Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O'Neill. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O'Neill. Mostrar todas as mensagens

07/07/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Que saudades de uma silly season de jeito!»

«(...) Num artigo publicado no Expresso da semana passada em que o tema era a linguagem inclusiva, tropeço nisto: “'Há sensibilidades diferentes’, até porque existem diversas ‘conceções do que é a linguagem’”. Ora batatas!

Não bastava a linguagem inclusiva ser, em si, um tema mais do que obscuro. Por exemplo, e segundo o glossário LGBT+ da reputada universidade norte-americana Johns Hopkins publicado no mês passado (entretanto, em reapreciação após uma enxurrada de críticas mais do que legítimas, nomeadamente as formuladas por J.K. Rowling), uma lésbica, cito, “é um não-homem que se sente atraído por outro não-homem. Enquanto definições anteriores referem ‘lésbica’ como uma mulher que se sente emocional, romântica, e/ou sexualmente atraída por outra mulher, a actual definição inclui pessoas não-binárias que também se podem identificar com o termo”. Já de acordo com o mesmo documento, “um homem gay é um homem que se sente atraído por outros homens, ou que se identifica com a comunidade gay” – ou seja, homem é vocábulo adquirido, dispensa caracterização, tão, mas tão claro e distinto que é a partir dele que se passa a definir mulher: não-homem. Conclusão: para não ofender pessoas não-binárias, mulher simplesmente desaparece. Quem lhes desse com a costela de Adão na mona e era pouco!
Portanto dizia eu que não bastava a obscuridade da linguagem inclusiva, ainda temos de agradecer aos deputados da Nação o bónus do léxico pós-Acordo-Ortográfico onde se inscreve agora, em nome da uniformização da língua, sublinhe-se uniformização, não uma, mas duas palavras: conceção em Portugal e concepção no Brasil! E repare-se como fico a milhas da amabilidade acaciana: “– E os idiotas de São Bento?... – exclamou Julião. Mas o Conselheiro interrompeu-o: – Meus bons amigos, falemos de outra coisa. É mais digno de portugueses e de súbditos fiéis.” (Eça de Queirós, O Primo Basílio).
Talvez Portugal tenha deixado de ser o país de marinheiros de António Nobre – “Georges! anda ver meu país de Marinheiros, / O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!” – mas continua relativo, mais do que bem plasmado em O’Neill – “País engravatado todo o ano / e a assoar-se na gravata por engano”. “Grandessíssimos e alternadíssimos camelos”, vociferava António Silva e nós a citá-lo. »

17/07/22

DAQUI, SÓ PACIÊNCIA, AMIGOS MEUS! PEGUEM LÁ O BORRELL E VÃO COM DEUS...


Dado que na Europa até tivemos uma Guerra dos Cem Anos, o que não nos falta é tempo para confirmar as sensatas convicções do Altíssimo Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança. 

Talvez cheguemos lá quando a Ucrânia estiver completamente de pantanas e a economia europeia, em particular a da Alemanha, comece a fazer aqueles ruídos típicos do estertor da morte. Lá. À Terra, se não do leite e do mel, decerto da democracia mundial. 

Isto, claro, sem considerar, o que é um risco considerável, o sábio aforismo de Mark Twain: «A profecia é um género muito difícil, sobretudo quando aplicado ao futuro.»


22/12/21

COVID 19 E A (I)RACIONALIDADE

Quando a epidemia começou, vi pessoas a citar o Poema do Medo do Alexandre O'Neill, a clamar contra o uso das máscaras — nomeadamente a 2ª figura do Estado — e a vociferar contra o(s) estado(s) de emergência porque vinha aí o fascismo.

Agora, de repente, quando tudo aponta para efeitos muito menos gravosos da nova estirpe é que lhes deu para tomar banho embuçados!

