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25/10/24
21/01/22
27/12/09
Viva Cortázar!
O início é esclarecedor: "Devo ao meu homónimo o título deste livro, e a Lester Young a liberdade de tê-lo alterado sem ofender a saga planetária de Phileas Fogg." O jazz (na pessoa do saxofonista norte-americano Lester Young) e Julio Verne (na personagem do protagonista de "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias" Phileas Fogg) acasalam aqui em completa liberdade, dinamitando todas as fronteiras formais além das outras.Brilhante e estimulante: eis dois adjectivos que assentam como uma "luva (in love)" ao heterodoxo "A Volta ao Dia em 80 Mundos", assinado em 1967 pelo argentino Julio Cortázar, escritor admirador de Borges e, como este, admirador também da nobre arte do pugilismo (no seu caso com conhecimento de causa).
É o segundo grande texto de Cortázar que a Cavalo de Ferro nos disponibiliza em ano e meio. "O Jogo do Mundo (Rayuela)" saiu em Maio de 2008 (com um prefácio inaceitável de José Luís Peixoto), e a palavra "jogo" inserida no título ("rayuela" significa literalmente "jogo da macaca") volta a soar aqui. A mesma apetência lúdica - que, sendo lúdica, não deixa de ser um caso sério - anima "A Volta ao Dia em 80 Mundos". O autor insiste em pegar o caos de caras, baralhando-o, reinventando-o, enfrentando-lhe os traços camaleónicos com a mais versátil das ironias. Leia-se: "Que sorte excepcional ser sul-americano, e ainda por cima argentino, e não sentir-se obrigado a escrever a sério, a ser sério, a sentar-me diante da máquina com os sapatos engraxados e uma noção sepulcral da gravidade do instante", in "Mais sobre gatos e filósofos".
Conjunto de reflexões, citações, contos, poemas, afinidades electivas e imagens, o livro denuncia a vontade antiquissíma de aprisionar o real através da literatura, descontada, porém (o que faz toda a diferença!), a ortodoxia que vê na palavra escrita um veículo de sentido único. Em Cortázar a obra apresenta-se fragmentária, cubista, libertária e libertadora, à imagem da realidade que é, também ela, mistura multíplice de caos e necessidade.
Quinta-essência do moderno, o argentino bebe do surrealismo e do fantástico, acrescenta-lhe a desconstrução estílista do jazz, a revolução relativista vinda da ciência e um desconforto essencial que é coisa sua: "(...) desde pequeno, a minha relação com as palavras, com a escrita, não se distingue da minha relação com o mundo em geral. Pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas". Depois, claro, há um enorme talento, logo visível na elegância superlativa dos textos (e se a palavra "elegância" incomodar vanguardistas extemporâneos, que se pense, por exemplo, na delicadeza quase etérea dos "ready made" de Duchamp). Leia-se: " (...) nesta altura do jogo entendo que a indiferença pelo estilo por parte de autores e leitores leva a suspeitar que a 'mensagem' tão disposta a prescindir alegremente de um estilo também não há-de ser grande coisa.", in "Grande fadiga nesta altura da investigação".
Residirá, então, nesse talento único, mais do que em tudo o resto (se tal dicotomia fosse possível...), a "explicação" para que, passados 42 anos, estes textos nos deliciem ainda pela sua inteligência, beleza e irreverência. O que poderia não passar de um mero exercício datado e descarnado continua a interpelar-nos, projecto "solto e despenteado, cheio de interpolações, e saltos, e grandes golpes de asa e mergulhos, um livro como os poetas e os cronópios gostam.", in "Casa do Camaleão". Cortázar falava aqui de outro livro. Eu falo deste. Brilhante, estimulante e, para mais, com ordem de leitura arbitrária.
