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30/10/11

A book a day keeps the doctor away: "Um Mundo Iluminado", Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly

Escreveu Susan Neiman em O Mal no Pensamento Moderno que “lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche”. E acrescentou a filósofa norte-americana no mesmo ensaio: “(…) Pode não haver um princípio geral que prove que a tortura e o genocídio são condenáveis, mas isso não nos impede de os considerarmos casos paradigmáticos de mal”.
O livro não se resume ao optimismo que se poderá ler nestas frases; ainda assim gostaríamos de lembrar que tal optimismo foi, ainda há pouco, negado pelos factos: a legitimidade da tortura, por exemplo, a pretexto do 11 de Setembro, voltou a ser defendida (ou, pelo menos, admitida) por gente que, dias antes, não hesitaríamos em considerar civilizada e convidar para casa.
Um Mundo Iluminado, escrito pelos filósofos norte-americanos Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, tem como ponto de partida a multiplicidade e volatilidade dos tempos que correm. A profusão de escolhas (paralisantes). A velocidade com que somos bombardeados por diferentes opiniões. A perda de referentes absolutos e princípios gerais. A deflagração dos pontos de referência, para além de nós próprios.
Em suma, parte do mundo intuito por Nietzsche (que seria hoje o nosso) — não certamente por acaso, O nosso niilismo contemporâneo é o título do primeiro capítulo —, tentando formas de fugir ao desespero que lhe estará associado.
Dito isto, não se tenta aqui qualquer renascimento de Deus — na medida em que poderíamos afirmar que Deus, do ponto de vista da clareza existencial, tornava as coisas mais fáceis, iluminando-as, à imagem do Muro de Berlim que, antes de cair, assinalava (ainda) com (alguma) precisão o lugar dos bons e dos maus.
O tema não é novo. Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly tentam, porém, uma aproximação original ao problema (porque de um problema se trata…).
Numa sociedade dessacralizada e secular, onde encontrar sustento que nos alimente o espírito e contrarie a anemia existencial?
As respostas, se as houver, estão nos grandes clássicos da literatura ocidental, garantem os autores. Mas, talvez para que a ideia de “grandes clássicos” não afastasse de imediato metade dos potenciais leitores, Um Mundo Iluminado opta por descolar ancorado a um escritor contemporâneo, David Foster Wallace, que, apesar de franco adepto da ironia, não resistiu à depressão e foi encontrado morto, enforcado, em 2008.
A obra de Wallace, analisada em contraponto com o percurso de Elizabeth Gilbert (autora do best-seller, Comer, Orar, Amar), introduz-nos ao coração do ensaio: “Na perspectiva nietzscheana de Wallace, nós somos os únicos agentes activos do universo, responsáveis por criar, a partir do nada, qualquer noção que possa existir do sagrado e do divino. Gilbert, pelo contrário, adopta uma concepção como a de Lutero da maturidade. Na sua perspectiva, somos destinatários passivos da vontade divina, nada mais do que receptáculos para a graça que ele possa decidir conceder-nos. Não haverá um meio-termo?”
Em busca desse “meio-termo”, somos conduzidos aos mundos de Homero, Dante, Melville, Descartes e Kant, guiados, não por uma visão teleológica da existência, mas por caminhos sinuosos pejados de deuses.
À visão tecnológica, empobrecida e insípida da actualidade, Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly contrapõem um mundo politeísta alicerçado na physis e na poiética. Mesmo que, no final, continuemos a desconfiar da sua possibilidade, fartámo-nos de aprender.
Um Mundo Iluminado, Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, 2011, Lua de Papel, trad. de Francisco Gonçalves

22/09/11

Eduardo Pitta descobriu que, afinal, Sócrates não era o salvador da pátria... e em seguida foi comer profiteroles

O blogger Eduardo Pitta não faz a coisa por menos: "a Europa está à beira da implosão" e Portugal "não conta no desenho do novo Reich".
Seguro do seu radicalismo apocalíptico que, garante, será revelado ao mundo no prazo de 15 dias ou, pelo menos, até ao Natal, conclui que andamos a perder tempo com miudezas: "o governo que está é irrelevante. Este ou qualquer outro (menos acriançado)".
O itálico é dele e os profiteroles também. É o que dá, dez anos depois, querer imitar o estilo mordaz, seco e inimitável de Bellow.
Como diria (e disse), a propósito de Mark Steyn, Martin Amis (escritor igualmente mordaz e seco e com a grande vantagem de ter convivido longamente com Bellow antes de este ter morrido): "dei por mim a decidir que o sentido de decoro do Sr. [Pitta] deverá ser quase inumanamente escasso."

11/09/11

Eu não queria falar do 11 de Setembro mas dado que a imbecilidade ainda não deixou de me indignar...

... sinto-me na obrigação de reproduzir a coisa mais idiota que vi hoje citada no facebook sobre os acontecimentos desse dia: «Lembrando uma máxima de imensa sabedoria popular: "não faças aos outros (11 de Setembro de 1973, Chile) o que não gostas que te façam a ti"».

Há criaturas cuja profundidade intelectual e selectividade empática me lembram sempre uma piada antiga de Woody Allen: "Não posso ouvir muito Wagner. Dá-me logo vontade de invadir a Polónia".

05/03/09

A lex nokia, o factor humano e a dona fernanda dos correios

Quando, a 11 de Setembro de 2001, dois aviões comerciais se lançaram contra o World Trade Center, a forma como os EUA se mostraram vulneráveis a ataques terroristas pareceu inacreditável. Claro que a tecnologia esteve envolvida no caso, mas não será necessário ser o Agente 86 para perceber que o contou ali, sobretudo, foi o factor humano: uns tipos que não se importaram de morrer atirando-se contra as Torres.
Vem isto a propósito da nova lei finlandesa, dita contra a espionagem industrial, que visa permitir às empresas e ao Estado o acesso a e-mails privados. Apesar dos desmentidos, na Finlândia garante-se que a Nokia está por detrás da nova legislação, que já foi baptizada Lex Nokia.
Bom, sobre isto, a única coisa que quero dizer é o seguinte: a próxima vez que tiver fórmulas secretas para vender ao inimigo (por um bom preço, naturalmente...) não o farei via e-mail nem sequer por telemóvel, seja de que marca for. Escusam de se dar ao trabalho. Vou antes ali aos Correios e enfio uma carta no marco. Ou então entrego-a à dona Fernanda, que é uma senhora muito simpática que lá trabalha e que me pergunta sempre como vai e a família.