« (...) às crianças de sete e oito anos era pedido nas tais provas de aferição de Expressão Artística que imitassem o som de um sapo cego.
12/05/23
22/04/23
09/07/22
A GUERRA DE FAMALICÃO, A JUSTIÇA SALOMÓNICA OU TANTO BARULHO PARA NADA
«O relato das teimosias já chateia. Até porque existe uma solução perfeitamente legal que até surge prevista nas justificações de falta do E360, mas o senhor director não a quer aplicar, lá ele saberá porquê. provavelmente, não usa o programa no agrupamento dele e não deve conhecer a possibilidade de justificar faltas a alunos, quando reconhecidamente faltam por factores que impedem a sua presença na escola, independentemente da sua vontade.
Ou seja, os alunos podem faltar porque são impedidos na sequência de circunstâncias que não podem controlar, sendo possível, nesse caso, justificar-lhes as faltas, não os penalizando por algo que manifestamente não está nas suas mãos.
Não é nenhuma ilegalidade justificar faltas deste modo, sabendo-se que o aluno é menor e está impedido pela família de ir àquelas aulas. (...)
Neste caso, o primeiro a chegar-se à frente com uma solução que não penaliza os alunos será como a verdadeira mãe da criança da história do Salomão. Que ninguém parece querer ser, incluindo o pai, talvez por questões de género, como parece ser óbvio.
Claro que o verdadeiro problema que aqui está é a abertura de um precedente, mas então mais vale assumir isso em vez de dizer que o que está em causa é o “direito à educação” dos jovens ou que é uma questão simplesmente “legal”, quando tudo depende da justificação ou não das faltas, ficando o aluno sem avaliação por falta de elementos, mas não “chumbando” todo o ano. Vamos lá ser francos… as duas partes estão numa disputa que usa os miúdos como reféns. (...)»
19/06/22
COISAS REALMENTE IMPORTANTES E SIMPLES: CONHECIMENTO É DIFERENTE DE INFORMAÇÃO
P: Contou que vem de uma família onde ninguém tinha estudado e de uma povoação onde não havia livros, e que descobrir a escola foi um “milagre”. O milagre de que toda a criança precisa é encontrar um bom professor?
R. Para mim é uma prioridade. Muitos directores e professores têm dito que a pandemia fez compreender que o futuro do ensino é a telemática. Não, isso é uma loucura. A tecnologia é uma interrupção brutal da relação entre o professor e o aluno. A única maneira de transmitir o conhecimento é a presencial. Sem a comunidade não há transmissão de sabedoria. Leio sempre aos meus alunos uma carta maravilhosa que Camus enviou ao seu professor de Argel no dia em que lhe concederam o Prémio Nobel (…) [esse professor] mudou-lhe a vida. Nenhuma plataforma digital pode fazê-lo, só um bom professor (...) muitos professores que fazem isto em absoluto silêncio, não os conhecemos. E somente a escola pública pode garantir a eliminação das desigualdades, e hoje está a destruir-se a escola e a universidade públicas em toda Europa para aplicar as leis americanas e britânicas.
P: A formação de professores está a ser precarizada? (...)
R. A escola não dá importância ao inútil. No discurso que Boris Johnson fez, há uns meses, aos estudantes britânicos disse que deverão escolher não a área que de que gostam, mas a que lhes pode trazer algum benefício. Para mim, isto é a destruição total da educação. Por isso, a ética das profissões está a decair (…): se há médicos que exercem medicina para ganhar dinheiro, não são bons médicos porque não têm amor. Não posso vender a minha dignidade (…). Outro aspecto incrível é os alunos pensarem que têm de estudar para aprender uma profissão. Há uma poesia maravilhosa de Kavafis, Ítaca, em que ele fala com o leitor para lhe dizer que a importância da viagem de Ulisses não é chegar a Ítaca, mas a experiência da viagem. Há que fazer entender aos estudantes que o importante é a viagem que fazem com o professor e os colegas, a experiência da escola. A ideia da escola/universidade-empresa não tem sentido.
