27/12/09

Viva Cortázar!

O início é esclarecedor: "Devo ao meu homónimo o título deste livro, e a Lester Young a liberdade de tê-lo alterado sem ofender a saga planetária de Phileas Fogg." O jazz (na pessoa do saxofonista norte-americano Lester Young) e Julio Verne (na personagem do protagonista de "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias" Phileas Fogg) acasalam aqui em completa liberdade, dinamitando todas as fronteiras formais além das outras.
Brilhante e estimulante: eis dois adjectivos que assentam como uma "luva (in love)" ao heterodoxo "A Volta ao Dia em 80 Mundos", assinado em 1967 pelo argentino Julio Cortázar, escritor admirador de Borges e, como este, admirador também da nobre arte do pugilismo (no seu caso com conhecimento de causa).
É o segundo grande texto de Cortázar que a Cavalo de Ferro nos disponibiliza em ano e meio. "O Jogo do Mundo (Rayuela)" saiu em Maio de 2008 (com um prefácio inaceitável de José Luís Peixoto), e a palavra "jogo" inserida no título ("rayuela" significa literalmente "jogo da macaca") volta a soar aqui. A mesma apetência lúdica - que, sendo lúdica, não deixa de ser um caso sério - anima "A Volta ao Dia em 80 Mundos". O autor insiste em pegar o caos de caras, baralhando-o, reinventando-o, enfrentando-lhe os traços camaleónicos com a mais versátil das ironias. Leia-se: "Que sorte excepcional ser sul-americano, e ainda por cima argentino, e não sentir-se obrigado a escrever a sério, a ser sério, a sentar-me diante da máquina com os sapatos engraxados e uma noção sepulcral da gravidade do instante", in "Mais sobre gatos e filósofos".
Conjunto de reflexões, citações, contos, poemas, afinidades electivas e imagens, o livro denuncia a vontade antiquissíma de aprisionar o real através da literatura, descontada, porém (o que faz toda a diferença!), a ortodoxia que vê na palavra escrita um veículo de sentido único. Em Cortázar a obra apresenta-se fragmentária, cubista, libertária e libertadora, à imagem da realidade que é, também ela, mistura multíplice de caos e necessidade.
Quinta-essência do moderno, o argentino bebe do surrealismo e do fantástico, acrescenta-lhe a desconstrução estílista do jazz, a revolução relativista vinda da ciência e um desconforto essencial que é coisa sua: "(...) desde pequeno, a minha relação com as palavras, com a escrita, não se distingue da minha relação com o mundo em geral. Pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas". Depois, claro, há um enorme talento, logo visível na elegância superlativa dos textos (e se a palavra "elegância" incomodar vanguardistas extemporâneos, que se pense, por exemplo, na delicadeza quase etérea dos "ready made" de Duchamp). Leia-se: " (...) nesta altura do jogo entendo que a indiferença pelo estilo por parte de autores e leitores leva a suspeitar que a 'mensagem' tão disposta a prescindir alegremente de um estilo também não há-de ser grande coisa.", in "Grande fadiga nesta altura da investigação".
Residirá, então, nesse talento único, mais do que em tudo o resto (se tal dicotomia fosse possível...), a "explicação" para que, passados 42 anos, estes textos nos deliciem ainda pela sua inteligência, beleza e irreverência. O que poderia não passar de um mero exercício datado e descarnado continua a interpelar-nos, projecto "solto e despenteado, cheio de interpolações, e saltos, e grandes golpes de asa e mergulhos, um livro como os poetas e os cronópios gostam.", in "Casa do Camaleão". Cortázar falava aqui de outro livro. Eu falo deste. Brilhante, estimulante e, para mais, com ordem de leitura arbitrária.

14/12/09

Esta Pastelaria suspende provisoriamente o fornecimento de bolas-de-berlim: daremos notícias

Deixo-vos, entretanto, com este anúncio de última hora, apesar de ter sido publicado na década de 70, confessando-vos também, só aqui entre nós, que "o que há em mim é sobretudo cansaço".

"Senhores leitores: encarregaram-me de vos dizer que a direcção protectora decidiu proibir que vos fosse mostrado quanto custa e rende um medíocre, porque o inquérito, feito por sujeitos competentes, tinha o grave defeito de mostrar o medíocre a nu, cena eventualmente chocante para a estabilização da bolsa de mercadorias. Em seu lugar, prometemos redescobrir o Brasil, a bem da mediocração."

12/12/09

A book a day keeps the doctor away

Um leitor sabe: nada melhor do que a descoberta de um autor, mesmo tardia. Mea culpa, ainda assim, visto que César Aira (apesar de já o terem classificado como o “segredo mais bem guardado da Argentina”) não só escreve num idioma acessível mas também estava publicado entre nós, na mesma editora (Assírio & Alvim), traduzido pelo mesmo poeta (José Agostinho Baptista).
O livro de 2005 chama-se Como me Tornei Monja; este, Um Episódio na Vida do Pintor Viajante, acaba de sair. César Aira é um dos escritores eleitos de Enrique Vila-Matas. Eu gosto muito de Vila-Matas mas não seria obrigatório… Não sendo, aconteceu.
Um Episódio na Vida do Pintor Viajante é um deslumbramento. É-o, mesmo se a espaços envereda por caminhos especulativos perturbadores da leitura (do leitor), a propósito dos quais se poderia até presumir ter outro argentino dos grandes, Cortázar, escrito isto: “(…) quanto mais se parecer um livro com um cachimbo de ópio mais satisfeito ficará o chinês que o fuma, disposto no máximo a discutir a qualidade do ópio mas não os seus efeitos letárgicos” (A Volta ao Dia em 80 Mundos).
Neste caso é tudo bom, incluindo o estranhamento que vai crescendo paralelo ao deslumbramento, à medida que uma espécie de raciocínio obscuro se contrapõe à exposição de recorte clássico. Talvez seja essa, aliás, a qualidade maior desta narrativa breve: linguagem claríssima servida por uma “história” enigmática (ou vice-versa). O que no início nem parece. Começa assim: “No Ocidente, houve poucos pintores viajantes realmente bons. O melhor, de quem temos notícias e abundante documentação foi o grande Rugendas, que esteve duas vezes na Argentina (…)”.
E prossegue:: “Johan Moritz Rugendas nasceu na cidade imperial de Ausburgo a 29 de Março de 1802, filho, neto e bisneto de prestigiados pintores do género (…)”.
Na aparência estamos face a um texto biográfico respeitador dos cânones tradicionais, tendo por objecto uma personagem real: Rugendas existiu, foi pintor e visitou o continente americano. A novela, porém, vai ganhando complexidade conforme o narrador vai abandonando a objectividade descritiva, substituindo-a por um desejo de interioridade, na verdade nunca alcançado: Rugendas resiste a deixar-se fixar no retrato, comprovando assim que qualquer biografia é um projecto, se não inútil, decerto inacabado. E, quando a meio do relato da viagem de Rugendas pela pampa argentina se dá o terrível acidente, ele escapará totalmente por detrás da mantilha negra que lhe cobre o rosto e os delírios.
Acrescente-se: tendo como protagonista um pintor, a qualidade pictórica de Um Episódio na Vida do Pintor Viajante sobressai mais ainda, barroca e onírica, ao mesmo tempo que exacta. Numa palavra, surreal.
César Aira, Um Episódio na Vida do Pintor Viajante, Assírio & Alvim, 2009

11/12/09

Ó psss, psss, faz favor, sabe onde fica a EDP?

