Mostrar mensagens com a etiqueta Relógio D'Água. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Relógio D'Água. Mostrar todas as mensagens

16/04/12

A book a day keeps the doctor away: "A Filha do Optimista", Eudora Welty

O que escrever e como escrever sobre um livro ao qual assenta como uma luva o atributo perfeito? Porque é de perfeição que falamos quando falamos de A Filha do Optimista de Eudora Welty (apenas uma nota de perplexidade: a Relógio D’Água optou por manter o “p” de “optimista” no título embora no corpo do romance se opte pela grafia segundo o (des)acordo ortográfico).

Eudora Welty (1909-2001) é um dos muitos nomes “sulistas” que fazem grande a literatura dos EUA. O romance agora traduzido, vencedor do Pulitzer em 1973 mas já publicado numa versão curta de conto em “The New Yorker” no ano de 1969, narra o confronto entre duas jovens mulheres separadas pela geografia e pela cultura: Laurel e Fay. A primeira é filha do juiz McKelva, a segunda é a sua actual mulher, com quem o juiz casou há ano e meio após enviuvar da mãe de Laurel.
As três personagens encontram-se de momento em Nova Orleães, cidade onde McKelva veio a uma visita médica que acabará por complicar-se tragicamente. Pai e filha são nascidos no Mississípi, embora Laurel viva e trabalhe em Chicago; quanto a Fay, é originária do Texas e apenas se mudou para Mount Salus após o casamento. Muito mais nova do que o marido, não leva a sério o problema de saúde do juiz, ao contrário da filha deste que, intuindo a gravidade do caso, se metera no primeiro avião para o acompanhar ao médico.
O triângulo do conflito fica magistralmente desenhado no primeiro parágrafo: “Uma enfermeira segurou a porta para eles entrarem. Primeiro o juiz McKelva, em seguida a filha, Laurel, e por último a esposa, Fay, penetraram no gabinete sem janelas onde o médico ia observá-lo. O juiz McKelva era um homem alto e pesado, de setenta e um anos, que habitualmente usava os óculos presos a uma fita. Com eles na mão desta vez, sentou-se na cadeira elevada, como um trono, mais alta do que o banco do médico, com Laurel de um lado e Fay do outro.”

A mesma economia e aparente simplicidade narrativas atravessarão as cerca de 130 páginas de A Filha do Optimista, decididamente o melhor texto longo de Eudora Welty, conhecida, sobretudo, pelos seus contos. O romance está dividido em três partes distintas e atravessa-o uma contenção desprovida de qualquer sentimentalismo, apesar de o tema se prestar a isso: um homem justo e velho casa-se com uma mulher jovem de poucos escrúpulos. Após a sua morte, a filha, dedicada, culta e bem-formada, confronta-se com a memória do passado (o que inclui, naturalmente, a memória da sua própria mãe), acabando por, nesse processo, confrontar também a provinciana madrasta com o seu comportamento condenável. O risco de se cair num registo maniqueísta e moralista é, porém, completamente evitado por Welty que consegue com mestria deixar-nos com uma obra aberta, na qual o contraste moral entre as duas mulheres – fundado nas suas origens culturais e geográficas – se deixa ler na sua absoluta individualidade e humanidade, sem recurso a quaisquer ardis extraliterários.

O mais impressionante em A Filha do Optimista residirá, aliás, na forma sage como consegue manter em suspenso o conflito entre as duas personagens femininas principais, criando no leitor uma sensação de incomodidade que se vai avolumando, à semelhança de uma onda gigante que se nega a rebentar, preferindo desfazer-se em espuma. E mesmo na cena final em que Laurel e Fay se enfrentam, o resultado é surpreendente (dramática e moralmente surpreendente), preferindo Laurel guardar a memória dos mortos a vingar-se dos vivos. Uma pequena obra-prima.

