Mostrar mensagens com a etiqueta Temas fracturantes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Temas fracturantes. Mostrar todas as mensagens

10/05/10

Eu sou do tempo do direito à preguiça e por isso estou-me nas tintas para a visita do papa

Sou insuspeita. Não me ficará bem ser eu própria a dizer isto, mas é verdade. Não gosto deste Papa, como não gostava do outro (ainda menos). Por princípio, não gosto de gente que nunca se engana. Começa a irritar-me, contudo, o sururu feito à volta da sua visita a Portugal. Sobretudo quando se alicerça numa coisa tão bacoca como o escândalo da tolerância de ponto. Eu sou do tempo em que se lia Paul Lafargue e se levava a sério a preguiça. Aos funcionários públicos indignados com o facto de não poderem trabalhar, sugiro que em vez de abaixos-assinados se apresentem ao serviço, como na tropa. E se não os deixarem servir a pátria, que se acorretem aos edifícios fechados e exibam cartazes a dizer não sou católico, deixem-me trabalhar. Se bem me lembro, foi uma frase de Cavaco Silva que ficou famosa nos idos de 90. É ver o resultado.
E numa coisa estou com o Papa. Ele não é deste mundo e eu também não.

27/04/10

Como os temas fracturantes me aborrecem um bocadinho e de momento não estou virada para o Lenine nem para a Comissão de Ética tomem lá o Brendan Behan

"Não faz sentido falar de homossexualidade como se fosse uma doença. Já vi pessoas com homossexualidade, tal como já vi pessoas com tuberculose, e não há qualquer tipo de semelhança.
A minha atitude em relação à homossexualidade é muito semelhante àquela mulher que, aquando do julgamento de Oscar Wilder, disse que não se importava com o que faziam, desde que não o fizessem na rua e não assustassem os cavalos."
in Nova Iorque, ed. Tinta da China

26/04/10

Como os temas fracturantes me aborrecem um bocadinho e de momento nada tenho a dizer roubei este post à Morgada de V. em troca de um éclair

Portugueses e portuguesas, cidadãos e cidadãs comunitárias (os)estrangeiros e estrangeiras de países terceiros, apátridas & apátridos, e todos & todas quantas/os lêem este/a magnífico/a post(a)

Por razões que se prendem com o meu passado de resistente anti-guterrista, embirro com a mania de feminizar os plurais, tanto com a escola que defende o desdobramento em feminino e masculino, como com a que troca os o’s pelos @’s. Isto é uma embirração mansa que não justifica uma tomada de posição do Paulo Jorge Vieira, e só falo no assunto porque ontem recebi um email da minha própria irmã a convidar-me, a mim e a outros & outras, para uma cena vagamente alternativa na qual “todos e todas são bem-vindos(as)”, não fossem as todas achar que era uma cena só para todos ou os todos que isto é tudo deles. Passado o choque inicial (a minha própria irmã, educada nas mesmas escolas que eu!), estivemos a trocar ideias sobre o assunto no chat do Gmail. Ela diz que a linguagem é tributária da sociedade patriarcal em que vivemos, e que “enquanto não se encontrar outra solução”, acha “ofensivo” não precisar o género feminino sempre que o plural seja opressivamente masculino. Em suma, há que chamar os bois pelos nomes (e as vacas, acrescento eu). Aqui a comunicação foi cortada, o que me impediu de desenvolver esta linha argumentativa, mas soube pela minha irmã mais nova (que não andou nas mesmas escolas que eu mas herdou o meu extraordinário bom-senso, e também se riu do disparate) que o incidente abalou a sororidade que me une à minha outra irmã. Não sei como vou dizer isto aos meus pais, mas acho que a irmã que frequentou as mesmas escolas que eu, e que até há pouco tempo se regia pelas mesmas regras gramaticais, foi raptada por extraterrestres (ou extraterrestras). No entretanto, enviei à pessoa (homem, mulher ou transgénero) que usurpou o email dela (e provavelmente o Facebook também) esta crónica já antiga do Arturo Pérez-Reverte – que tem, mutatis mutandis, ideias com interesse, mas não parece ter ajudado muito os/as coisos/as.

