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08/06/22

VÁ, UMA PITADA DE OPTIMISMO: «SUSTENTABILIDADE, FIM DO MUNDO E MAIS ALÉM»

«... Vou-vos contar uma anedota apócrifa de Mário Molina, prémio Nobel da Química pela descoberta das reações do ozono com os CFC. Peço desculpa, mas passa-se num tempo em que as mulheres ficavam em casa e os maridos trabalhavam na rua. A mulher de Molina perguntou-lhe quando ele chegou a casa: “Querido! como correu o dia de trabalho?” E este respondeu: “Tenho boas e más notícias. As boas é que descobrimos uma coisa fantástica. A má notícia é que o mundo vai acabar.” Não acabou por isto, mas passa a vida a poder “acabar.” (...)»

TEXTO INTEGRAL AQUI

26/01/14

Eu sempre achei graça a astrónomos

Carta aberta ao Senhor Ministro, da astrónoma Paula Brochado

Sr. Ministro,
Podia começar por citar Einstein com a tão badalada frase sobre a estupidez humana mas partindo do, provavelmente errado, principio que já a conhece, prefiro citar o Ricardo Araújo Pereira: “a liberdade de expressão é uma coisa linda: permite-nos distinguir os idiotas”. Salvaguardo já alguma pequena incorrecção mas ouvi isto na rádio (sabe o que é? aquele aparelho que tem no carro que lhe dá as notícias e o trânsito? já ouviu falar de Maxwell? Foi a investigação dele na teoria do campo eletromagnético que deu origem à invenção do rádio, sabia?). Pois sr. ministro, acontece que depois de ler as suas declarações em que se diz “contra bolsas científicas longe da vida real” não podia deixar de sentir a maior repulsa por tamanha idiotice.
Antes que o sr. ministro se interrogue se não serei mais uma desesperada bolseira sem bolsa deixe-me esclarece-lo: já fui, sim. Sou doutorada em astronomia numa universidade pública (a melhor do país diz-se), essa ciência que, ironia das ironias, não podia estar, segundo os seus critérios, mais longe da vida real - mas, note bem, sou agora analista de negócio na Sonae - quer mais real que isto? Tenho por isso muito mais legitimidade em falar sobre este assunto do que o sr. ministro alguma vez terá, tendo o sr. ministro feito faculdade e carreira em privadas, sem sentir o seu, ainda que exíguo, talento avaliado, enxovalhado, esmiuçado e, por fim, recusado. Pois eu, e milhares de outros em Portugal, já. E, sabe, os astrónomos já têm algum poder de encaixe e alguma tolerância jocosa tantas foram as vezes que, por um lado, os ignorantes nos perguntaram se lhes líamos as cartas astrais e, por outro, os ignóbeis nos acusaram de não fazer nada pela sociedade.
Mas é por ter sido bolseira - não se amofine, não fui bolseira FCT, fui recusada vezes a mais do que as que me dei ao trabalho de contar - que lhe posso dizer que, não fossem as suas declarações mostrarem um profundo desrespeito e desconsideração por milhares de investigadores deste país, chegaria a ser ternurenta a sua ignorância - faz lembrar a minha avó, analfabeta repare bem, que há uns anos atrás me perguntou muito indignada o que é que eu aprendia na escola se não sabia a diferença entre alcatra e chambão.
Quando falo em milhares de investigadores não é de animo leve, o número traduz não só os que agora ficaram sem bolsa, sem projectos e sem expectativas: inclui também todos os que até agora contribuíram para que Portugal deixasse a cauda da Europa e todos cujo trabalho ficou agora hipotecado porque, sem querer ser dramática, pura e simplesmente deixou de haver futuro. Da minha parte, escolhi experimentar aquela que o sr. ministro designa de “vida real” e estou cá fora - segundo o sr. ministro, estou fora do sistema das bolsas, estou agora num sistema perfeitamente bem regulado e previsível que é o mundo empresarial, correcto? Confesse sr. ministro, deu-lhe uma certa vontade de rir. O seu argumento é tão falacioso que um incauto até acredita que existe tal coisa como “ciência longe da vida real” - isso é o mesmo que dizer “astronomia longe das estrelas” ou até “futebol longe do Pinto da Costa”: a ciência nunca estará longe da vida real da mesma forma que um prédio não está longe dos tijolos.
Se se quer referir à investigação científica que gera receitas então aí sr. ministro, assusta-me mais a sua sanidade mental, ou falta dela, do que as suas idiotices. Se tiver ligação à internet sr. ministro (já ouviu falar do CERN? esse laboratório de física de partículas, longe portanto da “vida real”? Sabe então do papel do CERN no conceito da world wide web) pode procurar pelo ROI (return of investment, é a sua praia de certeza que sabe o que é) do programa Apollo (pois, imagino que o feito da humanidade que foi a ida do Homem à Lua não lhe interesse minimamente) e, com certeza para seu espanto, pode verificar que por cada dólar investido no programa, e foram 25 mil milhões de dólares, houve um retorno de 14 dólares. 14. Sabe multiplicar?
Que a vida de investigador, o bolseiro em particular, nunca foi fácil em Portugal isso é um dado adquirido - quer-se rir um bocadinho sr. ministro? Sabia que existe código de atividade profissional para astrólogo (CAE 1316) mas não existe um para investigador? LOL sr. ministro, LOL - mas já se perguntou porque é que apesar de não termos subsidio de férias nem de natal (imagine a nossa confusão em sentir a revolta dos portugueses quando o seu colega sr. primeiro-ministro cortou nos subsídios), de não sermos cobertos pela segurança social, de não fazermos descontos, de termos valores de bolsas que não são revistos há mais de uma década, e outros tantos desajustes com que, com certeza, está familiarizado, continuamos na ciência? já alguma vez pensou nisso? porque, acima de tudo, somos uns sonhadores. Temos que ser sonhadores, temos que ser loucos, acreditar no que não existe, no que não vemos, no que não podemos tocar nem ouvir, temos que ir atrás para perceber porquê, perceber como, temos que questionar, dizer que não, temos que amarrar uma chave a um papagaio e largá-lo no meio de uma trovoada, que deixar as nossas culturas ganhar bolor e ousar pensar que a terra não é plana.
Se o sr. ministro acha que o sonho não tem lugar na “vida real” então tenho pena de si - tal como as crianças acreditam que os ovos vêm do supermercado também o sr. ministro deve acreditar que o seu rato sem fios veio da fnac. Se assim é sr. ministro, está no seu direito, mas então não se envergonhe e, mais importante, não nos insulte.
Sem mais.

