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04/06/22

GUERRA NA UCRÂNIA: O FASCÍNIO PELA DESGRAÇA

A coragem é uma das qualidades humanas. Mas como todas as qualidades humanas  talvez com excepção do altruísmo e teria de pensar mais sobre isso  depende. Um sacana corajoso fará em princípio mais estragos do que um sacana cobarde. 

Assistir à resistência com que os ucranianos vêm fazendo face à invasão russa não é  coisa de somenos, mas a partir de determinada altura há quem sucumba ao fascínio pela desgraça alheia. Uma derrapagem para a cultura de morte, talvez a servir de contraponto ao tédio de dias tão incessantemente burgueses (de quando a palavra "burgueses" era empregue no seu sentido deplorável). 

Voltando a citar Claudio Magris que citava Joseph Roth que citava o Imperador Francisco José: «as guerras perdem-se». 

 

 

28/07/11

O Ovo da Serpente [que isto de me ter fartado de ver Bergman sempre há-de servir para alguma coisa]



"He never says what he’s thinking. He just charges ahead with all his feelings and he looks so frightened. And I try to tell him that we’ll help each other, but that’s only words for him. And everything I say is useless. The only real thing is fear."
Manuela Rosenberg sobre Abel Rosenberg, in O Ovo da Serpente

23/07/10

Esta canalha merece a procissão do senhor Passos e muito mais até porque: what's the difference?

Se a notícia estiver correcta, o título deste post está correcto: Mais de 700 escolas do 1º ciclo já não abrem em Setembro.
Não sei o que me enoja mais.
1. Se o facto de estas medidas irem ao arrepio de tudo o que o mero bom-senso nos dita em termos de educação de crianças (small is beautiful e que venha um pedadogo iluminado do PS desmentir-me...)
2. Se o blábláblá (meramente economicista, claro, ou pensam que é tudo estúpido?) surgir embrulhado em pretensas preocupações com o bem-estar das ditas.
Acho que é o 2.
Porque como até o mafioso Johnny Caspar percebeu e este PS não percebe porque há muito perdeu a vergonha isto é uma questão de ética!

21/03/10

Is it better to live as a monster, or die a good man? que Scorsese não faz a coisa por menos

Há pelo menos duas coisas que deveriam levar as pessoas a não deixar ir o catolicismo com a água da banheira: os filmes de Martin Scorsese e os livros de Graham Greene.
Shutter Island é novamente sobre esse tema recorrente em Scorsese, as relações do Bem e do Mal mais o que fica no meio.
Perturbador, com um começo absolutamente extraordinário, uma fotografia magnífica e um Leonardo DiCaprio a comprovar que há homens que melhoram imenso com a idade, Shutter Island, na sua ambiguidade, recorda-nos que perante o Mal (essa realidade que há imensa gente a pensar que não existe) se calhar só nos resta sermos ratos ou resistir às cegas, quem sabe em direcção ao sacrifício. Porque das duas uma: ou a ética é fodida ou somos todos psicóticos.
Um filme para cinéfilos adultos.

19/06/09

A propósito da famigerada arrogância de Sócrates gostava de dizer que há arrogantes de quem gosto muito

