdade, quase nenhum deles tinha experiência ou treino militar. De acordo com o pessoal do Ministério da Defesa e alguns dos soldados voluntários das forças especiais estrangeiras no terreno, eles eram, na maioria dos casos, pouco mais do que bocas extras a alimentar.
Economicamente, a Ucrânia sobrevive, mas apenas isso. As sanções contra a Rússia, que devem resultar numa contracção de cerca de 7% do PIB, não servem de guarda-chuva ao colapso de 45-50% do PIB que a Ucrânia enfrenta. Pelo menos 25% dos negócios estão fechados, embora o número daqueles que pararam completamente de operar tenha caído de 32% em Março para 17% em Maio. Mas o bloqueio dos portos ucranianos do Mar Negro - Mariupol, Odesa, Kherson, etc. - pela marinha russa impede tanto a importação de combustíveis para abastecer o sector agrícola como a exportação de grãos e outros produtos ucranianos. A incapacidade de exportar custa à economia ucraniana 170 milhões de dólares por dia. Enquanto isso, a Rússia tem como alvo armazéns de combustível ucranianos, silos de grãos e armazéns de equipamentos agrícolas, prejudicando cadeias de abastecimento já esfarrapadas. O sector de eletricidade está a enfrentar um colapso, pois muito poucos cidadãos e empresas ucranianas conseguem pagar as suas contas.
Maio não é apenas um mês agrícola crítico, é também quando a Naftogaz começa a comprar gás natural para armazenamento antecipando o frio do Inverno ucraniano. A gigante estatal de energia já estava em más condições antes da invasão, com o CEO a pedir ao governo ucraniano um resgate de 4,6 mil milhões em Setembro de 2021. Agora, com os mercados de gás muito apertados e sem fundos, não é claro como o país se poderá preparar para o Inverno, quando as temperaturas caírem abaixo dos 20 graus negativos. Para aumentar a perspectiva de um Inverno trágico em 2022/2023, a maioria das minas de carvão da Ucrânia está em Donbass, onde a ofensiva da Rússia continua.
A Casa Branca estaria a considerar anular a dívida soberana ucraniana, o que sem dúvida ajudaria Bankova (o equivalente ucraniano da Casa Branca). O mesmo se aplicará, entre outras medidas, aos 15 mil milhões de euros em títulos de dívida que a Comissão Europeia planeia emitir para cobrir os próximos meses da Ucrânia. No entanto, isso não trará de volta os mais de seis milhões de pessoas, principalmente mulheres e crianças, que fugiram do país. E se os homens fossem autorizados a sair, esse número decerto quase duplicaria.
Relatórios recentes de que 25 a 30 mil pessoas estão a voltar à Ucrânia todos os dias do exterior são encorajadores, mas a Ucrânia já enfrentava um problema de fuga de cérebros antes da invasão. Muitos cidadãos já tentavam deixar o país mais pobre da Europa. Antes da guerra, os ucranianos eram a terceira maior população imigrante da UE, depois de Marrocos e da Turquia. Hoje, a Agência Internacional do Trabalho estima que 4,8 milhões de empregos foram perdidos na Ucrânia, número que aumentará para sete milhões se a guerra continuar. E depois de muitos meses de guerra, as crianças ter-se-ão estabelecido em novas escolas no exterior, as mães estarão integrando-se no seu novo mundo, e ambas estarão esperando que maridos e pais se lhes juntem. Algumas voltarão à Ucrânia, claro, mas muitas darão prioridade ao conforto das suas famílias e às oportunidades para os seus filhos em detrimento dos apelos ao patriotismo.
Mais perturbador, muitos ucranianos que permaneceram no seu país começaram a perguntar-se como será ele reconstruído. A guerra rompeu o tecido social. Uma mãe de Poltava disse não confiar mais nos vizinhos que conhecia há 40 anos, pessoas que considerava como família antes da invasão. Um jovem voluntário, ex-activista da sociedade civil, descreveu a caça aos sabotadores e como começou a ver simpatizantes russos em todo o lado. Os ucranianos que têm o russo como língua materna, e que representam pelo menos um terço da população, sentem-se desconfortáveis ​​ou até com medo de usar a sua língua. A confiança foi quebrada, mesmo se o nacionalismo cresceu. Não importa a rapidez com que a Rússia recue, a reconstrução de comunidades será um desafio.
