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10/01/25

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Admirável mundo desconhecido»

«É inegável que ter dinheiro traz vantagens. Se Elon Musk não fosse rico, teria Mário Machado, à boleia do caso do britânico Tommy Robinson, pedido ajuda ao dono da Tesla para que intercedesse por ele junto a Donald Trump e lhe conseguisse pelo menos uma carta verde, no caso de não conseguir uma branca?

05/07/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Semana Negra»

« (...) Havia um bar no rés-do-chão do prédio e entre mim e o bar sobrava um piso de escritórios. Durante algum tempo dirigido por um madrileno, tornara-se local de agradável convívio, os bancos altos do balcão a comporem aquele cenário acolhedor dos filmes onde pontifica um barman camarada, confessor de histórias a quem nunca falta paciência. Tudo mudou quando o madrileno se foi embora e deu lugar a locatários portugueses que se tomavam por aficionados espanhóis da arte tauromáquica. Os agrobetos começavam então a ficar na moda. Eu era, portanto, mais nova.

03/02/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «NO PASA NADA»

« (...) uma nota sobre o último escândalo semântico-ó-hermenêutico que, neste caso, envolveu a agência de notícias norte-americana Associated Press (AP), uma das maiores e mais conceituadas do mundo.

Num esforço hercúleo para não excluir nem ofender ninguém (ou será para não “incluir” ninguém?) a agência pediria aos seus colaboradores para não escreverem “the French”, expressão considerada inapropriada por denunciar um monolitismo que não levaria em conta a diversidade dos cidadãos/das cidadãs e etc.

A recomendação era a de “evitar designações genéricas e muitas vezes desumanizadoras, como os pobres, os doentes mentais, os franceses, os deficientes…”

E numa tentativa de se explicar melhor, a agência acrescentaria o exemplo de “pessoas com rendimentos abaixo do limiar de pobreza”, formulação sempre preferível a “the poor” (os/as e etc. pobres em português).

Se para o estômago de um poor, como entenderá facilmente mesmo quem nunca passou fome, ser chamado “pobre” ou “pessoa com rendimentos abaixo do limiar da pobreza” não fará grande diferença, quem responderia à Associated Press seria a própria embaixada francesa mudando temporariamente o seu nome para “Embassy of Frenchness in the United States”, uma solução adequada a esta problemática conotativa/ denotativa que me levou a recordar um americano do New Hampshire a viver em Chefchaouen nos finais da década de 80 e que, à viva força, queria livrar-se da sua nacionalidade. Abandonado em Marrocos pela mulher, que o trocara por uma amiga comum, era etólogo de formação e encontrava-se no país a estudar os macacos das montanhas do Rife. Tendo já tentado emigrar para o Canadá por três vezes, a recusa das autoridades canadianas em aceitá-lo levara-o a concluir que como etólogo nunca teria hipóteses. A última vez que o vi estava a considerar tentar de novo, mas declarando-se antes canalizador ou motorista de pesados. (...)»

20/01/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «ERAM TEMPOS DIVERTIDOS»

«... E por falar em plantas, uma palavra, antes de continuar, para a usual clarividência da nossa ministra Maria do Céu que, já tendo profetizado a venda milionária de hortaliças para a China no início da pandemia de Covid-19, veio há dias pôr os espanhóis na ordem, explicando-lhes que a eliminação do IVA nos produtos básicos decidida pelo governo do lado foi um disparate. “Nós entendemos que não é forma de acontecer”, declarou quando confrontada com a medida. Mas lembrando-se talvez do fiasco que constituiu a venda de couves para o Império do Meio, acrescentou em português mais terra-a-terra: “De qualquer modo, estamos a avaliar”.

Éramos portanto, jovens, felizes e maioritariamente divertidos. A obsessão com a fidelidade ao marxismo-leninismo e a política pura, dura e partidária atenuara-se e até o PCP, fruto das circunstâncias, moderara a irritante mania de manipular as assembleias, avançando com pontos de ordem à mesa que exigiam votações quando os opositores às suas propostas se inscreviam para falar. O MRPP, por seu turno, deixara de bater nas pessoas que, fazendo prova de grande imprudência, colavam cartazes por cima dos seus cartazes com data de validade há muito caducada. (...)»

