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26/08/22

GUERRA NA UCRÂNIA (CHAPLYNE): O FACTO DE ALGUÉM SER INVADIDO NÃO JUSTIFICA TUDO NEM BATER EM TUDO

Desta vez foi o Gabinete para a Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA). Ontem tinha sido o Papa. Há semanas fora a Amnistia Internacional. Antes disso, o presidente alemão: o «salsicha de fígado ofendido», nas palavras do então embaixador ucraniano em Berlim, o negacionista Andriy Melnik. E por aí fora.

Agora, a propósito do ataque russo em Chaplyne, o alvo foi Gabinete da ONU por «falta de clareza». 

Com Zelensky a acusar as tropas russas de terem cometido mais um crime de guerra de que teria resultado a morte de 25 civis, incluindo duas crianças, e a Rússia, por sua vez, a reclamar que o ataque foi a um comboio de tropas e armamento (200 soldados ucranianos teriam sido mortos), a Ucrânia diz-se desapontada com a «falta de uma posição clara» do organismo internacional que apelou a que «todos os lados» respeitem o Direito Internacional Humanitário.  

O argumento usado para criticar a OCHA é o argumento recorrente: não se pode confundir o agressor com o agredido. 

E não saímos disto e daqui nada chega o Inverno. 





14/04/22

GUERRA NA UCRÂNIA: ATÉ NO VATICANO HÁ AMIGOS DE PUTIN?

Reproduzo a notícia sem comentários que eu de ressureições nada percebo. Nem ao terceiro dia, nem em nenhum outro.

Via-Sacra em Roma gera polémica na Ucrânia

A polémica estalou onde menos se esperaria: em torno da Via-Sacra a que o Papa Francisco preside nesta Sexta-feira Santa, no Coliseu, em Roma. O motivo reside no facto de, numa das estações, a cruz de Cristo ser transportada pelas famílias de duas mulheres, uma russa e uma ucraniana.

Mal foi conhecido o conteúdo do guião da cerimónia, o mal-estar no lado ucraniano começou a fazer-se sentir, com expoentes no arcebispo de Kiev e no embaixador da Ucrânia junto da Santa Sé. De nada serviu saber-se que as duas mulheres em causa trabalham na mesma instituição de solidariedade social e, além do mais, são amigas.

O guião da Via-Sacra, conhecido há alguns dias, revela que, para as 14 estações, foram escolhidas famílias em diferentes situações e tendo vivido distintas experiências, como forma de evocar a encíclica Amoris Laetitia, no seu quinto aniversário. Na penúltima estação, correspondente à morte de Jesus, o Vaticano quis colocar simbolicamente a convivência e amizade entre as partes em guerra precisamente no momento em que se comemora o ponto mais alto desta “Semana Maior”, se se excluir a Ressurreição.

Está previsto que, nesse momento, as duas mulheres farão uma oração em que aludem “a mortes por todo o lado”, “à vida que parece perder valor”, às rotinas de repente interrompidas, às lágrimas que já se esgotaram, interrogando directamente Deus: “Onde estás, Senhor? Onde te escondeste? Queremos a nossa vida de volta. Porquê tudo isto? Que culpa temos? Porque nos abandonaste? Porque separaste deste modo as nossas famílias?” E pedem, a terminar: “No silêncio da morte e da divisão fala e ensina-nos a fazer a paz, a sermos irmãos e irmãs, a reconstruir o que as bombas querem aniquilar”.

O figurino da 13.ª estação foi objecto de destaque no Vatican News, nesta segunda-feira, 11, traduzido em várias línguas. O burburinho levantou-se e espalhou-se, lançando preocupações no Vaticano. A prova foi que o padre Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica e próximo do Papa, se desdobrou em declarações aos media e num artigo em Il Manifesto, em que procura desactivar a contestação. A ideia principal é esta: “Entendamo-nos sobre uma coisa precisa: Francisco é um pastor, não um político”. E, nesta quarta-feira, 12, citava um tweet do Papa que faz notar que “o Senhor (…) não nos divide em bons e maus, em amigos e inimigos. Para Ele somos todos filhos amados”. “É terrível e escandaloso, mas é o evangelho de Cristo”, sublinhava a este propósito, Spadaro.

Ucranianos recordam episódio de Abel e Caim

Não é por esse diapasão que afina o arcebispo Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, que diz ter recebido inúmeros apelos dos fiéis da Igreja e da sociedade civil, no país e no estrangeiro, para comentar a Via-Sacra papal.

