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09/04/12

A book a day keeps the doctor away: "O Doutor Glas", Hjalmar Söderberg


Com introdução assinada por Margaret Atwood em 2002, chega-nos O Doutor Glas, novela do sueco Hjalmar Söderberg (1869-1941) publicada originalmente em 1905. Nela estão presentes temas como o aborto e a eutanásia, o que talvez explique o escândalo que acompanhou a sua primeira edição.
Como bem sublinha a escritora canadiana, o “escândalo”, porém, é apenas uma parte ínfima do interesse que O Doutor Glas desperta até hoje.
Escrito sob a forma de um diário pelo próprio protagonista, Tyko Gabriel Glas, o livro descreve de forma contida, e aparentemente muito simples, a escolha (moral) de Glas, médico que, indiferente aos valores subjacentes à sua profissão, se sente obrigado a escolher entre uma mulher e o seu “repugnante” marido, o reverendo Gregoruis.
O arbítrio, neste caso, exige radicalismo, e entre reflexões racionais e ansiedades inexplicáveis, vamos assistindo ao adensamento da trama, mas com tal subtileza (e leveza) que é como se tudo se passasse numa espécie de anticlímax contínuo.
A acção decorre num plano quase silencioso, onde o não-dito assume papel fundamental. Não há crime e castigo e, nesse sentido, Glas é bem mais moderno que Raskólnikov.
O livro, e não há forma de discordar de Atwood, é, em si mesmo, absolutamente moderno, na medida em que recorre a todas as estratégias literárias que fazem o grande romance do último século: papel ao inconsciente, derivas narrativas, cortes burlescos, anti-heróis individualistas, crítica da hipocrisia social, desejo e sexo…
Tudo isso está em Hjalmar Söderberg, mais os terrores nocturnos que terá ido buscar a Poe, exposto sem alarde nem espalhafato, num registo elegante que esconde um vulcão prestes a explodir. Belíssimo.

O Doutor Glas, Hjalmar Söderberg, 2012, Relógio D’Água, tradução de Miguel Serras
Pereira

16/02/12

A book a day keeps the doctor away: "A Caixa Negra", Amos Oz

A primeira edição portuguesa de A Caixa Negra data de 1990 e, entretanto, muitos outros títulos de Amos Oz foram traduzidos. Juntamente com David Grossman é, decerto, o escritor israelita mais conhecido entre nós.
Militante do movimento “Paz Agora”, que pugna pelo entendimento entre israelitas e palestinianos, isso não impediria Amos Oz de acusar de terrível cegueira moral José Saramago quando este comparou os territórios ocupados a Auschwitz.
De moral e política fala A Caixa Negra. E ainda de religião, cinismo, rancor e misericórdia. Estruturado sob forma epistolar, o romance gira em torno de um núcleo de personagens bem distintos que vão criando entre si uma teia de relações complexas sob a qual se desenham, como em caleidoscópio, os nexos sociopolíticos de uma sociedade em mutação.
Do sonho sionista inicial, encarnado na figura do pai de Alec, à criação de colunatos encetada por Sommo, judeu sefardita que, pelo dinheiro, consegue vingar social e politicamente, é também da ascensão da direita religiosa e expansionista que trata A Caixa Negra.
Amos Oz fá-lo, contudo, sem nunca ceder à tentação ideológica.
Tudo começa quando Ilana, ex-mulher de Alec, reputado intelectual de origem ashkenazi a viver no estrangeiro e herdeiro de considerável fortuna, escreve ao ex-marido pedindo-lhe ajuda para encontrar o filho de ambos, nunca reconhecido por Alec como sendo seu.
Ilana, agora casada com Sommo, homem crente de origens humildes, vai, através desse pedido de socorro, abrir uma verdadeira caixa negra, a qual, por sua vez, desencadeará, uma série de acontecimentos inesperados, simultaneamente salvíficos e catastróficos, contaminados, sempre, pela ironia da História.
A ler (ou reler).
A Caixa Negra, Amos Oz, D. Quixote, 2012, trad. de Miguel Serras Pereira