Eu, por uma caixa de robalos, cedia a minha mailing list completa.
[A propósito deste momento particularmente esclarecedor da entrevista de Judite a Armando
Armando: É verdade que o Senhor Godinho foi ter comigo ao gabinete do BCP. É verdade que esse, esse, esse facto foi fortuito. Não estava previsto ele ir lá... Foi por acaso que foi ter comigo nesssa manhã...
Judite: Mas foi por acaso como? Ele chegou ao seu gabinete e bateu à porta e...
Armando: Não, não dava e telefonou-me. Não dava com o endereço e telefonou-me...]

09/12/09

Os visionários não nos dão descanso ― ainda o Magalhães e as desgraçadas das crianças

A introdução de computadores na sala de aulas das primárias causa-me arrepios e não é gripe.
Deixem-me ser completa e assumidamente retrógrada: eu sou pelos cadernos sem argolas, pelos lápis, plasticinas, barro, batuques, papel cenário e cartolina, tabuadas e muitas cópias. Acho que as escolas deviam ter hortas, caixas de sapatos com bichos-da-seda, bibliotecas sem livros chatos, mini-laboratórios, salas de música, recreios com árvores e baloiços e, talvez seja pedir muito mas enfim, um burro financiado pela Comunidade Europeia ― sempre se lhe dava uso e não me refiro ao jumento.
E, não, não sou especialista em qualquer ramo pedagógico ou similares.
Estou firmemente convencida que o uso precoce de computadores não só não servirá para nada em termos estritamente gnosiológicos mas também aumentará o número de neuroses prematuras – para não falar da obesidade infantil que tantos teimam em varrer para debaixo do tapete da cadeia McDonald’s.
A WEB será a grande invenção dos humanos depois da roda mas, anterior à roda e à WEB está certamente a nossa origem cósmica, misticismos aparte. Afinal, como dizia o outro que era sábio, somos filhos das estrelas e do carbono 14. Não da Intel, num acrescento meu.
Vem esta reaccionária prosa a propósito das declarações de um tal José Dias Coelho, presidente de uma tal Associação para a Promoção da Sociedade da Informação, que, não contente com a distribuição de Magalhães a crianças que ainda ontem usavam chucha, afirma com todos os dentes da boca que “é fundamental garantir o total alinhamento dos projectos educativos com o computador Magalhães”.
E diz mais, o visionário. Sentencia Coelho que a dita infra-estrutura (o novo Santo Graal dos info-deslumbrados promovido pela Sá Couto) devia ser integrada nas “comunidades locais, desporto, clubes, cultura e escuteiros, inclusivamente, de modo a colocar um verdadeiro impacto na educação e transformação da criança”.
Colocar impacto e ainda por cima verdadeiro? Transformação da criança?!!! Escuteiros?!!! Que nos salve depressa o burro dos 27 ― sempre se lhe dá algum uso e não me refiro ao jumento.

E já agora [socratices electrizantes aparte]

07/12/09

Gostar de [alguns] homens: e que se lixe o feminismo pequeno-burguês de fachada socialista

DAS DIFERENÇAS ENTRE O NASCIMENTO DO AMOR NOS DOIS SEXOS

(...) Como dezanove, em cada vinte dos seus devaneios habituais [das mulheres], são relativos ao amor, esses devaneios, depois da intimidade, acabam por se agrupar em torno de um só objecto; prestam-se a justificar um comportamento extraordinário, decisivo e contrário às regras do pudor. Nos homens esse trabalho não existe; em seguida, a imaginação das mulheres disseca à-vontade esses instantes tão deliciosos.
Como o amor faz duvidar das coisas mais comprovadas, a mesma mulher que, antes da intimidade, estava tão segura de que o seu amante era um homem acima do vulgar, mal julga não ter mais nada a recusar-lhe, treme ao pensar que ele poderá tê-la procurado apenas para acrescentar mais uma mulher à sua lista.
Só então surge a segunda cristalização que, porque acompanhada pelo medo, é de longe muito mais forte.
(Esta segunda cristalização não existe nas mulheres fáceis que estão bem longe de todas estas ideias romanescas)
Uma mulher acredita ter passado de rainha a escrava. Este estado de espírito e de alma é ajudado pela embriaguez nervosa nascida dos prazeres tanto mais sensíveis quanto mais raros. Uma mulher, no seu ofício de bordar, trabalho insípido que apenas ocupa as mãos, sonha com o seu amante, enquanto este, a galope na planície com o seu regimento, é posto sob prisão se origina um passo em falso.
Estou em crer, pois, que a segunda cristalização é muito mais forte nas mulheres porque o receio é mais vivo; a vaidade, a honra estão comprometodas ou, pelo menos, as distracções são mais difíceis.
Uma mulher não se pode guiar pelo hábito de ser racional, esse hábito que eu, homem, adquiro obrigatoriamente no meu escritório trabalhando seis horas todos os dias em coisas frias e racionais. Mesmo fora do amor, as mulheres tendem a entregar-se à imaginação e à exaltação habitual; o desparecimento dos defeitos do objecto amado deve ser, pois, mais rápido.
As mulheres preferem a emoção à razão; é muito simples: como, em virtude dos nossos limitados costumes, elas não têm a seu cargo nenhuma responsabilidade familiar, a razão nunca lhes serve para nada, nunca lhe acham qualquer préstimo.
Ao invés, é-lhes sempre prejudicial, já que apenas surge para as censurar de terem tido um prazer ontem, ou para lhes ordenar que não tenham nenhum amanhã.
Entregue à sua mulher os negócios com os rendeiros de duas das suas terras, e aposto que os registos serão melhor cuidados do que por si, e nessa altura, triste déspota, terá pelo menos direito a queixar-se, já que não tem talento para se fazer amar. A partir do momento em que as mulheres levam a cabo raciocínios gerais, elas fazem amor sem se aperceberem. Nas coisas de pormenor, pretendem ser mais severas, mais exactas do que os homens. Metade do pequeno comércio está entregue às mulheres, que dele se ocupam muito melhor do que os seus maridos. É uma máxima conhecida que quando se fala com elas de negócios, toda a gravidade é pouca.
É que elas estão sempre, e seja onde for, ávidas de emoção: vejam-se os festejos dos funerais na Escócia.

in Do Amor, Stendhal, Relógio D'Água, 2009 (com algumas alterações na tradução introduzidas por moi-même)
[boneco daqui]

