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27/04/11

Deus não existe e nós somos os seus profetas

Tinha 57 anos e quatro filhos. Trabalhava há três décadas na France Télécom. Pertencia ao grupo dos sortudos, dos que não foram para a rua durante o reinado de Didier Lombard, o PDG genial e empreendedor responsável pela “moda dos suicídios” e que bem podia, mais coisa menos coisa, ser um dos muitos filhos de puta que enchem os romances de DeLillo.
Ao velho funcionário, haviam-se limitado a transferi-lo de local de trabalho obrigando-o a mudar de residência e constantemente de funções. O homem, um fraco, um mal-agradecido, claro, não aguentou tanta modernidade. Tanta mobilidade. Suicidou-se pelo fogo no parque de estacionamento da empresa. Sozinho. Sem espectáculo e sem espectadores. Não o conseguiram filmar nem com a porra de um telemóvel.

27/03/11

A book a day keeps the doctor away: "Ponto Ómega", Don DeLillo

Ponto Ómega não é um haiku, apesar de a sua contenção estar mais próxima do despojamento da forma japonesa do que da torrente épica de outros títulos, como, por exemplo, Submundo. No seu último romance, DeLillo oferece-nos apenas um trio de personagens e uma trama que se organiza, também ela, em três momentos breves. No primeiro, chamemos-lhe prólogo, assistimos a 24 Hour Psycho, vídeo-instalação criada por Douglas Gordon (um artista de carne e osso que esteve recentemente em Portugal a convite do Estoril Film Festival) e que, resumidamente, consiste na projecção do clássico de Hitchcock a um ritmo de dois fotogramas por segundo, estendendo-se, assim, por 24 horas. No segundo, somos transportados para o deserto do Arizona, retiro de Richard Elster, velho intelectual que serviu o Pentágono durante a guerra do Iraque e que acaba de receber em casa o jovem realizador Jim Findley, cujo sonho é fazer com ele um filme com um único plano-sequência. Aos dois juntar-se-á Jessie, filha de Elster, personagem que empurrará Ponto Ómega para um registo – chamemos-lhe thriller metafísico – próximo das atmosferas de Cormac. Por fim, o terceiro momento, em que regressamos de novo a 24 Hour Psycho e, assim, ao misterioso anónimo (quarta e obscura personagem, talvez Dennis, talvez o próprio autor, DeLillo...) que assistia já à sua projecção no prólogo: Havia um homem de pé, encostado à parede norte, quase invisível. Resumida a coisa de forma a não estragar o suspense (que o há), diga-se que Ponto Ómega é um livro estranho, a transbordar de referências políticas, filosóficas, cinematográficas, feito, apesar do seu reduzido número de páginas, para se degustar e não para se engolir de um trago (primeiro estranha-se, depois entranha-se). Um governo é uma iniciativa de carácter criminoso, escrevera Elster num ensaio antigo sobre o qual conversa agora com Findley. Eis uma frase que podíamos facilmente atribuir ao próprio DeLillo, crítico assumido da política norte-americana, mas que nos chega antes pela mão de um neoconservador (os neocon americanos assumem sem peias o seu cinismo e sabem que a guerra não é uma partida de canasta): O Estado tem de mentir. Não há nenhuma mentira na guerra ou na preparação para a guerra que não seja defensável. Nós fomos ainda mais além, resume. Inventariam, pois, uma nova forma de ver o mundo, assente em palavras e significados que, à maneira de um haiku, pretendia dar a ver o essencial: Eu queria uma guerra em haiku. (...) Queria uma guerra em três versos, diz Elster a dada altura. O tema do haiku remete-nos para a dimensão filosófica de Ponto Ómega, traduzida aqui nos fotogramas de Psycho. Cada um deles como que evidencia a natureza vital da experiência, à semelhança da forma japonesa onde se ensaia a Iluminação a partir da visão dos contrários, de acordo com o Zen, embora DeLillo prefira seguir pelos caminhos desbravados por Teilhard de Chardin, jesuíta vigiado pela Igreja que desconfiava dele e do seu darwinismo teológico – do seu “ponto ómega”: epifania da Consciência para onde converge inevitavelmente o mundo. Elster, cansado dos exércitos portadores do gene para a autodestruição, interpretará o conceito livremente (e DeLlilo com ele): Teremos de ser humanos para sempre? A consciência está exaurida. Regressemos à matéria inorgânica. É isso que nós queremos. Queremos ser pedras no meio do campo. E será, de certa forma, a essa condição que regressa Jessie, a filha, mas porque Ponto Ómega é um romance e não um ensaio, a epifania dela arrasta infortúnio e angústia. Chegados aqui, talvez possamos, contudo, ensaiar outra leitura e optar, como em Vertigo, por reencontrá-la no epílogo a assistir a 24 Hour Psycho, alheios às incongruências do tempo que, como sabia Henri Bergson (filósofo lido por Chardin), ou é invenção ou não é nada. Ponto Ómega, Don DeLillo, Sextante Editora, trad. de Paulo Faria, 128 págs.