07/12/09

Gostar de [alguns] homens: e que se lixe o feminismo pequeno-burguês de fachada socialista

DAS DIFERENÇAS ENTRE O NASCIMENTO DO AMOR NOS DOIS SEXOS

(...) Como dezanove, em cada vinte dos seus devaneios habituais [das mulheres], são relativos ao amor, esses devaneios, depois da intimidade, acabam por se agrupar em torno de um só objecto; prestam-se a justificar um comportamento extraordinário, decisivo e contrário às regras do pudor. Nos homens esse trabalho não existe; em seguida, a imaginação das mulheres disseca à-vontade esses instantes tão deliciosos.
Como o amor faz duvidar das coisas mais comprovadas, a mesma mulher que, antes da intimidade, estava tão segura de que o seu amante era um homem acima do vulgar, mal julga não ter mais nada a recusar-lhe, treme ao pensar que ele poderá tê-la procurado apenas para acrescentar mais uma mulher à sua lista.
Só então surge a segunda cristalização que, porque acompanhada pelo medo, é de longe muito mais forte.
(Esta segunda cristalização não existe nas mulheres fáceis que estão bem longe de todas estas ideias romanescas)
Uma mulher acredita ter passado de rainha a escrava. Este estado de espírito e de alma é ajudado pela embriaguez nervosa nascida dos prazeres tanto mais sensíveis quanto mais raros. Uma mulher, no seu ofício de bordar, trabalho insípido que apenas ocupa as mãos, sonha com o seu amante, enquanto este, a galope na planície com o seu regimento, é posto sob prisão se origina um passo em falso.
Estou em crer, pois, que a segunda cristalização é muito mais forte nas mulheres porque o receio é mais vivo; a vaidade, a honra estão comprometodas ou, pelo menos, as distracções são mais difíceis.
Uma mulher não se pode guiar pelo hábito de ser racional, esse hábito que eu, homem, adquiro obrigatoriamente no meu escritório trabalhando seis horas todos os dias em coisas frias e racionais. Mesmo fora do amor, as mulheres tendem a entregar-se à imaginação e à exaltação habitual; o desparecimento dos defeitos do objecto amado deve ser, pois, mais rápido.
As mulheres preferem a emoção à razão; é muito simples: como, em virtude dos nossos limitados costumes, elas não têm a seu cargo nenhuma responsabilidade familiar, a razão nunca lhes serve para nada, nunca lhe acham qualquer préstimo.
Ao invés, é-lhes sempre prejudicial, já que apenas surge para as censurar de terem tido um prazer ontem, ou para lhes ordenar que não tenham nenhum amanhã.
Entregue à sua mulher os negócios com os rendeiros de duas das suas terras, e aposto que os registos serão melhor cuidados do que por si, e nessa altura, triste déspota, terá pelo menos direito a queixar-se, já que não tem talento para se fazer amar. A partir do momento em que as mulheres levam a cabo raciocínios gerais, elas fazem amor sem se aperceberem. Nas coisas de pormenor, pretendem ser mais severas, mais exactas do que os homens. Metade do pequeno comércio está entregue às mulheres, que dele se ocupam muito melhor do que os seus maridos. É uma máxima conhecida que quando se fala com elas de negócios, toda a gravidade é pouca.
É que elas estão sempre, e seja onde for, ávidas de emoção: vejam-se os festejos dos funerais na Escócia.

in Do Amor, Stendhal, Relógio D'Água, 2009 (com algumas alterações na tradução introduzidas por moi-même)
[boneco daqui]

02/12/09

Ainda a Ben-U-Ron comprimidos, passe a publicidade, passo só para dizer uma coisa: estou com a Aminetu Haidar * e quero que os minaretes se lixem

Porque, afinal, sobre os minaretes já tudo foi dito aqui e melhor é impossível:
... lá proibiram os minaretes na Suíça. O mundo está cheio de gente que odeia mulheres.