20/04/14

Isto não é uma parábola pascal

Não, não vou citar o "Porque Não Sou Cristão" do Bertrand Russell. Nem sequer debruçar-me sobre a contumaz questão do "porque" e do "por que". Vou apenas explicar a razão de ser do meu anti-proselitismo, incluindo o religioso.
Era eu menina e moça e fui visitar durante o Verão o Bom Jesus de Braga, na companhia de uns amigos dos meus pais que costumavam passar férias no Norte. Mais ou menos a meio da escadaria do Santuário, tropeço, quase literalmente, numa crente muito velha que subia os degraus de joelhos, ladeada por duas jovens que iam a pé agarradinhas cada uma ao seu rosário. Os joelhos da velha sangravam e o ar parecia-lhe custar a sair, ou a entrar, dos pulmões. Tive uma reacção puramente física de indignação, ou seja, a cena provocou-me vómitos.
Na minha inocência de menina e moça, o que mais me custava entender era o facto de as duas jovens parecerem não se importar com o sofrimento da crente, caminhando impávidas e alheadas a seu lado, como se não fosse nada com elas. Não me aguentei, e fui tentar ajudar a velha a levantar-se. Naturalmente, a velha não queria levantar-se.
Gerou-se pois uma grande confusão, os amigos dos meus pais tiveram de intervir, mas do que nunca mais me esqueci foi do ar desvairado e acusatório de uma das acompanhantes que gritava que agora a avó (era a avó) tinha de recomeçar tudo de novo, lá de baixo, porque eu dera cabo da promessa!
Vá lá uma menina e moça encher-me de boas intenções para ajudar o próximo!
Serviu-me de lição. Na realidade, duas. Nem sempre quem te quer bem te faz bem, e quando e se fizeres bem prepara-te para levar porrada em troca. São duas lições que me têm sido muito úteis ao longo da vida.

14/02/14

Daquela vez que eu fui à Ásia e se falou da Maria João Avillez

[a propósito da Maria João Avilez ter escrito um livro sobre Vítor Gaspar]

Uma vez, estava eu na Ásia, a única vez que estive na Ásia, e tive uma ideia. Eu costumo ter ideias mesmo quando não estou na Ásia mas esta ideia foi na Ásia. Estávamos num jantar e eu tive uma ideia. Partilhei-a com as pessoas que estavam a jantar comigo e depois, passado um bocado, fomos todos para a cama. No outro dia, ainda na Ásia, fui dar um mergulho na piscina. Uma das pessoas que tinha estado comigo no jantar chegou à beira da piscina e disse-me: "Olhe, aquela ideia que teve ontem... era uma óptima ideia". Eu, que sou bastante mãos largas no que respeita a ideias, respondi enquanto sacudia os meus longos cabelos molhados (esta parte é ficção): "Qual ideia?". Acho que a pessoa não ficou com muito boa impressão minha derivado a eu já não me lembrar de qual era a ideia, mas relembrou-ma cortesmente. Eu disse: "Ah, essa ideia!" E depois acrescentei: "Mas a Maria João Avilez não escreveu em tempos um livro com base numa ideia parecida?" A pessoa que estava comigo na beira da piscina respondeu um pouco laconicamente: "Hummmm". Eu disse: "Não era bom, o livro?" E a pessoa, que era uma óptima pessoa, respondeu: "Olhe, era um livro, como direi, era um livro muito... olhe, muito Maria João Avilez." E depois fomos os dois tomar um gin que era quase hora do almoço na Ásia.

18/10/13

Os emigrantes, essa gente admirável

Numa altura em que em França (às claras) e noutros países (com discrição) se fecham as portas aos desgraçados da Terra, lembrei-me deste episódio a que assisti há muitos anos.


