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19/10/22

ELNAZ REKABI OU DA CORAGEM SEM ALARDE

Iraniana, participou de cabelos descobertos nos campeonatos de escalada asiáticos. O alarido espalhou-se pelo mundo, alguns temendo pelo que a esperaria no regresso à pátria. 

Já veio dizer que não foi intencional e que o hijab lhe caiu. Mostrar os cabelos terá sido um acidente, o que, seja o que for que tenha realmente acontecido, me lembrou um episódio passado com o descansado meu pai. 

Ex-preso político com direito a vista privilegiada para o mar revolto de Peniche, contou-me ele, anos passados do 25 de Abril, que um dia se cruzou com três Pides conhecidos que tomavam a bica ao balcão do café perto da nossa casa.

"E o pai, o que fez?", perguntei eu, jovem. 

E o meu pai: "O que fiz? Tomei a minha bica e vim-me embora sem pagar. Estou velho. Eles eram três. O que querias tu que fizesse?"




30/09/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E LA NAVE VA»

«... In illo tempore algum homem barbudo e mal lavado se apercebeu de que as cabeleiras e o colo femininos lhe excitavam os sentidos (ou isso ou os cabelos longos das mulheres favoreciam a reprodução de piolhos). Entretanto, o mesmo homem, lidando a custo com o seu entusiasmo indecoroso e porventura pretendendo vingar Sansão do corte de cabelo ordenado traiçoeiramente por Dalila, entra em negação e mergulha estoicamente nos livros. Cogita. Lucubra. Teoriza. Alcança a luz do dogma como um budista o satori: às mulheres, e para seu bem e protecção, é devido que se cubram para não perturbarem os homens. Tudo isto, claro, antes de ter sido inventada a mini-saia, o shampoo quitoso ou da actriz Jean Seberg ter lançado a moda dos cabelos curtíssimos.

Séculos passados, alguém com obrigação de saber que já não vivemos nas cavernas e que o acasalamento humano requer uma sofisticação que não se esgota na mudança das estações apesar do que diz a letra do Let’s do it de Cole Porter – que, lá está, não é para ser interpretada à letra – reedita o preceito e impõe-no sob a forma de lei à totalidade das mulheres, incluindo as secularizadas. Os mais radicais – lembrando-nos que pior é sempre possível – ultrapassam a obrigação do uso do hijab: mulher é de niqab ou burka, ou seja, cobertas da cabeça aos pés, respectivamente com olhos e sem olhos à mostra. (...)»

23/09/22

MULHERES IRANIANAS: QUANDO O DRESS CODE MATA

Enquanto na Europa, feministas entediadas defendem que usar o hijab é um direito que nos assiste — a nós mulheres , e frequentar piscinas públicas vestidas da cabeça aos pés com horários diferenciados uma questão cultural, no Irão as iranianas fartaram-se do dress code.

E fartaram-se corajosamente.