P. Neste presente cruel que mercantiliza as nossas vidas, dar prioridade a essa experiência pode acabar com a expulsão do sistema…
R. Pode ser um risco, compreendo, mas tive muitos alunos que demonstraram que quando se estuda com paixão e amor, num momento ou noutro, há sempre uma possibilidade de ganhar a vida com dignidade. Na loucura da avaliação das universidades há um parâmetro que diz que uma boa universidade é aquela que leva o estudante a ganhar muito dinheiro (…). A escola sempre formou cidadãos cultos, democráticos, solidários. Hoje a ideia é que temos de produzir “frangos de aviário” com vontade de ganhar dinheiro e que só pensam em criar empresas.
P. O senhor é um dos maiores defensores das Humanidades (...). O que pensa ao ver as mudanças nos currículos que eliminam a filosofia ou a aprendizagem de memória? (…)
R. Estamos a destruir as coisas fundamentais. Há muitos pedagogos que dizem que aprender de memória uma poesia não tem sentido. Para mim, são estúpidos. Quando aprendes uma poesia de memória, com o coração – em inglês e francês diz-se by heart e per coeur –, fica em ti. E um dia quando olhas para uma coisa, ela surge do teu interior e compreendes coisas que antes não podias. Há um testemunho incrível de Primo Levi. Aprender La divina comédia de Dante permitiu-lhe, numa noite, proporcionar um momento de felicidade aos outros judeus presos no campo de concentração. Não te podem roubar as coisas que aprendeste. É maravilhoso como metáfora da sua importância. A ideia de hoje em dia é que tens de aprender só coisas práticas, esquecendo que a ciência, para criar, também necessita de fantasia e de imaginação (…)
P. Há um paradoxo no mundo actual: graças às novas tecnologias, temos ao nosso alcance o acesso a toda a cultura que queremos, mas ao mesmo tempo estão ressurgindo as ideologias mais extremistas: nacionalismos, populismos, a extrema direita…
R. É preciso fazer uma pequena precisão a esta leitura (...) pensamos que informação significa conhecimento, mas são duas coisas diferentes. Temos mais informação, mas não conhecimento. A internet é uma mina de ouro para quem sabe; para quem não sabe é muito perigosa. Um dia fiz uma experiência com os estudantes e pesquisei Giordano Bruno numa meia centena de sítios: um delírio total (…). Sobre o conhecimento se não tenho uma autoridade não posso falar. A internet é uma armadilha enorme, foi isso que criou a gente que invadiu o Capitólio dos Estados Unidos. O “senhor com os cornos” é uma imagem da ignorância dos lideres como Trump, Bolsonaro, Le Pen, Salvini… que contam histórias mentirosas.
P. O que deve fazer um filósofo, um intelectual, num mundo como o de hoje?
R. Tem de falar contracorrente. O problema de hoje é que não temos sentido crítico. O intelectual tem de ser um herético, como o era Giordano Bruno, que diz as coisas que a sociedade não quer escutar. Desafortunadamente, nas universidades os intelectuais parece que se resignaram, não têm vontade de reagir. Creio que temos de lutar, porque cultivar a utopia é fundamental para mudar o mundo.
08/06/22
A UCRÂNIA A CAMINHO DO ESTALINISMO? (e não, não estou a brincar)
O mais do que genial escritor Saul Bellow fez um dia a pergunta provocatória: "Onde está o Tolstoi dos zulus?", pergunta a que aliás o jornalista desportivo Raph Wiley responderia com grande inteligência: "Tolstoi é o Tolstoi dos zulus".
Com as alterações aos programas escolares anunciadas pelo vice-ministro da Educação e Ciência da Ucrânia teme-se o retorno da pergunta de Bellow em versão actualizada pela guerra.
Infelizmente a "Onde está o Tolstoi dos ucranianos?" será impossível responder como o fez Wiley: o escritor russo vai ser banido das escolas na Ucrânia.
Jornal Público, 7 de Junho de 2022
24/03/22
ENTRETANTO NO AFEGANISTÃO...