06/12/09
A book a day keeps the doctor away
Morreu o ano passado, aos 78 anos. Ficou conhecido sobretudo por essa obra-prima chamada O que Diz Molero, (a)caso feliz de reconhecimento público e prova que usar pontuação esquisita não é só para o José Saramago.Dinis Machado não foi, porém, apenas autor desse “livro-bomba, obra d’arromba” (para citar Luiz Pacheco). No seu currículo, curto, é verdade, incluem-se ainda Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Marquéz, Bertrand, 1984, Reduto Quase Final, Bertrand, 1989, e Gráfico de Vendas com Orquídeas e Outras Formas de Arrumação de Conhecimentos: 20 Textos (de 1977 a 1993), Cotovia, 1999.
Aprendiz de Bartleby que à expressão “I would prefer not to” preferia o “Let’s get out of here” das fitas dos camónes (como lembrou Maria Piedade Ferreira na “Ler” nº72), Machado escreveu também uma tríade de policiais a troco de vinte contos nos idos de 60, la vie oblige. Assinou-os com o americaníssimo e apropriadíssimo pseudónimo de Dennis McShade, recebeu a massa e não terá pensado mais no assunto.
Recentemente, a Assírio & Alvim pegou nos três títulos, vestiu-os com novas capas e reeditou-os: Requiem para Dom Quixote, 2008, Mão Direita do Diabo, 2008, Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, já este ano. Todos eles protagonizados por Peter Maynard – assassino profissional e literato com dúvidas existências e propensão para o monólogo (homenagem à personagem borgeana do conto Pierre Menard, autor de Quixote) –, antecederam O que Diz Molero no tempo mas não na acutilância da prosa. E, no meio disto tudo, ficaram uns papéis na gaveta. Quase sessenta páginas. Acabam de chegar às livrarias sob o título Blackpot.
O registo é policial e, apesar de Peter Maynard já não entrar na história – escrito Blackpot muito mais tarde, algures entre 1983 e 1985 –, a sua estrutura (delirantemente cerebral) lembra ainda o argentino cego. A chave do plot estará na frase final, roubada ao romance A Queda, de Camus: “Quando todos formos culpados então será a democracia”. Se isto for verdade, o inédito machadiano é o policial mais democrático que já li na minha vida.
Capítulo a capítulo (31, menos um do que o total das peças do xadrez), as personagens vão-se matando umas às outras, assumindo os lugares deixados vazios:
"Gulliver ligou para Armador.
– Então?
– Já está – disse Armador – Matei-o há duas horas.
– Ok – disse Gulliver.
– Ouve – disse Armador – Tu agora és Legos?
– Sou Legos.
– E Condor?
– Também sou Condor.”
Um divertissement absurdo (Beckett está lá de novo) onde domina o humor negro e aquele estilo irresistível e livre de Machado. Como concluiu Pacheco a propósito de O que Diz Molero: "Valeu!"
28/11/08
A prova que um bom escritor também pode ser um idiota
Se me perguntassem por nomes de escritores, Jorge Luis Borges estaria entre os primeiros. Lembro-me, aliás, de abandonar a conferência que ele deu há uns anos na Faculdade de Letras, incomodada até ao vómito com a feira de vaidosos que, tomando a palavra para simular perguntas, esqueciam que tinham pela frente um génio (e eu não sou nada de ver génios a cada esquina...). Lembro-me também de uma entrevista brilhante que lhe foi feita pela Lourdes Féria, salvo erro para o Diário de Lisboa, e lembro-me dela me contar os meandros da conversa.Lourdes Féria tinha ido a Madrid entrevistar Mick Jagger. Acontece que os Rolling Stones se tinham fechado em copas. Por uma daquelas coincidências que nem a Vila-Matas ocorreria, Lourdes soube que Borges estava hospedado no mesmo hotel do que ela. Foi tentar a sorte e bateu-lhe à porta. E Borges falou. Sobre tudo. Até sobre os Rolling Stones.