A Filha do Optimista, Eudora Welty, Relógio D’Água, 2012, tradução de Margarida Periquito

01/03/12

A book a day keeps the doctor away: "Contos Escolhidos", Isaac Babel

Os livros é como tudo: há maus, medíocres, sofríveis, bons e excelentes. Contos Escolhidos, Isaac Babel (1894-1940), pertence à última categoria.
Apesar do título que, dir-se-ia, deixa muita coisa de fora, a obra do russo foi curta no género – preferiu o conto – e na quantidade.
Uma das filhas, Nathalie Babel, organizou-a postumamente e, em 2002, As Obras Completas de Isaac Babel surgiram em inglês traduzidas do russo por Peter Constantine, reunindo cronologia e notas, uma introdução da norte-americana Cynthia Ozick e prefácio da própria filha. No total, 1072 páginas, incluindo prosa memorialista e argumento para filme nunca realizado. Número suficiente para um escritor de quem se diz ter dito que, ao contrário de Tolstoi, capaz de narrar ao minuto os acontecimentos do dia, preferia ir directo ao assunto e atacar logo os cinco minutos principais.
Alguns amantes de Babel (entre os quais Jorge Luis Borges, e o brasileiro Rubem Fonseca que andou com ele ao colo em Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos) aguardarão ainda a descoberta de inéditos. A vida aventureira e, finalmente, trágica do escritor permite pensar assim.
Nascido em Odessa no seio de uma família judaica, numa altura em que os pogroms serviam ainda de inspiração ao humor de Sholem Aleichem (escritor que, aliás, Babel traduziu do iídiche para russo), muda-se para São Petersburgo onde abraça a causa bolchevique e encontra o seu mentor, Máximo Gorgi. A morte deste último em 1936 alia-se à praga do “realismo socialista” a que acresce a paranóia estalinista. Babel é preso em 1939, acusado de traição, sujeito a tortura e executado. Os seus manuscritos são confiscados e o seu nome banido. Décadas antes, em 1934, durante o Congresso da União de Escritores Soviéticos, gracejara sobre a sua condição de escritor sob suspeita, comentando que estava a tornar-se «num mestre de um novo género literário, o género do silêncio”.
Contos Escolhidos reúne textos subtraídos, sobretudo, a Exército de Cavalaria e Contos de Odessa traduzidos do russo por Nailia Baldé que também assina a Nota Introdutória (Contos de Odessa tem duas edições anteriores ao 25 de Abril e uma outra da Dinossauro de 2005, e, sob o título, Cavalaria Vermelha, existem duas de 1976).
Como escreveu a escritora e crítica britânica Margaret Drabble (“The Guardian”, 11/05/2002) a obra de Babel “cheira a guerra e cavalos, cebolas e arenques, fome e sangue”. A escrita fragmentária, paradoxal, na qual a comicidade casa com a crueldade, sai reforçada por associações surpreendentes, incoerências, repetições, construções em elipse. Regada com um humor mordaz e colorido, é uma escrita telúrica (e, nesse sentido, bem russa) que tanto nos horroriza como nos faz soltar gargalhadas.
A prosa é precisa (o “mot juste” espreita todos os parágrafos acompanhado, embora, de inventiva linguagem), transmitindo uma espécie de nonchalance que a aproxima do puro jogo. Os retratos pícaros das personagens de Odessa, com os seus bandidos, contrabandistas e casamenteiros (“Contos de Odessa”), os relatos da frente de batalha, sanguinários, desesperados e, ainda assim, cómicos (“Exército de Cavalaria”), e o tom vagamente nostálgico das histórias mais pessoais (“Contos Dispersos”), comprovam um grandessíssimo escritor.
Banido, maldito e obrigatório.
Isaac Babel, Contos Escolhidos, Relógio D'Água, 2012, tradução de Nailia Baldé