06/12/09

A book a day keeps the doctor away

Morreu o ano passado, aos 78 anos. Ficou conhecido sobretudo por essa obra-prima chamada O que Diz Molero, (a)caso feliz de reconhecimento público e prova que usar pontuação esquisita não é só para o José Saramago.
Dinis Machado não foi, porém, apenas autor desse “livro-bomba, obra d’arromba” (para citar Luiz Pacheco). No seu currículo, curto, é verdade, incluem-se ainda Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Marquéz, Bertrand, 1984, Reduto Quase Final, Bertrand, 1989, e Gráfico de Vendas com Orquídeas e Outras Formas de Arrumação de Conhecimentos: 20 Textos (de 1977 a 1993), Cotovia, 1999.
Aprendiz de Bartleby que à expressão “I would prefer not to” preferia o “Let’s get out of here” das fitas dos camónes (como lembrou Maria Piedade Ferreira na “Ler” nº72), Machado escreveu também uma tríade de policiais a troco de vinte contos nos idos de 60, la vie oblige. Assinou-os com o americaníssimo e apropriadíssimo pseudónimo de Dennis McShade, recebeu a massa e não terá pensado mais no assunto.
Recentemente, a Assírio & Alvim pegou nos três títulos, vestiu-os com novas capas e reeditou-os: Requiem para Dom Quixote, 2008, Mão Direita do Diabo, 2008, Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, já este ano. Todos eles protagonizados por Peter Maynard – assassino profissional e literato com dúvidas existências e propensão para o monólogo (homenagem à personagem borgeana do conto Pierre Menard, autor de Quixote) –, antecederam O que Diz Molero no tempo mas não na acutilância da prosa. E, no meio disto tudo, ficaram uns papéis na gaveta. Quase sessenta páginas. Acabam de chegar às livrarias sob o título Blackpot.
O registo é policial e, apesar de Peter Maynard já não entrar na história – escrito Blackpot muito mais tarde, algures entre 1983 e 1985 –, a sua estrutura (delirantemente cerebral) lembra ainda o argentino cego. A chave do plot estará na frase final, roubada ao romance A Queda, de Camus: “Quando todos formos culpados então será a democracia”. Se isto for verdade, o inédito machadiano é o policial mais democrático que já li na minha vida.
Capítulo a capítulo (31, menos um do que o total das peças do xadrez), as personagens vão-se matando umas às outras, assumindo os lugares deixados vazios:
"Gulliver ligou para Armador.
– Então?
– Já está – disse Armador – Matei-o há duas horas.
– Ok – disse Gulliver.
– Ouve – disse Armador – Tu agora és Legos?
– Sou Legos.
– E Condor?
– Também sou Condor.”
Um divertissement absurdo (Beckett está lá de novo) onde domina o humor negro e aquele estilo irresistível e livre de Machado. Como concluiu Pacheco a propósito de O que Diz Molero: "Valeu!"

03/12/09

Primeiro o Iraque, agora o Aquecimento Global: ao pé disto as campanhas negras do Sócrates são uma brincadeira de crianças

O escândalo em que se encontram envolvidos os principais mentores da Teoria do Aquecimento Global Antropomórfico ficará certamente para a História como uns dos maiores escândalos científicos de sempre, se descontarmos (ou somarmos) a condenação de Galileu pela Inquisição.
A teoria nunca foi unânime, apesar de dominante. Sentimentalismo, ignorância, manipulação, politização e dependência económica da Ciência, aliados à extraordinária complexidade do assunto, contribuiram certamente para um dogma a que poucos resistiram (e a jornalista Ellen Goodman não foi certamente uma delas: Let's just say that global warming deniers are now on a par with Holocaust deniers, though one denies the past and the other denies the present and future).
Em traços largos, a direita está contra e ao serviço dos grandes grupos económicos poluentes. A esquerda a favor e, preocupada com o futuro do Planeta, ecologicamente pugna pelas energias alternativas [no meio, cientistas como James Lovelock ― que entrevistei há cerca de dois anos (aqui) ― baralham um pouco os dados].
Curiosamente, o quadro é simetricamente oposto ao do Iraque. Nesse caso, em traços largos, a esquerda era contra a ideia das armas de destruição, a direita a favor. O que nos deixa completamente enrascados em termos ideológicos. Pelo menos a mim, que cada vez me arrepio mais com a histeria desta gente da esquerda fracturante e bem-pensante, nunca tendo apreciado os outros. Resta-nos, porventura, a ironia. Coisa que, vendo bem, já o velhíssimo Montaigne sabia de ginjeira.

02/12/09

Ainda a Ben-U-Ron comprimidos, passe a publicidade, passo só para dizer uma coisa: estou com a Aminetu Haidar * e quero que os minaretes se lixem

Porque, afinal, sobre os minaretes já tudo foi dito aqui e melhor é impossível:
... lá proibiram os minaretes na Suíça. O mundo está cheio de gente que odeia mulheres.

* clicar na foto de Aminetu Haidar na coluna da direita deste blog, sff
[Entretanto, A Amnistia Internacional - Portugal convocou todos defensores dos Direitos Humanos para uma VIGÍLIA de SOLIDARIEDADE com AMINETU HAIDAR, a realizar 5.ª Feira, dia 3 de Dezembro, entre as 18h30 e as 20h00, na Av. da Liberdade, frente ao Consulado na Espanha, junto ao monumento de Homenagem aos Mortos da 1.ª Guerra Mundial]

01/12/09

Meditação de pendor iberista apesar do Saramago, da crise espanhola e dos Ben-U-Ron comprimidos

Era 1 de Dezembro de 1640 e, antes do pôr-do-sol, Miguel de Vasconcelos, o amigo dos Filipes, acabava defenestrado. O dia celebra-se hoje. Não contesto, mas uma coisa faz-me espécie. É que basta-me atravessar a fronteira e ergue-se-me logo o astral. Será da siesta?

30/11/09

Quando a inteligência (radical) dos outros nos reconcilia com o mundo logo pela manhã

«Já não leio livros. Mas continuo a gostar de livrarias. Ontem vi um livro, compilado por Desidério Murcho, sobre o Sentido da Vida. O livro tem 208 páginas. Poucas, para explicar o sentido da vida. Demasiadas, para mim. Há cem anos, no poema V do Guardador de Rebanhos, Caeiro arrumou a cousa em dois versos. “O único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido íntimo nenhum.” Das mais belas páginas de Dawkins em River out of Eden, bem longe do proselitismo ateu da Ilusão de Deus, são sobre o significado oculto das coisas. Este fim de semana li uma reportagem no Público sobre os lobos de Leomil. Se a vida dos lobos dependesse de um referendo aos habitantes de Leomil, mais de 80% viraria o polegar para baixo. O significado da vida dos lobos de Leomil passa agora pelas eólicas. Os de Leomil odeiam os lobos. São poucos os que alguma vez o avistaram mas, se os ouvirem falar, surpreender-se-ão com o súbito amor que estes simples têm pelas vítimas dos lobos. Uma égua, duas ovelhas, uma pastorinha. Excitados contra os predadores nada demove a sua ferocidade. Eles defendem o extermínio dos lobos, dos biólogos, dos ecologistas e da gente dos parques nacionais. Os mais condescendentes aceitariam a vida dos lobos, desde que confinada a um campo de detenção. Mas comovem-se com as pás das eólicas varrendo o horizonte. Não sei se o livro dos filósofos que Murcho reuniu, atentou na vida dos lobos, na vida dos camponeses de Leomil, na vida dos jornalistas, na minha vida de ex-leitor. Mas, sem uma crença que me tivesse bafejado, escapa-me o sentido da vida do lobo, da ovelha, dos seres abatidos à conta do nosso insaciável apetite. Ainda entendo, vá lá, o sentido da vida dos negociantes das eólicas. E em tempos pareceu-me entender o vento assobiando nas cumeadas.»

