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12/08/22

A MEDITAÇÃO DE SEXTA: «AS BOAS INTENÇÕES»

«Creio que foi no livro onde se reúnem as conversas travadas entre Marguerite Yourcenar e Matthieu Galey durante longos anos (De Olhos Abertos, Relógio d’Água, 2011) que li, apadrinhada pela autora do extraordinário A Obra ao Negro, a seguinte ideia: temos a obrigação moral de morrer menos estúpidos do que nascemos.

Yourcenar dizia-o, claro, de modo mais sofisticado, decerto mais luminoso. Trata-se de um propósito nobre. Tanto mais nobre, quanto inútil. Porque quando pensamos estar quase, quase, mesmo quase a ficar menos estúpidos (ou seja, mais gregos e socráticos…), Bumm! Crash! Palft! FIM e lá vamos nós navegando Lethes fora com a Ceifeira ao leme.

O facto de a sabedoria não ser transmissível de pais a filhos é porventura a prova maior de que isto da Natureza não é coisa tão perfeita como pintam. Ciclos de vida que se repetem a uma velocidade exasperante de tão lenta, sem, pelo menos que se dê por isso, escapar ao eterno retorno, quando não em movimento retrógrado ou, para recorrer a justo estrangeirismo, séculos e séculos a transitar du pareil au même enquanto o Sol arrefece. Torna-se cansativo. (...)

Voltemos a Yourcenar (...). Apesar da lentidão da espécie, diz-nos ela, há que morrer menos estúpido. O que passará, suspeito, por refrear ímpetos, regrar o voluntarismo e conseguir ver para além da árvore, o mundo. E que não nos preocupemos demasiado com o abandono de princípios. Como também escreveu: “É no momento em que rejeitamos todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos” (Alexis ou Tratado do Vão Combate, Difel, 1988).

Por fim, uma última pergunta: Nancy Pelosi já passou dos 80, não passou?»

31/07/11

A book a day keeps the doctor away: "De Olhos Abertos", Marguerite Yourcenar

Foi publicado pela primeira vez entre nós em 1984, quando se lia muito Marguerite Yourcenar (1903-1987), e acompanhou-me em várias noites de insónia. A Relógio D’Água acaba de disponibilizar novamente De Olhos Abertos, em tradução assinada por Renata Correia Botelho.
O livro consiste numa longa conversa com o francês, entretanto desaparecido, Matthieu Galey, e a autora de Memórias de Adriano acabaria por não apreciar o resultado. Teria as suas razões, mas para nós, leitores de De Olhos Abertos, o livro é uma dádiva. Desde logo, de inteligência.
Matthieu Galey organizou-o tematicamente e os muitos capítulos tanto cobrem a obra literária da escritora de origem belga (os muitos títulos, influências maiores, etc.), como a sua vida pessoal, sem deixar de lado as convicções de Yourcenar sobre temas tão variados como política, ecologia, feminismo ou religião.
Para quem está familiarizado com os livros da única mulher até agora aceite na Academia Francesa (um facto a que se atribuirá maior ou menor importância), estas entrevistas talvez despertem o desejo de reler coisas tão perfeitas como A Obra ao Negro ou Golpe de Misericórdia. Para os que desconhecem Marguerite Yourcenar, trata-se de uma excelente introdução.
Aristocrata de nascimento e, sobretudo, de espírito, talvez corra, contudo, o risco de ser mal interpretada. Conservadora e absolutamente livre (tanto quanto o poderá ser um ser humano), Yourcenar é uma escritora moral que bebe nos grandes clássicos e na grande literatura e cujas posições — eticamente exigentes e politicamente independentes — talvez pareçam desfasadas num tempo que saiu por aí a galope.
Pomposa, por vezes; simples, quase sempre, deixa-se colar neste livro à frase que fez dizer ao Imperador Adriano: “A verdade é sempre um escândalo”.

De Olhos Abertos, Marguerite Yourcenar, 2011, Relógio D’Água

17/03/10

Parábola budista a propósito de Sócrates ter tomates [até, ao que parece, quando lhe trocam o nome]

Li este conto zen há muitos anos. Num livro de entrevistas a Marguerite Yourcenar. Seria mais ou menos assim.
Um monge que vivia retirado do mundo conseguira, após uma vida inteiramente dedicada à Meditação, caminhar sobre as águas. Um dia, passeando-se pela floresta à beira rio, encontrou Buda.
― Mestre! Mestre! ― gritou o monge para o Iluminado ― Ao fim de tanto tempo seguindo os teus ensinamentos, jejuando, castigando o corpo, negando as paixões, pois vê do que sou capaz.
E atravessou o rio para a outra margem sem sequer molhar os sapatos. No regresso, Buda perguntou-lhe:
― Quanto tempo demoraste a conseguir caminhar assim sobre as águas?
― Uma vida inteira. Cerca de quarenta anos.
― E porque gastaste tu quarenta anos numa coisa que, de barco, te demoraria nem cinco minutos?

Lembro-me sempre desta história quando me falam indiscriminadamente de coragem. E a muitos tenho ouvido falar da "coragem" de Sócrates perante "tantos ataques" [agora, até lhe trocaram o nome]. Pois bem. Eu cá, na minha opinião pessoal, acho que quem tem coragem devia ir para bombeiro. Isso sim, é admirável.

18/10/09

A book a day keeps the doctor away

De características autobiográficas e estranhamente premonitórias, Os Irmãos Tanner, romance assinado por um homem que passou grande parte da vida num hospício (“Estou aqui, não para escrever, mas para ser louco” – responderia a alguém que o visita em Herisau), é, como todos os livros de Robert Walser, uma obra-prima de delicadeza.
Passeio solitário, deambulação quase fantasmática, chega-nos impregnado de uma espécie de inocência ontológica que põe em causa todas as convenções (as existenciais e as ficcionais). E se ao próprio se poderiam colar os versos de Rimbaud (outro desmistificador da coisa literária) – “Par délicatesse j’ai perdu ma vie” –, aos seus textos resta a grandeza que lhe vem dessa forma de contar e dizer sem alarde, dessa atenção sem questionamento, desse olhar desarmado sobre o mundo, onde poderemos intuir desassossego (a biografia vale o que vale...) mas, sobretudo, um enorme desejo de paz.
Os Irmãos Tanner, ficção que retoma muitas das experiências reais da sua vida familiar, é uma reflexão errante e impressionista que se diz por exemplo assim, na voz de Hedwig: “Por vezes tenho a sensação de estar separada da vida por uma parede fina mas opaca. Mas não posso ficar triste, só posso reflectir sobre isso”.
E é também o texto onde Walser antevê a sua própria morte, tantos anos depois, sozinho sobre a neve (como a personagem dessa lindíssima novela de Yourcenar, Un homme obscur): “Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente”.
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, Relógio D’Água, 2009