16/05/10

A book a day keeps the doctor away

A Relógio D’Água presenteou-nos o ano passado com o primeiro título de Arto Paasilinna em português, A Lebre de Vatanen, belíssimo romance burlesco de fundo ecológico que fez merecidamente a fama do seu autor que o escreveu no já longínquo ano de 1975.
Como prometido na altura, a editora reincidiu (publicou depois Um Aprazível Suicídio em Grupo), contando-se agora em três títulos os romances disponíveis entre nós assinados por este escritor nascido na Lapónia em 1942 e que, antes de se ter consagrado às letras, foi lenhador, operário agrícola e jornalista.
As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi confronta-nos com o périplo delirante do protagonista homónimo, um self-made man que acaba de fazer 60 anos e não sabe como desfazer-se da quantidade imensa de flores com que amigos e conhecidos lhe encheram a casa. Obrigado a ver-se livre delas por causa da alergia da mulher, Annikki, Rauno inicia uma viagem algo nostálgica na companhia de Seppo Sorjonen, motorista de táxi expedito e cúmplice, revisitando (sobretudo) antigas amantes a quem oferece os ramalhetes indesejados.
Os vários capítulos vão tomando os nomes dessas mulheres reencontradas, enquanto Annikki desaparece em parte incerta, adensando-se o insólito e o burlesco à medida que se somam as conquistas do velho sedutor, até que depois, passado mais do meio do livro, a coisa muda de figura.
O romance confronta-nos com a fantasia pícara e acelerada de Arto Paasilinna e com o seu humor que parece alicerçado no simples bom senso (apesar de, paradoxalmente, As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi transbordar de nonsense), com a sua escrita simples e precisa, e com os seus divertidos retratos femininos: da operária que tem na estante As Obras Completas de Lenine à intelectual perseguida pelo ex-marido, entretanto promovida a responsável do Museu Nacional…, que servem de contraponto ao do industrial fogoso mas ingénuo.
A tudo isto se acrescenta, para prazer do leitor português, a viagem à longínqua Finlândia, com as suas diferentes idiossincrasias e manias, algumas absolutamente identificáveis, outras tão distantes como a geografia: da política e da culinária locais ao tratamento por tu entre as personagens, da visão desprendida do sexo ao desprendido à-vontade entre os dois sexos. Se nunca foi à Finlândia, leia. Se já foi, leia também. Só a imagem do conselheiro para a indústria Rauno Rämekorpi, nu, aspirando alegremente a casa de uma ex-amante vale o livro.

As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi, Arto Paasilinna, Relógio D’Água, 2010

23/03/10

A book a day keeps the doctor away

Uma saga familiar tem de ser uma coisa chata? Não tem. A prova (descontado Thomas Mann, para quem aprecie, e não é o meu caso...) está neste livro de John Cheever (1912-1982), contista de primeiríssima água que se estreou no romance – cautelosamente, só em 1957 – com Crónica de Wapshot, título que lhe valeria o National Book Award e ao qual daria continuação mais tarde com The Wapshot Scandal, publicado em 1964.
Conhecido na América como o “Chekhov dos subúrbios” – por aplicar a sua análise cirúrgica da natureza humana, similar à do escritor russo, a personagens que situa, normalmente, em lugares na aparência idílicos, e a palavra-chave é, claro, “aparência” – Cheever retrata em Crónica de Wapshot a família do mesmo nome, cujas origens remontam ao século XVII e que desde essa altura vive na região de St. Botolphs, uma terra em decadência, antigo porto fluvial que já conheceu melhores dias.
O romance organiza-se em torno de Leander Wapshot, o pai de família e capitão do S.S. Topaze, “um xaveco de água doce que se movia (…) a passo de lesma”, da sua mulher, Sarah Coverly, dos filhos Moses e Coverly e ainda de Honora, uma prima rica e dominadora que acabará por deserdar os rapazes “expulsos do paraíso, até ao dia em que cresçam e se multipliquem” (do prefácio de Rick Moody, autor de Tempestade de Gelo, livro com o qual Ang Lee faria um belíssimo filme).
Despiciendo contar as aventuras narradas, sublinhe-se a organização da obra – cheia de interrupções, excentricidades e apartes picarescos – o humor fino e melancólico de Cheever e, sobretudo, o prazer que se retira do seu domínio da linguagem: “Tal como Moses, chegas às nove da noite a Washington, uma cidade desconhecida. Esperas a tua vez de sair do comboio, de mala na mão, e percorres o cais de embarque até à sala de espera. Aqui pousas a mala e olhas à tua volta, perguntando a ti mesmo qual teria sido a ideia do arquitecto. Há deuses por cima da tua cabeça, na penumbra, e o chão que pisas, a menos que tenha sofrido alguma intervenção, foi em tempos percorrido por reis e presidentes. Segues a multidão e o ruído de uma fonte, passando desta penumbra para a noite. Pousas de novo a mala e ficas de boca aberta. (..)”
Como disse o próprio Cheever, “a page of good prose remains invincible.”