O comentário de Shevchuk foi divulgado pelo departamento de comunicação da Igreja, nestes termos:

“Considero esta ideia inoportuna e ambígua, pois não leva em conta o contexto da agressão militar russa contra a Ucrânia. Para os greco-católicos da Ucrânia, os textos e os gestos da 13.ª estação desta Via-Sacra são incompreensíveis e até ofensivos, sobretudo [no momento em que se está] à espera do segundo ataque, ainda mais sangrento, das tropas russas contra as nossas cidades e aldeias. Sei também que os nossos irmãos católicos de rito latino compartilham estes pensamentos e preocupações.”

Mais elaborado é um texto de teor analítico que surgiu, nesta quarta-feira, na página da Universidade Católica Ucraniana, assinado pelo seu vice-reitor, Myroslav Marynovych, intitulado “A cruz de Abel e a cruz de Caim são cruzes diferentes”.

O artigo começa por sublinhar que o que se anuncia para a Via-Sacra exprime “uma incapacidade de ver as circunstâncias desta guerra a partir de dentro, e não apenas de fora” e que foi a “tentativa de reconciliar imediatamente os dois povos que indignou muitos ucranianos”.

Recorrendo ao episódio de Abel e Caim, do livro do Génesis, o autor entende que o Papa, nesse caso, evita nomear Putin e evita dizer, como Deus disse a Caim: “Aqui está a voz do sangue do teu irmão que clama da terra”. “Sem nomear o criminoso pelo nome, o Papa dá a impressão de que procura separar o criminoso do castigo merecido”. Isto porque, segundo Myroslav Marynovych, “a cruz de Abel (a vítima inocente) e a cruz de Caim (o arrependimento do agressor) são cruzes diferentes”. E acrescenta: “Elas não podem ser combinadas, porque todo aquele que quer seguir Jesus deve tomar a sua própria cruz (cf. Mt 16:24). Os ucranianos já carregam a sua cruz; os russos têm ainda de carregar a sua nos seus ombros”.

Ao contrário de “comentadores do Vaticano” que estão certos de que “bons e maus, agressores e vítimas são aceites sob a cruz de Jesus”, “as nossas cruzes são diferentes: para uns é a cruz do sacrifício, para outros é a cruz penitencial do pecador”, defende o responsável da Universidade Católica Ucraniana.

E recorre a declarações que atribui ao núncio apostólico no seu país, o arcebispo Visvaldas Kulbokas, que terá afirmado: “É claro que sabemos que a reconciliação ocorre quando o agressor admite a sua culpa e pede desculpa.”

17/02/09

(2.) Gostar de [alguns] homens: e como eu gosto deste!

I am quite sure now that often, very often, in matters concerning religion and politics a man's reasoning powers are not above the monkey's, Mark Twain
Lembrei-me disto a propósito do mais recente milagre do D. Nuno Álvares Pereira (e se não acreditam em mim ao menos acreditem no Vaticano e na Guilhermina de Jesus a quem o dito condestável salvou de cegueira certa estava ela a fritar peixe já no século XXI), e também por causa do nosso empreendedor ministro da economia Manuel Pinho (who else!) que teve mais uma ideia: olhar para Portugal de outra forma!

28/01/09

Who the fuk is Manuel Queiroz?