09/11/21
«Eu sou porque tu és»: não, não é Pedro Chagas Freitas, é filosofia ubuntu
Ministro da Educação sublinha importância do ubuntu para o sucesso escolar e humano (naturalmente)
18/04/12
12/04/12
Que bom que a família da Helena Matos a conseguiu tirar do gueto do enquadramento socio-económico ou da relação entre a falta de empatia e a estupidez
25/01/12
08/09/11
A Parábola da Agulha (que para o eduquês já demos)
Longe de mim ter teorias sobre educação. Há poucas coisas, aliás, sobre as quais tenha teorias, apesar de Platão ser o meu pensador preferido pelo menos desde 1978, salvo erro, ano em que conclui que a sua Teoria das Ideias se podia resumir na boa a uma parábola contada algures por Herberto Helder.
Cito: “Levanto-me então da plateia e, por entre as metralhadoras esculpidas, conto de novo a parábola da agulha, que me obceca. Desentranhei-a de um velho manual. Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caiu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.”
Como presumo até os estudantes liceais de Filosofia saberão (supondo que ainda existam), na Caverna Platónica também fazia escuro p’ra caraças. Vai daí, o filósofo, que, como a mulher da parábola, nada tinha de parvo, foi à procura das Ideias noutro sítio.
Voltando à educação e ignorando os temas sindicais recorrentes – assunto sobre o qual “só sei que nada sei” –, o que eu gostaria mesmo era que alguém reflectisse a sério sobre isto: “Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que provavelmente levará à alteração de certos aspectos da consciência num futuro não muito distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo”, António Damásio, O Livro da Consciência.
Atendendo à dificuldade que há já em sentá-los (a que acresce a insistência na discussão estéril do “eduquês”), temo que o custo seja grande. E qualquer dia nem a agulha do Platão, perdão, do Herberto Helder, nos ajudará a encontrar o Norte.
25/07/11
Smartphones porno child
No despontar da pré-adolescência (conceito inexistente na altura), ou já em plena adolescência, davam-se os primeiros beijos a sério (na boca, claro) e depois a natureza seguia o seu curso.
A descoberta da masturbação (feminina e masculina) acontecera entretanto e os rapazes possuíam quase todos revistas eróticas e/ou pornográficas que trocavam entre si em substituição dos cromos.
Sou de uma geração para a qual a virgindade deixara de ser uma cláusula matrimonial e a homossexualidade uma doença. Não havia militância gay mas creio que qualquer um da minha juventude teria subscrito as palavras do dramaturgo Brendan Behan: “Não faz sentido falar de homossexualidade como se fosse uma doença. Já vi pessoas com homossexualidade, tal como já vi pessoas com tuberculose, e não há qualquer tipo de semelhança. A minha atitude em relação à homossexualidade é muito semelhante à daquela mulher que, aquando do julgamento de Oscar Wilder, disse que não se importava com o que faziam, desde que não o fizessem na rua e não assustassem os cavalos.”
Evoluiu-se muito.
As bonecas deixaram de ser exclusivo das meninas e os carrinhos dos meninos. As mulheres, diz-se, são agora senhoras dos seus orgasmos. O machismo desenfreado de Tomás Palma Bravo (reler O Delfim, José Cardoso Pires), já então rançoso, passou de moda. Discute-se a educação sexual. Mas digam-me o que acham disto.
Proprietário de um smartphone, 9 anos. Um adulto pega no telefone, liga, fala, desliga. Por curiosidade, ensaia a ligação à Internet. Estupefacção. Incredulidade. O histórico da NET transborda de filmes porno. E uma pessoa põe-se a pensar: não era melhor quando eles brincavam aos médicos? Pergunto.
20/06/11
Que mal terá feito o Nuno Crato ao Daniel Oliveira se nem sequer andaram juntos na escola?
15/06/11
Por que vai Sócrates para Paris quando podia ir para Eton em Lisboa?
01/11/10
Mais uma ideia saída da cabeça dos iluminados que nos governam: agora vão ensinar finanças às criancinhas
Há coisas que já nem dá para rir. Diz uma senhora chamada Susana Albuquerque, secretária-geral de uma Associação de Instituições de Crédito Especializado, que a sua digníssima associação e o digníssimo ministério da educação estão prestes a concluir um acordo para introduzir a "educação financeira"... no ensino básico, logo a partir do 1º ciclo que de pequenino é que se torce o pepino, acrescento eu.15/09/10
O Mário Viegas nunca quis ser ministro da educação mas podia ou temos que nos alimentar todeeeesss (descubra as diferenças)
Mário Viegas lê uma história de Pedro Oom
12/09/10
Professora de braga confirma telepaticamente a inocência de carlos cruz (um exclusivo do expresso)
A intuição dela é como o algodão: nunca se engana. Viu o Carlos Cruz na televisão e alcançou o satori. Tudo isto em Braga.
