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28/04/23

13/02/14

O Estado a que isto chegou.

Os cravos gigantes serão criados pela Joana Vasconcelos com a pele cristalizada de 40 toneladas de tomate (oferta da "Guloso") - cujas sobras reverterão para um mega-gaspacho na ponte 25 de Abril, confeccionado pro bono pelo Frater Sobral - e servirão para enquadrar, nas escadarias da Assembleia da República, a declamação por José Luís Peixoto (patrocinado pela República Democrática Popular da Coreia) do poema "Abril,  ó cucamandro, morrestes-mes!", enquanto, sobre o parlamento, adejará uma imensa gaivota-que-voa-que-voa montada a partir de 40 000 pensos higiénicos Evax Fina & Segura com asas.

Informação recolhida no blogue do João Lisboa, com mais desenvolvimentos poéticos aqui.

12/07/13

Das elites

Assunção Esteves chumbaria em qualquer exame de hermenêutica.

Veja-se a sua singela interpretação da frase de Simone de Beauvoir, "não podemos permitir que os nossos carrascos nos criem maus costumes".
Diz Assunção: "Carrasco significa qualquer elemento de perturbação. Sem querer ofender nada nem ninguém. Significa que quando as pessoas nos perturbam, não devemos dar atenção."

Se era para tamanha profundidade, mais valia ter citado a Simone de Oliveira.

Ler a notícia AQUI.

03/11/10

Gente fina é outra coisa mas eu ainda assim prefiro a fórmula antiga: V. Ex.ª vai-me desculpar mas V.Ex.ª é um filho da puta

Pouco passava do acordo e, na Assembleia da República, estalava o verniz do bloco central.
Diz Luís Menezes, do PSD, referindo-se a coisas como a ANACOM, da Estradas de Portugal, a Administração da Região Hidrográfica do Norte ou a Associação de Turismo dos Açores: Estas instituições, muitas delas desconhecidas dos portugueses, e a maioria inúteis, estão enxameadas de boys socialistas, que as têm usado como um verdadeiro bar aberto de despesas supérfluas e desnecessárias.
Responde o Teixeira dos Santos, do PS, que não é ministro de se ficar: Falando em boys, o jantar da ANACOM foi, de facto, promovido por uma girl nomeada pelo primeiro-ministro Santana Lopes.

E tudo isto à hora do chá e com senhoras na sala.

22/04/10

Quando for grande também quero ser famosa, ter utilidade política, comprar uma valise à carton e fundar uma associação em defesa dos flamingos*

Nunca gramei do género queques de esquerda. Queques por queques, prefiro os autênticos, os da Linha, e não me estou a referir à concorrência.
Sendo eu ainda do tempo do a menina pecebe?, em Cascais a malta sempre ia à praia e o mar, como se sabe mesmo sem ter lido a Murdoch, é uma coisa que areja a cabeça e o resto.
Quando olho para a Inês de Medeiros, sinto-lhe a falta do mar. Ela, por seu turno, sente falta de Paris.
Ao fim de vários meses sem saber quem lhe pagava as viagens para a Cidade da Luz, Lello teve voto de qualidade e pôs a Assembleia da República a entrar com o carcanhol.
Ou seja: je paie, tu paies, il paie, nous payons, vous payez, ils payent.
Esclareça-se. Não é que eu seja forreta. Não é sequer que eu ache que quem lhe deu emprego não devesse arcar com os tickets. A minha dúvida é outra: porque raio a convidaram? porque raio é a Inês de Medeiros deputada do PS e para mais por Lisboa?
E reparem. A minha dúvida é bastante anterior àquela sua singela declaração se Sócrates mentiu nem acho que seja muito grave (à propos, se ela não acha muito grave um primeiro-ministro mentir ao parlamento, porque carga d’água faz parte da comissão de ética do mesmo, mesmo sendo aquela a comissão de ética do mesmo?).
Bom, hoje fez-se luz. Parece que a deputada integrava uma lista de personalidades encabeçada por Figo, cuja simpatia e popularidade foi testada por um estudo de opinião realizado para a PT... Ou seria para o PS? Confesso que esta parte me escapou.
Enfim, seja como for, resolvido o caso, resta-me recordar apenas algumas das opiniões expressas por Inês de Medeiros quando esta ainda era só candidata e os contribuintes não tinham que lhe pagar as viagens.
Perguntaram-lhe.
E ela respondeu.
Touchant, n'est-ce pas?
Fiquei com uma dúvida: é mais caro ir aos Açores ou a Paris? É que se for mais caro ir aos Açores, o que suponho que seja, os termos em que é apresentada esta decisão é a xicaespertice mais xicaespertice de que tive conhecimento nos últimos tempos... ]

