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28/12/08

2008: as vendas de O Segredo, o yes, we can! de Obama e o l'air du temps que nos toca a todos

O leitor vai-me perdoar o início um tanto abrupto, mas o que raio poderá querer dizer Todas as coisas que deseja são feitas de energia e estão também a vibrar? E para que não se diga que, malevolamente, privei a frase da sua circunstância, acrescento a versão integral do parágrafo: Deixe-me explicar-lhe como é que você é a torre de transmissão mais poderosa do Universo. Em termos simples, toda a energia vibra com uma certa frequência. Como energia que é, você também vibra com uma certa frequência, e o que determina a sua frequência a qualquer momento é aquilo em que está a pensar e a sentir (...).
Ainda que incapaz de visualizar o Universo — e eu própria dentro dele — acometido por uma qualquer doença vibratória aparentada com Parkinson, atirei-me à leitura do livro de Rhonda Byrne como gato a bofe. Mea culpa, nunca tinha lido O Segredo. Fi-lo a propósito da conferência que Bob Proctor, um dos seus mentores, realizou a 18 de Junho deste ano em Portugal com a ajuda (na primeira parte) do grande Adelino Cunha.



Pensando ter entre mãos um texto de auto-ajuda, confesso que não estava preparada para tanto. Não é que desconhecesse a linguagem. Lá pelos idos de 70 cruzei-me com alguns discípulos de Prem Rawat, nome de guerra Maharaj Ji, guru exótico um tanto gordo que coleccionava Rolls Royce e acólitos vindos do rock. Era, porém, um pequeno grupo, ao invés dos adeptos de Rhonda Byrne, ou pelo menos do seu livro, campeão de vendas nacional em 2007 e, segundo se noticia aqui, também em 2008.
Os organizadores da conferência de Proctor calcularam sete mil espectadores no Pavilhão Atlântico. Um número que só pode surpreender pela modéstia. Afinal, ele foi homem para garantir, sem pestanejar: Posso mostrar-vos como ganhar o dinheiro que precisam, para as coisas que querem, para viver da maneira que preferirem viver. Os adeptos do guru Maharaj Ji da minha juventude seriam menos materialistas, mas, entretanto, até eles terão percebido que «money makes the world go around». Proctor incluído. Um cachet base de 35 mil dólares, mais despesas de deslocação, é quanto, oficialmente, cobrou pela conferência de duas horas e meia. Resumindo: à semelhança dos almoços, também não há segredos grátis.
No caso, o «segredo» é apenas um e responde pelo nome de Lei da Atracção: Tudo o que entra na sua vida é atraído por si. E é atraído por si em virtude das imagens que guarda na sua mente. É aquilo em que está a pensar. Seja o que for que está a ocupar a sua mente, é isso mesmo que está a atrair para si.
A frase levanta alguns problemas. Embora já não se encontre disponível online, o YouTube chegou a alojar um vídeo do programa de televisão da NBC «Saturday Night Live» no qual a actriz Maya Rudolph parodiava uma entrevista de Oprah Winfrey (uma fã de O Segredo) a um habitante de Darfur. Naturalmente, a grande pergunta era: teria mais pensamento positivo impedido o genocídio? À luz do que vem escrito no livro, a resposta só podia ser «Sim!». Traduzindo para linguagem poética (que Carlos de Oliveira nos perdoe a heresia...): se pensarmos com muita, muita força, não há machado que corte a raiz ao pensamento.
Seja qual for o objecto da nossa psique, o «segredo» consiste sempre em visualizá-lo no presente, antecipando-lhe a materialidade: dinheiro hoje, amor agora, saúde já, sucesso imediato, estacionamento ao virar da esquina...
Para o leitor que julga que ironizo, cito: A razão pela qual você é a torre de transmissão mais poderosa do Universo é o facto de lhe ter sido dado o poder de focar a sua energia através dos seus pensamentos e de alterar as vibrações daquilo em que está focado, que é depois magneticamente atraído até si.
Atenção! Avisa-nos O Segredo que este poder pode também virar-se contra nós. Maus pensamentos resultam em más vibrações, e más vibrações magnetizam coisas más. Veja-se como Rhonda Byrne aplica exemplarmente o raciocínio às dietas: Ninguém tem ‘pensamentos magros’ e é gordo. Isto contraria a lei da atracção (...) Os alimentos não o fazem perder peso, a não ser que acredite nisso.
A doença não é excepção: Tinham diagnosticado a Norman uma doença ‘incurável’. Os médicos disseram-lhe que tinha apenas alguns meses de vida. Norman decidiu curar-se a si próprio. Durante três meses, viu apenas filmes cómicos e riu, riu, riu. A doença deixou o seu corpo nesses três meses, e os médicos consideraram a sua recuperação um milagre.
Quanto a arrumar um carro, é coisa de principiante: As pessoas ficam admiradas por eu conseguir sempre um lugar de estacionamento. Ando a fazer isto desde o início, depois de ter percebido pela primeira vez O Segredo. Visualizava um lugar de estacionamento exactamente onde o queria e 95 por cento das vezes ele estava lá para mim e eu só tinha de estacionar. Cinco por cento das vezes tinha de esperar um minuto ou dois, e a pessoa saía e eu entrava. Faço isso regularmente [mais frases mortais para quem estiver interessado].
Chegados aqui, cumpre esclarecer. Declarar que a mente, de per si, muda a realidade exterior já não faz prova de optimismo nem é exemplo de pensamento positivo. Caímos em pleno caldeirão do pensamento mágico, assente, neste caso, num individualismo exacerbado (mesmo se disfarçado pela comunhão cósmica), a que se acrescenta o imobilismo social (mesmo se disfarçado pela cenoura do sucesso). Amálgama de falsidades científicas e lugares-comuns comportamentais, reciclagem de conceitos New Age misturados com New Thought, O Segredo soma milhões de cópias vendidas. Se nos lembrarmos que Barack Obama, o novo Presidente dos EUA, teve como slogan de campanha «Yes, We Can!», o que é que nos surpreende afinal no l’air du temps?



