«Fernando Pessa morreu aos cem anos e quatorze dias no Curry Cabral, após um longo internamento dramatizado pelos jornais. Quando entrou não era ainda centenário, injustiça cósmica que deu origem a manchetes encorajadoras: "Está quase, Fernando". "Aguenta, Pessa". Os artigos descreviam-no como "o jornalista mais velho do mundo", uma liberdade poética dirigida aos reformados, e desembocavam sempre na interjeição icónica, repetida à náusea, que ele próprio celebrizara: "E esta, hein?"
Enquanto somos novos julgamos que todos os velhos são iguais. Para quem via o jarreta a invectivar rotundas e sinais de trânsito era fácil esquecer que tinha saído da Emissora Nacional para correspondente de guerra e símbolo da liberdade contra a censura nas emissões da BBC. Diz-se na internet que o regime lhe vedou o acesso à rádio quando regressou em 47. Trabalhou em companhias de seguros e fez dobragens até ingressar na RTP, mas só fez parte dos quadros da televisão pública depois do 25 de Abril, aos 74 anos.
Esta semana a pátria comoveu-se com a morte de outro velho, um fascista e mitómano tido por grande divulgador da História de Portugal. Como diz Noah Cross no melhor filme de Polansky, "os políticos, os prédios feios e as putas tornam-se sempre respeitáveis se viverem muito tempo". Mas podemos e devemos escolher os nossos velhos.»
AQUI
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22/07/12
29/02/12
Post roubado despudorada e integralmente a Luís M. Jorge
Entre as luminárias do regime resplandecem os espíritos sempre airosos dos Camilos Lourenços. Enquanto outros encontram dificuldades, os Camilos revelam-nos em palavras simples os bons princípios da nossa salvação.
Há dividas? Paguem-se.
Há despesas? Cortem-se.
Há défices? Ide buscar o cilício e mortificai-vos.
Há desemprego? Emigrem.
Há pobres? Trabalhem.
Há fome? Comam brioches.
Há mulheres que tentam vender os filhos nos subúrbios? Pois que baixem o preço dos mais pequenitos, a quem faltam vantagens competitivas.
Há suicídios, mortes por inanição? Eis um modo elegante de reduzir as transferências sociais.
Há velhos sem medicamentos? Um sério aviso para os jovens que não aderiram à Médis.
Há ordenados muito baixos nas empresas? Extingam-se.
Há ordenados muito altos na EDP? São as leis do mercado, nada a fazer.
O mundo dos Camilos obedece a valores testados em séculos de miséria abjecta e desespero universal. Antigamente eram feitores e capatazes, hoje são jornalistas e lideres de opinião.
Os Camilos Lourenços dão imenso jeito. Todos os ricos deviam ter um.
DAQUI, com a devida vénia
Há dividas? Paguem-se.
Há despesas? Cortem-se.
Há défices? Ide buscar o cilício e mortificai-vos.
Há desemprego? Emigrem.
Há pobres? Trabalhem.
Há fome? Comam brioches.
Há mulheres que tentam vender os filhos nos subúrbios? Pois que baixem o preço dos mais pequenitos, a quem faltam vantagens competitivas.
Há suicídios, mortes por inanição? Eis um modo elegante de reduzir as transferências sociais.
Há velhos sem medicamentos? Um sério aviso para os jovens que não aderiram à Médis.
Há ordenados muito baixos nas empresas? Extingam-se.
Há ordenados muito altos na EDP? São as leis do mercado, nada a fazer.
O mundo dos Camilos obedece a valores testados em séculos de miséria abjecta e desespero universal. Antigamente eram feitores e capatazes, hoje são jornalistas e lideres de opinião.
Os Camilos Lourenços dão imenso jeito. Todos os ricos deviam ter um.
DAQUI, com a devida vénia
27/10/11
23/10/11
A voz do dono ou de como o Luís M. Jorge topa o Ricardo Salgado
As notícias são tantas e tamanhas que o efeito é estonteante. Subsídios? Viste-los. Aumentos salariais? Queria-los. Direitos adquiridos? Esquece-los. Impostos? Paga-los. Estado social? Bye, bye, Maria Alice.
Resumindo, é que éramos muito pobres: emprestaram-nos dinheiro e o dinheiro, puff!
Resumindo, é que éramos muito pobres: emprestaram-nos dinheiro e o dinheiro, puff!
Numa primeira fase, em betão e monumentos; depois em betão e monumentos + novas tecnologias (Magalhães – de fazerem inveja a Steve Jobs –; painéis solares – adaptados a céu nublado, chuva e até à “noite muito escura” de Caeiro).