30/10/09

A gripe A e os deputados da nação

O título da notícia era assim: Bloco de Esquerda entende que não é necessário alargar aos partidos prioridade na vacinação. Como escreveria se fosse mais jovem, "parti-me a rir!"
E eu que nem sabia que os deputados tinham sido convidados a participar na maior operação de marketing à escala mundial depois daquela campanha que encheu o Iraque de armas de destruição maciça.
Foi quando li isto e fez-se luz. Reproduzo.
«Foram considerados um grupo prioritário e não podia ser de outra maneira. Um coro de protestos democráticos sublinharia qualquer decisão que os excluísse. Alguns aceitaram, como aqueles incontornáveis que têm obrigatoriamente de ser convidados, e não percebem que devem indicar um substituto ou alegar impossibilidades de agenda. Outros prescindiram da honra e humildemente ofereceram a sua dose a um eleitor necessitado.
«No sistema democrático português só há cinco deputados necessários. Os outros têm voto obrigatório para o que interessa: programa do governo, moções de censura e aprovação do orçamento. E para o resto têm um voto vigiado, asfixiado ou claustrofóbico, consoante a bancada. Tinham poupado 224 vacinas e vacinado o Dr. Jaime Gama.»

15/04/09

Eu vinha falar sobre o autismo dos nossos deputados que não sabem interpretar uma metáfora quando me saltou às canelas um poeta surrealista*

Avisto na rua um cão
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não fala com
muita frequência
Boris Vian, "Bom-Dia Cão" in Cantilenas em Geleia (tradução de Margarida Vale do Gato, Relógio D'Água, 2004)
* o assunto politicamente correcto de que não falei é este

02/10/08

A estranha aritmética do partido socialista

Ponto prévio. Nunca me casei, não sou homossexual e os temas fracturantes não me dizem grande coisa. Posto isto. Há homossexuais que gostariam de dar o nó e não podem. Não podem, porque a instituição casamento é um exclusivo, em Portugal, dos heterossexuais. Ora bem. A Assembleia da República decidiu discutir o assunto, fazendo-o a partir de uma proposta dos Verdes e do Bloco de Esquerda que visa alargar a possibilidade do «sim» a pares do mesmo sexo.
Embora não pertencendo a nenhum dos partidos com assento na referida Assembleia, e sem sequer me dizer grande coisa a referida matéria, como já deixei claro no ponto prévio, gostaria de dizer 4 coisas.
1. Não tendo por hábito meter-me na vida dos outros, acho basicamente ― e concedo que de forma muito básica ― que se os homossexuais se querem casar é com eles. Não vindo daí qualquer mal ao mundo, talvez apenas mais divórcios, porque raio é que os heterossexuais têm, não só de opinar, como de decidir contrariamente à vontade de um clube de que não são membros?
2. Independentemente da declaração anterior, fez-me particular espécie a agitação socialista. Sobretudo a história da disciplina de voto. E, sobretudo, a aritmética do seu líder parlamentar.
3. Senão vejamos. Segundo notícia veiculada pela LUSA, e cito, «uma maioria dos deputados socialistas aprovou hoje a disciplina de voto contra os projectos sobre casamentos homossexuais». A contagem deu «47 votos favoráveis» e «cerca de duas dezenas contra».
Ainda segundo a LUSA, «o grupo parlamentar do PS é composto por 121 deputados». Regressando às contas temos que: 47+20 (quanto aos «cerca» podiam ir de 1 a 9, mas deixemo-los de lado...) dá 67. Faltam, portanto, outros tantos que não se pronunciaram, o que poderia, caso se tivessem pronunciado, fazer subir o número de apoiantes da proposta da direcção parlamentar, mas também diminuí-lo ou igualá-lo ao dos seus opositores.
Não se percebe, assim, a declaração heróica do líder parlamentar do PS, Alberto Martins: «a maioria, de forma muito expressiva, aprovou a disciplina de voto». É uma frase para a qual só encontro uma explicação: ele não sabe fazer contas.
4. Mais surpreendida fiquei ainda com a conclusão que o mesmo Alberto Martins retirou do facto de o PS vir permitir a Pedro Nuno Santos votar em consciência (ou seja, a favor do casamento entre homossexuais, apesar do não a que obriga a disciplina de voto). Afirmou ele que essa decisão foi uma «afirmação de pluralismo». Mas onde é que uma unidade (neste caso, Pedro Nuno Santos) pode ser ao mesmo tempo plural?
A não ser que Martins, apesar de péssimo em números, seja senhor de uma complexidade filosófica que me ultrapassa. O que é uma contradição nos termos, como saberá qualquer pessoa que tenha lido Platão.