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16/12/12

O mundo não é perfeito


Parafraseando o humorista norte-americano Lewis Black: in my lifetime, we’ve gone from Isabel do Carmo, membro das Brigadas Revolucionárias, to Isabel do Carmo, médica endocrinologista. E we’ve gone from Isabel do Carmo, médica endocrinologista, to Isabel Jonet, nutricionista ao serviço da governação. 
Declaração de interesses: nunca recusei contribuir para o Banco Alimentar. 
Dito isto, permito-me citar duas pessoas. Uma é o bispo brasileiro Hélder Câmara: “Quando alimentei os pobres chamaram-me santo, mas quando perguntei por que há gente pobre chamaram-me comunista.”; a outra é Eduardo Galeano, escritor uruguaio que teve a sua boa quota de exílios: “Eu não acredito em caridade. Eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal”. 
Tudo isto devia ser inútil, 51 anos depois de Buñuel ter realizado “Viridiana”, mas, e para retomar Lewis Black, considerada a progressão de políticos… qualquer dia estamos a votar nas plantas… 
Isabel Jonet não faz política profissional, é tão-só uma profissional. Uma profissional da caridade com opiniões fortes. 
Opina, por exemplo, sobre os gregos: “adoram discutir, dificilmente conseguem chegar a uma solução. Gostam tanto de debater e discutir que para eles a tomada de decisões é mais difícil que para outros povos, como os alemães, que são mais práticos e cumprem as decisões, mesmo que sejam incorrectas. Os gregos não, põem tudo em causa… E é muito difícil governar assim”. 
Podemos deduzir, então, sem risco de deturpar as suas palavras, que Isabel Jonet se veria grega se tivesse de governar a Grécia, ao invés da Alemanha onde a coisa seria fácil com um único senão: não foram os alemães que inventaram a democracia. 

09/12/12

Fluxo de consciência

Não é a primeira vez que me acontece. Olhar para o ecrã do computador e, em vez de desatar a preenchê-lo com frases indignadas polvilhadas de ironia (culta, de preferência), perderem-se os olhos na barra de ferramentas que encima a página em branco: Base, Inserir, Esquema de página, Referências, Mailings, Rever, Ver, Pesquisar… 
Juro que não vou copiar todos os incríveis instrumentos de trabalho que o word me proporciona, apesar de uma vez ter lido e gostado de uma novela do Camilo Castelo Branco (não me lembro qual) em que este atestava várias páginas com uma extensa lista de nomes de remédios e mezinhas. O efeito era supermoderno, se não mesmo pós-moderno, embora possamos desconfiar que a inserção de tal lista tenha resultado mais de um bloqueio momentâneo – ou mesmo de uma necessidade pecuniária (pagamento à letra) – do que de uma decisão consciente de furar os cânones vigentes. A necessidade faz o ladrão, if you know what I mean…
Não deixa de ser curioso, todavia, que, com tanta coisa a acontecer, me tenha dado hoje para a falta de assunto. Se eu fosse a Vita Sackville-West, a ausência de inspiração (poética) seria facilmente substituída por algumas frases dedicadas à jardinagem e ficava o caso resolvido, embora a época se apresente mais apropriada à feitura de compotas. Quem diz compotas, diz tricot, mas pelo meio deu-se a libertação da mulher e essas tarefas foram perdendo mais-valia.
Quando eu andava no Ciclo Preparatório, que já não existe, fazíamos botinhas e casaquinhos em lã para os pobrezinhos; agora que a vida está muito mais facilitada, basta-nos entregar um pacote de arroz ou massa aos voluntários do Banco Alimentar… Inegável, porém, é que a caridade perdeu algum encanto pelo caminho. Enfim, será o preço do progresso!