23/04/11

Matéria não falta

La vie est un roman como dizia o Resnais e a pátria dava com certeza para vários. O que é feito, porém, d’o delfim do Portugal de hoje desaçaimado, “só três sílabas”, “de plástico, que era mais barato”, onde “o que importa não é haver gente com fome/ porque assim como assim ainda há muita gente que come”? Bocage aviaria sem espinhas dúzia e meia de sonetos e de Natália nem se fale. A O’Neill sobrar-lhe-iam versos. Eça não teria a mãos a medir com tanto Conde de Abranhos.
Bastaria que lhe trocássemos a Universidade em Coimbra por outra na capital (Independente ou Moderna cairiam que nem ginjas). A carta de denúncia anónima teria novo destinatário: estando na moda, o DIAP. Quanto ao caso da criada, ver-se-ia substituído por aventura infecunda com aspirante a modelo. A carreira política iniciá-la-ia numa Câmara de província. Daí a conselheiro Acácio seria pequeno passo, função que acumularia com a de blogger de culto (e, de preferência, oculto).
Casa com filha de ex-ministro. Lua-de-mel no Bazaruto (where else?) e a deputação vem a caminho. Faz-se notar nas bancadas pela combatividade e certa linguagem chã. A previsível vitória da oposição leva-o a mudar de partido. Questionado sobre a sua decisão, cita Abranhos, o original: “Questões de latitude não mudam a política”. Divorcia-se com discrição. Chega a secretário de Estado. Poucos meses depois telefona em segredo para casa: “Pai, já sou ministro”. O alfaiate desliga.
Dois anos de serviço público e convidam-no para CEO. Aceita. Em missão além fronteiras, atravessa-se-lhe no caminho um sósia do Ricky Martin. Abranhos comes out of the closet e abre novo capítulo: la vida loca. A qualquer solicitação, passará a responder “I would prefer not to”. Há quem garanta que, abandonada por fim a carreira empresarial e trocado Ricky por Martin, se torna marchand em Berlim. Outros dão-no como transformista em Las Vegas. Um primo em 3º grau jura que o viu no Allgarve degustando sardinhas confitadas sur lit d’endives… Em suma: onde estão os escritores quando precisamos deles?

Imagem roubada aqui

10/05/09

A book a day keeps the doctor away

Trinta e cinco anos passados do 25 de Abril de 1974, a editora Bizâncio reúne em livro – e à mesa – três portugueses e um belga de origem portuguesa que, entre amêijoas, bacalhau e outros pitéus, desatam memórias do antigamente.
Combatendo a amnésia que permitiu ainda há cerca de duas semanas baptizar um largo com o nome de Oliveira Salazar (e um acrescento: a autora desta nota, assim como assim, sempre compreende melhor os alemães que continuam a macerar o Hitler…), À Espera de Godinho é um livro de petites histoires através do qual conseguimos espreitar a História.
A primeira coisa que o leitor perguntará é: quem é Godinho? Pois, confesso que fiquei sem saber. Sei apenas que, não sendo certamente Godot, também ele se esgota na ameaça: nunca chega. Mas ainda assim se janta. À mesa: Amadeus Lopes Sabino, advogado, Manuel Paiva, físico naturalizado belga, José Morais, neuropsicólogo, e Jorge de Oliveira e Sousa, politólogo. Nasceram os quatro na década de 40 do século XX e foram todos exilados do regime salazarista. Continuam lá fora. Com percursos diversos, têm esse traço comum: recusaram a guerra colonial e as varizes do Roque do O’Neill, e zarparam precocemente rumo à democracia onde refizeram a vida alheados deste “jardim à beira-mar plantado”, o qual nunca confundiram com o “jardim das delícias” nem sequer depois de o terem pejado de cravos.
O livro não se esgota, porém, na rememoração dos velhos tempos, nem nas peripécias do que era, então, a resistência. O mundo hoje, a Europa hoje, a utopia hoje, a solidariedade hoje, Portugal hoje – eis alguns dos temas que também o atravessam, entrelaçados num viveiro de lembranças, divertido e dramático, amargo e positivo – cabe ao leitor escolher o menu.
Cultos e cultivados, é um prazer seguir a conversa destes quatro personagens, se não à procura de um autor pelo menos de um sentido. Concorde-se ou não com tudo aquilo que dizem. Especialmente, porque a nenhum nos apetece responder aquilo que Napoleão terá respondido a um general que, prontificando-se a retirar uns mapas de uma prateleira alta, fez notar ao Imperador: “Sire, eu sou maior”. Napoleão corrigiu-o: “Não general, o senhor não é maior, é só mais alto”. E também destas deliciosas histórias se faz À Espera de Godinho.

16/07/07

E por falar em Lisboa, tomem lá O'Neill

Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suiços habitada,
onde a tristeza vil e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

daqui deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...

15/07/07

E por falar em viagens

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!)

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar a quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver noutros países?
- Bem queria, Sr. O'Neill! E... as varizes?
Que vergonha, rapazes!, poema de Alexandre O'Neill

30/06/07

Poema anacrónico


Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.

É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...

Saber viver é vender a alma ao diabo, Alexandre O´Neill