Crónica de Wapshot, John Cheever, Relógio D’Água, 2010, tradução de José Miguel Silva

09/03/10

Independentemente das alterações climáticas serem ou não resultado da acção humana, a verdade é que já não se aguenta esta chuva

Enquanto não passa, aproveite-se para ler Crónica de Wapshot de John Cheever (Relógio D'Água).
Retiro o excerto do prefácio de Rick Moody: "Vistam roupa escura depois das seis da tarde. Comam peixe fresco ao pequeno-almoço sempre que possível. Evitem ajoelhar em igrejas de pedra sem aquecimento. [...] Mantenham-se sempre aprumados. Apreciem o mundo.»

07/12/09

Gostar de [alguns] homens: e que se lixe o feminismo pequeno-burguês de fachada socialista

DAS DIFERENÇAS ENTRE O NASCIMENTO DO AMOR NOS DOIS SEXOS

(...) Como dezanove, em cada vinte dos seus devaneios habituais [das mulheres], são relativos ao amor, esses devaneios, depois da intimidade, acabam por se agrupar em torno de um só objecto; prestam-se a justificar um comportamento extraordinário, decisivo e contrário às regras do pudor. Nos homens esse trabalho não existe; em seguida, a imaginação das mulheres disseca à-vontade esses instantes tão deliciosos.
Como o amor faz duvidar das coisas mais comprovadas, a mesma mulher que, antes da intimidade, estava tão segura de que o seu amante era um homem acima do vulgar, mal julga não ter mais nada a recusar-lhe, treme ao pensar que ele poderá tê-la procurado apenas para acrescentar mais uma mulher à sua lista.
Só então surge a segunda cristalização que, porque acompanhada pelo medo, é de longe muito mais forte.
(Esta segunda cristalização não existe nas mulheres fáceis que estão bem longe de todas estas ideias romanescas)
Uma mulher acredita ter passado de rainha a escrava. Este estado de espírito e de alma é ajudado pela embriaguez nervosa nascida dos prazeres tanto mais sensíveis quanto mais raros. Uma mulher, no seu ofício de bordar, trabalho insípido que apenas ocupa as mãos, sonha com o seu amante, enquanto este, a galope na planície com o seu regimento, é posto sob prisão se origina um passo em falso.
Estou em crer, pois, que a segunda cristalização é muito mais forte nas mulheres porque o receio é mais vivo; a vaidade, a honra estão comprometodas ou, pelo menos, as distracções são mais difíceis.
Uma mulher não se pode guiar pelo hábito de ser racional, esse hábito que eu, homem, adquiro obrigatoriamente no meu escritório trabalhando seis horas todos os dias em coisas frias e racionais. Mesmo fora do amor, as mulheres tendem a entregar-se à imaginação e à exaltação habitual; o desparecimento dos defeitos do objecto amado deve ser, pois, mais rápido.
As mulheres preferem a emoção à razão; é muito simples: como, em virtude dos nossos limitados costumes, elas não têm a seu cargo nenhuma responsabilidade familiar, a razão nunca lhes serve para nada, nunca lhe acham qualquer préstimo.
Ao invés, é-lhes sempre prejudicial, já que apenas surge para as censurar de terem tido um prazer ontem, ou para lhes ordenar que não tenham nenhum amanhã.
Entregue à sua mulher os negócios com os rendeiros de duas das suas terras, e aposto que os registos serão melhor cuidados do que por si, e nessa altura, triste déspota, terá pelo menos direito a queixar-se, já que não tem talento para se fazer amar. A partir do momento em que as mulheres levam a cabo raciocínios gerais, elas fazem amor sem se aperceberem. Nas coisas de pormenor, pretendem ser mais severas, mais exactas do que os homens. Metade do pequeno comércio está entregue às mulheres, que dele se ocupam muito melhor do que os seus maridos. É uma máxima conhecida que quando se fala com elas de negócios, toda a gravidade é pouca.
É que elas estão sempre, e seja onde for, ávidas de emoção: vejam-se os festejos dos funerais na Escócia.

in Do Amor, Stendhal, Relógio D'Água, 2009 (com algumas alterações na tradução introduzidas por moi-même)
[boneco daqui]

