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09/12/22
08/06/22
A UCRÂNIA A CAMINHO DO ESTALINISMO? (e não, não estou a brincar)
O mais do que genial escritor Saul Bellow fez um dia a pergunta provocatória: "Onde está o Tolstoi dos zulus?", pergunta a que aliás o jornalista desportivo Raph Wiley responderia com grande inteligência: "Tolstoi é o Tolstoi dos zulus".
Com as alterações aos programas escolares anunciadas pelo vice-ministro da Educação e Ciência da Ucrânia teme-se o retorno da pergunta de Bellow em versão actualizada pela guerra.
Infelizmente a "Onde está o Tolstoi dos ucranianos?" será impossível responder como o fez Wiley: o escritor russo vai ser banido das escolas na Ucrânia.
Jornal Público, 7 de Junho de 2022
Marcadores:
Andriy Vitrenko,
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Educação,
Guerra na Ucrânia,
livros,
Raph Wiley,
Saul Bellow,
Tolstoi
26/04/12
É Portugal, ninguém leva a mal, mas depois não venham com a treta que eu embirro com o Eduardo Pitta e etc.
Um crítico literário é uma pessoa como as outras. Se
acreditarmos em Empédocles – e não vejo razões para não acreditarmos –, nele se
misturam os quatro elementos constitutivos do mundo – a saber: água, ar, fogo e
terra – tal como acontece a tudo quanto existe no Universo.
Por não ser um ser à parte, encontrando-se, como a
totalidade das coisas existentes, sujeito à Lei do Amor e do Ódio, da União e
da Separação, o crítico literário não tem como fugir à Teoria dos Humores hipocrática. Teremos,
assim, o crítico de temperamento sanguíneo, de temperamento melancólico,
colérico (bilioso) e, finalmente, fleumático.
Num plano ideal, o crítico literário saberá
encontrar o equilíbrio entre estes 4 humores primordiais. Num plano mais ideal
ainda, será capaz de se lançar na cratera do Etna em defesa de um livro.
“O espírito, na verdade, está ansioso, mas a carne é
fraca.” (Mat. 26:41). Assim,
raros são os críticos que alguma vez se lançaram no Etna. Ao invés,
arrebatados pela ignara rebeldia própria das criaturas humanas, muitos são os
que confessam ter cedido à tentação dos versos do poeta: “Ai que
prazer / Não cumprir um dever, / Ter um livro para ler / E não o fazer!”
Pelo seu valor literário, as fraquezas humanas enternecem-me. E
isto vale também para os críticos. Existem, contudo, limites. Um desses
limites, que tenho para mim como axioma, é que um crítico deve, no mínimo, ser
capaz de falar de um livro que não leu.
Sei que a vida está difícil. Não vou armar-me em franciscana
e dizer que dinheiro não tem importância. Nem vou armar-me em wittgensteiniana
e dizer que um ensaio vale um “tuíte”. Concordo que queimar pestanas a ler um volume
denso de mais de 500 páginas devia ser mais valorizado. O facto, porém, é que o
Saul Bellow não tem culpa de a crítica literária ter descido em Portugal ao
nível dos call center.
E nem era preciso ter lido o livro (O Legado de
Humboldt, Saul Bellow, Quetzal) – bastaria talvez ler a contracapa – para saber
que Humboldt nunca esteve “atolado em álcool e dívidas”, nem sofreu nenhum “penoso
processo de divórcio” ou teve “uma amante cara”. Também me parece arriscado
afirmar que “a história de Humboldt tem todos os ingredientes de um thriller
com trânsito por Chicago, Madrid e Paris”, tanto mais que, em 527 páginas, só se
sai, provisoriamente, do “Novo Mundo” na página 440, a 87 páginas do final. Finalmente, bastaria
googlar com mais cuidado, para saber que, n' O Legado de Humboldt, o poeta Delmore Schwartz
não se chama Charlie Citrine, mas precisamente Von Humboldt Fleisher.
O mistério maior para mim, porém, consiste no seguinte: como é que alguém, tendo entre mãos este portento, lhe resiste e o acha ainda assim notável?