A pergunta do título é retórica. Ou seja, estou-me nas tintas para o dito. Não sei quem é nem quero saber quem seja: Manuel Queiroz não me interessa como indivíduo mas como paradigma. No caso, paradigma da bêtise a que Flaubert chamou um figo e que, como é dos livros e da praxis, nunca vem só: faz-se habitualmente acompanhar da arrogância e quem vier atrás que limpe a merda.
Mas se a estupidez é universal ― como garante a frase apócrifa de Einstein (Só há duas coisas infinitas, a estupidez humana e o universo, e quanto ao último não tenho a certeza) ― há quem a cultive de um modo genuinamente português.
Para ir directa ao assunto: são aqueles tipos que, perante uma coisa estúpida, puxam dos galões da sua suprema inteligência e tornam a coisa estúpida ainda mais estúpida, atribuindo-lhe qualidades que mais ninguém viu, intenções que mais ninguém percebeu, estratégias que mais ninguém alcançou.
Perante tais maîtres à penser de puro sangue lusitano, Niccolò Machiavelli não passaria de um menino de coro e, já que falei em coro, assim de repente recordo-me de algumas vozes esdrúxulas que, no seu apoio à invasão do Iraque, e concorrendo taco-a-taco com Bianca Castafiore, conseguiam ultrapassar em muitos decibéis qualquer general americano mortinho por uma guerra.
Quanto a Manuel Queiroz, que é o exemplo que me traz agora, viu na reabilitação do bispo Richard Williamson, um inglês ultraconservador que acha que o Holocausto é uma história para adormecer criancinhas, um gesto papal cheio de conotações abscônditas mas que ele, e refiro-me naturalmente a Queiroz, alcança de modo claro e distinto (embora, e isto sou eu a falar, num português um pouco obscuro to say the least...). Os judeus tinham ficado lixados, a esquerda tinha ficado lixada, mas ele ― ele, Queiroz! ― sabia que Ratzinger visava mais longe e se estava a borrifar para os judeus e para a esquerda. Afinal, parece que o próprio Vaticano ficou incomodado com a história e, como já vem sendo enfadonhamente habitual, pediram-se desculpas.
Apropriadamente termino, pois, concluindo que há criaturas mais papistas do que o Papa ou em inglês para condizer com o título: He may look like an idiot and talk like an idiot but don't let that fool you. He really is an idiot.

27/01/09

Se não querem usar preservativo é lá com eles, negar a História já nos diz respeito a todos

