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10/08/12

No gamanço (não dá para mais...)

"O povo votou no melhor primeiro-ministro de Portugal. Ganhou o Sócrates. Antes que as alminhas do costume rejubilem, recordemos que Oliveira Salazar é o melhor português de sempre."

Luís M Jorge a propósito disto

29/04/12

Não é 1 de Maio, o 25 de Abril já foi, mas o que eu quero agora é falar do 27 de Julho... de 1970

É dos livros que Salazar caiu de uma cadeira e depois disso nada foi como dantes. Como seria de esperar numa terra de escravos, cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto, a queda, embora aparatosa, foi amortecida. Tão amortecida que uma farsa se organizaria em torno do Presidente do Conselho, convencendo-se este por dois anos que continuava a mandar. Mas “Tudo É Vaidade” e a Ceifeira levá-lo-ia a 27 de Julho de 1970, dia em que muitos portugueses optaram por aprimorar-se com uma gravata vermelha, ainda as gravatas não tinham sido proibidas por Assunção Cristas.
O caso é que antes da morte do ditador se tornar oficial, na editora onde a minha mãe trabalhava se soube por portas e travessas clandestinas que Salazar já não estava entre nós. Primeiro foi a descrença, natural ao fim de 36 anos, depois foi a festa. Resumindo: a contribuição dos presentes para o Produto Interno Bruto baixou nesse dia para níveis negativos.
A minha mãe resolveu, então, avisar o marido da boa nova, certa que essa seria a retaliação possível pelos anos que este passara a olhar o mar revoltado e teatral no Forte de Peniche. Telefonou e disse: “Prepara champanhe, temos de comemorar”. Uma colega acrescentaria entre risos: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras”.
A graça acabou mal e acabaram as duas na António Maria Cardoso, no edifício da PIDE onde, em memória das vítimas, foi entretanto erguido um condomínio de luxo. A polícia chegara depressa, e elas, identificadas já pela voz, receberam ordem de prisão. Quanto a meu pai, passaria a noite à espera da mulher na rua de má memória, sem champanhe, e não sei se de gravata vermelha.
E é também por isto que gosto muito do 25 de Abril.
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10/09/10

Não há saída: cá dentro é o acórdão, lá fora é o queiroz e ainda por cima o salazar era porreiro

Como se não bastasse o facto de, internamente, Portugal estar a viver um dos momentos mais dramáticos da sua história devido à não publicação do tal acórdão, ainda vem o ministro dos negócios estrangeiros dizer que o caso queiroz afecta a imagem do país no exterior.
Se a isto acrescentarmos a recente descoberta de que salazar era um democrata-cristão convicto, depois não se admirem de um em cada cinco portugueses sofrer de perturbações psiquiátricas. Eu própria não me sinto lá muito bem.

27/07/10

Foi há 40 anos que o Salazar bateu as botas e a minha mãe acabou a noite na António Maria Cardoso, então sede da PIDE, hoje um condomínio de luxo

[Já contei esta história lá atrás mas recordo-a em dia de festa]
Em minha casa foi tudo preso pelo menos uma vez. A qualidade das estadias na cadeia variou muito, com o meu pai a bater o recorde de mais ou menos três anos entre os Fortes de Caxias e de Peniche — o de Peniche, consideravelmente mais húmido.
A história que quero contar diz respeito à minha mãe.
A minha mãe foi levada para a sede da PIDE, local onde se ergue agora um condomínio de luxo com vista, ouvi dizer, sobre um marco de suplícios, exactamente há 40 anos. Foi no dia em que o Oliveira bateu asas e voou, apesar de na altura a Coca-Cola estar proibida e ninguém ainda ter inventado o Red Bull.
A minha mãe trabalhava então numa editora anti-regime, a "Seara Nova", que a ânsia pelo poder (absoluto) do PC haveria de levar à falência no pós-25 de Abril. Oficialmente, ninguém sabia que o ditador já tinha ido para os anjinhos. Mas a malta não era parva e também tinha informadores.
Alguém chegou à "Seara..." com a notícia fresquinha, testemunhada com estes que a terra há-de comer pela equipa que tratava Salazar desde que este falhara a cadeira. Transposto o cepticismo, que o homem parecia eterno, bateram-se palmas e gritou-se Hurra! Hurra! (esta parte do Hurra! Hurra! sou eu agora a inventar).
A minha mãe dirigiu-se ao telefone e telefonou ao meu pai (que já não era hóspede em Peniche): "Prepara uma garrafa de champanhe, hoje temos que comemorar!" No meio da excitação, uma colega, quase tropeçando nos fios, arranca-lhe o bocal do ouvido e acrescenta: "Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras. À noite há festa!"
O meu pai correu à Baixa a comprar uma gravata vermelha. Não chegou a haver arraial. Passado pouco mais de meia hora, a "Seara..." era invadida por agentes da polícia política que solicitam — sem grandes faz favor ou por obséquio — que a minha mãe e a amiga os acompanhem à sede. Os nomes coincidiam rigorosamente com as vozes sob escuta, e acabam as duas nas instalações da PIDE ao Chiado. Verdade seja dita que lhes serviram jantar.
A minha mãe, sempre desconfiada, recusou educadamente o repasto "não fosse aquilo ter para lá alguma droga!" A amiga, alentejana folgazona que hoje seria catalogada de obesa, comeu e apenas não repetiu porque não quis abusar de tamanha hospitalidade.
A minha mãe trejurou um evento sentimental para justificar o champanhe. A amiga disse que sofria de amnésia e que não se lembrava sequer da última vez que tinha ido ao cinema. Entretanto, a minha mãe devia estar com uma fome dos diabos, e foi quando deu entrada em cena o sempre impecável subdirector Sacchetti (ainda vivinho da costa, pelo menos até há bem pouco estava) que se lhe dirigiu com a costumada eloquência: "A senhora não tem vergonha! Ainda agora saiu de cá o marido e nem isso lhe serviu de lição!"
Agit-prop e lições de moral à parte, quem lhes passou a carta de alforria foi ele, não sem antes invocar repetidamente o sagrado nome do falecido, esse "grande homem de quem já sentimos saudades!"
À porta da António Maria Cardoso esperava-as o meu pai, um pequeno saco na mão. Dentro não havia champanhe. Convencido que a madrugada seria longa para a mulher, juntara à pressa algumas mudas de roupa e julgo que uma escova de dentes. Usava a gravata vermelha, o que a minha mãe considerou certamente um repto desnecessário. Depois a amiga disse que nem se comera assim tão mal e foram comemorar na mesma.
Isto agora contado tem graça mas na altura imagino.