Uma amiga que conhece bem o processo explicara-lhe que a polícia judiciária entalara deliberadamente o ex-apresentador mas foi ao assistir ao último Prós & Contras que todas as suas dúvidas se dissiparam (e o mesmo não se pode dizer do Daniel Oliveira...).
Falou com a irmã e uns amigos e, juntos, lançaram um abaixo-assinado, o qual, no momento em que escrevo, já tem 316 assinaturas.
Um dos subscritores mostra-se particularmente indignado: Esta sentença foi vergonhosa, como é possível que depois de tantos adiamentos os arguidos e advogados não tenham acesso ao acórdão antes da sentença.
Aguardam-se declarações do Ministério da Educação, da DREN e daquele senhor que tem a mania de falar em nome dos pais dos alunos e cujo nome de momento não me ocorre.
23/07/10
Esta canalha merece a procissão do senhor Passos e muito mais até porque: what's the difference?
Se a notícia estiver correcta, o título deste post está correcto: Mais de 700 escolas do 1º ciclo já não abrem em Setembro.Não sei o que me enoja mais.
1. Se o facto de estas medidas irem ao arrepio de tudo o que o mero bom-senso nos dita em termos de educação de crianças (small is beautiful e que venha um pedadogo iluminado do PS desmentir-me...)
2. Se o blábláblá (meramente economicista, claro, ou pensam que é tudo estúpido?) surgir embrulhado em pretensas preocupações com o bem-estar das ditas.
Acho que é o 2.
Porque como até o mafioso Johnny Caspar percebeu e este PS não percebe porque há muito perdeu a vergonha isto é uma questão de ética!
08/06/10
A notícia é ambígua: são mil e duzentas crianças vestidas à Mocidade Portuguesa ou algumas vão de três pastorinhos?
É que pelo texto não se percebe. Mas, no seu afã inclusivo e pedagógico de "proporcionar não só aos alunos como à própria cidade de Aveiro um belo momento de revisão da nossa história recente", é inaceitável que Joaquina Moura exclua os pastorinhos de Fátima das comemorações dos 100 anos da República.
12/03/10
Das pessoas sensíveis que leram Cormac, adoram Cormac mas não matam galinhas ou se a sociedade é o que é porque havia a escola de ser diferente?
A morte do miúdo e a morte do homem fizeram manchete nos jornais e desencadearam imensos comunicados. De indignação, de consternação, de interpretação. Os dois teriam sido vítimas de violência. Psicológica, ou física ou ambas.
Ministério, Direcções-Gerais (o homem apresentava “fragilidades psicológicas”), pedagogos, psicólogos, associações de pais e associações de professores, a polícia (o miúdo “queria apenas chamar a atenção") e até os Partidos opinaram sobre o sucedido.
Os comentários foram de largo espectro, incluindo os que clamam por castigos exemplares e os que clamam por acompanhamentos exemplares. Comum a todos, a necessidade de repensar a escola.
A escola, claro, que tem as costas largas. Mas o que é a escola se não o reflexo, mais ou menos exacto, da vida fora da escola? Os estabelecimentos escolares tornaram-se mais violentos? E o que é a vida lá fora? Um mar de rosas?
Infelizmente Rousseau não tinha razão. Muito mais perto da verdade estará Cormac McCarthy.
Como no poema de Sofia, porém, “as pessoas sensíveis” que lêem Cormac e adoram Cormac “não são capazes de matar galinhas/ porém são capazes de comer galinhas”.
Modernas e progressistas ― adoram os Cohen! ―, mostram-se na verdade incapazes de perceber o velho xerife Bell. Aquele que escreve:
“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.” (in Este País não É para Velhos)
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