Os mais pobres viajavam, então, de Sud Express.
A emigração a salto ficara para trás, a guerra colonial também, e eles enchiam as aldeias em Agosto.
Desforram-se nos bailaricos, na língua que embasbaca os locais — “foi ali deitar um cu de olho”, querendo dizer un coup d’oeuil —, nas peles nuas e leitosas nunca vistas cumulando de risos piscinas naturais pecaminosas e álgidas, nos encombrants carrões que bloqueiam os rebanhos, nos casebres derribados que dão lugar a maisons imaculadas, babéis de azulejaria e alumínios rascas, obliquidades suíças, colunas e frontões gregos, muito antes de o pós-modernismo ter recuperado o kitsch ou Almodóvar o ter elevado a categoria de culto.
O que mais querem é enterrar a mala de cartão, o trabalho duro do chantier a alombar com cimento, eles. Elas, mulheres-a-dias
“És portuguesa? Então conheces a Maria!”, e eu: “Não, quem é a Maria?”, e ele: “É a minha bonne!”, diz a criança, cujo mundo se resume ainda ao imobilismo de um pequeno faraó.
Os bidonvilles deram lugar aos HLM (Chelas avant la lettre)
a casa da patroa
— a exemplo da Nação, as portuguesas são humildes e honestas, comentam entre si as madames…
à casa de concièrge, a ascensão possível.
 Linda de Suza canta “deux valises en carton sur la terre de France”.
Nos EUA criaram-lhes um museu em Ellis Island: fotografias monumentais, registo da última esperança, rostos cujo olhar explicará muito do futuro da América.

A jovem mulher sentada à minha frente denuncia apenas tristeza e susto. Duas crianças pequenas, um farnel e uma mala amarrada com uma corda. A carruagem leva emigrantes que regressam lá-bas. Homens. Passada a fronteira de Espanha, ela conta que vai à procura do marido: “Deixou de me dar notícias, de me mandar dinheiro…” Mostra o bilhete de comboio e a última morada. Um dos homens explica-lhe, então, que terá de mudar em Irun. Lá chegados, vêmo-la ficar para trás no cais, as duas crianças pela mão e a mala aos pés. Não fala uma palavra de francês.
“Aquilo, o gajo arranjou outra e já nem mora no mesmo sítio!”, diz um dos homens. Os outros concordam. Alguém começa a comer uma bifana fria e o cheiro a pobreza cola-se à carruagem.

19/06/13

Porque ouvi dizer que o Chico Buarque faz anos hoje, vou contar uma história. O Chico Buarque é o protagonista da história.

Eu estava no Rio de Janeiro e ia entrevistar o Chico Buarque. Toda a gente, sobretudo as mulheres, a quem eu dizia que ia entrevistá-lo, pegava invariavelmente nas minhas palavras e lançavam-nas de volta à minha cabeça: “Você vai entrevistar o Chico Buarque?!” E depois quase desmaiavam.

O Chico Buarque é uma simpatia. Mora na cobertura de um prédio no Alto Leblon e a casa tem um terraço com vista aérea. No alto do Alto. Portanto, quando digo aérea, quero mesmo dizer aérea.Foi ele quem abriu a porta. Fez café, sentou-se a conversar comigo, e quando não estava sentado a conversar comigo, na sala com vista para o terraço com vista aérea, estava sempre a assobiar baixinho. Coxeava porque se tinha lesionado a jogar futebol na praia. Percebi que não fumava e a dada altura pedi-lhe para ir fumar ao terraço. Ele disse: “Eu já não fumo, mas fume a Ana à-vontade”, e foi buscar um cinzeiro.

A história que quero contar, aconteceu porém antes de eu chegar ao Alto Leblon.
Eu estava no Flamengo e apanhei um táxi. Disse ao motorista que queria ir para o Alto Leblon e dei a morada. Já tínhamos arrancado quando o homem concluiu que não sabia onde era o Alto Leblon. Insisti. Irredutível. Saí e pus-me à procura de outro táxi. Passado algum tempo, apareceu. Entrei. Tinha GPS. Dei de novo a morada e seguimos. Quinze, vinte minutos de trânsito, e eis-nos repentinamente envolvidos por um fumo branco e espesso, cada mais espesso e cada vez menos branco. Parámos. O motor tinha gripado. Dei por mim à procura do terceiro táxi.
Comecei a ficar nervosa. O tempo encurtava-se. Apanhei o terceiro táxi e repeti tudo de novo. O motorista sabia ir para o Alto Leblon, mas não conhecia a rua. Seguimos. Cerca de meia hora depois chegámos ao Alto Leblon. É uma zona residencial, ruas quase desertas, prédios com gradeamento e porteiros fardados no lado de dentro do gradeamento. O taxista ia perguntando às poucas pessoas com quem nos cruzávamos se sabiam onde ficava a rua para onde queríamos ir. Também ele começava a ficar nervoso: “Ninguém sabe de nada, ninguém sabe de nada… Isto já parece São Paulo”.
Depois de uns dez minutos às voltas, decidiu parar o carro e foi perguntar a um porteiro que estava do lado de dentro de um gradeamento. Eu abri o meu vidro e escutei a conversa. Às tantas, ouvi o taxista dizer para o porteiro: “Ah! Mas isso é a rua do Chico!”
Quando ele voltou para o táxi, eu disse: “É para aí que eu vou!” “Para aí, para onde?”, respondeu-me. “Para casa do Chico.” Ele olhou para mim, entre o perplexo e o divertido, e comentou: “Poxa, moça! Por que é que não disse logo?!” Encolhi os ombros e dei uma gargalhada.
Seguimos e eu cheguei exactamente na hora. “Não sabe o que me aconteceu!”, disse ao Chico Buarque mal ele me abriu a porta. Ainda me ia a rir.