* clicar na foto de Aminetu Haidar na coluna da direita deste blog, sff
[Entretanto, A Amnistia Internacional - Portugal convocou todos defensores dos Direitos Humanos para uma VIGÍLIA de SOLIDARIEDADE com AMINETU HAIDAR, a realizar 5.ª Feira, dia 3 de Dezembro, entre as 18h30 e as 20h00, na Av. da Liberdade, frente ao Consulado na Espanha, junto ao monumento de Homenagem aos Mortos da 1.ª Guerra Mundial]

12/08/09

Rir é civilização, caraças! [frase roubada a um amigo monárquico]





Eu, que republicana me confesso, dedico o hino aí de cima aos valentes rapazes monárquicos que tentaram derrubar a república munidos só de um escadote. Sobretudo pelo escadote, mas também na esperança que, seja qual for o regime, deixem de escrever há 99 anos atrás e um acto de resistência contra.

13/04/09

Se não sabe porque é que pergunta?

Chamada de capa da revista feminina "Máxima" catrapiscada enquanto me abastecia da dose diária de nicotina: Está preparada para o seu filho casar com outro homem?

17/02/09

Serão os proponentes do casamento gay tão conservadores como os seus antagonistas? [e façam favor de não se pôr aos gritos, é só para elevar o debate]

It’s better to marry than burn with passion, declared St Paul. But now marriage itself seems to have become a burning issue ― or at least, gay marriage.
The re-banning of gay marriage in California earlier this month with the passage of Proposition 8 has been presented by gay marriage advocates as a vicious body-blow for gay rights. Angry gay people and their allies have protested across the US, some reportedly even rioting. The timely release of the Gus Van Sant movie Milk, about the murder in 1977 of Harvey Milk, the US’s first out elected official, has fuelled the sense of gay outrage and defiance. Surely only a hateful bigot like the one that gunned down Harvey would be opposed to gay marriage?
Gay marriage is the touchstone of gay equality, apparently. Settling for anything less is a form of Jim Crow style gay segregation and second-class citizenship.
But not all gays agree. This one for instance sees gay marriage not so much as a touchstone as a fetish. A largely symbolic and emotional issue that in the US threatens to undermine real, non-symbolic same-sex couple protection: civil unions bestow in effect the same legal status as marriage in several US states ― including California. As a result of the religious right’s mobilisation against gay marriage, civil unions have been rolled back in several US states.
Perhaps the lesson of Proposition 8 is not that most straight people think gay people should sit at the back of the bus, but that if you take on religion and tradition on its hallowed turf ― and that is what marriage effectively is ― you’re highly likely to lose. Even in liberal California.
Maybe I shouldn’t carp, living as I do in the UK, where civil partnerships with equal legal status to marriage have been nationally recognised since 2004. But part of the reason that civil partnerships were successfully introduced here was because they are civil partnerships not “marriages” (the UK is a much more secular country than the US, and somewhat more gay-friendly too ― but even here gay marriage would almost certainly not have passed).
At this point I’d like to hide behind the, erm, formidable figure of Sir Elton John, who also expressed doubts recently about the fixation of US gay campaigners on the word ‘marriage’, and declared he was happy to be in a civil partnership with the Canadian David Furnish and did not want to get married. Needless to say, Mr John wasn’t exactly thanked for speaking his mind by gay marriage advocates.
But amidst all the gay gnashing of teeth about the inequality of Proposition 8 it’s worth asking: when did marriage have anything to do with equality? Respectability, certainly. Normality, possibly. Stability, hopefully. Very hopefully. But equality?
First of all, there’s something gay people and their friends need to admit to the world: gay and straight long-term relationships are generally not the same. How many heterosexual marriages are open, for example? In my experience, many if not most long term male-male relationships are very open indeed. Similarly, sex is not quite so likely to be turned into reproduction when your genitals are the same shape. Yes, some gay couples may want to have children, by adoption or other means, and that’s fine and dandy of course, but children are not a consequence of gay conjugation. Which has always been part of the appeal for some.
More fundamentally who is the “man” and who is the “wife” in a gay marriage? Unlike cross-sex couples, same-sex partnerships are partnerships between nominal equals without any biologically, divinely or even culturally determined reproductive/domestic roles. Who is to be “given away”? Or as Elton John, put it: I don’t wanna be anyone’s wife.
It’s increasingly unclear even to heterosexuals who is the “man” and who is the “wife”, who should cleave to the other’s will and who should bring home the bacon. That’s why so many today introduce their husband or wife as “my partner”. The famous exception to this of course was Guy Ritchie and his missus, Madonna - and look what happened to them. Pre-nuptial agreements, very popular with celebs (though not, apparently, with Guy and Madonna), represent the very realistic step of divorcing before you get married ― like plastic surgery, this is a hard-faced celeb habit that’s going mainstream.
If Christians and traditionalists want to preserve the “sanctity” of marriage as something between a man and a woman, with all the mumbo jumbo that entails, let them. They only hasten the collapse of marriage. Instead of demanding gay marriage, in effect trying to modernise an increasingly moribund institution, maybe lesbian and gay people should push for civil partnerships to be opened to everyone, as they are in France ― where they have proved very popular.
I suspect civil partnerships, new, secular, literally down-to-earth contracts between two equals, relatively free of the baggage of tradition, ritual and unrealistic expectations, would also prove very popular with cross-sex couples in the Anglo world at a time when the institution of marriage is the most unpopular it’s ever been among people who aren’t actually gay. Yes, cross-sex couples can have civil marriage ceremonies, but they’re still marriages, not partnerships. If made open to everyone, civil partnerships might eventually not just be an alternative to marriage. Marriage might end up being something left to Mormons.
Perhaps my scepticism about gay marriage and marriage in general is down to the fact that I’m terminally single. Perhaps it’s all just sour grapes. Or maybe I prefer to burn with passion than marry. After all, St Paul’s violently ascetic world-view which regarded marriage as a poor runner-up to chastity, also ensured that the Christian Church would burn sodomites like kindling for centuries.
Either way, I think it needs to be mentioned amidst all this shouting about gay domesticity that, important as it is to see lesbian and gay couples recognised and given legal protection, probably most gay men (though probably not most lesbians) are single and probably will be single for most of their lives. With or without civil partnerships/unions. Or even the magical, symbolic power of gay marriage.
[Roubado daqui, passando por aqui a partir daqui]