01/03/10

Para quem já leu Don DeLillo esta rapaziada não espanta de onde não se deve inferir que a vontade de a encher de estalos seja menor

Os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Sei do que falo. Menina e moça saída de casa de minha mãe, frequentei diariamente o Técnico durante cerca de dois anos em turnos semanais intercalados, ora das 8 às 17h, ora das 12 às 21h. Era 3ª ajudante de cozinha e lavava pratos.
Lavar pratos é força de expressão. Quem os lavava era uma máquina diabólica que encravava sempre comigo. Na cantina não gostavam muito de mim. Fora contratada através da Associação de Estudantes, o que me conferia o estatuto de penetra, vista pelas residentes como uma petulante que andava por ali a brincar aos jantarinhos. No Verão punham-me ao fogão, no Inverno mandavam-se descascar cebolas. Mas a grande vingança – transversal a qualquer estação do ano – era a máquina da loiça.
Passo a explicar como a coisa funcionava. Não difere muito da demonstração feito por Chaplin no início de “Tempos Modernos”.
Uma pessoa encarregue dos tabuleiros devolvidos pelos comensais retirava os restos de comida e ia amontoando pratos e tigelas junto do lava-louças. Varreram-se-me da memória copos e talheres, mas das tigelas da sopa em alumínio lembro-me bem porque a operação de as descolar uma a uma era per si um castigo.
Descoladas, havia que as passar por água, e o mesmo para os pratos, após o que se encaixava o vasilhame nos tabuleiros da máquina. O ritmo era infernal sobretudo por causa das tigelas.
Por tradição, havia duas pessoas nomeadas para a tarefa. Uma que passava a louça por água e a dispunha nos tabuleiros; outra que a retirava dos tabuleiros, os quais, entretanto, após entrarem no aparelho de lavagem, deslizavam por um balcão que desaguava numa parede.
Como eu não era bem-vinda, a mim nunca ninguém me ajudava. O desfecho era um engarrafamento de bandejas, fatalmente assinalado pelo apito estridente da máquina quando a procissão entupia.
Fui-me habituando. Passados largos meses de iniciação ao culto, acabei eleita delegada sindical mas, desiludida com a implacabilidade demonstrada pelas minhas camaradas de ofício, arruinada, pois, a minha visão romântica do proletariado e similares, para o que muito havia contribuído a leitura de “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, demiti-me de 3ª ajudante e pedi no Comité Central que me enviassem para o campo.
Resultado, talvez, da minha condição de algarvia, o campo para mim é verde. Sonhava com o Minho, condescendia com Trás-os-Montes, no fundo ambicionava o Gerês. Mandaram-me para o Alentejo.
Era Agosto e não havia água. Fiquei a morar em casa de um casal de médicos, na cidade, e a única camponesa que conheci foi uma ceifeira de olhos claros que se tomara de amores por um camarada regente agrícola e cujo marido, a dada altura, comprou uma caçadeira para matar os dois.
Algo desiludida com a experiência agrária, vim um fim-de-semana a Lisboa: havia uma reunião importante. Desejosa de rever gente, tomar banho de imersão e dar um salto ao cinema, fui confrontada com uma recepção singular. Na reunião, uma assembleia-geral de qualquer coisa, os meus camaradas de sempre dirigiam-me a palavra a medo. Só no final percebi porquê. Amigo de longa data cujo nome não vou revelar veio falar-me visivelmente incomodado e com um papel na mão. O papel continha uma lista – francamente exagerada – de nomes masculinos com os quais eu teria tido “relações ilícitas”. Eram os tempos da moral proletária e havia uma revolucionarização em curso. Pediam-me confirmações.
Com alguma presença de espírito, respondi que aquele era um assunto privado, que ninguém tinha nada com isso, e apanhei o comboio para casa. A presença de espírito foi de curta duração e reconheço que me fartei de chorar, acabando por acalmar as lágrimas no ombro de um compagnon de route que vivia para os meus lados, o que me levou a concluir que – definitivamente – a moral proletária não era feita para mim. Voltei ao Alentejo, fiz as malas, despedi-me da ceifeira desejando-lhe boa sorte e fui à minha vida.
Tudo isto – porque as memórias são como as cerejas – para dizer que os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Agora não.
A engenharia tornou-se financeira, povoada de rapazolas do marketing que vestem Hugo Boss, Armani e fatos à medida (não tenho a certeza, mas julgo que a Hermès ainda assim os intimida) e viagens só de jacto. Sem dinheiro (substancial) de família, quase sempre com origem na província, encostam-se à bananeira do Estado, vivem em casas minimalistas e imaculadas nas quais um ou outro móvel antigo comprado em antiquários tenta compor um passado inexistente, deslocam-se em jaguares ou parecido, não prescindem de personal trainer embora nada percebem de golfe e sejam nulos no ténis, habitualmente anafados o futebol puxa-lhes sempre para o chinelo e aos fins-de-semana, pelo menos até há pouco, eram vistos na Kapital no engate de menores.
Afinal, nada que – com as devidas diferenças – Don DeLillo já não nos tivesse descrito. A Portugal só chegaram no século XXI o que, pelo menos a mim confesso, me apanhou de surpresa.