Para que não restem dúvidas: não me parece que a arrogância seja, em si mesma, um mal. Aliás, poucas coisas me parecem, em si mesmas, um mal.
Daí que eu obedeça a poucos mandamentos. Nunca os contei mas duvido que somados dêem 10...
Esclareça-se: não me sinto moralmente debilitada por isso. Tenho para mim que o que se diz dos pássaros aplica-se na perfeição aos princípios: mais vale um na mão do que dois a voar...
Mas voltando ao assunto deste post.
A arrogância pode ter várias interpretações. Por exemplo, na minha geração se um tipo nascia no Restelo e tratava mal um empregado de mesa era considerado arrogante. Já se nascesse em Alcântara, bairro que fica mesmo coladinho, idêntico comportamento fazia dele um malcriado.
Claro que para o empregado de mesa a diferença residia sobretudo na gorjeta, o que, em determinadas circunstâncias, pode ser uma diferença ENORME.
E é chegados aqui que somos obrigados a concluir que, apesar da aritmética simples do Singer, a ética é um assunto complicado para caraças.
Mas voltando ao assunto deste post.
Insistem alguns em ver na arrogância do primeiro-ministro a razão da sua queda anunciada. O Senhor Comentador, porém, soube pôr o dedo na ferida:
«Sócrates é como é (...) É agressivo? É. É chato? É. Acha que está sempre certo? Acha. Estamos fartos? Estamos. Mas a arrogância é insignificante no meio de tudo isto. As boas maneiras não são para aqui chamadas. O que interessa são as suas decisões. Apenas e só. Se concordamos com elas, pode, para nós, arrogar à vontade. (...) Ou como diria o outro, não é a arrogância. É a política, estúpido».
Plenamente de acordo. Mas permitam-me um acrescento pessoal. Só aos génios se deve conceder o direito à arrogância, nunca aos estúpidos. Eu, pelo menos, oferecer-me-ia sem problemas para servir cafés ao Oscar Wilde e ouvi-lo responder: «Ah! Não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão que estou errado».

01/05/09

A ética, esse empecilho [a incluir na série homens de quem gosto muito]

«Face às críticas dos pais que acusam os inspectores do ME que inquiriram alunos da Secundária de Fafe acerca de uma manifestação contra a ministra de terem utilizado, nos interrogatórios dos jovens, métodos "absolutamente inconcebíveis depois do 25 de Abril" e os terem incitado a acusar e denunciar os seus professores, defende-se a Inspecção-Geral da Educação dizendo que tudo o que fez foi "legal".
Juntamente com o "cumprimento de ordens", a "legalidade" sempre foi (foi-o em momentos sórdidos do século XX e continua a sê-lo) a explicação mais à mão para justificar o injustificável. Como se só o que é ilegal fosse condenável. Os inspectores do ME terão contudo lido Jellinek na Faculdade e saberão que o direito é apenas o "mínimo ético" (e conhecendo nós quem faz as leis, podemos ter uma ideia de quão eticamente mínimo é esse mínimo…).
Ora talvez a um ministério da "Educação" seja exigível, nas relações com escolas e com jovens, um pouco mais ― a não ser que no Ministério se esteja em greve à ética ― que o cumprimento de serviços mínimos éticos. Mas, se calhar, sou eu que estou a ver mal a coisa.»
* A imagem do Miller's Crossing (História de Gangsters, em português) é só porque além do Gabriel Byrne estar lindo nesse filme e de o Albert Finney ser um actor do caraças eu achar que os irmãos Cohen são responsáveis pela melhor história sobre ética jamais passada ao cinema.

27/02/09

Para acabar de vez com o Courbet: a minha definição de pornografia, e sem bonecos

Pornografia é as televisões terem passado a morte de um homem em directo enquanto os portugueses comiam a sopa [mas também ninguém o mandou ser baleado à hora do jantar, não é?], e não só os portugueses terem continuado a comer a sopa como ainda terem comentado à sobremesa que o gajo merecia morrer e mais nada.*
E aposto que, mais coisa menos coisa, serão esses mesmos portugueses que se vêm agora escandalizar porque a senhora que posou para o quadro do Courbet não foi à depilação.
* refiro-me ao assalto à dependência do BES - Campolide em Agosto passado, do qual resultou a morte de um dos assaltantes, que caiu sob o disparo de um atirador especial