A 21 de Janeiro passado, Bento XVI anunciou o «perdão pontifício» a quatro bispos ultra-conservadores da congregação fundada por Marcel Lefebvre, um deles, o revisionista inglês dos quatro-costados Richard Williamson (ao centro, na fotografia), cujas recentes declarações em entrevista televisiva (que pode ser vista aqui) não deixam margem para dúvidas: as câmaras de gás nunca existiram e, logo, a bem da lógica, nenhum judeu ou cigano lá morreu.
Vieram certos cérebros mais papistas do que o papa justificar o injustificável (a própria Igreja incomodada com o assunto), vendo na medida mais uma prova da suprema inteligência e clarividência de Ratzinger que, indiferente às reacções exteriores (esclareça-se: todos os que defendem o respeito pelos factos históricos e não apenas a comunidade judaica...), se preocupou em primeiro lugar com a unidade da família católica, pondo fim ao Cisma que a dividia. Aceitando eu que no caso de José Sócrates se possa vir lembrar que a família não se escolhe, neste o argumento não colhe. Porque, mesmo e precisamente, a Igreja não tem de incluir bispos pedófilos, racistas ou negacionistas (tal e qual como não inclui padres mulheres). E, especialmente dedicado a Williamson, reedito um texto que aqui deixei há mais ou menos um ano:
ISTO FOI O QUE EU VI EM AUSCHWITZ*
«Faz muito frio em Auschwitz», dirá depois a mulher israelita com quem me cruzei na estação de caminhos-de-ferro de Cracóvia. Aproximando-se com um papel na mão, pergunta-me num inglês áspero se poderei ajudá-la. «Também sou estrangeira», respondi-lhe, e ela continuou a tentar junto à fila do guichet de informações: «Desculpe, sabe dizer-me onde fica o Hotel Chopin?»
Era o meu hotel. Acabámos a partilhar um táxi – eu, ela e o marido – e nessa noite fico a saber que são ambos filhos de judeus polacos que sobreviveram fugindo para a zona de ocupação russa. Quase toda a família que ficara na parte anexada pela Alemanha em 1939 morrera no campo de concentração e extermínio de Auschwitz. Aqui a «solução» foi praticamente final: dos cerca de 3 milhões de judeus que viviam na Polónia antes da guerra, restavam 100 mil em 1945.
A caminho do Campo. O guia polaco vai calado junto ao condutor. Antes da partida fizera questão de contar uma piada que adivinho da praxe, recolhidos nos vários hotéis os participantes do tour: «Este autocarro dirige-se a Auschwitz-Birkenau. Aos passageiros que quiserem descer é dada agora uma última oportunidade», e seguiram-se alguns risos de circunstância.
A viagem é monótona. Depois de Cracóvia, árvores. Árvores e mais árvores. Despidas e de ramos suplicantes. Aldeias desertas e mais aldeias desertas. Uma película viscosa, cinzenta e triste, adere ao céu e à paisagem. Chove. Estamos na estrada há cerca de uma hora. À vista de um entroncamento ferroviário adensa-se o silêncio dentro do autocarro, apenas interrompido pelo ronronar do motor. Todos parecem aguardar o pior. Mas ainda falta.
As árvores austeras dão por vezes lugar a florestas sombrias a que se sucedem planícies cultivadas e mais tarde, colado a Birkenau, ao fundo, depois da cerca de arame farpado, hei-de avistar um outro campo igual, de terra arada e duas casas. Todos os dias os habitantes das casas olham a cerca. Provavelmente, não a vêem. Está ali há mais de 60 anos. Uma coisa com mais de 60 anos, se se mantiver imóvel e inalterável passa a ser invisível. A física não explica isto mas é assim.
O guia informa agora que chegaremos dentro de pouco mais de 15 minutos e que a agência responsável pelo tour oferece um desconto de 20% no caso de uma segunda visita. No regresso explicará que também organizam idas às minas de sal de Wielicka e às montanhas Tatra, tudo muito perto de Cracóvia e a preços acessíveis: «Podem consultar os folhetos».
«Leve um casaco, faz muito frio em Auschwitz», disse a mulher israelita. No dia seguinte será pior. Volto de comboio e chego a Birkenau muito cedo. O local está praticamente deserto e ouve-se o barulho dos cortadores da erva. Do topo da torre de vigia principal, à entrada, avista-se a simetria desmesurada do campo de extermínio. Quase nada resta, mas ainda assim faz muito medo.
«Queria ir a Auschwitz», confesso em tom sumido ao recepcionista do hotel. Chegara a meio da tarde e andara pelas ruas de Cracóvia a confirmar que se trata de uma cidade belíssima, poupada pela guerra. O pudor não me deixara ainda pronunciar a palavra. Quero saber como chegar de comboio a Auschwitz. «De comboio?!», e num golpe de magia salta sobre o balcão um folheto de excursões organizadas. «We have a very good tour to Auschwitz. Sai daqui às 9 horas, por volta das três e meia está de volta». Mostra-me o programa e, porque insisto no comboio, a contragosto consegue-me os horários. Já no quarto, telefono a informar que afinal mudei de ideias; se me pode incluir na lista do dia seguinte: «Nesse caso, terá de vir à recepção pagar o bilhete agora». Passa da meia-noite e a conversa com o recepcionista arrumara-me com o pudor. Apetece-me perguntar-lhe se tem viagens com pacote de almoço e bebidas incluído.
