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15/04/12

A Balada do Desempregado Lusitano

Creio que foi através de Kundera que tomei conhecimento das sonoras gargalhadas que terão dado Kafka e seus amigos quando o autor de A Metamorfose leu em voz alta as aventuras de Gregor Samsa, o pobre caixeiro-viajante que um dia acorda transformado num insecto.
Veio a guerra e o humor foi sendo varrido da leitura dos textos do judeu de Praga, para dar lugar ao pesadelo da angústia e do absurdo que a sua obra premonitoriamente antecipara.
Kafkianos nos tornámos, kafkianos somos. Mas porque o humor, por muito negro, não pode ser descartado, dei por mim a levar à letra o haiku do Millôr Fernandes (o cético sábio sorri só com um lábio), ao tropeçar nas declarações de Peter Weiss, chefe-adjunto da missão da troika em Portugal, que, a dado passo, sugere que o aumento do desemprego se deverá, quem sabe, ao facto de os trabalhadores portugueses andarem a pedir encarecidamente para serem despedidos:
“Pode até acontecer a pedido dos trabalhadores, que é claro que estão interessados em ter uma maior duração do subsídio de desemprego, que pedem em vez de me despedir em Abril, despeça-me em Março – pode ser isso. Isto está sempre aacontecer: quando se aumenta os impostos sobre o tabaco, as pessoas começam a comprar cigarros. É um comportamento normal. Não temos quaisquer provas disso, avancei isso como uma das razões, porque, como disse, nós não entendemos completamente os números”.

Não tenho provas se este Peter Weiss fuma (o outro era dramaturgo e cachimbava), mas se o faz, anda decerto a fumar substâncias não homologadas. Só isso explicará o seu extraordinário raciocínio.
E dado que somos bem entrados em Abril, o mais cruel dos meses, deixo a pergunta: já foi despedido (ao preço antigo) o chefe-adjunto?

13/02/11

A book a day keeps the doctor away: "Um Encontro", Milan Kundera

Acaba de ser traduzido em Portugal o mais recente ensaio de Milan Kundera, Um Encontro: na realidade, reúne vários encontros e reencontros. A Checoslováquia serve de cenário a alguns deles, mesmo se o escritor, a viver em França desde 1975, acumula as nacionalidades checa e francesa.
Reflexão e memória andam quase sempre de mãos dadas, como no texto dedicado a Anatole France, de quem Kundera se serve para reflectir sobre “listas negras”, escritores que deixaram de ser lidos ou são lidos com desconfiança (primeiro as ideias, depois a obra – Sartre, ao invés de Tolstoi, por exemplo). Porquê? A resposta não é una e voltar-se-á de certo modo ao tema a propósito de Curzio Malaparte e dos chamados “escritores comprometidos”, com um desvio irónico por Brecht, intitulado “Que Restará de Ti, Bertolt?”.
O curto apontamento sobre a solidão erótica em Philip Roth é perspicaz e certeiro, assim como o que Kundera dedica a Céline. Reafirma-se a paixão por Rabelais e a Europa Central (Kafka é, claro, obrigatório) cruza-se algures com a Martinica a propósito da passagem pela ilha de André Breton.
Os ensaios são pessoalíssimos, pontos de vista que se assumem subjectivos e ao “correr da pena”. À intenção teorética sobrepõe-se a empatia com o objecto: fascínio confessado por Francis Bacon (numa leitura estimulante que evita repisar o lugar-comum do “horror”, sempre invocado quando se fala da pintura de Bacon); lição generosa de história e literatura a partir de A Pele de Malaparte, classificado como “arqui-romance”.
Mas se a literatura, naturalmente, domina neste livro, não menos ricos são os ensaios sobre música. Em resumo: 25 anos depois de A Arte do Romance, Kundera continua a fazer-nos pensar.
Um Encontro, Milan Kundera, D. Quixote, 2011, trad. de Isabel St. Aubyn