23/06/09

Don DeLillo: retrato exacto de uma geração em 429 palavras [como só um escritor seria capaz, claro]

(...) «Toda a gente já leu sobre como foi difícil para vocês, veteranos do Vietname, a transição para a vida civil. Estavam tão bem nos campos de prisioneiros, a supervisionar a tortura de um ou outro camponês.»
«É melhor ir com calma», disse ele.
«E de repente vêem-se de volta à América e andam por aqui, desconcertados. Não admira que conservem o mesmo sorriso. Eu sei, os camponeses eram perigosos. O inimigo estava por todo o lado.»
«Está a sair dos seus domínios.»
«É verdade», disse ela. «É uma insolência da nossa parte, os não combatentes, criticarmos Os Que Estiveram Lá. Eu compreendo esse ponto de vista e até simpatizo com ele. Ainda assim, sempre senti que a melhor forma de ver as coisas é objectivamente e, às vezes, a distância permite-nos uma visão mais clara e precisa. Uma distância de milhares de quilómetros. Os sofrimentos testemunhados em ambos os lados do conflito podem não passar de uma mentira. Mas você tem razão, em termos gerais. No meu ridículo esforço para ser imparcial, consigo compreender o seu ponto de vista. E, sim, admito que estou fora dos meus domínios. Por isso, voltemos atrás. Falemos antes de coisas que vi e ouvi.»
O táxi seguia agora para o centro da cidade pelo lado oeste do parque.
«Você e o senador andam atrás do mesmo. Eu sei do que se trata, embora não possa dizer que compreenda plenamente que interesse vêem naquilo. Mas não importa. O que importa é que um homem foi morto à conta disso.»
«E acha que isso é importante.»
«Acho que merece ser tido em consideração.»
«A mim não me parece que seja importante.»
Mudger estava inclinado para ela, coarctando-lhe um pouco o espaço, com o seu braço esquerdo estendido sobre o topo do banco.
«Está a aprender a falar comigo?», perguntou ela.
«Como?»
«Disse que não sabia falar comigo. Que por isso é que aqui estava.»
«Estou a aprender alguma coisa. Não sei bem o quê. Acha então que é importante. Um homem foi morto. E há dez anos, também achava que foi importante? No tempo do seu perito em demolições?»
«Está a par disso. Claro.»
«Claro que estou. O grande Gary Penner, já falecido. E ali andava você, muito magra e perdida, no seu casaco com dragonas. Quantas pessoas é que o Gary mandou pelos ares, nas suas aventuras? Você devia saber. Vivendo com ele. Tendo vivido com ele. Meia dúzia de seguranças. Alguns transeuntes. Um braço aqui, uma perna acolá.»
Moll olhou pela janela.
«Você não interveio directamente. Assistir da bancada já era suficientemente divertido. Mas entretanto amadureceu, não é verdade? O terror já não é tão excitante como outrora. Sabemos demasiado. Vimos coisas. Agora dedicamo-nos à jardinagem biológica.»
«Acha mesmo que amadureci?»
«Um pouco», disse ele. «Em certa medida. O suficiente para estabelecer limites.»
(...)
Cão em Fuga, Don DeLillo, Relógio D’ Água, 2009, trad. de José Miguel Silva