23/04/13

23 de Abril de 1974

Há uns aninhos também era terça-feira. A esta hora já teria saído do liceu e vindo para casa. Devia estar de socas e calças de ganga. Provavelmente a ler um livro subversivo e a fazer festas ao gato que se chamava Pompidou. Ou então tinha ido à praia. Ou então tinha vindo a Lisboa, a Económicas, onde os putos do MAEESL preparavam a revolução. Talvez até estivesse a beber uma laranjada com o Zé Manel Fernandes que já então era um rapaz sensato. Na verdade, não me lembro se na altura bebia laranjada. Ora aí está um bom tema de investigação. Que raio de bebidas beberia eu na altura se nunca gostei de refrigerantes e era demasiado nova para apanhar bebedeiras?

20/12/12

Eu hoje acordei optimista

Num Inverno parisiense muito frio e já distante – em que as temperaturas chegaram aos -20 e eu me recusava a sair de casa mal o termómetro à janela descia abaixo dos -10 – dei por mim à porta do Centro Pompidou.
No hall decorria uma exposição-vídeo (?) dos novos projectos para o bairro empresarial de La Défense. A zona onde decorria a projecção (gratuita) encontrava-se naturalmente às escuras e eu sentei-me por ali a ver as imagens da Paris século XXI (por sinal, bem mais engraçadas em maquette do que ao vivo – com excepção, acho eu, da esquadria perfeita entre o Arco de Triunfo e o Grande Arco de la Défense). Adiante.
Não me lembro de quanto tempo durou a coisa mas, às tantas, as luzes acenderam-se, permitindo-me ver quem comigo partilhava o visionamento.
À minha volta, dormitando ao lado de garrafas de vinho meio cheias (ou meio vazias) um grupo alargado de clochards, como na altura ainda se dizia – os nouveaux pauvres inventados só mais tarde.
Saí do Pompidou (eles ficaram lá…) a achar que a sua presença naquela Meca da Cultura, borrifando-se precisamente na Cultura e abrigando-se tão-só da inclemência da Natureza, marcava a diferença civilizacional entre Paris e Lisboa.
“Em Portugal, pensei com os meus botões bem abotoados por causa do frio, nem nos jardins da Gulbenkian entravam quanto mais no Grande Auditório”.
Hoje li que um homem passou por miserável e romeno (uma desgraça nunca vem só...) numa dependência bancária e foi atendido na rua.
É verdade que das últimas vezes que fui à Gulbenkian continuei a cruzar-me, maioritariamente, com um público enfatuado e chato. Muito chato. Mas que o homem expulso do Banco tenha decidido apresentar queixa já é uma evolução.

29/04/12

Não é 1 de Maio, o 25 de Abril já foi, mas o que eu quero agora é falar do 27 de Julho... de 1970

É dos livros que Salazar caiu de uma cadeira e depois disso nada foi como dantes. Como seria de esperar numa terra de escravos, cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto, a queda, embora aparatosa, foi amortecida. Tão amortecida que uma farsa se organizaria em torno do Presidente do Conselho, convencendo-se este por dois anos que continuava a mandar. Mas “Tudo É Vaidade” e a Ceifeira levá-lo-ia a 27 de Julho de 1970, dia em que muitos portugueses optaram por aprimorar-se com uma gravata vermelha, ainda as gravatas não tinham sido proibidas por Assunção Cristas.
O caso é que antes da morte do ditador se tornar oficial, na editora onde a minha mãe trabalhava se soube por portas e travessas clandestinas que Salazar já não estava entre nós. Primeiro foi a descrença, natural ao fim de 36 anos, depois foi a festa. Resumindo: a contribuição dos presentes para o Produto Interno Bruto baixou nesse dia para níveis negativos.
A minha mãe resolveu, então, avisar o marido da boa nova, certa que essa seria a retaliação possível pelos anos que este passara a olhar o mar revoltado e teatral no Forte de Peniche. Telefonou e disse: “Prepara champanhe, temos de comemorar”. Uma colega acrescentaria entre risos: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras”.
A graça acabou mal e acabaram as duas na António Maria Cardoso, no edifício da PIDE onde, em memória das vítimas, foi entretanto erguido um condomínio de luxo. A polícia chegara depressa, e elas, identificadas já pela voz, receberam ordem de prisão. Quanto a meu pai, passaria a noite à espera da mulher na rua de má memória, sem champanhe, e não sei se de gravata vermelha.
E é também por isto que gosto muito do 25 de Abril.
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06/04/12