O governo dos EUA decidiu em Maio reenviar simbolicamente alguns de seus funcionários diplomáticos para Kiev, revertendo parcialmente a sua retirada rápida e derrotista quando assumiu que Kiev cairia em poucos dias. O presidente Biden nomeou finalmente um embaixador americano para a Ucrânia após mais de três anos de ausência. A mensagem que estes gestos e os da UE transmitem é importante. Mas apesar de nosso desejo de ver a sobrevivência da Ucrânia como uma história de David derrotando Golias, e de nos alegrarmos por lhe termos fornecido a funda, o país está grave e perigosamente enfraquecido.
A Ucrânia necessita mais do que de símbolos e mais do que de armas. Não perder não é vencer, e será necessário um longo e profundo compromisso do mundo ocidental para ajudar a Ucrânia a vencer e a curar-se.»

01/04/22

GUERRA NA UCRÂNIA: QUAL O PAPEL DOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO?

UM ARTIGO PARA REFLECTIR

ÉVÉNEMENT TOTAL, CRASH ÉDITORIAL
«Journalistes, animateurs, chroniqueurs, reporters, que ce soit sur le terrain de la guerre ou à Paris, au cœur de l’actualité, tous unis et tous solidaires pour l’Ukraine. » Cette annonce de France Télévisions du 4 mars 2022 résume la médiatisation en France des deux premières semaines de la guerre conduite par la Russie en Ukraine. Il ne s’agit plus d’informer, mais de mobiliser. Face à un conflit international, les médias doivent souvent trancher une alternative : détourner les yeux, comme au Yémen, en Palestine, au Donbass, au Tigré, ou mettre en scène les armées occidentales volant au secours d’un peuple opprimé, comme au Kosovo ou en Irak. Cette fois, les acteurs diffèrent.
Et le spectacle a saisi la société tout entière. Du stade Vélodrome de Marseille à la porte de Brandebourg à Berlin, les monuments arborent les couleurs du drapeau ukrainien, tout comme l’application « TousAntiCovid » (le 25 février) et le survêtement des tennismen français qui affrontent l’Équateur à Pau (4 et 5 mars). Le service de VTC Bolt prévient : « Nous reversons 5 % du montant de vos trajets en soutien à l’Ukraine » (2 mars) ; McDonald’s cesse de vendre des hamburgers place Pouchkine à Moscou ; le Comité international paralympique interdit aux handicapés russes de participer aux Jeux d’hiver de Pékin. À Berlin, le club techno Berghain offre la recette de sa première nuit de réouverture post-Covid « à des organisations qui s’occupent notamment des personnes queer en Ukraine » (Berliner Zeitung, 4 mars) et, à Milan, l’université de Bicocca supprime un cours sur Fiodor Dostoïevski afin d’« éviter toute forme de polémique » (Le Figaro, 9 mars) ; aux États-Unis, Facebook autorise à titre exceptionnel la publication par des usagers est-européens de menaces de mort contre les Russes (Reuters, 10 mars) ; enfin, le Washington Post (3 mars) révèle que « la Fédération internationale des chats bannit les félins russes de toutes les compétitions », jugeant impossible d’« être témoin de ces atrocités et de ne rien faire ».
Ce vibrionisme porte à son paroxysme une mécanique mise en mouvement il y a trente ans, lors de la première guerre du Golfe : celle de l’« événement total ». Elle procède comme une réaction en chaîne. La détonation initiale ? Une nouvelle de grande importance suscite une mobilisation telle qu’elle sort du strict domaine de l’information et gagne l’ensemble des moyens de communication instantanée, des chaînes d’information aux réseaux sociaux. Puis s’emballe lorsque les responsables d’institutions les plus diverses, persuadés à l’instar de la Fédération internationale des chats qu’ils ne peuvent demeurer sans rien faire, rivalisent de déclarations fracassantes.