Lembrei-me disto a propósito destas declarações de V. S. Naipaul (de quem foi há pouco publicada uma biografia). Disse ele sobre o escritor argentino: Não sou nada como Borges. Acho que Borges é um escritor muito limitado (...). E era cego, claro. Eu não sou cego. Faz uma grande diferença, porque o homem cego vive internamente, enquanto eu sempre vivi com o mundo que vejo, que conheço (o que me recordou uma entrevista que fiz ao Luís Sepúlveda onde o chileno afirmou, do alto da sua mediocridade, que afinal Borges não merecia o Nobel porque escrevia sempre o mesmo livro). Agora se me encostassem uma pistola à cabeça e me obrigassem a escolher ― ou o mundo sado-masoquista de um ou o imaginário luminoso do outro ― eu sei bem o que escolheria. A Borges, o cego, bastava-lhe ter escrito estes versos. Definitivos.
Yo, que tantos hombres he sido/ no he sido nunca/ aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach.
Yo, que tantos hombres he sido/ no he sido nunca/ aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach.
28/11/07
De Maio de 68 a Novembro 07 ― Sinais do Progresso (Post Modificado e, Espera-se, Melhorado)
Paris, Novembro 2007
«Dissemos que o objecto do Espírito não é se não ele próprio. Nada há de mais elevado do que o Espírito, nada seria mais digno de se tornar no seu próprio objecto. O Espírito não encontra paz, não pode ocupar-se de mais nada antes de se conhecer e saber o que é (...) O Espírito deve, pois, chegar ao saber do que é verdadeiramente e objectivar esse saber, transformá-lo num mundo real e produzir-se a si próprio objectivamente. É esse o fito da história universal. (...) O Espírito não é um ser natural, como o animal que é aquilo que é imediatamente. O Espírito produz-se a si próprio, faz-se a si próprio o que é. O seu ser não é existência em repouso, mas actividade pura: o seu ser é ter sido produzido por si, ter-se tornado por si, ter-se feito por si. Para existir verdadeiramente é necessário que tenha sido criado por si: o seu ser é o processo absoluto. Esse processo, mediação de si próprio consigo próprio e por si próprio (e não por um outro) implica que o Espírito se diferencie em Momentos distintos, se entregue ao movimento e à mudança e se deixe determinar de diversas maneiras. Esse processo é também, essencialmente, um processo gradual, e a história universal é a manifestação do processo divino, da marcha gradual através da qual o Espírito conhece e realiza a sua verdade. Tudo o que é histórico é uma etapa desse conhecimento de si. O dever supremo, a essência do Espírito, é conhecer-se e realizar-se. É o que ele leva a cabo na história: produz-se sob certas formas determinadas, e essas formas são os povos históricos. Cada um desses povos exprime uma etapa, designa uma época da história universal. Mais profundamente: esses povos encarnam os princípios que o Espírito encontrou em si e que deve realizar no mundo. Existe, pois, entre eles uma conexão necessária que não exprime se não a natureza mesma do Espírito. A história universal é a manifestação do processo divino absoluto do Espírito nas suas mais elevadas formas: marcha gradual pela qual ele alcança a sua própria verdade e toma consciência de si. Os povos históricos, as características determinadas da sua ética colectiva, da sua constituição, da sua arte, da sua religião, da sua ciência, constituem as figurações desta marcha gradual.»