08/02/09

Beatices pragmáticas ou dos imigrantes e das suas circunstâncias

Veio a Alta-comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, Rosário Farmhouse, chamar a atenção para o possível agravamento da xenofobia em tempo de crise. Fez muito bem. O que já não consigo perceber é os termos em que o fez.
Num discurso cheio de boas intenções, Rosário Farmhouse deixou cair os motivos para gostar tanto de imigrantes: Sem imigrantes o futuro será bem pior. É graças a eles que vamos conseguindo ter algum equilíbrio demográfico e na balança da segurança social. Mas disse mais, a senhora alta-comissária. Referindo-se directamente aos ingleses, acrescentou: Vamos conseguir demonstrar que somos diferentes e que não vamos fazer aos imigrantes aquilo que actualmente nos estão a fazer no Reino Unido.
Duas perguntas:
a) não devemos ser xenófobos com ninguém, excepto com os malandros dos bifes?
b) que fazer com os imigrantes que não se reproduzam ou que estando, por exemplo, doentes ou no desemprego, emperrem a balança?
Resumindo: há umas senhoras que na sua infinita indulgência me lembram demasiado a Cilinha, a tal que referindo-se à especificidade do colonialismo português e seus pretinhos ainda hoje jura a pés juntos: "Nós [portugueses] éramos fantásticos. Os outros tratavam-nos a chicote, como bichos. A nossa África era completamente diferente. Eles ainda hoje têm saudades".
E a isto também se podia chamar beatice chic e update.

30/01/09

A propósito da bondade da coragem, tão sobrestimada por estes dias ― da série "I'm talkin' about ethics" [e sim, é uma piada, mas não revisionada]

G. K. Chesterton escreveu em tempos que «A palavra "bom" tem muitos significados. Por exemplo, se um homem matasse a mãe com um tiro a quinhentos metros de distância, eu teria de o considerar um bom atirador, mas não necessariamente um homem bom».
in Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar..., Thomas Cathcart e Daniel Klein, Dom Quixote

28/01/09

Estaline varria a malta do retrato depois de lhes limpar o sarampo, o PS só muda textos online: graças a deus vivemos em democracia

OU (título alternativo): ninguém tem culpa da família onde nasce, mas alguém devia ter lavado a boca com sabão a Sócrates em pequenino
OU (título alternativo ao alternativo): como eu abomino trafulhas!

Não há alternativa a Sócrates... e nunca uma frase foi tão insistentemente repetida.
Dizia o pragmático Goebbels que «uma mentira repetida muitas vezes transforma-se numa verdade». Mas, de facto, quem para substituir José Sócrates?
Enquanto a pergunta continua à procura da resposta, a política (a dele e a dos outros) vai-se afundando na sua própria trampa, com a ajuda de uma crise que não pára de empurrar gente para o abismo.
De um lado, uma oposição metida até ao colarinhos (brancos) em negócios obscuros; do outro, um alucinado que em tudo vê sucesso e vê progresso. Pelo meio, descontadas as fórmulas passadistas, temos os tais que clamam que não há alternativa.
Confesso-me baralhada. Acredito que a realidade, que pode mais, há-de acabar por solucionar o imbróglio. Não sei se a nosso favor. Espero que sim. Espero, sobretudo, que nos poupe ao número dos Messias. Com ou sem bigodinho.
E vem este curto desabafo a propósito do tão falado Relatório, da OCDE só de nome. Apresentado com pompa e circunstância pelo primeiro-ministro, como prova de que até «lá fora» lhe reconheciam o mérito, era afinal um estudo encomendado e pago pelo próprio Governo, realizado sem transparência e sem independência.
Se isto fosse um país decente, a aldrabice teria nome; sendo um «sítio mal frequentado», o PS fez apenas o seguinte: substituiu, na sua página na NET, o texto em que se afirmava ― preto no branco ― que o Relatório era da OCDE por um outro em que se refere apenas «um estudo sobre política educativa». Se formos tentar ler o primeiro, evaporou-se do site, sem nenhuma explicação. Mas se fizermos a busca online, em cache ele lá aparece. Transcrevo:


Relatório da OCDE elogia politica de Educação do Governo PS
27-Jan-2009
O primeiro-ministro elogiou a forma como a ministra da Educação resistiu às dificuldades e incompreensões, considerando lamentável a atitude da oposição que diz que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas.
No encerramento da cerimónia de apresentação do relatório da OCDE sobre política educativa para o primeiro ciclo (2005-2008), José Sócrates declarou que "valeu a pena resistir, não desistir, enfrentar as dificuldades. Este é o caminho para o sucesso". Elogiando a ministra da Educação, o primeiro-ministro recordou as "dificuldades" e incompreensões que as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues têm enfrentado ao longo dos últimos anos, concluindo que "valeu a pena".
José Sócrates lembrou também algumas das reformas levadas a cabo nos últimos anos no primeiro ciclo, como o encerramento de escolas com poucos alunos e sem condições, o alargamento do horário de funcionamento dos estabelecimentos ou a introdução do inglês. "Foi uma reforma muito importante para este Governo, como foi para mim", defendeu.
Na sua intervenção, o primeiro-ministro criticou ainda a oposição, lamentando que digam que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas. "Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", afirmou, sublinhando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".



José Sócrates elogia resistência da ministra da Educação
27-Jan-2009
O primeiro-ministro elogiou a forma como a ministra da Educação resistiu às dificuldades e incompreensões, considerando lamentável a atitude da oposição que diz que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas.
No encerramento da cerimónia de apresentação de um estudo sobre política educativa para o primeiro ciclo (2005-2008), realizado por peritos internacionais independentes, José Sócrates declarou que "valeu a pena resistir, não desistir, enfrentar as dificuldades. Este é o caminho para o sucesso". Elogiando a ministra da Educação, o primeiro-ministro recordou as "dificuldades" e incompreensões que as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues têm enfrentado ao longo dos últimos anos, concluindo que "valeu a pena".
José Sócrates lembrou também algumas das reformas levadas a cabo nos últimos anos no primeiro ciclo, como o encerramento de escolas com poucos alunos e sem condições, o alargamento do horário de funcionamento dos estabelecimentos ou a introdução do inglês. "Foi uma reforma muito importante para este Governo, como foi para mim", defendeu.
Na sua intervenção, o primeiro-ministro criticou ainda a oposição, lamentando que digam que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas. "Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", afirmou, sublinhando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".
Resumindo, e para citar Johnny Caspar, o mafioso italiano com que abre Miller's Crossing: «I'm talkin' about ethics».

16/12/08

Non flere, non indignari, sed intellegere*


O vice-presidente norte-americano Dick Cheney veio defender publicamente a prática da tortura como forma de obter confissões. Quando interrogado sobre o "afogamento", o grande arquitecto da guerra do Iraque disse concordar com o método.
A questão da tortura coloca graves problemas morais. O mais óbvio é o da proporção: se um prisioneiro recusar confessar onde vai decorrer um atentado que levará à morte um determinado número de inocentes, será legítimo recorrer à tortura como forma de prevenir a mortandade?
Quem tiver uma visão utilitária da moral, dificilmente poderá responder pela negativa. Mas e se a ética não for uma pragmática, tão-só o que nos salva da barbárie?
*Não chorar, não se indignar, mas compreender, Espinosa