A agricultura (que era o que era) foi-se, a indústria (que era o que era) kaputt; as pescas, idem. Passámos do Algarve ao Allgarve; de Jardim à Beira-Mar Plantado à Europe's West Coast. No entretanto, baixou-se o analfabetismo, a mortalidade infantil e legalizou-se o casamento gay. Citando Sholem Aleichem, “Podia ter sido pior; e não se pense no melhor que para isso não há limites”.
Dizem-nos agora que falimos. Sempre abominei a ditadura do “nós” (“estamos com fome, não estamos?”; “estamos com frio, não estamos?”; “vamos tomar um banhinho, não vamos?”…) mas se é para ser usado, seja: “We are not amused” (Victoria dixit).
Conta-se n' As Farpas que a solução para os problemas de Portugal do Partido Reformista se resumia ao polissílabo, economias. A história repete-se, como afiançava o outro.
Dizem-nos agora que falimos. Sempre abominei a ditadura do “nós” (“estamos com fome, não estamos?”; “estamos com frio, não estamos?”; “vamos tomar um banhinho, não vamos?”…) mas se é para ser usado, seja: “We are not amused” (Victoria dixit).
Conta-se n' As Farpas que a solução para os problemas de Portugal do Partido Reformista se resumia ao polissílabo, economias. A história repete-se, como afiançava o outro.
A palavra é papagueada de manhã à noite e madrugada fora. Como a mãe ubíqua de Woody Allen em Histórias de Nova Iorque, desenha-se no céu de Portugal e ilhas adjacentes (Madeira, inclusive).
O efeito é devastador. Os portugueses, excepto os contabilistas, já não saem de casa. No outro dia, porém, um cidadão de nome Luís M. Jorge arriscou pôr o pé na rua. Foi, então, que viu Ricardo Salgado a entrar no edifício onde decorria o Conselho de Ministros! Corajosamente denunciou a coisa no blogue Vida Breve: “Um Governo que recebe a família Espírito Santo enquanto discute o Orçamento de Estado é um Governo que reconhece, tão bem como o anterior, a voz do dono. E se eu puder chatear, que remédio”.
So be it.
24/02/11
Em resumo, é isto
A Europa, que negou à Turquia a entrada na União (eram pretos, eram árabes, cheiravam mal), que negociou cordões de segurança com a Líbia para conter a imigração ilegal (eram pobres, eram porcos, falavam alto) manifesta agora a sua comoção perante um povo que se levanta pela liberdade e pela justiça, nas palavras meigas de Rompuy.De um dia para o outro fechamos a tenda, espantamos os camelos e mandamos o líder carismático para a puta que o pariu. A festa estava boa mas há um povo que se levanta, Muamá. E quando um povo se levanta, a Câncio desperta de seis anos de anestesia realista e já não há nada a fazer. Quando um povo se levanta limpamos o pó aos valores e a senhora Muznik discorre sobre os riscos do fundamentalismo islâmico. Quando um povo se levanta a nossa direita liberal-salazarista incha de virtudes democráticas e recorda Chávez, Fidel Castro e Erdoğan mas esquece, porque estão tão longe, Berlusconi ou Sarkozy.
Ah, isto vai soar lindamente nas ruas do Cairo e nos arrabaldes de Tripoli. A Europa dos direitos, a Europa dos princípios, a Europa que lhes cerrou fronteiras, que lhes mimou os vergudos, que os fodeu com punhos de renda enquanto estavam prostrados agora levanta-se para os aconselhar.
Ajuda-te a ti próprio e todos te ajudarão, dizia Nietzche. Vai aprendendo, Abdul.
16/12/10
O Câmara Corporativa clama pela padeira de Aljubarrota
Enquanto dormis o sono dos justos, nas calles madrilenas forjam-se ataques soezes ao berço do condestável e às probas carcaças do panteão. Mas lede, lede o João Magalhães; observai como o El Pais escarnece de mais um ditoso filho da pátria e enlameia Portugal:O El Pais garante, em título, que “Sócrates aprovou em segredo os voos a partir de Guantanamo”. E escreve, no texto, que tal autorização seria feita “caso por caso en determinadas circunstancias”. (…) Se o El Pais quisesse fazer jornalismo – e não apenas atirar lama sobre Portugal (…) – era esta a história que contaria.
Não é Sócrates que se conspurca, leitores — não é o Governo, não é o PS, não é o Estado, não são as instituições: é o povo, é a raça, é a nação.
Ah, canalha de Aragões. Nada aprendestes com Aljubarrota.
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