25/09/09

E que nem a propósito da ordem de Amado para que se trocasse a honra por um prato de lentilhas, acaba de sair a Breve História dos Judeus em Portugal

... lembrando-nos que se o governo, hoje, cedeu à queima dos livros, Salazar, ontem, havia cedido à queima de homens.
"(...) os cônsules de carreira não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério aos estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos apátridas, aos portadores de passaportes Nansen e aos Russos; (...) àqueles que apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de onde provêm; aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm."
Circular 14, de 11/11/1939 in Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Vega, 2009

Na imagem, refugiados judeus partindo de Lisboa para os EUA

27/04/09

Porque isto anda tudo ligado

1. Tiraram o cachimbo ao Tati e puseram-lhe um moinho de papel na boca [ao menos ao Lucky Luke tinham-lhe substituido a beata por uma palhinha...]
2. Inauguraram um Largo António Oliveira Salazar em Santa Comba Dão 35 anos depois do 25 de Abril, o que prova que os portugueses são uns gajos porreiros que esquecem depressa [já os alemães, esses rancorosos d'um raio, continuam a lidar mal com o Hitler passadas mais de 6 décadas...]
3. Canonizaram o Santo Condestável derivado a um feito tão grande ou maior ainda do que vencer Aljubarrota: salvou de cegueira certa o olho esquerdo de Guilhermina de Jesus quando este se viu borrifado por óleo de fritadura de peixe muito séculos depois das Luzes
4. O João Ubaldo Ribeiro, escritor brasileiro Prémio Camões de Literatura, teve a entrada negada nos supermercados Auchan (Jumbo), grupo que volta a proibir a venda nos seus escaparates do livro "A Casa dos Budas Ditosos", recentemente republicado pela Edições Nelson de Matos ["vão-se catar", já tinha dito o Ubaldo uma vez, a propósito de outras censuras...].

14/02/09

O fascismo foi uma enorme maçada!

Suponho que terá sido essa razão [parecer-lhe o fascismo português very boring...] que levou o realizador Jorge Queiroga a apimentar a época. Disse ele: o que pretendíamos era abordar o lado mais pessoal da vida de Salazar, de uma forma desempoeirada.
Tão desempoeirada ― acrescento eu ―, como a ideia de transformar o Tribunal da Boa-Hora num hotel de charme, a sede da PIDE em condomínio de luxo ou o Forte de Peniche numa pousada com vista.
Lamento vir contrariar tamanho arejamento de espírito, e logo a um fim-de-semana, mas estou com o Juiz Harry Stone: I try to keep an open mind, but not so open that my brains fall out.

29/11/07

Confirma-se: a Sociologia Política É uma Treta e Há Coisas que só mesmo a Genética Poderá Explicar - I

«Debalde porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de varinha mágica, mudassem as circunstâncias da vida portuguesa. Pouco mesmo se conseguiria se o País não estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários e a acompanhar-me com confiança na minha inteligência e na minha honestidade – confiança absoluta mas serena, calma, sem entusiasmos exagerados nem desânimos depressivos. Eu o elucidarei sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos os elementos necessários ao juízo da situação.
Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar.»
Dicurso de António Oliveira Salazar, 27 de Abril de 1928