Bob Proctor, it’s all about the money?
Apresentam-no como filósofo, mas Proctor reconhece não ter estudos. O livro Think and Grow Rich, de Napoleon Hill, mudou-lhe a vida aos 26 anos. Mais tarde chegou a vez de ele escrever You Were Born Rich. E, entretanto, tornara-se rico de verdade. Segundo o próprio, graças ao «segredo»; segundo outros, graças aos seus dotes oratórios de pregador e à credulidade do público. Foi um dos que esteve ao lado da australiana Rhonda Byrne desde a primeira hora, participando no DVD The Secret, que daria mais tarde origem ao livro com o mesmo nome. Participa em conferências pelo mundo e disse numa entrevista à revista brasileira Veja, em Abril passado: Se convivemos com pessoas tristes, ambientes negativos, isso impede-nos de acreditar que cada um é o que quiser ser. Eu não perco tempo com pessoas infelizes. Ninguém deve perder tempo com elas.
Curto, grosso e com sucesso garantido.

13/06/08

O negócio é a alma de «O segredo»

Mea culpa, mea maxima culpa. Tinha-me escapado o livro que mais vendeu em Portugal o ano passado, O Segredo, que já vai com 350 mil exemplares distribuídos por aí. A propósito da vinda a Lisboa de um senhor que dá pelo nome de Bob Proctor, mentor espiritual da coisa (na realidade, não sei bem como chamar-lhe...), fui ler. A Pastelaria serve algumas pérolas:

«Porque é que acha que um por cento da população mundial ganha cerca de 96 por cento de toda a riqueza criada? Acha que é por acaso? (...) Eles sabem qualquer coisa. Percebem O Segredo»

«A única razão por que as pessoas não têm dinheiro suficiente é o facto de estarem a bloquear o dinheiro que vem na sua direcção com os seus pensamentos»

«Há algo de magnífico em si. Tenho andado a estudar-me há 44 anos. Às vezes, apetece-me beijar-me a mim próprio»

«Nunca estudei ciências nem física na escola e, no entanto, quando li livros complexos sobre física quântica percebi-os perfeitamente porque os queria perceber»

«Os alimentos não são responsáveis por você perder peso. É o seu pensamento de que a comida é responsável pelo aumento de peso que leva os alimentos a engordá-lo»

«Tenha pensamentos de perfeição. A doença não consegue existir num corpo que tem pensamentos harmoniosos»

12/07/07

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Se o Estado não consegue proteger as pessoas de raptos perpetrados por extraterrestres, então, o Estado torna-se socialmente responsável por eles».
Jens Lorek, advogado alemão que tem como clientes criaturas terráqueas indevidamente catapultadas para o espaço, ainda que depois devolvidas à precedência.

30/06/07

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Muitas vezes se disse que o príncipe Philip, o assumidamente conservador marido da rainha, encarava o interesse do seu filho mais velho pela New Age com uma mescla de hilaridade e desdém. Ele também somava, contudo, as suas excentricidades, tendo sido um assinante entusiasta da Flying Saucer Review desde que a revista começou a ser publicada, em meados da década de 50. E estava bem acompanhado: o editor que fundou a Flying Saucer Review, conde de Clancarty, usou o facto de pertencer à Câmara dos Lordes para dar início a um amplo debate parlamentar sobre OVNIS em 1979, durante o qual revelou que nem todos os extraterrestres vinham do espaço - alguns emergiam de túneis provenientes de uma civilização instalada abaixo da crosta terrestre. «Pessoalmente, não estive lá em baixo», disse Conde de Clancarty, «mas, pelo que posso depreender, [esses seres] são muito adiantados. E acrescentou que quase todos os visitantes de outros planetas - assim como os da civilização sob a crosta terrestre - eram amistosos, embora «esteja informado de que existe um grupo hostil».
Este exemplo faz-nos lembrar a engenhosa defesa que o professor Roger Scruton fez da Câmara dos Lordes, classificando-a como uma casa genuinamente mais democrática do que a dos deputados eleitos: estes são, inevitavelmente mais inteligentes e ambiciosos do que o cidadão médio; ao invés, os Pares hereditários, sendo escolhidos por mero acidente de nascimento, mostram-se muito mais representativos da população em geral: incluem alguns tipos inteligentes, mas também uma boa dose de idiotas fala-barato»

How Mumbo-Jumbo Conquered the World, Francis Wheen