Hoje na Sábado escrevo sobre O Legado de
Humboldt, de Saul Bellow
(1915-2005), livro que em 1976 lhe valeu o Pulitzer (ficção) e o Nobel da
Literatura. O romance ficciona a vida do poeta Delmore Schwartz (1913-1966), de
quem a editora Guerra & Paz acaba de publicar a famosa colectânea de contos Nos Sonhos
Começam as Responsabilidades.
Mas pode alhear-se do item Schwartz — que no livro se chama Charlie
Citrine —, porque O Legado de
Humboldt é na realidade um thriller muito bem esgalhado com todos os ingredientes do género (...).
"O leitor pode alhear-se dos envios, que vão de Shakespeare a Edith Sitwell, sem esquecer Diderot, Joyce e outros. Atolado em álcool e dívidas (um penoso processo de divórcio, uma amante cara), a história de Humboldt tem todos os ingredientes de um thriller com trânsito por Chicago, Madrid e Paris. Longe de ser um livro de mexericos, a verrina faz dele um notável romance de ideias."
21/04/12
Vamos lá aproveitar então o tempo livre e febril antes que a virose se vá de vez
Excerto pequenino da obra-prima intitulada O Legado de Humboldt, Saul Bellow, Quetzal, Tradução de Salvato Telles de Menezes
(assim ao calhas, pp 218-219)
"Sentaram-se juntos nos cavaletes de madeira, dois corpos cobertos de gotas de humidade, e o Pai Swiebel disse:
— O que é que fazes na vida?
O homem da barba estava pouco disposto a dizer o que fazia. O Pai Swiebel insistiu com ele para que falasse. Foi um erro. Era, na gíria demencial das pessoas cultas, contra o «ethos» do lugar. Ali, como no Downtown Club, não se falava de negócios. George gostava de dizer que os banhos de vapor eram o último refúgio na floresta em chamas, onde os animais hostis observavam uma trégua e a lei das presas e das garras estava suspensa. Temo que tenha retirado esta comparação de Walt Disney. O aspecto que fazia questão em recordar-me é o de que não estava certo que alguém se ocupasse de negócios ou fizesse ofertas comerciais enquanto se tomavam banhos de vapor. O Pai Swiebel foi responsável pela situação e assim o reconheceu.
— O tipo das barbas não queria conversar. Puxei por ele. Por isso, tive o que merecia.
Num lugar em que os homens estão tão nus como os trogloditas das cavernas do Adriático da Idade da Pedra e se sentam juntos, a pingar e enrubescidos, como o pôr-do-sol através da névoa, e, como no caso vertente, um tem uma barba cerrada, castanha e cintilante, e os olhares se cruzam no meio de ondas de suor e vapor, é muito possível que se fale de coisas estranhas. Acontecia que o desconhecido era uma caixeiro-viajante que vendia criptas, campas e mausoléus. Quando o Pai Swiebel ouviu tal coisa, tentou recuar. Mas já era demasiado tarde. Com as sobrancelhas franzidas, os dentes brancos e lábios expressivos rodeados pela densa barba, o homem disse:
— Já tratou do seu último repouso? Tem uma parcela de família? Já tomou as providências necessárias? Não? E porque não? Pode dar-se ao luxo de tanta negligência? Sabe como o vão enterrar? Impressionante! Já alguém lhe falou das condições dos novos cemitérios? Pois não passam de barros da lata. A morte merece dignidade. A exploração é tremenda. É uma das maiores fraudes imobiliárias que existem. Enganam toda a gente. Nunca dão as medidas estipuladas por lei. Vai jazer encolhido para todo o sempre. A falta de respeito é atroz. Mas já sabe como é a política... e as negociatas. Grandes e pequenos, andam todos a sacar. Um dia destes haverá uma investigação judicial e rebentará o escândalo. Muita gente irá parar à cadeia. Porém, será demasiado tarde para os mortos. Ninguém vai abrir túmulos para enterrar os mortos outra vez. De modo que continuará a jazer na sua tumba tapado com uma diminuta mortalha. Com os pés de fora. Como os miúdos nos acampamentos de Verão. E lá vai ficar, com centenas de milhares de corpos, numa morada definitiva aplanada, de joelhos levantados. Será que não tem direito a jazer com as pernas esticadas? E nesses cemitérios nem uma lápide é permitida. Terá de se contentar com uma placa de latão com o nome e as datas. Depois vêm as máquinas que aparam a relva. Costumam usar aquelas que têm lâminas múltiplas. É como estar enterrado num campo de golfe público. As lâminas riscam as letras do latão, que depressa ficam apagadas. E então deixará de poder ser localizado. Os seus filhos não conseguem encontrar o sítio. Está perdido para sempre...