Durante os anos de 1940-45, o número de vítimas do campo de concentração e extermínio de Auschwitz é calculado entre 1.100.000 e 1.500.000 pessoas, 90% das quais de origem judaica, a maior parte morta imediatamente à chegada, nas câmaras de gás. A plataforma de desembarque, onde os médicos SS seleccionavam os «aptos» e os «inaptos» (selecção a que só os judeus se sujeitavam), ficava em Birkenau. Os carris continuam lá.
Quando, arrematada a excursão, acabo mesmo por voltar sozinha de comboio, dirijo-me directamente a Birkenau (conhecido como Auschwitz II). À saída pergunto a direcção para Auschwitz (I). Os restos dos carris, passados 60 anos da libertação do campo, separaram-se da estrada ocultos entre veredas bucolicamente cobertas de plantas e flores silvestres e não servem de referência. Explicam-me que terei de descer até uma pequena ponte e virar à esquerda. São cerca de quatro quilómetros que percorro sob uma chuva intermitente e fria e que me levam a Oswiecim, o nome polaco da localidade a que os alemães chamaram Auschwitz. À época do nazismo, o percurso era inverso e de sentido único: vinha-se para Birkenau para morrer.
O portão onde se inscreve a frase «Arbeit macht frei», milhões de vezes fotografado, torna-se insignificante quando comparado com o amplo parque de estacionamento junto à entrada, transbordando de camionetas, táxis e ruidosos grupos de visitantes de cujo roteiro turístico faz parte um desvio pelo local.
O tour do primeiro dia, embora rápido, incluíra os marcos mais terríveis do campo, do temível Bloco XI, com o muro de fuzilamento e as celas de tortura, ao crematório I, inaugurado por um grupo de prisioneiros soviéticos, cobaias do Zyklon B, o gás com que os nazis levariam a cabo a «Solução Final».
No Bloco IV expõem-se os despojos. Aquando da Libertação, as tropas soviéticas encontraram pilhas de roupa, loiça, sapatos, malas (onde os proprietários deixaram escritos os nomes, estratégia de engano que convencia os recém-chegados de que as poderiam recolher mais tarde…), óculos, próteses, fotografias de família anónimas cujos retratados nunca mais se haveriam de rever…
Numa vitrina amontoam-se latas usadas do mortífero Zyklon B, noutra tranças e restos de cabelo humano amarelecidos pelo tempo – uma pequena amostra das sete toneladas que os SS deixaram para trás e que deveriam ser exportadas para a Alemanha onde se transformariam em mantas, recheio para travesseiros, forros de casacos, edredões...
Um ser humano dificilmente suporta tamanha realidade. Saio para o ar livre. Eu e uma americana de idade avançada. Cá fora, prestes a acender um cigarro, somos interpeladas por uma religiosa que passa e nos lembra, sorriso rasgado, que «is not allowed to smoke in Auschwitz». Mudas e cúmplices, aspiramos o fumo bem até às entranhas. [A velha americana há-de mais tarde assustar-me (eu distraída) ao repetir-me à orelha, voz cava e grossa: «is not allowed to smoke in Auschwitz!!!». E rimo-nos.]
Não é esta a única freira com que me cruzo. Há muitas por aqui. E num terreno contíguo, o do edifício onde as carmelitas se instalaram em 1894, ergue-se uma cruz alta de seis metros, a que resta da acesa polémica que rodeou a colocação de mais de uma centena de cruzes em Auschwitz, em 1982. Na altura, o anti-semitismo renasceu nas palavras do líder da chamada Associação das Vítimas da Guerra, Mieczyslaw Janosz, um ex-polícia corrupto que se opôs vigorosamente à remoção dos crucifixos. Os símbolos cristãos foram retirados (excepto o referido), e as carmelitas partiram. Para um olhar atento, a tentativa de cristianização do local não passa despercebida.
São cinco da tarde e os sinos tocam a rebate. Embora a hora de fecho seja às seis, um grupo de japoneses toma os sinos pelo sinal de encerramento e começa a dirigir-se apressadamente para a saída. Outros visitantes põem-se a correr na direcção do som, tentando perceber o que se passa.
«Why-the-bells-are-ringing?», insisto pela terceira ou quarta vez junto de uma funcionária que simula não me perceber. Finalmente consigo que me expliquem, a contragosto, que o som vem de uma igreja próxima. Fazem questão de sublinhar, «fora do recinto do museu».
A polémica sobre a cristianização de Auschwitz não é de agora. A canonização de Maximilian Kolbe (1982) e Edith Stein (1998) pelo Papa João Paulo II já tinha provocado reparos da comunidade judaica internacional. O primeiro, um padre franciscano que trocou a sua vida em Auschwitz pela de um outro condenado polaco (Franciszek Gajowniczek), fora responsável por uma importante publicação católica em cujas páginas se liam artigos anti-semitas; Edith Stein, filósofa alemã convertida ao cristianismo nos anos 20, tornar-se-ia freira carmelita e acabaria gaseada em Auschwitz juntamente com a irmã, embora, naturalmente, não por ser freira católica mas por ser judia.
Nas palavras do rabino Leon Klenicki, um homem que se tem debruçado sobre o relacionamento actual entre as duas religiões, «prestar homenagem ao sofrimento cristão só é aceitável se isso não servir para negar a realidade de que o Holocausto foi essencialmente um programa de extermínio do povo judeu». Ou, como afirmou de modo definitivo o escritor e sobrevivente espanhol Jorge Semprún, e para acabar de vez com a ignóbil contabilidade dos cadáveres:
«Existe, com efeito, uma confusão antiga, amiúde fruto da ignorância, ou talvez de um pensamento equívoco ou malévolo, entre a deportação de inimigos do nazismo – alemães anti-hitlerianos, resistentes europeus – e o extermínio de judeus e ciganos. Os primeiros foram detidos e deportados pelos seus actos, quaisquer que fossem as suas origens sociais ou a sua religião. Os segundos são exterminados por serem o que são, mesmo que nunca tenham cometido um acto ou um mero gesto de oposição ao regime. A diferença, mesmo que o número de mortos resistentes fosse comparável ao dos judeus exterminados – e não o é, de forma alguma –, não é uma diferença quantitativa: é ontológica
Também por isto é difícil aceitar que em Auschwitz, onde o extermínio dos judeus atingiu o paroxismo, os únicos nomes referidos durante a visita guiada sejam os do padre Kolbe, Edith Stein e Stefan Jasienski (um prisioneiro da cela 21 do Bloco 11 que se supõe ser o autor do crucifixo e do Cristo gravados na parede que, vivamente, nos recomendam que olhemos). Como também se considera excessivo que no curto filme que se mostra aos visitantes se inclua uma missa católica e se perca a conta às religiosas cristãs e às cruzes.
«Ninguém vai a Treblinka», resume o jovem inglês que encontro na estação de Oswiecim, onde somos os únicos a aguardar o comboio de regresso a Cracóvia. Quanto a Auschwitz, o comentário é lacónico: «Too much noise.» De facto, há demasiado barulho por aqui.
Não em Birkenau, onde menos sobem e cuja desmesura assusta, a maior parte dos visitantes limitando-se às poucas barracas que sobram à entrada e a espreitar o campo do alto da torre de vigia. Desolação podia ser a palavra que define este campo de morte, onde os Blocos são nauseabundos e as ruínas dos crematórios se escondem ao longe, por entre árvores e erva fresca. Uma terra aparentemente igual a qualquer outra, mas regada a cinzas. É aí, junto ao Crematório II, não longe do local da revolta do Sonderkommando, que avisto cabriolando por entre arbustos uma jovem corça, indiferente aos delírios dos homens e à maldição do lugar, a que também parece indiferente, embora sem o álibi da inocência, a nova-iorquina saída directamente de um filme de Allen que clama a plenos pulmões não se conformar com o facto de não ter encontrado a escultura – «God! Uma madonna belíssima!» – que uma amiga tinha feito «expressamente para oferecer aos judeus».
Os fotógrafos amadores invadem Auschwitz, procurando enquadramentos perfeitos junto às cercas de arame farpado para o recuerdo de grupo. Há gente que passa apressada, turistas do horror que acrescentam a visita do campo ao currículo. E depois há os outros. Os que escondem as lágrimas sob óculos de sol em dia de chuva. Os que entram e saem sem dizer palavra. Ou os sobreviventes.
Eu vi-o em Auschwitz, velho e magro, apoiado numa bengala, e adivinhei-lhe a origem pela forma como andava por ali, alguém que regressa a uma casa em ruínas à qual reconhece os cantos. Voltei a encontrá-lo por acaso em Kazimierz, o bairro judaico de Cracóvia, quando procurava a sinagoga Izaak, uma das oito sinagogas que voltaram entretanto a abrir portas. Ele disse: «Aqui era um bairro judeu». Eu disse: «Vi-o ontem em Auschwitz». Ele disse: «É possível. Uma irmã minha morreu lá em 19..., outra em 19...». Esqueci os nomes e as datas. O olhar dele era tranquilo, a voz amável, o pulso tatuado. Não consegui dizer mais nada. Fugi por vergonha de sentir uma dor que não me pertencia.
Talvez o mesmo tenha se tenha passado com Patrícia, do Porto, Portugal, que deixou escrito no livro de visitas do Pavilhão da Checoslováquia, em Auschwitz: «9 de Maio de 2005. Infelizmente, este local existe. Mas, já que existe, espero que muita gente o visite para que jamais se repita.» E acabava com a candura de que só um jovem poderia ser capaz: «Beijinhos e desculpem». (2005)
* ADENDA: João Tunes, aqui, acaba de me recordar que hoje se comemora a libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho. A escolha deste post e a escolha da fotografia que o ilustra foram uma coincidência que me deixa meio atarantada, confesso.

09/10/08

Eu queria taaaaaanto publicar esta imagem. E foi então que Pio XII me caiu do céu

Pio XII foi aquele Papa que antes da guerra se dava muito bem com os alemães, durante a guerra deu-se mal com os nazis e depois da guerra ajudou alguns a safarem-se. Agora vêm dizer que afinal foi um herói que merece ser beatificado (se não for beatificado não pode ser canonizado...) porque também teria ajudado os judeus durante aquele período em que os metiam no comboio, sabe-se lá para onde!, e depois grande parte deles desaparecia sabe-se lá como!
Que ele fosse discreto, embora não faça o meu género, vá que não vá. A parte do piorar é que eu, por mais que tente, não percebo. Mas deve ser porque, ao contrário das meninas da foto, Jesus nunca quis nada comigo.