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28/10/08

José Cardoso Pires (2-10-1925/26-10-1998)

«(...) O largo. (Aqui me apareceu pela primeira vez o Engenheiro, anunciado por dois cães.) O largo:
Visto da janela onde me encontro, é um terreiro nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia – é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. À tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam. (...)»
José Cardoso Pires, O Delfim, 1968

23/06/08

Leituras em Html pedidas de empréstimo: ainda a Europa

Sobre a proposta das 60 (65 horas) de trabalho semanais
Quando li que os Ministros europeus chegaram a acordo para prolongar a semana de trabalho até às 65 horas, fiquei em estado de choque ideológico. O facto de eu não gostar de trabalhar não vem ao caso. Até porque, mesmo assim, trabalho como um afro-americano ou um afro-lusitano. O intrigante desta medida é que entra em contradição com tudo o que nos contaram sobre o mercado do trabalho nas últimas décadas.
O resto AQUI.
Sobre a directiva do retorno dos emigrantes
um dia em que a sensatez de múltiplas nações faça regressar a casa os cinco milhões de saloios que temos espalhados pelo mundo poderemos sempre alojá-los nas casas de Carlos Coelho, Assunção Esteves, Duarte Freitas, Vasco Graça Moura, Sérgio Marques, João de Deus Pinheiro, Luís Queiró, José Ribeiro e Castro, José Silva Peneda e Sérgio Sousa Pinto [esse mesmo, ex-futuro jovem progressista das causas fracturantes], eurodeputados portugueses que deram o seu contributo para a aprovação da vergonhosa directiva de retorno.
Lido AQUI.