— Pare! — gritou Myron, mas o homem continuou.
— Num mausoléu é muito diferente. Não custa tanto como se pensa. Estes novos modelos são pré-fabricados, mas são cópias dos melhores, a começar pelos túmulos etruscos, passando por Bernini e acabando na art nouveau de Louis Sullivan. As pessoas agora andam loucas com a art nouveau. Pagam fortunas por um candeeiro Tiffany ou por um lustre. Comparativamente, um túmulo art nouveau pré-fabricado sai barato. E assim uma pessoa distingue-se da multidão. Está no que é seu. Ninguém quer ficar encerrado para toda a eternidade no meio de um engarrafamento de trânsito numa autoestrada ou numa enchente do metropolitano."
(assim ao calhas, pp 218-219)
"Sentaram-se juntos nos cavaletes de madeira, dois corpos cobertos de gotas de humidade, e o Pai Swiebel disse:
— O que é que fazes na vida?
O homem da barba estava pouco disposto a dizer o que fazia. O Pai Swiebel insistiu com ele para que falasse. Foi um erro. Era, na gíria demencial das pessoas cultas, contra o «ethos» do lugar. Ali, como no Downtown Club, não se falava de negócios. George gostava de dizer que os banhos de vapor eram o último refúgio na floresta em chamas, onde os animais hostis observavam uma trégua e a lei das presas e das garras estava suspensa. Temo que tenha retirado esta comparação de Walt Disney. O aspecto que fazia questão em recordar-me é o de que não estava certo que alguém se ocupasse de negócios ou fizesse ofertas comerciais enquanto se tomavam banhos de vapor. O Pai Swiebel foi responsável pela situação e assim o reconheceu.
— O tipo das barbas não queria conversar. Puxei por ele. Por isso, tive o que merecia.
Num lugar em que os homens estão tão nus como os trogloditas das cavernas do Adriático da Idade da Pedra e se sentam juntos, a pingar e enrubescidos, como o pôr-do-sol através da névoa, e, como no caso vertente, um tem uma barba cerrada, castanha e cintilante, e os olhares se cruzam no meio de ondas de suor e vapor, é muito possível que se fale de coisas estranhas. Acontecia que o desconhecido era uma caixeiro-viajante que vendia criptas, campas e mausoléus. Quando o Pai Swiebel ouviu tal coisa, tentou recuar. Mas já era demasiado tarde. Com as sobrancelhas franzidas, os dentes brancos e lábios expressivos rodeados pela densa barba, o homem disse:
— Já tratou do seu último repouso? Tem uma parcela de família? Já tomou as providências necessárias? Não? E porque não? Pode dar-se ao luxo de tanta negligência? Sabe como o vão enterrar? Impressionante! Já alguém lhe falou das condições dos novos cemitérios? Pois não passam de barros da lata. A morte merece dignidade. A exploração é tremenda. É uma das maiores fraudes imobiliárias que existem. Enganam toda a gente. Nunca dão as medidas estipuladas por lei. Vai jazer encolhido para todo o sempre. A falta de respeito é atroz. Mas já sabe como é a política... e as negociatas. Grandes e pequenos, andam todos a sacar. Um dia destes haverá uma investigação judicial e rebentará o escândalo. Muita gente irá parar à cadeia. Porém, será demasiado tarde para os mortos. Ninguém vai abrir túmulos para enterrar os mortos outra vez. De modo que continuará a jazer na sua tumba tapado com uma diminuta mortalha. Com os pés de fora. Como os miúdos nos acampamentos de Verão. E lá vai ficar, com centenas de milhares de corpos, numa morada definitiva aplanada, de joelhos levantados. Será que não tem direito a jazer com as pernas esticadas? E nesses cemitérios nem uma lápide é permitida. Terá de se contentar com uma placa de latão com o nome e as datas. Depois vêm as máquinas que aparam a relva. Costumam usar aquelas que têm lâminas múltiplas. É como estar enterrado num campo de golfe público. As lâminas riscam as letras do latão, que depressa ficam apagadas. E então deixará de poder ser localizado. Os seus filhos não conseguem encontrar o sítio. Está perdido para sempre...