Comme au moment des attentats de janvier et novembre 2015, comme lors du premier confinement sanitaire en mars-avril 2020, le traitement médiatique de l’invasion russe sort du cadre journalistique habituel. Si l’actualité ordinaire se compartimente en rubriques, l’événement total irradie tout l’espace rédactionnel. À l’image du quotidien Le Monde, dont chacune des « unes » du 26 février au 14 mars porte la mention « édition spéciale », radios et télévisions « bousculent leur grille ». Du bulletin météo qui célèbre les « belles couleurs jaune et bleu » (France Inter, 28 février) à la « soirée de solidarité “Unis pour l’Ukraine” » avec concert exceptionnel et collecte de dons (France Télévisions et Radio France, 8 mars) en passant par la veillée de lectures ukrainiennes de France Culture (4 mars), chaque programme doit sonner comme un éditorial. La distinction entre audiovisuels public et privé, information et spectacle s’estompe : « Les antennes du groupe Altice Media, dont RMC, s’associent au Secours populaire pour un appel aux dons pour aider les populations qui fuient l’Ukraine », annonce, le 2 mars, le conglomérat contrôlé par M. Patrick Drahi.
Concrètement, basculer en « édition spéciale » signifie multiplier les « contenus » dans un temps restreint, et donc garnir les plateaux d’experts. « Je ne veux pas être alarmiste et je n’ai pas d’information, expose la journaliste de L’Express Marion Van Renterghem, mais je trouve que tous les signes sont réunis pour une troisième guerre mondiale » (« C dans l’air », France 5, 6 mars). Déjà malmenées par la pression du chronomètre et de l’audience, les procédures de sélection et de vérification se relâchent. Images et témoignages propres à susciter l’émotion (réfugiés, enfants en pleurs) forment le gros d’une production journalistique à laquelle les intervenants sont appelés à « réagir ».
Sur cette vague de sollicitude — moins dévorante en 1999 et en 2003, lorsque les avions occidentaux bombardaient les populations serbe et irakienne —, certains surfeurs cathodiques exécutent d’improbables figures. Le 1er mars, l’animateur de CNews Pascal Praud propose à ses invités « une séquence émouvante au milieu des drames » qui lui « a mis les larmes aux yeux. Regardez, écoutez » : une petite fille ukrainienne chantonne l’air des Choristes pendant cinquante et une secondes. Après un bref silence, Bernard-Henri Lévy intervient, la voix chargée d’émotion, mais le réflexe de l’autopromotion intact : « Écoutez, ça me met les larmes aux yeux, c’est bouleversant. Et je vous invite, ainsi que ceux qui nous écoutent d’ailleurs, venez tout à l’heure, nous organisons un rassemblement de soutien à cette petite fille… et à ces civils ukrainiens, à Paris au Théâtre Antoine, à 5 heures. » S’y coudoieront un ancien président de la République (M. François Hollande), deux candidates à ce poste (Mmes Valérie Pécresse et Anne Hidalgo), un ancien premier ministre (M. Bernard Cazeneuve), flanqués de journalistes, d’essayistes, d’artistes et, par écrans interposés, d’un ancien directeur de la Central Intelligence Agency (CIA), pour rejouer sur les planches d’un théâtre parisien la pièce du militarisme humanitaire.
Ce mélange des genres illustre un phénomène crucial : en conjoncture de crise, les frontières entre des secteurs sociaux autonomes deviennent soudain plus poreuses ou s’effritent. Politique, diplomatie, entreprises, institutions publiques obéissent habituellement chacune à leur logique, à leur rythme et à leur registre spécifiques. Le souffle d’un événement total tend à les synchroniser sur la même pulsation fondamentale — celle de l’information en continu —, sur le même registre — celui de la réaction à l’emporte-pièce — et sur la même règle de fonctionnement — la surenchère. Or, certains domaines se sont précisément construits contre l’urgence, les gesticulations et les attentes immédiates du grand public. Au printemps 2020, l’événement total du Covid-19 avait aligné sur le tempo médiatico-politique les champs scientifique et médical. La crédibilité des savants n’en était pas sortie grandie. C’est cette fois la diplomatie, autre activité de temps long fondée sur la discrétion et le respect des protocoles, que parasite la course aux déclarations bravaches.