Roubado ao A Natureza do Mal, um blog que estaria no topo da minha lista se eu fosse dada a listas

29/11/09

Ó caraças com esta do governo electrónico é que me deixaram quêó

Desculpem lá a minha ignorância, mas será que alguém me consegue explicar o que raio quererá dizer somos o primeiro país dos 27, em toda a Europa em matéria de Governo Electrónico?*
*... e a propósito de electrónica... estive aqui há uns dias no Skype a falar com uma amiga a estudar em Inglaterra. A Universidade fica na Cornualha e as paisagens são deslumbrantes. Quanto à electrónica do sítio parece que é bastante banal. No meio da conversa, contou-me uma coisa que a tinha deixado mesmo de boca aberta. Uma das suas colegas sofre de reumatismo nas mãos. Quando está pior, um serviço de voluntariado da Universidade assegura-lhe que alguém vai a casa dela ajudá-la a transportar as tralhas. Nos dias em que as dores apertam, o voluntário fica sentado nas aulas a tirar apontamentos...
Modernices! rematou a minha amiga.
E eu: of course.

26/11/09

E o Formitrol, esqueceram-se do Formitrol?

O senhor está constipado
e ficou mal de repente
porque não teve cuidado
porque foi imprevidente.
Para o mal cujo motivo
está na chuva, frio ou sol
qual o melhor preventivo?
Formitrol, Formitrol, Formitrol!

Com música aqui.

24/11/09

É demasiada informação

A gripe A que nos ameaça com os seus batalhões de vacinas mais as tribos dos antivacinas. As escutas relevantes que nos ocuparam semanas e que foram prá sucata. A Europa dos eurocratas. Primeiro pelo referendo. Depois pela sua repetição. A carne de borrego, coelho e aves que não se pode picar nos talhos (as coisas que uma pessoa aprende ao ir ao supermercado fazer compras para um empadão…). Os oponentes ao casamento gay e os preponentes do mesmo (uma pessoa ouve-os falar e fica naquela do celibato prá vida…). A Apple em paranóia antifumo. O caso de Rom Houben, durante 23 anos considerado em coma e que afinal sentia, via e ouvia absolutamente tudo. O Quinta do Côtto que agora tem rolha de plástico. O semanário Sol salvo pelos angolanos. O reformado octogenário morto por 150 euros. O calendário Maia que acaba em 2012...
Go, go, go, said the bird: human kind//
Cannot bear very much reality

19/11/09

Tudo isto é uma enorme maçada, como diria o Dr. Mário Soares

Supondo, por mera hipótese de raciocínio, serem verdadeiros os vários factos que, segundo o semanário Sol, envolvem José Sócrates, as consequências de tal situação estão à vista: o Governo, o Estado e as instituições ficariam a tal ponto descredibilizados que a solução seria, pura e simplesmente, a demissão do primeiro-ministro pela prática reiterada de batotas várias, de todo incompatíveis com a lei e com a ética, com a dignidade do seu cargo e com o interesse nacional.
É evidente que toda a gente, incluindo os titulares de altos cargos políticos, tem direito à sua privacidade. E também é evidente ter havido uma grave violação (apenas mais uma…) do segredo de justiça.
Os apaniguados de Sócrates desmultiplicaram-se, numa operação mediática sem precedentes, a invocar razões puramente jurídicas em tudo quanto é sítio, procurando desviar as atenções do problema político e da sua real dimensão.
Mas o problema tornou-se escandalosamente político. E tornou-se também uma questão de decência. As coisas são o que são e são assim mesmo.
O presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o procurador-geral da República viram-se metidos num verdadeiro imbróglio. Trata-se de dois altos magistrados, cuja idoneidade, rigor, competência e experiência são absolutamente indiscutíveis.
Por muitas explicações que sejam dadas agora quanto ao calendário das remessas e da apreciação das certidões, foi nítido o embaraço decorrente da situação, aliás protelado ao longo de vários dias e artificialmente pontuado por reenvios de competências que deixaram toda a gente perplexa. Ora nada disto terá decorrido da evidente inocuidade dos conteúdos das certidões enviadas. Se fossem inócuos tais conteúdos, qualquer deles poderia ter vindo logo a público dizer isso mesmo, dissipar dúvidas com a sua palavra autorizada e acalmar a opinião pública. Ninguém discutiria então a aplicação da lei.
Mas agora, mandadas destruir as certidões (e quem sabe se algum jornal tem cópia delas...), pode sempre pairar a suspeita de que esses conteúdos não eram afinal tão inócuos quanto isso e apontavam para qualquer coisa de política e juridicamente tão desconfortável que só um procedimento meramente formal conseguiu travar outros desenvolvimentos. No plano político, isso é desastroso e vira-se contra José Sócrates.
E afinal quem é que mandou fazer as escutas e analisou o resultado desses procedimentos. Terão sido políticos da oposição? Jornalistas de tablóides? Paparazzi desempregados? Jovens e ineptos utilizadores do Magalhães?
A resposta é confrangedoramente simples: foram magistrados portugueses, o procurador-coordenador do DIAP de Aveiro e o juiz de instrução criminal, no exercício das respectivas funções, quem sustentou existirem indícios da prática de um crime de atentado ao Estado de direito. Tratar-se-ia de puros incompetentes? De estagiários sem saber nem experiência? De loucos furiosos de justicialismo ultra-esquerdista a dispararem contra revoadas de mosquitos na outra banda? Ou antes de gente que achou ser de tal gravidade a matéria de que lhe chegavam indícios que entendeu do seu dever não agir de outra maneira?
Fosse como fosse, independentemente de apreciações formais, os factos que, pelo processo ínvio e lamentável da violação do segredo de justiça, vieram a público, adquiriram a maior relevância política e não há argumentação jurídica, por muito fundamentada que seja, que possa dissipar o seu efeito negativo.
O que é que faz com que José Sócrates e o seu naipe de ventríloquos e demais criaturas de serviço finjam não perceber o que se passa? Não há "salto à vara" que lhes permita passar airosamente por cima da situação criada, sem um esclarecimento muito sério que, dadas as circunstâncias, devia ser um imperativo político para o primeiro-ministro.
O mais deprimente é a sensação generalizada com que se fica de que Portugal está a caminho de se transformar numa república em que as bananas crescem num lodaçal. É nesses lugares que os valores se evaporam, as leis são impunemente violadas, tudo se degrada, todos os responsáveis são cúmplices e nada nem ninguém consegue evitar isso.
Mas é muitíssimo bem feito. Elegeram essa gente? Pois têm o que merecem… Assoem-se lá a esse guardanapo. Besuntem-se com o resultado. Amanhã ainda vai ser pior...

16/11/09

Treblinka*


* Porque acabo de ler Sou o Último Judeu - Treblinka (1942-1943), Chil Rajchman, Teorema, 2009. E como do campo de extermínio de Treblinka não sobrou nada, existindo mesmo uns celerados que negam que alguma vez tenha existido, assinalo esta entrevista com o SS Franz Suchomel, feita por Claude Lanzmann, com o horror explicado ao pormenor. Aqui, aqui, aqui,aqui, aqui, aqui e aqui.

14/11/09

Aos amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder

07/11/09

Vantagens de um governo minoritário (II): agora pelo menos já não falam de campanhas negras e ficam tão-só repetitivos e tristonhos

«Concerteza que telefonei ao dr. Armando Vara porque é meu amigo e meu camarada. Como sabem este processo entristece-me pelo facto de envolver um amigo meu há tantos anos (...) Tenho uma relação de há muitos anos com o dr. Armando Vara. Fiz com ele uma carreira política. Por isso este processo é para mim triste».
Lido aqui.