— Pare! — gritou Myron, mas o homem continuou.
— Num mausoléu é muito diferente. Não custa tanto como se pensa. Estes novos modelos são pré-fabricados, mas são cópias dos melhores, a começar pelos túmulos etruscos, passando por Bernini e acabando na art nouveau de Louis Sullivan. As pessoas agora andam loucas com a art nouveau. Pagam fortunas por um candeeiro Tiffany ou por um lustre. Comparativamente, um túmulo art nouveau pré-fabricado sai barato. E assim uma pessoa distingue-se da multidão. Está no que é seu. Ninguém quer ficar encerrado para toda a eternidade no meio de um engarrafamento de trânsito numa autoestrada ou numa enchente do metropolitano."
20/04/12
19/04/12
22/09/11
Eduardo Pitta descobriu que, afinal, Sócrates não era o salvador da pátria... e em seguida foi comer profiteroles
O blogger Eduardo Pitta não faz a coisa por menos: "a Europa está à beira da implosão" e Portugal "não conta no desenho do novo Reich".
Seguro do seu radicalismo apocalíptico que, garante, será revelado ao mundo no prazo de 15 dias ou, pelo menos, até ao Natal, conclui que andamos a perder tempo com miudezas: "o governo que está é irrelevante. Este ou qualquer outro (menos acriançado)".
O itálico é dele e os profiteroles também. É o que dá, dez anos depois, querer imitar o estilo mordaz, seco e inimitável de Bellow.
Como diria (e disse), a propósito de Mark Steyn, Martin Amis (escritor igualmente mordaz e seco e com a grande vantagem de ter convivido longamente com Bellow antes de este ter morrido): "dei por mim a decidir que o sentido de decoro do Sr. [Pitta] deverá ser quase inumanamente escasso."
08/03/11
A book a day keeps the doctor away: "Jerusalém Ida e Volta", Saul Bellow
Nunca a Saul Bellow (1915-2005) poderiam ser atribuídos os versos de Rimbaud: Par délicatesse/ J'ai perdu ma vie.Polemista, cinco casamentos e entrevistado temível, Bellow foi exuberante na ficção e nas ideias. Restará para sempre como autor do extraordinário Herzog, mas também da pergunta Quem é o Tolstoi dos Zulus? O Proust dos Papuas? Ficaria feliz por poder lê-los, sobre a qual se explicaria mais tarde, classificando o escândalo provocado pela sua inconveniência de jornalístico, dado a frase ter sido retiradado contexto... (Saul Bellow, como Karl Kraus, não era grande admirador de jornalistas).
Israel, por seu turno, não é tema que se chame para a mesa, a não ser que se queira correr o risco de azedar o jantar.
O resultado da combinação do homem e da sua circunstância (no caso, judeu americano em visita à cidade santa das três religiões monoteístas) deu origem a Jerusalém Ida e Volta, um título datado de 1976, já lá vão, portanto, 35 anos, sem que nada de substancial se tenha alterado.