11/02/09

Confessando a minha ignorância, eu hoje descobri um blogue

Estava eu posta num certo desassossego a ler um post assinado pelo Desidério Murcho no De Rerum Natura, no qual, basicamente, se defende a superioridade cultural da língua inglesa e se pugna pela sua elevação a língua oficial escolar em Portugal e no Brasil, quando deparei com este comentário:
Concordo ABSOLUTAMENTE com o Dr. Desidério. E digo mais: o bacalhau seco e salgado deve ser imediatamente proibido e substituido por fish and chips, assim como todos os bons fumados, a música pimba deve ser proibida e substituida por rap, e a missa deve passar a ser dita em inglês, assim como as óperas italianas e alemãs devem ser imediatamente traduzidas para inglês. Desta forma evitam-se choques culturais que os portugueses tenham ao entrar em contacto com formas superiores de civilizações. Noutros países deve seguir-se o exemplo, e o Paco de Lucia deve ser, já, proibido de tocar guitarra espanhola e forçado a tocar a eléctrica (sempre com distorção), enquanto os ciganos berram em inglês, em ritmo rock. Talvez desta maneira, países pobres culturalmente como a França, Alemanha, Itália, e Espanha, pudessem ter grandes sucessos como países anglófonos, como a Nova Zelândia, a Irlanda, ou mesmo a Jamaica, que lhes são muito SUPERIORES.
Como já terão percebido alguns clientes da Pastelaria eu adoro uma boa piada! Fui ver de onde vinha o autor. Vinha daqui. E foi precisamente a partir "daqui" que encontrei este blogue que vai imediatamente para ali [get smart]. Chama-se Aurea Mediocritas e para começo de conversa roubei-lhe isto com título e tudo.

Don't mess with Heisenberg

08/11/08

Da série já comecámos a votar nas plantas: «Magalhães» ou do que acontece à política quando entregue a vendedores de banha da cobra

Fico indignado com a estória do «Magalhães» ser «totalmente concebido e produzido em Portugal», como dizia o nosso Primeiro Ministro (PM) na recente Cimeira Ibero-Americana. Sinceramente não percebo esta atitude. Não faz nenhum sentido. Não promove Portugal, não ajuda na atitude que temos de adoptar para melhorar a competitividade e a produtividade e não resolve nada relativo à nossa imagem externa.
O «Magalhães» é um CLASSMATE da Intel. Basta ver o site, na secção de vídeos, para ver a versão da Tailândia, Nigéria e Brasil.
Talvez o «Magalhães» seja um bom negócio,
algo que até justificasse o envolvimento do governo para trazer a produção para Portugal. Porque não? Talvez isso seja interessante, não sei se é. Poderia envolver a indústria de moldes e dos plásticos, anunciando uma parceria com a Intel para co-produzir um computador para o mercado estudantil. E até poderia envolver a indústria nacional do software, para produzir conteúdos em português, etc. E aí o PM dizia que, no quadro da política governativa para a educação, queriam introduzir um PC portátil no 1º ciclo e decidiram fazer uma parceria com a Intel, que envolvia a indústria nacional na produção da caixa e assim conseguiria um produto que interessava ao país e até poderia ser exportado. Ok! Discordo da estória do portátil no 1º ciclo (ver «Livros e Magalhães»). Mas é o governo que tem de governar, foi eleito para isso. É uma opção que terão de justificar, mas é legítimo que a tomem.
Mas para quê inventar e esconder a verdade? De que vale? Para que serve? Ou melhor, a quem serve?
O «Magalhães» é uma cópia. O vídeo seguinte mostra a evolução do ClassMate, onde se pode ver a versão que agora o nosso PM diz ser «totalmente concebida em Portugal», e que decidiram chamar «Magalhães»:



Também se faz o crash-test neste vídeo. Mas no «Magalhães», segundo o nosso PM, o crash-test foi feito pelo «Presidente Chavez».