06/11/09

Champagne taste e o resto é conversa



Do you want to take me cruising on an ocean liner to places I looooooong to see...
Well, with my champagne taste and your beer bottle pockets, don't forget to write me when you get there in your row-boat when you've paddled across the sea without me.
Do you see us dining on caviar and pheasant with decedents of royalty.
Well with my champagne taste and your beer bottle pockets, I'll be having pheasant while you're dining with the peasants dunking donuts in a diner without me.
You said you have ambition to make my dream come true, well brother you just keep right on wishing and all of my dreams will come true... without you.
Do you see me in a Jaguar with all the accessories and one of those accessories is YOU? Well with my champagne taste and your beer bottle pockets, take back your Jaguar accessories etcetera and drive back to your dreamland without me.
And if I wanted diamonds you'd offer me breakfast at tiffanies and luncheons at Cartier's you'd recommend. Well with my champagne taste and your beer bottle pockets you will have to work-on something better than a zircon because your diamonds is this girl's worst friend.
You said you'd promise me anything to make my life a feasssssssst. You didn't give me anything, not even Arpege you beast!
And it wouldn't surprise me if a lady like Godiva had someone like you to give her the stole.
For with her champagne taste and your beer bottle pocket when she couldn't get those dresses she just let down all her tresses and forgot she was a lady after all.
So if you want me to become apart of your permanent employ, before my champagne fizzles come up with the real McCoy. Show me you can separate the MAN from the BOY and bring me a constant life of champagne taste.

03/11/09

Nada de novo no reino de Portugal e dos Algarves

«Este mundo é um vasto naufrágio. Salve-se quem puder» (Voltaire, carta a Cideville, 28 de Janeiro de 1754)
Lido em A Aventura da Memória e Outros Contos, Voltaire, 2009, Estrofes & Versos

30/10/09

A gripe A e os deputados da nação

O título da notícia era assim: Bloco de Esquerda entende que não é necessário alargar aos partidos prioridade na vacinação. Como escreveria se fosse mais jovem, "parti-me a rir!"
E eu que nem sabia que os deputados tinham sido convidados a participar na maior operação de marketing à escala mundial depois daquela campanha que encheu o Iraque de armas de destruição maciça.
Foi quando li isto e fez-se luz. Reproduzo.
«Foram considerados um grupo prioritário e não podia ser de outra maneira. Um coro de protestos democráticos sublinharia qualquer decisão que os excluísse. Alguns aceitaram, como aqueles incontornáveis que têm obrigatoriamente de ser convidados, e não percebem que devem indicar um substituto ou alegar impossibilidades de agenda. Outros prescindiram da honra e humildemente ofereceram a sua dose a um eleitor necessitado.
«No sistema democrático português só há cinco deputados necessários. Os outros têm voto obrigatório para o que interessa: programa do governo, moções de censura e aprovação do orçamento. E para o resto têm um voto vigiado, asfixiado ou claustrofóbico, consoante a bancada. Tinham poupado 224 vacinas e vacinado o Dr. Jaime Gama.»

29/10/09

Ainda em modo de meditação, a Pastelaria recomenda: "O Sindicato dos Polícias Iídiches"

Começa assim
«Landsman andou nove meses a arrastar-se pelo Hotel Zamenhof, sem que nenhum dos outros residentes arranjasse maneira de ser morto. Por fim, alguém meteu uma bala no cérebro do ocupante do 208, um yid que dizia chamar-se Emanuel Lasker.
(continua)
O Sindicato dos Polícias Iídiches, Michael Chabon, Casa das Letras

27/10/09

«Princesas, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» ― um dos contos é meu


Chama-se Crispim, o Pirata que tinha medo da água e há mais cinco aventuras assinadas por Ana Luísa Amaral, Gonçalo M. Tavares, João Pedro Mésseder, Rita Saldanha e Rui Zink. O álbum, editado pela Porto Editora, tem prefácio de Manuel António Pina e coordenação de Pedro Sena-Lino.
O meu conto começa assim

«Era uma vez um pirata de perna de pau, olho de vidro e cara de mau. O pirata de perna de pau, olho de vidro e cara de mau chamava-se Crispim e estava farto de ser pirata. O que ele queria ser era apanhador de ostras.
«Crispim nascera numa família de piratas: pai pirata, mãe pirata, avós e avôs piratas, tios, tias, primos e primas, todas e todos piratas... Enfim, até onde ele conseguia descer na árvore genealógica, nunca ninguém na família fizera nenhuma outra coisa que não fosse piratear. A única excepção era o seu primo Catita, conhecido por Olho de Peixe-Agulha, que um dia, perdido de amores por uma camponesa, trocou os perigos do alto mar pela vida de agricultor. A família falava dele com um enorme desprezo e passara a chamá-lo Catita, Olho de Couve-Lombarda.
«Crispim tinha cara de mau mas não era mau de todo. Claro que quando era criança sonhara ser tão malvado como o célebre Capitão Gancho. Ao aprender a ler, porém, deixara-se dessas manias.»
(continua)

25/10/09

Ainda o Saramago e o marketing antijeová

«Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito.»
Vasco Pulido Valente, "Uma farsa". Público. 23.10. 2009
Ou como me dizia um amigo: «É como se alguém lesse as Fábulas de La Fontaine e achasse que aquilo era mesmo sobre cigarras e formigas».
Já depois de ter feito este post, descobri que há um kit Saramago ateísmo para donas de casa modernas, e que aos 100 primeiros compradores serão oferecidos action man de José Saramago.
Não podia deixar de vir acrescentar estas preciosas informações.

20/10/09

Post breve de uma panteísta confessa (eu) a propósito do último Saramago, que não li, e da Bíblia que leio sempre que posso

Retomo o comentário que deixei aqui, a propósito da transcendente polémica de saber se Caim matou realmente Abel:
"Um homem que tem como profissão a escrita e não fica fascinado com a extraordinária narrativa que é o old book (deixo de lado as mariquices do new) é um idiota"
Quanto à melhor piada sobre o assunto, li-a aqui: "Deus nunca precisou de insultar a obra de Saramago para vender mais bíblias"

18/10/09

A book a day keeps the doctor away

De características autobiográficas e estranhamente premonitórias, Os Irmãos Tanner, romance assinado por um homem que passou grande parte da vida num hospício (“Estou aqui, não para escrever, mas para ser louco” – responderia a alguém que o visita em Herisau), é, como todos os livros de Robert Walser, uma obra-prima de delicadeza.
Passeio solitário, deambulação quase fantasmática, chega-nos impregnado de uma espécie de inocência ontológica que põe em causa todas as convenções (as existenciais e as ficcionais). E se ao próprio se poderiam colar os versos de Rimbaud (outro desmistificador da coisa literária) – “Par délicatesse j’ai perdu ma vie” –, aos seus textos resta a grandeza que lhe vem dessa forma de contar e dizer sem alarde, dessa atenção sem questionamento, desse olhar desarmado sobre o mundo, onde poderemos intuir desassossego (a biografia vale o que vale...) mas, sobretudo, um enorme desejo de paz.
Os Irmãos Tanner, ficção que retoma muitas das experiências reais da sua vida familiar, é uma reflexão errante e impressionista que se diz por exemplo assim, na voz de Hedwig: “Por vezes tenho a sensação de estar separada da vida por uma parede fina mas opaca. Mas não posso ficar triste, só posso reflectir sobre isso”.
E é também o texto onde Walser antevê a sua própria morte, tantos anos depois, sozinho sobre a neve (como a personagem dessa lindíssima novela de Yourcenar, Un homme obscur): “Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente”.
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, Relógio D’Água, 2009

