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22/12/12

O Homem Pensa, Deus Ri

Gosto muito de Santo Agostinho. Apesar disso, só posso dar razão a Jim Hankinson quando este escreve em “O Especialista Instantâneo em Filosofia”, a propósito da chamada Idade das Trevas: “a pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se em disputas tais como se Deus era Uma Pessoa em Três ou Três Pessoas Numa, a natureza exacta da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo)”.
Séculos passados sobre a castração de Abelardo e a Querela dos Universais, deparamo-nos com a polémica sobre o burro e a vaca. Ao que parece, o Papa terá sido mal citado. Bento XVI, apesar de ter escrito que tais criaturas não constam no registo bíblico, nunca ordenou que fossem excomungadas do presépio.
Não deixa de ser curioso, contudo, o ruído à volta das declarações do chefe da Igreja católica. Jornais, televisões e redes sociais atiraram-se aos pobres animais como cães a osso, e os debates renhidos sobre a existência de Deus deram lugar a acesas discussões sobre a existência dos dois quadrúpedes.
Que nos seja permitido suspeitar que tal deriva teológica substancia um empobrecimento intelectual do mundo, a que acresce o facto de ninguém nos garantir que a veemência posta na defesa dos pobres bichos não possa igualar, em fanatismo, o vigor com que foi afirmado o Ser Supremo.
É dos livros que a fé move montanhas e tende a deixar um rasto de cadáveres. Chato mesmo, é que nada nos garante que sem fé a coisa tivesse corrido melhor, apesar de alguns estudos afiançarem que os países nórdicos (com maior % de ateus) são socialmente mais justos. E se a coisa for do clima?

26/08/12

Assange e o Desejo

Quando esta crónica for publicada talvez eu já esteja a banhos e Assange no Equador. É difícil de prever. Londres insiste em mandá-lo para a Suécia. Quito ofereceu-lhe asilo, mas como chegar a Quito? San Francisco de Quito, de seu nome completo, fica no “meio do mundo”, está rodeada por vulcões e eleva-se a mais de 2800 metros de altitude. Tudo isso é o menos, claro. O problema, para já, é chegar ao aeroporto. Dentro da mala diplomática? Inside of a dog?
Eu nunca fui a Quito. Tenho pena. Também gostava muito de visitar as Galápagos, embora nas Galápagos não se possam dar voltas de tartaruga.
À Suécia já fui e não serei eu a dizer que fiquei apaixonada. A coisa mais engraçada que tenho a dizer sobre a Suécia é que ainda hoje sou capaz de distinguir o sueco das outras línguas nórdicas (apesar de não falar nenhuma…), devido ao consumo exacerbado de Bergman durante a adolescência. Quanto à vida sexual sueca, qualquer coisa me escapava então, e continua a escapar-me agora.
Confesso que o que mais me encanita, porém, é a posição missionária inglesa.
Depois de, em 2009, terem libertado e despachado para a agradecida Líbia, Al-Megrahi, o bombista de serviço a Lockerbie que em 1988 matou 259 pessoas a bordo de um avião, mais 11 em terra, e, em 2000, o Pinochet para o Chile – “may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch” –, porquê este circo em torno de um homem que apenas dormiu com duas voluntárias suecas, e uma de cada vez?
A coisa tresanda a arenque e a cilada e duvido que mais alguém as convide para a cama.
Pobre Mónica! (entenda-se aqui por Mónica a Harriet Andersson e não a mãe de Agostinho, outro que também era fresco).