O valentão do Chiado ou das regras da pancadaria

Não era no tempo em que os animais falavam, mas decerto bastante anterior à decisão de proibir o fumo à mesa dos restaurantes. Veneziana, há muito que seria de mau-gosto perguntar-lhe a data de nascimento e, ainda assim, a sua presença não passaria despercebida ao mais míope dos comensais.
Mistura improvável de Anna Magnani com Monica Vitti, tendo terminado le pere al vino rosso, lançou-me um wildeano le dispiace se fumo? e eu, incapaz de contrariar uma senhora que teria sobrevivido pelo menos a duas guerras mundiais, limitei-me a um gesto de assentimento por ter a boca cheia e a infeliz mania de confundir italiano com espanhol. Acendeu o cigarro com o que me pareceu uma boa dose de volúpia e rematou enfumaçada: “Hábito novo, o de perguntar. Afinal, eu sou do tempo em que os homens fumavam charuto e andavam a cavalo”.
A primeira vez que presenciei a polícia de choque em manobras os homens já não andavam a cavalo, salvo a força da GNR e os campinos da lezíria ribatejana.
Festival de Jazz de Cascais, creio que 1973. A polícia carregou e um dos espectadores, intercalando a fuga com paragens momentâneas para insultos à autoridade, perdeu sucessivamente terreno até acabar no chão sob uma saraivada de golpes.
Não seria a única vez que tive o desprazer de ver cassetetes ao vivo e a cores. Confesso que nunca me habituei. Ainda hoje é uma coisa que me chateia. Afinal, até a pancadaria tem regras.
Se der um estalo não é suposto levar um tiro em resposta. Se tirar uma fotografia, não é suposto levar chibatadas ou acabar no hospital. Jornalista ou não jornalista. Falo da regra da proporcionalidade de que já falava Aristóteles, um apreciador da arte equestre que nada sabia de charutos.

08/03/12

Que venham os Vikings, a cavalaria, qualquer coisa, eu só não quero sonhar com a Edite Estrela

Estava eu finalmente posta em sossego a ler A Zona de Desconforto de Jonathan Franzen, livro que acaba de ser publicado pela D. Quixote, quando, a páginas tantas, mais precisamente na 21, tropeço numa palavra inédita, se me permitem o eufemismo.
Já antes tivera de me esforçar para engolir "Excecionais" (em caixa alta e itálico no original, ainda por cima...), com aquele ce a ler-se naturalmente ce e não porque lhe guilhotinaram o p), quando, uma linhas mais à frente, dou com um "viquingue" na minha cama e eu não tinha bebido nada.
O que raio seria um viquingue?!
Ajeito os óculos e a almofada, dirigo o dedo para a palavra, soletro-a, divido-lhe as sílabas, releio a frase para lhe alcançar o sentido como se o livro estivesse escrito em hebraico sem marcas diacríticas, repito o exercício, gaguejo e, por fim, como a Santa Teresa d'Ávila, tenho uma iluminação: viking, porra!
Os vikings são vikings pelo menos desde os tempos em que o meu pai me ofereceu a colecção O Mundo em que Vivemos da Verbo Juvenil, ainda nem aprendíamos o K, mas, a serem outra coisa, seriam víquingues, pensei de mim para mim, lendo alto a palavra como fazia na Primária para adivinhar os acentos.
O esforço hermenêutico-ortográfico deixara-me exausta. Era tarde. Fechei o livro e apaguei a luz.
Sonhei com a Edite Estrela, o Jonathan Franzen que me perdoe.