11/10/09

A book a day keeps the doctor away

Disse António Lobo Antunes, em entrevista ao “Diário de Notícias” (14/02/2009), que este livro iria “dar um trabalhão à crítica”. E depois precisou que “queria fazer um romance à maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desse modo”.
Se era esse o objectivo de Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? o escritor falhou o alvo. Embora também possamos tomar as declarações acima por conta de uma boutade. Sem mais. Eu, pelo menos, prefiro entendê-las assim. E guardar apenas a parte do “romance à maneira clássica”: porque esta é a narrativa mais formalmente conservadora das últimas que António Lobo Antunes vem produzindo.
Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? – título que retoma um verso de uma cantiga popular de Natal, conforme crónica publicada na “Visão” de 25/01/2008 –, narra a história de uma família ribatejana em processo de decadência acelerado: a mãe “vai morrer às seis horas”. O pai, viciado no jogo, já faleceu, há uma criada velha, Mercília, misto de Cassandra e Gata Borralheira carcomida pelo reumático e pela vida madrasta, e há os filhos. Beatriz, abandonada pelos homens e amada pelo pai; Rita, levada prematuramente por um cancro; Ana, consumida pelo pó que injecta nas veias; João, que gosta de rapazes e é o preferido da mãe; Francisco, possuído pelo ódio e aguardando a vingança inscrita nos livros das contas; e o bastardo, aquele cujo nome nunca se pronuncia e que não se mostra às visitas.
Cada uma das personagens (incluindo os mortos e os quase mortos...) fala em momentos distintos e sequenciais, cosidos entre si de acordo com a estrutura de uma corrida de touros: “Antes da Corrida”, “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena”, “A Sorte Suprema”, “Depois da Corrida”. Por vezes atropelam-se e o autor atropela-os a todos.
A morte, e o prenúncio de morte, atravessa o romance do princípio ao fim, mas é sobretudo a memória que importa. Uma memória quase sempre terrível que funda a identidade de cada uma das vozes, todas, afinal, apenas uma, unidas pela impossibilidade de regressar à “paz da infância” (se paz houve).
Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? chega, porém, como qualquer texto que se preze de possuir aquele “je ne sais quoi” que o eleva ao literário, em camadas. Podemos lê-lo, por exemplo, como um retrato realista de um Portugal marialva e decadente. Nesse sentido, é bem o espelho de um Ribatejo amoral, prenhe de matriarcas dominadoras, homens ausentes, pobres hereditários e corridas anacrónicas, que se acrescenta à visão do Alentejo ensaiada em O Arquipélago da Insónia. Podemos também, pondo de lado a geografia (quanto mais particular, mais universal...), lê-lo como uma viagem por paisagens interiores, espelho de infâncias de abandono, vidas falhadas e crueldades em cadeia. Finalmente (entendendo-se aqui o advérbio de modo retórico), como um exercício limite onde, apesar da estrutura “clássica”, o autor se exibe, omnipresente, borrando assumidamente a pintura de um romance à superfície polifónico e perspectivista (forma que Durrell levaria ao paroxismo n’ O Quarteto de Alexandria), mas no qual, de facto, se visa mais a “unidade essencial do mundo” do que a sua “pluralidade” (e arrisco que António Lobo Antunes estará mais perto do "uno" do que do "plural").
E é aqui, no território desta terceira possibilidade de leitura, que me parece que o escritor do extraordinário O Meu Nome É Legião mais surge enfraquecido, acontecendo-lhe precisamente aquilo que critica a Nabokov: estamos sempre a vê-lo a ele atrás do livro e não havia necessidade.
António Lobo Antunes, Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? , Dom Quixote, 2009

04/10/09

A book a day keeps the doctor away

O historiador Jorge Martins assinou um estudo recente e exaustivo, em três volumes, sobre a presença judaica no nosso país: Portugal e os Judeus. A obra, reconhecida como o mais importante trabalho da área desde que Mendes dos Remédios publicou, em 1895, Os Judeus em Portugal, foi agora complementada por uma versão breve dirigida ao grande público.
Entre nós, a presença judaica, tida como um lugar-comum, é na verdade pouco estudada. Afirma-se correntemente que um número assinalável de portugueses terá sangue judaico a correr-lhe nas veias, aponta-se a origem judaica de inúmeros apelidos (pondo nisso, talvez, até um certo exagero), conhecem-se influências na culinária (as alheiras, por exemplo, criadas para contornar o consumo proibido da carne de porco), na linguagem, na própria idiossincrasia lusa, mas trabalhos aprofundados são escassos. Breve História dos Judeus em Portugal vem contribuir para colmatar essa falha.
Organizado cronologicamente e recuando até período anterior à fundação do reino, conduz-nos pela Idade Média, pela época dos Descobrimentos, pelo período Liberal, pela I República e pelo Salazarismo, detendo-se em pormenor na sangria cultural e financeira que resultou do estabelecimento da Inquisição, na extraordinária Obra de Resgate encabeçada por Barros Bastos já no século XX (de que a comunidade de Belmonte é exemplo mundialmente único), e na política do Estado Novo no que respeita aos acossados de Hitler. Mas ler esta Breve História… será, sobretudo, compreender como a especificidade da política nacional em relação aos judeus (nomeadamente, o seu baptismo compulsivo em 1497, durante o reinado de D. Manuel I) se repercute até hoje no marranismo que atravessa a sociedade portuguesa, fundamento de uma identidade “não apenas múltipla e miscigenada, mas [também] difusa e sempre dominada por uma angustiante duplicidade (…)”.
Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Nova Vega, 2009

29/09/09

Peço imensa desculpa mas as notícias não são boas nem me parece que venham a melhorar nos próximos tempos

O Serviço Nacional de Saúde português ― apesar de na recente campanha eleitoral Sócrates ter usado de novo e até ao vómito aquela coisa da mortalidade infantil ter decrescido espectacularmente e tal ... ― está entre os piores da Europa: 25.ª posição num universo de 33 países.
Se recordarmos a firme defesa do SNS feita pelo grande líder nas últimas semanas, concluo que a culpa é com certeza dos doentes que em vez de adoecerem assim de qualquer maneira deviam mas é comprar painéis solares, de preferência os da empresa Energie que têm um sistema bestial capaz de funcionar com sol, céu nublado, chuva e à noite.

27/09/09

Indiferente à contabilidade obscura em que todos vencem qualquer coisinha, uma coisa é certa: acabou-se o reinado absolutista das margaridas moreiras!

Vou ali beber um copo. Porque digam o que disserem, respira-se melhor. Palavra de democrata.