12/12/08

A guerra das cruzes sob o embalo do Alfa

Não sou cristã. Suponho que, mais coisa menos coisa, pelas razões que Bertrand Russell anunciou em 1927 (digo suponho porque há muito que não leio Why I Am Not a Christian). Quanto ao Ser Supremo, gosto de o imaginar algures entre o que disse Hemingway quando lhe perguntaram se acreditava em Deus – «À noite, no escuro, às vezes» – e a teologia solitária de Espinosa. Será um paradoxo, mas é assim.
O meu pai é ateu convicto, daqueles que têm como livro de cabeceira O Drama de Jean Barois. Eu não chego a tanto, não porque algo me convença do contrário, mas tão-só pelo défice de imaginação que me parece impregnar o ateísmo. Dito isto, não acredito em deuses de carne e osso, virgens engravidadas por pombas e muito menos em fogueiras como método de conversão. Cá em casa, as minhas filhas mais velhas chegaram a discutir se Cristo morrera enforcado ou levado por uma bala. Preferi não intervir no debate, que era aceso, e deixei passar o anacronismo da pólvora. Isto porque não gosto de cruzes, como terão percebido. Apesar disso, há guerras que não compro. Não compro, por exemplo, guerras fracturantes contra as ditas. Há quem faça questão nisso.
Sentado atrás de mim vinha um desses. Vivia em Monchique e não consegui perceber se era imigrante regressado com pronúncia enviesada, se estrangeiro convertido à língua camoniana. Tinha um filho que andara na escola primária em plena serra algarvia. Pelo que consegui ouvir, agora frequentava o ciclo. Em Monchique, o meu companheiro do Alfa indignara-se com o crucifixo pendurado na sala de aula. Fizera uma exposição. O Estado é laico e o Estado laico respondera-lhe que o estabelecimento devia agir em conformidade. Mais não lhe responderam. Depois soube da visita programada de um bispo e aí adoptara formas de luta mais firmes: Através de um amigo fiz saber à Fernanda Câncio o que se estava a passar. Os jornalistas apareceram e aquilo não ficou assim.
Continuo sem perceber a parte do «aquilo não ficou assim». Agora que religião é cultura, do contrário ninguém me convence. Apesar de Ockham, Giordano Bruno, Galileu e muitos mais. E, também por eles, nunca me apanharão em cruzadas. Por muito que abomine cruzes.