Para completar vejam esta apresentação PowerPoint feita pelo responsável do Plano Tecnológico numa conferência organizada pela União Europeia: «Portugal as a living LAB», diz ele..., onde o «Magalhães» já não é totalmente concebido em Portugal, mas antes «Made in Portugal based on the Intel ClassMate platform». Ok, está mais próximo da verdade, mas também era o que faltava dizer aquilo do «totalmente concebido em Portugal» numa conferência europeia (o que diz tudo sobre o respeito que o PM demonstrou pelos nossos parceiros ibero-americanos). Mas isso não é um laboratório, senhor coordenador. É uma fábrica onde se monta uma coisa que já existia: não está errado, mas é o que é. Portanto, queria dizer: Portugal as a living factory (chinese like?)...
Irritam-me estas coisas. Portugal tem coisas muito interessantes, que resultam de projectos em consórcio entre instituições de I&D e empresas, ou de I&D feito em empresas, ou de spin-offs universitárias, etc. Coisas relevantes, que mostram a nossa capacidade de inovar e ter sucesso. É nisso que tem de ser colocado o nosso esforço de promoção, para que mais empresas apostem em I&D, para que apareçam mais empresas resultantes de I&D feito em Universidades e centros de investigação, para que o país surja de uma vez por todas como um país que é capaz de se reinventar e ter sucesso com base justamente na capacidade dos seus cidadãos. Em colaboração (em rede) com o mundo, porque nada se faz isolado.
Como exemplo de algo verdadeiramente concebido em Portugal, com inteligência portuguesa, que dá cartas no competitivo mundo das comunicações para PME, vejam a EdgeBox da Critical-Links:



A Critical Links é uma spin-off da Critical Software, uma empresa portuguesa, nascida em Coimbra, e hoje um player mundial em várias áreas onde o conhecimento e a capacidade de inovação são a mais preciosa vantagem competitiva no mercado global.
Um produto que «está à frente», como diz João Carreira (CEO da Critical-Links e um dos co-fundadores da Critical-Software), e que a própria Intel (que concebeu o Classmate, denominado «Magalhães» em Portugal) classificou como «história de sucesso».
A EdgeBox é só um exemplo. Podia falar de centenas de empresas e produtos, esses sim «concebidos em Portugal» para o mundo.
Portugal tem de apostar na indústria baseada no conhecimento, na capacidade de adicionar valor aos produtos que aqui fazemos, na capacidade de criar novos produtos, na capacidade de gerir melhor, organizar melhor... São esses bons exemplos que devemos promover. Para que se multipliquem. Os trabalhadores portugueses quando colocados em ambientes mais organizados, produzem mais e são elogiados. É necessário que o façam também em Portugal. Só assim seremos competitivos e seremos capazes da revolução tranquila que constitui a aposta na inteligência.
É nisso que temos de colocar o nosso foco. Eu diria que o nosso futuro depende disso.
Post de J. Norberto Pires, professor de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra e CEO da Coimbra Inovação, gamado daqui (os sublinhados são meus).

25/09/08

Porque há coisas que me irritam: o tal de Magalhães que não tem culpa nenhuma

Num país sério – mas também dou de barato que tal coisa não exista – o «Magalhães» seria motivo de debate nacional.
Um debate que não se ficaria pela pacóvia questão de saber se o «Magalhães» é ou não é português [o que é certo é que o outro, o original, fez a célebre viagem de circum-navegação ao serviço do rei de Espanha sabendo de antemão que o mundo era redondo e não nasceu em Sabrosa (segundo investigação levada a cabo e publicada em livro pelo francês Michel Chandeigne)…].
Eu, pessoalmente, gostaria de saber outras coisas. Por exemplo:

1. Porque é que a parceria do governo é feita com a INTEL, multinacional que chegou a ser acusada por Nicholas Negroponte, o criador da iniciativa One Laptop Per Child (OLPC), de concorrência desleal? (Houve em tempos uma parceria entre Negroponte e a INTEL, mas a coisa não durou muito…)



2. Como é que os computadores portáteis vão ser usados nas salas de aulas pelos alunos mais novos e de que modo irão favorecer a sua aprendizagem?
Não me entendam mal. Nada tenho contra o uso da tecnologia. Mas quando estudos em neurologia, como os levados a cabo, por exemplo, pelo Professor Alexandre Castro Caldas, vêm em defesa da memorização da tabuada considerando-a indispensável ao desenvolvimento cognitivo, a pergunta anterior parece-me, no mínimo, legítima.
Estas e outras coisas é que eu gostava de ver discutidas. Para a propaganda tecnocrática, socrática ou outra qualquer, já dei.
Sócrates a vender «Magalhães»: há demonstradores da Bimby menos chatos