A book a day keeps the doctor away

Apesar do que se diz ― a escrita ser a mais solitária das artes e tal (e é bem capaz de ser verdade…) ― produções literárias a várias mãos não são uma raridade. E nem precisamos de recuar ao Livro primordial (a Bíblia, naturalmente) para o comprovar. Um dos textos mais famosos da literatura portuguesa não tinha um autor mas três. Falamos de Novas Cartas Portuguesas, que, publicado com grande escândalo em 1972, trazia assinatura de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. A primeira, aliás, reincidiria várias vezes nas parcerias.
Quem ama, odeia pertence a essa categoria da escrita colectiva. No caso, também criativa. No sentido nobre do termo.
Os seus autores, o casal formado pelos argentinos Silvina Ocampo (1903-1993) e Adolfo Bioy Casares (1914-1999), ensaiam um texto de estrutura policial, paredes-meias com o fantástico, um género que Bioy Casares levaria mais tarde à perfeição com A Invenção de Morel, muito antes de alguém poder falar de realidade virtual ou de Second Life. E se os capítulos de Quem ama, odeia não trazem autoria, nem por isso é difícil ao leitor imaginar o que se devem ter divertido Silvia e Adolfo, cada um passando ao outro a continuação do mistério.
Um médico homeopata, Humberto Huberman, parte de férias para o mar. O hotel onde se aloja, propriedade de familiares afastados, situa-se em paisagem bizarra, sempre sujeito a temíveis tempestades de areia (que obrigam a janelas blindadas), rodeado de bosques labirínticos e de um sapal povoado de caranguejos. Nele terá lugar a morte de um dos hóspedes, envenenado por uma dose mortal de estricnina.
As férias literárias imaginadas pelo erudito Huberman (que levava na bagagem Satiricon, de Caio Petrónio, tendo prevista a sua adaptação) transformam-se, assim, ironicamente, numa caça ao assassino do Bosque del Mar.
Claro que o que conta aqui não é, em primeiro lugar, o deslinde do crime. Quem ama, odeia é, sobretudo, uma piscadela de olho literária, um divertissement cheio de malícia, um exercício de escrita exemplar. Pisamos terreno lúdico. Como é fácil de perceber, logo no final do primeiro capítulo, face às perguntas a roçar o sarcástico de Huberman: “Quando renunciaremos ao romance policial, ao romance fantástico e a todo esse fecundo, diversificado e ambicioso campo da literatura que se alimenta de irrealidades? Quando encaminharemos os nossos passos para a picaresca saudável e para o ameno quadro de costumes? O cheiro a maresia já começava a penetrar pela janela. Fechei-a. Adormeci.”. É todo um programa.
O mesmo “programa” que conduziria Jorge Luis Borges, amigo do casal, por aqueles caminhos que infinitamente se bifurcam.
A vertigem que assola o leitor de Quem ama, odeia perante as várias hipóteses que vão sendo criadas para solucionar o crime é semelhante aquela que se apodera de nós quando entramos pelos universos borgeanos adentro, reproduções ad infinitum de si próprios. Aqui, contudo, há uma solução última. Algo pueril, talvez, mesmo se marcando de morte a inocência. Ou, quem sabe, seria precisamente isso o pretendido. Porque quem ama, odeia. Esse é ponto de partida e de chegada.
Não se espere, porém, apesar do título, uma novela romântica. O amor está lá, com os seus equívocos, mas o que sobressai é o distanciamento dos autores que o contam. Cristalinos, modernos e divertidos: “Quanto a mim, redigi as páginas que acabais de ler, porque algumas amigas da minha mãe – as únicas amigas que tenho – quiseram que a minha actuação na pesquisa ficasse documentada”.
E depois viveram felizes para sempre. O casal protagonista do livro, à imgem de Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares.

25/09/09

E que nem a propósito da ordem de Amado para que se trocasse a honra por um prato de lentilhas, acaba de sair a Breve História dos Judeus em Portugal

... lembrando-nos que se o governo, hoje, cedeu à queima dos livros, Salazar, ontem, havia cedido à queima de homens.
"(...) os cônsules de carreira não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério aos estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos apátridas, aos portadores de passaportes Nansen e aos Russos; (...) àqueles que apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de onde provêm; aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm."
Circular 14, de 11/11/1939 in Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Vega, 2009

Na imagem, refugiados judeus partindo de Lisboa para os EUA

23/09/09

"Aqueles que queimam livros, acabam mais cedo ou mais tarde por queimar homens" e só por isto este governo devia ir para o olho da rua

"O animal defende a queima de livros", terá dito Carrilho para Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros e diplomata atento aos pormenores, como aquele de conseguir distinguir o centro de detenções de Guantánamo da base militar de Guantánamo.
"De acordo, de acordo. Mas só os escritos por judeus...", terá respondido o rigorista cofiando a barba. "Além disso, andamos a ver se o Egipto nos dá uma mãozinha para entrarmos no Conselho de Segurança... Imagine o prestígio que isso traria a Portugal!"
E foi quando Carrilho suspirou, lembrou-se do Heine e teve saudades da filosofia moral de Kant.

Outra sugestão: também nos podíamos suicidar todos dia 27 e deixá-los sozinhos a espiarem-se à vontade




'Cause suicide is painless
it brings on many changes
and I can take or leave it if I please.
...and you can do the same thing if you please.

20/09/09

As minhas alfaces aparecem no google earth: será que é um assunto de estado que interesse a joão marcelino ou ao josé manuel fernandes?

A gente lê esta notícia, esta, esta e esta, mais esta, esta e esta, ou mesmo esta, ou até esta, que já não é notícia mas é muito boa, etc. e etc., e fica é com uma enorme vontade de recolher as alfaces abusivamente espiadas.
Pela parte que me toca as minhas já estão a salvo: comi-as em salada temperada com queijo, azeitonas, azeite gourmet e vinagre balsâmico, tudo do pingo doce.

19/09/09

Opereta lusa: mas se um país foi destruído porque uns tipos inventaram que nele se escondiam armas de destruição maciça porque não umas escutazinhas?

A política tornou-se num nojo. Talvez sempre tenha sido. Mesmo antes de Maquiavel. Eu porém fui formada num tempo em que a política trazia consequências. Perdoem-me o desabafo, mas é que venho de uma família que passou pelo Hospital de Caxias e pelo Forte de Peniche.
Longe de mim apologizar os good old times. Verdade, verdadinha é que só quando as coisas apertam é que dá para perceber a qualidade dos bichos.
Vem isto a propósito do número das escutas à Presidência. Um plot de quinta categoria cujo timing noticioso não podia ser mais óbvio.
Até ao dia das eleições não se prevêem melhoras no argumento. Será o vale tudo. Mas o que devia sublinhar-se é que, apesar da luta ser de morte, todos irão sobreviver após 27 de Setembro. Com mais tacho ou menos tacho. Com mais jobs ou menos jobs. Ao menos, no tempo em que a política trazia consequências, o risco sempre era sério. E a sério.
Nos dias que correm apoia-se a destruição de um país porque uns tipos inventaram que nele se escondiam armas de destruição maciça e ainda se é reeleito. Presidente da Comunidade Europeia, que não fazem a coisa por menos. Com os votos do PSD somados aos do PS.
Ora vão todos bardamerda e enfiem as vossas escutas num sítio que eu cá sei! E excuse my french.