29/01/12

"Uns jantam, outros são jantados"

A minha professora de História do antigo 4º ano (hoje, 8º) chamava-se Helena Balsa.
Mais tarde jornalista da RTP, desaparecida prematuramente em 2006, chegou-nos como uma lufada de ar fresco. A aberta durou pouco: Helena cedo seria catalogada pelas luminárias rançosas que dominavam, então, o Liceu de Cascais (e o país, cela va de soi…) como persona non grata.
Motivos? As suas ultra-hiper-justas calças à boca-de-sino e o recurso ao materialismo histórico como grelha pedagógica.
Conceitos como “infra” e “superestrutura”, com a infraestrutura a determinar em “última instância” a super, lançavam uma nova luz sobre, por exemplo, a crise de 1383/85 que deixava de se resumir a uma confusa novela recheada de casamentos e traições, na qual, to make a long story short, o Conde Andeiro e a Leonor Teles representavam os maus da fita.
Lembro-me muitas vezes dessas aulas.
No outro dia, ao ver citado um excerto do livro de Álvaro Santos Pereira, O Medo do Insucesso Nacional, onde o actual ministro explicava o declínio da “indústria de produção de padres” (bracarense) pelos elevados “custos de produção de novos sacerdotes”, senti-me teletransportada a esses tempos – sombrios e ao mesmo tempo felizes, parafraseando Kertész em Sem Destino – nos quais a economia era a explicação de tudo, pelo menos em “última instância” (embora definir “última instância” fosse e, creio, continua a ser, o cargo dos trabalhos).
Ainda não refeita do retorno ao materialismo dialéctico via Álvaro, ouço Cavaco Silva ”indignar-se” publicamente. E eis que, irmanados, eu e a Presidência, pela crise, é Marx quem se desmorona de novo. Pois se até Cavaco Silva se queixa, que fazer da “luta de classes” como motor da História?
Acho que a Esquerda devia reflectir sobre isto (de preferência sem abdicar do c).

02/01/12

Alice já não mora aqui

Os mais pobres viajavam, então, de Sud Express.
A emigração a salto ficara para trás, a guerra colonial também, e eles enchiam as aldeias em Agosto.
Desforram-se nos bailaricos, na língua que embasbaca os locais — “foi ali deitar um cu de olho”, querendo dizer un coup d’oeuil —, nas peles nuas e leitosas nunca vistas cumulando de risos piscinas naturais pecaminosas e álgidas, nos encombrants carrões que bloqueiam os rebanhos, nos casebres derribados que dão lugar a maisons imaculadas, babéis de azulejaria e alumínios rascas, obliquidades suíças, colunas e frontões gregos, muito antes de o pós-modernismo ter recuperado o kitsch ou Almodóvar o ter elevado a categoria de culto.
O que mais querem é enterrar a mala de cartão, o trabalho duro do chantier a alombar com cimento, eles.
Elas, mulheres-a-dias
“És portuguesa? Então conheces a Maria!”, e eu: “Não, quem é a Maria?”, e ele: “É a minha bonne!”, diz a criança, cujo mundo se resume ainda ao imobilismo eterno de um pequeno faraó.
Os bidonvilles deram lugar aos HLM (Chelas avant la lettre),
a casa da patroa
— a exemplo da Nação, as portuguesas são humildes e honestas, comentam entre si as madames…
à casa de concièrge, a ascensão possível.
Linda de Suza canta “deux valises en carton sur la terre de France”.
Nos EUA criaram-lhes um museu em Ellis Island: fotografias monumentais, registo da última esperança, rostos cujo olhar explicará muito do futuro da América.
A jovem mulher sentada à minha frente denuncia apenas tristeza e susto. Duas crianças pequenas, um farnel e uma mala amarrada com uma corda. A carruagem leva emigrantes que regressam lá-bas. Homens. Passada já a fronteira com Espanha, conta que vai à procura do marido: “Deixou de me dar notícias, de me mandar dinheiro…”
Mostra o bilhete de comboio e a última morada. Um dos homens explica-lhe, então, que terá de mudar em Irun. Lá chegados, vêmo-la ficar para trás no cais, as duas crianças pela mão e a mala aos pés. Não fala uma palavra de francês.
“Aquilo, o gajo arranjou outra e nem mora no mesmo sítio!”, diz um dos homens. Os outros concordam.
Alguém começa a comer uma bifana fria e o cheiro a pobreza cola-se à carruagem.