Escreve Carlos Vaz Marques, no Prefácio, que se trata de um livro político. Certamente. Em Jerusalém seria impossível fugir a isso, além de que Bellow não é um viajante qualquer — o seu coração bate por Israel:
Está-se numa cidade como muitas outras — bem, não exactamente, pois das cidades antigas que já visitei Jerusalém é a única em que as antiguidades não são expostas como relíquias, mas têm um uso diário. Ainda assim, é uma cidade moderna com serviços modernos. Fazem-se compras em supermercados, diz-se bom-dia aos nossos amigos pelo telefone, ouvem-se orquestras sinfónicas na rádio. Mas, de repente, a música pára e dá-se a notícia de uma bomba terrorista. Mais uma explosão em frente de um café na Estrada de Jafa: seis jovens mortos e trinta e oito feridos. Angustiados, pousamos a nossa bebida civilizada. Apreensivos, vamos para o nosso jantar civilizado. Por todo o lado, explodem bombas. Em Londres, usou-se dinamite ainda há pouco tempo. A diferença está no facto de, quando explode uma bomba num restaurante do West End, não se pôr em causa o direito fundamental da Inglaterra à existência.”

Se a política é o fio condutor dos vários textos reunidos, o mais interessante é o enorme talento literário de Bellow a transpirar por todos os parágrafos. É difícil resistir a frases como: A polícia devia ser ‘politizada’ e transformada, na medida do possível, num braço paramilitar e guerrilheiro do governo revolucionário, que o escritor de Chicago remata com Isto é leninismo, puro, sem gelo nem aperitivos.
Como na ficção, também aqui Bellow se mostra capaz de acrobacias estonteantes, passando do tema mais árido ou elevado à comicidade mais livre e inesperada: O julgamento moral, um espectro na Europa, metamorfoseia-se num gigante vigoroso quando se fala de Israel ou dos palestinianos. (…) Como a Suíça está para as férias de Inverno e a costa da Dalmácia para o turismo de Verão, Israel e os palestinianos estão para a necessidade de justiça do Ocidente — são uma espécie de estância moral.
A sua discordância de Sartre — explanada com vigor e ironia — beberá muito dessa recusa em deixar-se levar pelo intelectualismo das ideias, fazendo questão de as chamar à terra. Ou como disse de forma definitiva Allan Bloom (que Bellow imortalizaria em Ravelstein, o seu último romance publicado no ano 2000), he has always understood that even if you are on your way from Becoming to Being, you still have to catch the train at Randolph Street.
O livro é, sobretudo, uma colecção de tipos impagáveis, personagens romanescas desenhadas com profundidade, verdade e compaixão (Philip Roth lembrou uma vez que os retratos do escritor estavam na linha de Rembrandt, uma comparação que vale pelo menos dois doutoramentos em Bellow).
Figuras públicas de topo como Teddy Kollek, presidente da Câmara de Jerusalém, Isaac Rabin, Henry Kissinger, Mahmud Abu Zuluf, editor do jornal árabe de maior tiragem em Jerusalém, etc., mas também John Auerbach, marinheiro kibbutznik que acaba de perder o filho, Moshe, massagista competente que gosta de conversar sobre literatura, Meyer Weisgal, octogenário e pioneiro sionista fundador do Instituto de Rehovoth, Dennis Silk, poeta cansado da guerra…

Enquanto se aguarda a tradução de Letters, compilação da correspondência de Bellow publicada no final do ano passado, este livro é um excelente aperitivo. O tema, dramático, não podia ser ao mesmo tempo mais literário, já que é a própria vida, com as suas contradições, paradoxos, crueldade, beleza, desordem e multiplicidade que se joga naquele pequeno pedaço de terra. Ou como se conta na anedota judaica: Deus guiou o povo eleito no deserto durante quarenta anos, para o conduzir ao único lugar do Médio Oriente onde não petróleo.
Alexandra, à data mulher de Bellow, acompanha-o na viagem. Não é judia e atravessa o livro discretamente, sem chegar de facto a entrar nele. Contudo, ainda a caminho de Jerusalém, o diálogo entre ela e o marido diz tudo sobre a tragicomédia do um conflito que teima em não se resolver.
No avião, a abarrotar de ruidosos hassidim, Alexandra comenta: — Eu gosto deles (…) São tão animados, tão infantis. — Viver com eles não te havia de parecer tão fácil (…) — Mas são tão joviais (…). Adoro aquela roupa. Não consegues arranjar um chapéu daqueles? São lindos. — Não sei se os vendem a gentios.