14/09/09

A book a day keeps the doctor away

Logo a abrir o protagonista/narrador informa os seus leitores: “Sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne”. Publicado originalmente em 1948 (e já antes traduzido em Portugal), O Túnel foi a primeira incursão de Ernesto Sabato na ficção. No conjunto, apenas três obras: a que agora se reedita, o magistral Heróis e Túmulos, 1961 (com edição na Europa-América em 1973), e Abaddón el Exterminador, 1974, que eu saiba nunca passado para português.
Ex-homem de ciência que um dia abandonou a física nuclear para se dedicar aos livros (além da triologia romanesca, tem obra ensaística de peso), cidadão comprometido com o seu tempo (foi comunista e admirado pelos existencialistas, nomeadamente por Camus que não pouparia elogios a O Túnel), diria o escritor argentino da relação entre ideias e literatura: “Um crítico alemão perguntou-me porque é que nós, latinos-americanos, temos grandes romancistas mas não grandes filósofos. Porque somos bárbaros, respondi-lhe, porque por acaso nos salvámos da grande cisão racionalista”. E é precisamente disso que não se salva Pablo Castel, o assassino de María Iribarne.
Escrito na primeira pessoa, é o próprio Pablo quem nos vai narrando a sua obsessão: como conhece María, como se torna seu amante, como o amor entre eles vai crescendo, como o mesmo se vê pouco a pouco corroído pelos ciúmes... até ao desenlace fatal. Amor e loucura vão aqui de mãos dadas e, chegados ao fim, como a Capitu de Machado, nada podemos garantir sobre María Iribarne, aquela que, segundo o seu próprio carrasco, fora a única a compreender-lhe a pintura. Escrito com a precisão de um relojoeiro louco, O Túnel conduz-nos pelos trilhos e abismos de uma cabeça exacta, lógica, capaz de criar o seu próprio inferno (ajudado apenas por uma imaginação delirante?). Metáfora da criação artística? Do estado do mundo? Seja o que for, uma obra-prima.
O Túnel, Ernesto Sabato, 2009, tradução de Francisco Vale, Relógio D'Água

23/06/09

Don DeLillo: retrato exacto de uma geração em 429 palavras [como só um escritor seria capaz, claro]

(...) «Toda a gente já leu sobre como foi difícil para vocês, veteranos do Vietname, a transição para a vida civil. Estavam tão bem nos campos de prisioneiros, a supervisionar a tortura de um ou outro camponês.»
«É melhor ir com calma», disse ele.
«E de repente vêem-se de volta à América e andam por aqui, desconcertados. Não admira que conservem o mesmo sorriso. Eu sei, os camponeses eram perigosos. O inimigo estava por todo o lado.»
«Está a sair dos seus domínios.»
«É verdade», disse ela. «É uma insolência da nossa parte, os não combatentes, criticarmos Os Que Estiveram Lá. Eu compreendo esse ponto de vista e até simpatizo com ele. Ainda assim, sempre senti que a melhor forma de ver as coisas é objectivamente e, às vezes, a distância permite-nos uma visão mais clara e precisa. Uma distância de milhares de quilómetros. Os sofrimentos testemunhados em ambos os lados do conflito podem não passar de uma mentira. Mas você tem razão, em termos gerais. No meu ridículo esforço para ser imparcial, consigo compreender o seu ponto de vista. E, sim, admito que estou fora dos meus domínios. Por isso, voltemos atrás. Falemos antes de coisas que vi e ouvi.»
O táxi seguia agora para o centro da cidade pelo lado oeste do parque.
«Você e o senador andam atrás do mesmo. Eu sei do que se trata, embora não possa dizer que compreenda plenamente que interesse vêem naquilo. Mas não importa. O que importa é que um homem foi morto à conta disso.»
«E acha que isso é importante.»
«Acho que merece ser tido em consideração.»
«A mim não me parece que seja importante.»
Mudger estava inclinado para ela, coarctando-lhe um pouco o espaço, com o seu braço esquerdo estendido sobre o topo do banco.
«Está a aprender a falar comigo?», perguntou ela.
«Como?»
«Disse que não sabia falar comigo. Que por isso é que aqui estava.»
«Estou a aprender alguma coisa. Não sei bem o quê. Acha então que é importante. Um homem foi morto. E há dez anos, também achava que foi importante? No tempo do seu perito em demolições?»
«Está a par disso. Claro.»
«Claro que estou. O grande Gary Penner, já falecido. E ali andava você, muito magra e perdida, no seu casaco com dragonas. Quantas pessoas é que o Gary mandou pelos ares, nas suas aventuras? Você devia saber. Vivendo com ele. Tendo vivido com ele. Meia dúzia de seguranças. Alguns transeuntes. Um braço aqui, uma perna acolá.»
Moll olhou pela janela.
«Você não interveio directamente. Assistir da bancada já era suficientemente divertido. Mas entretanto amadureceu, não é verdade? O terror já não é tão excitante como outrora. Sabemos demasiado. Vimos coisas. Agora dedicamo-nos à jardinagem biológica.»
«Acha mesmo que amadureci?»
«Um pouco», disse ele. «Em certa medida. O suficiente para estabelecer limites.»
(...)
Cão em Fuga, Don DeLillo, Relógio D’ Água, 2009, trad. de José Miguel Silva