18/09/09

Farta de gente feia, chata e rançosa, via, via


Via, via, vieni via di qui,
niente più ti lega a questi luoghi,
neanche questi fiori azzurri…
via, via, neache questo tempo grigio
pieno di musiche e di uomini che ti son piaciuti,
It’s wonderfoul, it’s wonderfoul, it’s wonderfoul
good luck my babe, it’s wonderfoul,
it’s wonderfoul, it’s wonderfoul, I dream of you…
chips, chips, du-du-du-du-du
Via, via, vieni via con me
entra in questo anore buio, non perderti per niente al mondo…
via, via, non perderti per niente al mondo
Lo spettacolo d’ arte varia di uno innamorato di te,
it’s wonderfoul, it’s wonderfoul…
Via, via, vieni via con me,
entra in questo amore buio pieno di uomini
via, via, entra e fatti un bagno caldo
c’è un accappatoio azzurro, fuori piove un mondo freddo,
it’s wonderfoul, it’s wonderfoul...
...

17/09/09

Acho que terá passado despercebido aos admiradores do grande líder socialista que o mesmo muito admira Sarkozy

Reafirmo que não vejo televisão. Assim sendo, perdi todos os debates partidários que, dizem-me, foram bastante esclarecedores. Também venho perdendo, pela mesma razão, as entrevistas do Gato Fedorento às nossas cabeças pensantes.
Online, vi alguns minutos da conversa entre Ricardo Araújo Pereira e José Sócrates. Apenas alguns minutos porque, e permitam-me que me cite, Sócrates aborrece-me. Tudo nele me aborrece.
Aborrecida, pois, gramei com as primeiras respostas pomposas do candidato bonzinho e depois ouvi-o chamar iconoclasta a Sarkozy.
Para dizer a verdade, não fiquei surpreendida.
Nos dias que correm, ao estilo trauliteiro do presidente francês não faltam adeptos: o género queres porrada? queres porrada? tomado por coragem, a inconveniência tomada por irreverência.
Mas perante a classificação de «iconoclasta» atribuída a Sarkozy pergunto-me se não haverá aqui matéria para desconfiarmos que Sócrates, embora não o confesse, também venera o Alberto da Madeira, deficit democrático aparte.
É que não vejo grandes diferenças. A maior seria a Bruni. Também conta?

16/09/09

Eis um problema verdadeiramente do caraças, seja lá quem for o próximo ministro (a) da educação

Escreveu o Alexandre Dumas: «Les enfants studieux ne manquent pas d’être des jeunes gens stupides et d’imbéciles grandes personnes».
O escritor António Lobo Antunes adaptou a frase e interroga-se com pertinência: «Porque é que há tantas crianças inteligentes que depois dão adultos estúpidos?»
Também é bem visto.

14/09/09

A book a day keeps the doctor away

Logo a abrir o protagonista/narrador informa os seus leitores: “Sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne”. Publicado originalmente em 1948 (e já antes traduzido em Portugal), O Túnel foi a primeira incursão de Ernesto Sabato na ficção. No conjunto, apenas três obras: a que agora se reedita, o magistral Heróis e Túmulos, 1961 (com edição na Europa-América em 1973), e Abaddón el Exterminador, 1974, que eu saiba nunca passado para português.
Ex-homem de ciência que um dia abandonou a física nuclear para se dedicar aos livros (além da triologia romanesca, tem obra ensaística de peso), cidadão comprometido com o seu tempo (foi comunista e admirado pelos existencialistas, nomeadamente por Camus que não pouparia elogios a O Túnel), diria o escritor argentino da relação entre ideias e literatura: “Um crítico alemão perguntou-me porque é que nós, latinos-americanos, temos grandes romancistas mas não grandes filósofos. Porque somos bárbaros, respondi-lhe, porque por acaso nos salvámos da grande cisão racionalista”. E é precisamente disso que não se salva Pablo Castel, o assassino de María Iribarne.
Escrito na primeira pessoa, é o próprio Pablo quem nos vai narrando a sua obsessão: como conhece María, como se torna seu amante, como o amor entre eles vai crescendo, como o mesmo se vê pouco a pouco corroído pelos ciúmes... até ao desenlace fatal. Amor e loucura vão aqui de mãos dadas e, chegados ao fim, como a Capitu de Machado, nada podemos garantir sobre María Iribarne, aquela que, segundo o seu próprio carrasco, fora a única a compreender-lhe a pintura. Escrito com a precisão de um relojoeiro louco, O Túnel conduz-nos pelos trilhos e abismos de uma cabeça exacta, lógica, capaz de criar o seu próprio inferno (ajudado apenas por uma imaginação delirante?). Metáfora da criação artística? Do estado do mundo? Seja o que for, uma obra-prima.
O Túnel, Ernesto Sabato, 2009, tradução de Francisco Vale, Relógio D'Água

11/09/09

José Sócrates como nunca o viu: isto não é normal e nem os poetas lhe escapam

José Sócrates entrevistado por uma senhora chamada Raquel Alexandra.
Depois de umas generalidades sobre o Ricardo Reis que metiam trevos (???), um momento orgulhosamente só em que se garante que «aqueles que esperam uma ajuda externa, confessam a sua fraqueza» seguido da lancinante pergunta «José Sócrates chora?».
Ficamos a saber que depois dos 40 anos começou a «chorar no cinema com filmes enternecedores» (o que quer dizer que ou nunca viu o Bambi ou tem um problema com o canal lacrimal....) e ainda tempo para «fundamentalmente!» (e aqui note-se o suspiro à Herman José...) ir de Falcon «inaugurar uma das obras mais relevantes... que tem a ver com um lar de idosos...».
Foda-se e pardon my french, como diria o João.
Num momento em que a política lá fora se limita, mais coisa menos coisa, ao a minha é maior do que a tua (vide Sarkozy) nós preferimos meninos com lágrimas (retidas) ao canto do olho.
Lembramo-nos das casinhas e bate tudo certo. Mesmo com cheques-prenda na Fashion Clinic .

10/09/09

Dos modismos contemporâneos já detectados por Sabato em 1948 [ou de como os medíocres nunca dizem nada de novo]

«Foi quando já estávamos à mesa que a magra me perguntou que pintores preferia. Citei ignobilmente alguns nomes: Van Gogh, El Greco. Olhou-me com ironia e disse como se falasse para si:
Tiens.
Depois acrescentou:
― Aborrecem-me as pessoas grandiosas. Sempre te digo ― prosseguiu, dirigindo-se a Hunter ― que me incomodam esses tipos como Miguel Ângelo e El Greco! A grandeza e o dramatismo são tão agressivos! Não achas que é quase má-educação? Creio que o artista se devia impor o dever de nunca atrair as atenções. Indignam-me os excessos de dramatismo e de originalidade. Repara que ser original é de certo modo evidenciar a mediocridade dos outros, o que me parece de gosto duvidoso. Creio que, se pintasse ou escrevesse, faria coisas que nunca chamassem a atenção.
― Não duvido ― comentou maldosamente Hunter.
Depois acrescentou.
― Tenho a certeza de que não gostarias de escrever, por exemplo, Os Irmãos Karamazov.
Quelle horreur! ― exclamou Mimí, revirando os olhitos. Depois completou o pensamento ―: Parecem todos nouveaux-riches da consciência, incluindo esse moine, como se chama ele?... Zozime.»

O Túnel, Ernesto Sabato, página 91, Relógio D'Água, tradução de Francisco Vale, 2009 (reedição)