A vida e Bellow no seu melhor.
Tinta-da-China, 2011, trad. Raquel Moura
15/03/10
Prémio Leya 2009 atribuído ao historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho ― há muito que a literatura é outra coisa
[Uma versão abreviada deste texto foi publicada no semanário Expresso, caderno Actual]À boleia dos versos de Natália ― “ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer”― arriscaria que entre as artes literária e culinária existem certas afinidades electivas. A culinária parte, todavia, em vantagem: os seus ingredientes base podem ser mais ou menos nobres ou mais ou menos variados; a literatura está confinada ao verbo ― alquimia de fracos recursos, vive do mistério que transforma a palavra vulgar em romanesca ou poética.
Nele entrados, terá de obrigatoriamente acontecer aquilo que o nobel J-M G Le Clézio resumiu assim: “Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions ou les obsessions. Cela ne les intéresse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier" (in L'Inconnu sur la Terre). Acrescente-se ao manuseio do verbo o pesado lastro da história da literatura e perceber-se-á que contar (mais) uma história não basta.
João Paulo Borges Coelho tinha uma para contar. Melhor, várias. Escreveu O Olho de Hertzog e venceu o prémio Leya 2009.
O tempo da acção recua ao fim da Grande Guerra, o cenário fica na África Austral (entre Moçambique e a África do Sul), o protagonista é Hans Mahrenholz, um misterioso militar alemão que deambula por Lourenço Marques ― onde se cruza com uma plêiade de personagens, recriadas, umas (como a do jornalista mulato João Albasini de quem o livro reproduz alguns editoriais), ou imaginadas de raiz, outras ―, o cocktail doseado em partes exactas de História e thriller.
Quem é Hans Mahrenholz, chegado num zepelim de onde se atira de pára-quedas em socorro de um exército que já havia perdido a guerra? O que procura ele em Lourenço Marques, disfarçado de inglês sob o nome de Henry Miller? Quem é Rapsides, o homem da cicatriz? E Glück, essa figura sombria à luz da qual se vai desenhando Mahrenholz?
Estas perguntas delimitam o enredo; das respostas, infelizmente, não resulta um grande livro.
Borges Coelho ensaia estratégias conhecidas.
Alternância temática de capítulos (a fuga ao exército português no mato versus peripécias urbanas); alternância da primeira e terceira voz do narrador; tentativa de cruzamento dos tempos da acção dentro de um mesmo plano, vide mesmo parágrafo (de todo não conseguida, sobretudo atendendo a essa obra-prima de Saul Bellow intitulada A Autêntica); recurso hiper-realista a listas de publicidade de época (já ensaiado jocosamente, entre outros, por Camilo, mas que aqui pouco mais é do que um acrescento ornamental), analepses, encontros e desfechos forçados (inverosímeis no registo realista adoptado), inconsistência das personagens (mesmo João Albasini parece uma caricatura)…
Se a isto juntarmos a cacofonia das aliterações, as soluções frásicas duvidosas (“soluços molhados do tempo”, logo na primeira página), uma linguagem que não levanta voo e um esqueleto organizacional à vista, sobra o rigor histórico, o ineditismo do material ficcionado, uma ou outra imagem conseguida ("... caminhando pelos capinzais como se anda nas ruas da cidade, olhando as árvores como se olhasse as montras"), o jogo de identidades (ninguém é quem parece ser num tempo e espaço históricos que se encontram, eles mesmos, pejados de indefinições), e, sobretudo, esse achado delicioso do contabilista A.O. Salazar.
Encerrando o balanço estritamente literário (prémios e negócios à parte), diria que não basta ser historiador para escrever um romance histórico (leia-se Guerra e Paz) e que, em O Olho de Hertzog, Glück perde demasiado para Kurtz, sendo impossível ― além de inadmissível― entrados no século XXI, vir falar de arte literária e ignorar Conrad e Tolstói. Logo os dois. E que dois!
O Olho de Hertzog, João Paulo Borges Coelho, Leya, 2009
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