«Dissemos que o objecto do Espírito não é se não ele próprio. Nada há de mais elevado do que o Espírito, nada seria mais digno de se tornar no seu próprio objecto. O Espírito não encontra paz, não pode ocupar-se de mais nada antes de se conhecer e saber o que é (...) O Espírito deve, pois, chegar ao saber do que é verdadeiramente e objectivar esse saber, transformá-lo num mundo real e produzir-se a si próprio objectivamente. É esse o fito da história universal. (...) O Espírito não é um ser natural, como o animal que é aquilo que é imediatamente. O Espírito produz-se a si próprio, faz-se a si próprio o que é. O seu ser não é existência em repouso, mas actividade pura: o seu ser é ter sido produzido por si, ter-se tornado por si, ter-se feito por si. Para existir verdadeiramente é necessário que tenha sido criado por si: o seu ser é o processo absoluto. Esse processo, mediação de si próprio consigo próprio e por si próprio (e não por um outro) implica que o Espírito se diferencie em Momentos distintos, se entregue ao movimento e à mudança e se deixe determinar de diversas maneiras. Esse processo é também, essencialmente, um processo gradual, e a história universal é a manifestação do processo divino, da marcha gradual através da qual o Espírito conhece e realiza a sua verdade. Tudo o que é histórico é uma etapa desse conhecimento de si. O dever supremo, a essência do Espírito, é conhecer-se e realizar-se. É o que ele leva a cabo na história: produz-se sob certas formas determinadas, e essas formas são os povos históricos. Cada um desses povos exprime uma etapa, designa uma época da história universal. Mais profundamente: esses povos encarnam os princípios que o Espírito encontrou em si e que deve realizar no mundo. Existe, pois, entre eles uma conexão necessária que não exprime se não a natureza mesma do Espírito. A história universal é a manifestação do processo divino absoluto do Espírito nas suas mais elevadas formas: marcha gradual pela qual ele alcança a sua própria verdade e toma consciência de si. Os povos históricos, as características determinadas da sua ética colectiva, da sua constituição, da sua arte, da sua religião, da sua ciência, constituem as figurações desta marcha gradual.»E estava eu a encontrar consolo nestas palavras de Hegel, escritas em A Razão na História, quando o poeta Borges me saltou ao caminho no meio dos escombros da periferia parisiense e filosofou do alto da sua cegueira: «A metafísica é um ramo da literatura fantástica». Porra!
19/08/07
A Propósito de Torga, que não Tem Culpa NenhumaULPA NENHUMA
Estava eu, displicente, a folhear jornais antigos (mas não demasiado), quando dei com um texto assinado por Carlos Fiolhais no «Público» de 17 de Agosto. Afirma aí o conhecido físico que a polémica sobre a ausência de membros do governo no centenário de Torga «é uma perfeita tontaria, que nem mesmo a silly season justifica». Tendo eu Carlos Fiolhais em boa conta, fui lê-lo. Fiquei a saber que a 24 de Junho, aquando do lançamento do Espaço Miguel Torga em São Martinho de Anta, um projecto de 1,7 milhões de euros assinado por Souto Moura, o governo tinha-se feito representar em peso e em força. E fiquei a saber mais: que a 12 de Agosto (dia da polémica), foi apenas inaugurada em Coimbra uma casa-museu, orçada na modesta quantia de 324 mil euros, «em cujo quintal a câmara quer construir um Centro de Estudos Torguianos». Não tenho nada contra quintais nem contra Carlos Fiolhais (esta parte já tinha dito), mas, espicaçada pela sua posição, fui tentar saber quanto é que Torga, afinal, tinha nascido. A Wikipédia refere que Adolfo Correia Rocha veio ao mundo a 12 de Agosto de 1907. Naturalmente, não sei se posso confiar nas datas referidas, por todos os motivos e mais aqueles que recentemente envolveram um computador oficial e oficioso que alterou o texto da Wikipédia sobre Sócrates. E andava eu já esquecida destes factos, quando, a propósito de Jack Kerouac e dos 50 anos de publicação do «On the road», tropecei neste delicioso diálogo do filme «Honeysuckle Rose», para o qual Willie Nelson assinou a música «On the road again»:«Bo: Anybody on this bus got a college education?
Lily Ramsey: I do; just graduated in June.
Bo: Good. Then you can get up and get us a beer.»
Esquecido Torga, regressei a ele em memória de Sócrates, e depois larguei os dois e vi-me n' «O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam», do qual saltei quase de imediato para o adorável poema de Borges: «Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca, aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach». Já em vertigem, e temendo que o poema do cego argentino me conduzisse em excesso de velocidade à metafísica do sujeito e aquelas temíveis perguntas «Quem sou», «De onde venho» e «Para onde vou», cortei cerce o pensamento que me levaria a Régio, de Régio a Alegre, de Alegre a Torga, de Torga a Sócrates... Enfim, um pesadelo.
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