« Nous allons livrer une guerre économique et financière totale à la Russie », déclare le 1er mars le ministre de l’économie Bruno Le Maire, bon connaisseur des usages diplomatiques, puisqu’il conseilla M. Dominique de Villepin au Quai d’Orsay en 2002. « Nous allons provoquer l’effondrement de l’économie russe. » Chapitré par le président de la République, M. Le Maire doit se dédire. Sur BFM TV, le 14 mars, la présentatrice Apolline de Malherbe tente d’arracher une autre sortie de route au ministre des affaires européennes Clément Beaune : « Ils bombardent des maternités et finalement nous, qu’est-ce qu’on fait ? On garde des yachts à quai et on ferme les McDo ? »
Assurément, le caractère primitif de la propagande russe, l’interdiction faite à la presse de nommer la guerre par son nom sous peine de prison et la politique d’élimination physique des journalistes gênants menée par le Kremlin depuis deux décennies offraient aux médias occidentaux l’occasion d’exposer les vertus de leur contre-modèle. Mais l’événement total ne laisse d’espace ni au regard extérieur, ni au pluralisme : les directions éditoriales ont choisi leur camp, au point d’entériner sans protestation l’interdiction de RT et Sputnik. Deux figures imposées jalonnent le parcours du combattant journalistique : invectiver le dirigeant russe, comme si cela pouvait aider les Ukrainiens, et relayer sans vérification la communication de Kiev.
À M. Volodymyr Zelensky, « héros de la liberté », les éditorialistes opposent un « paranoïaque », « avec ce visage rechapé au Botox qui lui donne une fixité inquiétante et cette phobie proprement hitléroïde des microbes et des virus » (Jacques Julliard, Marianne, 3 mars). Même souci de la mesure dans les colonnes de L’Obs : « une anomalie neurologique » et « des modifications du lobe frontal » induiraient chez le président russe un comportement proprement aberrant au regard des critères de santé mentale de l’hebdomadaire : « Poutine aurait tendance à examiner méticuleusement tous les aspects d’un problème, avant de trancher » (3 mars).
« Dans la guerre de l’image et de la communication, le maître du Kremlin, bientôt 70 ans, chauve, boursouflé, ne fait pas le poids face au sémillant président ukrainien, 44 ans », poursuit le magazine fondé par Jean Daniel. Faute de pouvoir peser sur l’issue militaire du conflit, les journalistes célèbrent une victoire qui est un peu la leur : « L’Ukraine domine la guerre informationnelle » (La Croix, 7 mars). Et pour cause : les directions éditoriales ratifient par défaut les annonces des autorités ukrainiennes et manifestent la plus grande indulgence vis-à-vis des fake news disséminées par Kiev. Les défenseurs de l’île des Serpents, morts « héroïquement » selon M. Zelensky, après avoir rétorqué à l’assaillant « navire russe, va te faire foutre » ? Ils « auraient en fait survécu, mais peu importe : ces mots sont devenus un hymne à la résistance contre la Russie », explique La Croix, plein de miséricorde. Cette fausse information fut pourtant maintes fois reprise, y compris dans le Washington Post (25 février), qui paraphrasait les « éléments de langage » du président Zelensky. Le « fantôme de Kiev », ce chevalier du ciel ukrainien qui, le 24 février, aurait abattu à lui seul six chasseurs russes ? Une invention, certes, mais « ce mythique pilote donne tout simplement de l’espoir » à une population « en quête de héros » (L’Express, 25 février).
Un peu esseulée au sein de sa profession, la journaliste de l’AFP Daphné Rousseau mettait en garde, après trois semaines passées sur place : «J’ai entendu des confrères avoir l’impression d’être là pour défendre l’Europe, la liberté, leur famille. Il faut faire attention à ne pas se faire happer par cette stratégie de communication ukrainienne qui est redoutable » (France 5, 13 mars). Peine perdue.
D’ailleurs, avons-nous vraiment le choix ? L’éditorialiste David Brooks (New York Times, 3 mars) a tiré de cette crise la leçon essentielle. Elle rythme déjà la campagne électorale française : « Les universitaires de gauche et de droite ont critiqué le libéralisme. Cette semaine, nous avons une vision plus claire de ce que serait l’alternative. Elle ressemble à Vladimir Poutine. »