15/04/08

Peter Singer: a propósito de certas coisas relacionadas com a ética

Não é líquido que os apoiantes do Sim do último referendo tivessem querido Peter Singer do seu lado. Ao contrário da tibieza de muitos dos defensores da despenalização, quando chamados a pronunciar-se sobre se abortar equivalia ou não a matar um ser humano, o filósofo australiano não hesita: «A comparação que fiz entre o aborto e o infanticídio foi motivada pela objecção segundo a qual a posição [favorável] que tomei sobre o aborto também justificava o infanticídio. Aceitei a acusação – sem considerar essa aceitação fatal para a minha posição – até ao ponto em que o mal intrínseco de matar o feto já desenvolvido e o mal intrínseco de matar um recém-nascido não são nitidamente diferentes», pág. 176 de Escritos Sobre uma Vida Ética.
Para se entender esta posição de Singer será preciso clarificar algumas das suas permissas morais. A primeira consiste em opor-se à «santidade da vida», conceito que, segundo ele, está em larga medida subjacente ao princípio «não matarás»:
«Não acredito na existência de Deus. Logo, rejeito a ideia de que cada ser humano é uma criatura de Deus», pág. 332. Singer nega também que a vida de um membro da nossa espécie tenha um valor especial: «[no] Génesis, encontramos a ideia (...) que Deus criou os humanos à sua imagem e lhes conferiu o domínio sobre todos os animais. Desde Darwin, pelo menos, temos conhecimento de que isso é factualmente falso (...)», idem.
Contestado o sexto mandamento e o carácter «especial» da espécie humana, o filósofo mais polémico da actualidade propõe como princípio ético uma regra simples, qual ovo de Colombo: prover ao mínimo sofrimento possível de todos os seres que sejam capazes de sentir dor. A regra aplica-se, assim, a outras espécies, e deriva directamente da circunstância do princípio moral da igualdade não assentar em questões de facto: assim como a igualdade entre os homens não depende da sua maior ou menor inteligência, força física, etc., também o princípio da igualdade entre nós e as outras espécies não depende, comparativamente, da nossa maior complexidade. Citando um dos seus mentores, Jeremy Bentham, Singer interroga, referindo-se aos animais: «A questão não é “Serão eles capazes de raciocionar?”, nem sequer “Serão eles capazes de falar?”, mas sim “Serão eles capazes de sofrer”?», pág.49.
Para regressarmos ao tema inicial deste texto – a legitimidade do infanticídio – que salto (os seus detractores chamar-lhe-iam salto mortal) terá de dar um paladino dos direitos dos animais, vegetariano assumido, para passar da sua simpatia não «especista» à consideração da possibilidade da morte de crianças?
O salto poderá ser mortal mas não é longo. Tendo postulado que «o facto de uma criatura ser humana, no sentido de pertencer à espécie Homo sapiens, não é relevante para determinar se é errado matá-la», Singer relembra que «são as características do ser individual que pode ser morto» que devem ser pesadas. Por exemplo, «os seus próprios desejos de continuar a viver ou o género de vida que poderá vir a ter». Daí infere que a criança, até uma idade variável, sendo um ser senciente mas não consciente (sente mas não é sujeito), não «possui um direito à vida tão forte como os seres capazes de se reconhecerem a si próprios como entidades distintas que persistem no tempo». A segunda ilação, apoiada num raciocínio similiar ao que estabelece para defender a eutanásia (igual a menos sofrimento), impõe que crianças nascidas com deficiências que lhes perspectivem uma vida miserável possam ser ajudadas a morrer. O caso complica-se quando se está perante crianças portadoras de doenças menos dástricas, mas cuja permanência em vida impedirá os pais de dar à luz uma outra, não deficiente. Após uma contabilidade algo mórbida conclui: «Quando a morte de uma criança deficiente conduz ao nascimento de uma outra com melhores perspectivas de levar uma vida feliz, a soma total de felicidade será maior caso a criança deficiente seja morta», pág.202.
A questão do infanticídio não esgota Escritos sobre uma Vida Ética, que contém ainda relatos autobiográficos de Singer e se estende à ecologia, política, bioética e solidariedade social. Boa introdução à obra deste pensador (os artigos são retirados de vários dos seus livros), a primeira nota que sobressai é a inteligência do próprio, actualmente o mais afamado representante do Utilitarismo, corrente que, grosso modo, pugna por uma ética normativa que faz depender os postulados morais das suas consequências. Mas se as posições que defende chegam revestidas de uma consistência férrea e me parece disparatado apelidá-lo, como alguns insistem, de «Professor Morte» ou nazi, não deixa de ser verdade que a sua lógica moral-dedutiva como que deixa de fora a vida mesma, com o que ela tem de anárquico, incongruente, pungente e compassivo. Talvez Peter Singer, como é próprio dos filósofos, sofra, afinal, da Doença do Pensamento. Ainda assim, absolutamente fascinante.
Escritos Sobre uma Vida Ética, Peter Singer, Dom Quixote, 2008