15/04/09

Eu vinha falar sobre o autismo dos nossos deputados que não sabem interpretar uma metáfora quando me saltou às canelas um poeta surrealista*

Avisto na rua um cão
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não fala com
muita frequência
Boris Vian, "Bom-Dia Cão" in Cantilenas em Geleia (tradução de Margarida Vale do Gato, Relógio D'Água, 2004)
* o assunto politicamente correcto de que não falei é este

15/03/09

A poem a day keeps the doctor away

Nada é o que permaneceu: nada, o arrojado epíteto
Que pronunciei pela noite tantas vezes até ser transportado
Para um escuro sono, ou o sono que continha um sonho.

Nisto havia uma enorme ausência contagiosa,
Mais espaço do que espaço, sobre a nuvem e o lodo,
Definidos apenas pela sua excessiva oscilação.

Despojado até à indiferença nas curvas do tempo,
Cujo fim eu conhecia, acordei sem um desejo,
E saudei o zero como um paradigma.

Mas agora despedaça-se: as imagens surgem incendiadas
Na calma esfera onde tenho vivido,
Regulando a paisagem ainda intacta:

O poder que imaginava, que presidia
Supremo a devastações abstractas,
É apenas uma mudança; os átomos que o dividiam

Completam, sem o saber, novas combinações.
Apenas descubro uma infinita finitude
Naquelas variações belas e estranhas.

É o desespero de que o nada possa existir
A cintilar no espírito e a deixar uma marca fumegante
De temor.
Olhem para cima. Nem presa nem liberta,

Uma questão inútil paira nas trevas.

A Destruição do Nada, in A Destruição do Nada e outros poemas, Thom Gunn, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D'Água, 1993

21/11/07

Coisas que Realmente Importam: Cormac McCarthy

Estreou hoje nos EUA a adaptação para cinema, feita pelos irmãos Cohen, do romance do norte-americano Cormac McCarthy, No Country for Old Men. Publicado originalmente em 2005, acaba de sair na Relógio D'Água, com tradução de Paulo Faria e sob o título Este País não É para Velhos.
Os Cohen que têm no currículo coisas tão conseguidas como Blood Simple (e ainda me lembro de o ver afundada numa cadeira do velho Quarteto, estarrecida pela reviravolta de horror que chegava logo a seguir ao intervalo), Miller's Crossing (um filme capaz de sintetizar todos os grandes tratados de ética logo na cena de abertura), Fargo (a maior homenagem a uma personagem feminina a que já assisti no cinema), ou o delirante e mordaz The Big Lebowski talvez sejam mesmo a escolha certa para passar ao grande ecrã este romance para «leitores corajosos» — uma expressão que Harold Bloom usou para Meridiano de Sangue (McCarthy, Relógio D'Água) mas que também aqui se aplica (embora Meridiano de Sangue requeira estômagos ainda mais sólidos do que Este País não É para Velhos) —, sobretudo agora que Huston já não está cá. Mas se quanto ao filme só posso especular, o livro é outra conversa. Voltarei a ele Sábado. Entretanto, deixo um pequeno excerto como aperitivo.
«Ele abanou a cabeça. Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. Só tenho uma maneira de viver, que não admite casos excepcionais. Uma moeda ao ar, no máximo. Sem grande utilidade neste caso. A maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema, como facilmente entenderás. Como levar a melhor sobre uma coisa cuja existência nos recusamos a reconhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes?
Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo.
Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro.»
Foto: Marion Ettlinger, Cormac McCarthy, New York City, 1991